ANDR LUIZ RUIZ




Capa:
"O Amor Jamais Te Esquece" Rembrandt. Pintura medinica realizada na Sociedade Beneficente Bezerra de Menezes, Campinas, em abril/2003



>2003, Instituto de Difuso Esprita



12a edio-julho/2007 3.000 exemplares (55.001 ao 58.000)




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Ficha Catalogrfica

(Preparada na Editora)

Ruiz, Andr Luiz de Andrade, 1962-
R884a
0 Amor Jamais Te Esquece 1 Andr Luiz de Andrade Ruiz / Lucius (Esprito). Araras, SP, 12 edio, IDE, 2007.

416 p.
ISBN 85-7341-304-2
1. Romance 2. Cristianismo 3. Palestina/Histria 4. Espiritismo 5. Psicografia I. Ttulo.
CDD-869.935 -202 -933 -133.9 -133.91
ndices para catlogo sistemtico:
1.        Romances: Sculo 21: Literatura brasileira 869.935
2.        Cristianismo do sculo I 202
3.        Palestina: Histria antiga 933
4.        Espiritismo 133.9
5.        Psicografia: Espiritismo 133.91

1- Voltando a Roma         11
2- O Imperador Tibrio         15
3- O Pedido de Flamnio         22
4 -        A misso secreta de Pblio         29
5 -        Zacarias e Jesus         38
6 -        Josu e Zacarias         45
7 -        A personalidade de Pilatos         55
8-        O passado voltando ao Presente         61
9 -        O assdio de Pilatos        l 70
10- Os Cmplices         79
11- Jesus e os setenta         85
12 -        Comea a jornada apostlica         93
13- Em Nazar        :         102
14- A resposta  Orao        112
15- A Primeira Pregao        122
16- Jesus e Pblio        133
17- A Segunda Pregao        141
18- Multiplicam-se as bnos         151
19- O Amor despertando o Amor         162
20 -        Sementes do Amor que se espalham                175
21 -        Proteo antes da Perseguio         186
22-        Reparao e Testemunho         198
23 -        Apresentando Jesus a Pilatos        212
24 -        Jesus e Lvia        224
25 -        Jesus ouvindo e falando aos setenta        234
26 -        O Pedido de Jesus        243
27 -        A Pscoa e a priso        254
28 -        O Julgamento e a Apario        268
29 -        Tragdias que se ampliam                 283
23 
30 - Tibrio contra Pilatos        292
31 - Pilatos e Zacarias        301
32 - Pedro e Zacarias        313
33 - Cumprindo o Prometido        323
34 - Zacarias se desdobra        337
35 - A Vergonha de Pilatos        349
36 - Quem com ferro fere        361
37 - Perseguio que se estende        377
38 - Os Planos de Flvia        386
39-O fim de Zacarias        397
40 - O Amor Jamais Te Esquece        410

"CARTA DE PBLIO LENTULUS AO IMPERADOR TIBRIO CSAR.
      
      Eis aqui, enfim, a resposta que com tanta ansiedade esperveis. Ultimamente apareceu na Judia um homem de estranho poder, cujo verdadeiro nome  Jesus Cristo, 
mas a quem o povo chama "O Grande Profeta" e seus discpulos, "O Filho de Deus". Diariamente contam-se dele grandes prodgios: ressuscita mortos, cura todas as enfermidades 
e traz assombrada toda Jerusalm com a sua extraordinria doutrina.
       um homem alto e de majestosa aparncia; sua face, mi mesmo tempo severa e doce, inspira respeito e amor a quem a v. Seu cabelo  da cor do vinho e desce 
ondulado sobre os ombros;  dividido ao meio, ao estilo nazareno; sua fronte, pura e altiva, sua ctis plida e lmpida; a boca e o nariz so perfeitos; a barba 
 abundante e da mesma cor dos cabelos; as mos, finas e compridas; os braos, de uma graa encantadora; os olhos azuis, plcidos e brilhantes.
       grave, comedido e sbrio em seus discursos. Repreendendo e condenando,  terrvel; instruindo e exortando, sua palavra  doce e acariciadora. Ningum o viu 
rir, mas muitos o tm visto chorar. Caminha com os ps descalos e a cabea descoberta. Vendo-o  distncia, h quem o despreze, mas em sua presena no h quem 
no estremea com profundo respeito.
      Quantos se acercam dele, dizem haver recebido enormes benefcios, mas h quem o acuse de ser um perigo para Vossa Majestade, porque afirma publicamente que 
os reis e os escravos so todos iguais perante Deus."
Fonte: Manuscrito arquivado na Biblioteca da Ordem dos Lazaristas em Roma.



           os rudos das tbuas que reclamavam da longa viagem gradualmente iam diminuindo  medida que a grande embarcao chegava ao porto de stia, na costa italiana, 
grande porta de entrada em direo  Roma Imperial.
      A nau que chegava, levada at o destino final pelos remadores robustos e escravizados, era o smbolo da prpria Roma, altiva, grande, imponente e dominadora 
dos povos que conquistava graas  capacidade de organizao de seus exrcitos regulares e seus meios de comunicao muito desenvolvidos para a poca.
      O vasto tecido que era usado como velame para colher os ventos favorveis e que trazia a marca da guia imperial j havia sido enrolado para se evitarem surpresas 
durante a atracao da embarcao, cheia de bens e valores importantes para os romanos da capital, sempre vida por novidades e prazeres.
      O seu contedo precioso era composto de nforas do mais capitoso vinho das provncias romanas do oriente, tecidos finos, cereais exticos, frutas secas, utenslios 
e jias, bem como dinheiro recolhido dos povos tributrios que, sob o domnio imperial, tinham o dever desagradvel de entregar parte de seus parcos recursos para 
a manuteno dos privilgios da metrpole.
      Alm disso, um contingente de homens, mulheres, prisioneiros e viajantes se amontoava nos espaos disponveis da embarcao vasta, todos ansiosos pelo momento 
de recolocarem os ps na terra firme, nica ocasio em que se poderiam sentir em segurana novamente.
      Lentamente, levada pela fora do brao escravo que se desgastava nos remos pesados sob o argumento convincente do chicote, a pesada embarcao se ia aproximando 
do local onde tambm descansaria da incerta e perigosa travessia do Mediterrneo.
      O comandante ordenava, aos gritos, as manobras necessrias para a perfeita chegada, evitando-se assim os riscos de danos ao
      
patrimnio do Imprio sob a sua guarda e responsabilidade, tanto quanto para demonstrar a sua percia na conduo da nau imponente.
      Os homens sob seu comando se esforavam para conduzir serenamente o grande corpo de madeira at o ponto de atracao, onde era esperada por uma outra multido 
de ajudantes, negociantes, soldados e curiosos, sempre em busca de riquezas e oportunidades para conquistarem as migalhas do grande banquete representado pelos bens 
que ali se encastelavam.
      Eram pessoas que se ofereciam para descarregar a mercadoria como forma de ganharem alguma coisa pelo esforo empregado, eram outras espreitando algum carregamento 
esquecido no solo por algum vigilante distrado e do qual subtrairiam alguma coisa para, depois, venderem e embolsarem o dinheiro, nos golpes com que o homem, desde 
longa data, imagina que estar melhorando seu destino.
      Por isso tudo, a chegada de tal embarcao representava esperana para quem voltava  terra firme, tanto quanto significava expectativa para os que, no solo, 
se apinhavam  sua volta para conseguirem algo para si mesmos.
Ao longe, Roma esperava.
      Um magote de soldados subiu a bordo to logo a embarcao finalmente entregou-se s amarras e apresentou-se ao comandante para que este conhecesse a escolta 
que haveria de levar ao tesouro imperial os bens oriundos da coleta junto aos povos do oriente, dirigido por Lucilio Barbatus.
      No gesto caracterstico dos militares que se saudavam em nome do imperador, dirigiu-se ele ao capito da embarcao:
      - Ave Csar. Em nome de Tibrio e da nossa deusa Fortuna te sado o regresso, nobre Cludio, e aqui me apresento como o representante da comitiva militar com 
o dever de escoltar at a capital o representante do imperador no recolhimento do tributo das provncias orientais, a fim de que os bens que pertencem a Roma no 
se percam pelo caminho nas mos dos salteadores, sempre prontos a algum golpe contra o patrimnio alheio.
      Observando a expresso formal do soldado, j seu conhecido de algum tempo, Cludio sorriu e disse:
      - Vida longa a Csar e a voc, Lucilio, pois que  um grande prazer escutar vozes diferentes dos gritos destes escravos, do barulho do chicote, do tambor, 
das amarras, do vento, durante todos estes meses. O rudo do porto  como msica para mim, agradvel e cheia de cnticos de alegria. E a sua presena, assim, sempre 
dura e formal, logo ir converter-se em um sorriso de satisfao quando puder comparar o tamanho de nosso carregamento com o de outras embarcaes que aqui aportam 
orgulhosas de trazerem algumas coisinhas da redondeza.
      Venha comigo e voc mesmo ver como vai perder a pose de importante para dar lugar ao gesto de admirao e espanto.
      E dizendo isso, Cludio tomou o brao de Lucilio, que se deixou conduzir serenamente para o interior da embarcao, no rumo de seus pomos malcheirosos, mas 
abarrotados de mercadorias, enquanto avansava pelos corredores internos onde se colocavam os assentos dos remadores e as correntes que os prendiam.
      O alvoroo da chegada transferia-se tambm para aquela regio do navio, j que os subalternos do comandante tomavam as providncias para o desembarque das 
pessoas, comeando pelas mais importantes, ao mesmo tempo em que necessitavam administrar a subida e descida de carregadores das mercadorias.
      Todavia, acostumados a tais operaes, Cludio no se preocupara com o seu desenrolar e, levando Lucilio at o poro principal, carregando uma tocha acesa, 
deslumbrou o soldado com a quantidade de gneros de todos os tipos, cujos odores se misturavam naquela atmosfera, impregnando o ar com tentadoras lembranas de terras 
distantes.
      - Pelos deuses, Cludio, nunca vi uma coisa dessas na minha vida de soldado neste porto! - exclamou admirado Lucilio.
      - Eu sabia disso, soldado, tanto que j o advertira antes. Se a competncia do capito for medida por peso de carga transportada, posso pleitear o posto de 
almirante do imperador, no acha?
      - E eu servirei de testemunho vivo, para embasar o seu pedido -respondeu Lucilio, sorrindo francamente.
      Voltaram para a superfcie da embarcao, onde a mistura de passageiros, cargas, trabalhadores, oficiais nuticos, curiosos, tornava quase divertida a operao 
bem vigiada por soldados e donos de mercadorias que aguardavam a sua encomenda.
      Todavia, buscando afastar-se do bulcio em que se transformara aquele lugar, Lucilio trouxe Cludio para um desvo mais afastado do tombadilho do navio para 
perguntar-lhe sobre um assunto de Estado muito importante:
      - E o homem, tambm veio com voc? Estou sabendo que, por ordens do Imperador, um muito importante personagem do governo das provncias caiu em desgraa e 
teve seu nome includo entre aqueles que deveriam comparecer pessoalmente diante de Csar para prestar-lhe contas antes de ser punido. Foi voc o responsvel por 
sua conduo?
      Observando a curiosidade de Lucilio e o conhecimento parcial dos fatos, Cludio sorriu de maneira misteriosa e respondeu:
      - Bem, Lucilio, trata-se de um assunto muito delicado. As coisas para o lado do oriente esto em polvorosa e me parece que no  correto julgarmos nossos patrcios. 
Todavia, cumprindo ordens que lhe foram entregues pessoalmente pelo responsvel pela guarnio em Jerusalm, em Jope pude receber a bordo o nobre governador que, 
obediente, se deixou conduzir at aqui por esta embarcao oficial, apesar da precariedade de suas instalaes. Sim, o governador  passageiro nesta nau. No entanto, 
estou esperando a chegada da comitiva oficial que ser enviada de Roma para lev-lo at seu destino, que desconheo. Por isso, pretendo deixar que todo o tumulto 
deste momento ceda lugar  tranqilidade para que me dirija at seus aposentos internos e solicite a sua sada, poupando-o da curiosidade popular.
- Sim,  melhor dessa maneira - respondeu Lucilio concordando.
Era o ano 35 da era crist.
      E se o mesmo barco da guia romana trazia aninhado um de seus mais importantes servidores, homem de Estado, ex-governante de uma provncia distante, trazia 
no seu bojo tambm criaturas que se apresentavam como servidoras de um Deus generoso e justo, capaz de amar a todos e por todos ser amado sem medo ou condio.
      Descendo no meio da confuso, um modesto viajante, oriundo do oriente, chegava s portas da grande cidade imperial, trazendo em seu corao o desejo de dar 
testemunho da verdade e de sua f naquele doce rabi da Galilia, cuja pregao ele mesmo houvera presenciado e que lhe mudara a vida para sempre.
      Conquanto vitalizado pelo trabalho no bem, encontrava-se no inverno fsico, mas, apesar disso, era uma criana na alma, aquela criana na qual os homens deveriam 
tornar-se para que pudessem entrar no reino dos cus, conforme Jesus ensinava.
      Com esse passo, iniciava a concretizao daquele que seria o ltimo sonho de sua vida, e o mais rduo e desafiador feito de seu esprito.
      Cumprir seu compromisso com Jesus e, se possvel, inaugurar na cidade imperial, na cidade do materialismo pago, no ncleo mais dourado do poder mundano o 
primeiro culto cristo.
      Ali chegava tambm, naquele mesmo dia, entre ansioso e confiante, o velhinho amorvel que descortinaria, no anonimato e no sacrifcio de si mesmo, os primeiros 
raios da alvorada do Amor no corao endurecido da civilizao arrogante, pronta a engolir os que se colocassem em seu caminho, pronta a fazer escravos, a invadir 
terras alheias, a roubar-lhes os bens e os filhos para a guerra.
       sua espera estava Roma, altiva e prepotente, comeando a ser conquistada por um singelo sapateiro a servio do bem.
      Naquele mesmo dia estavam juntos, na mesma embarcao, chegando a stia, o governador Pncio Pilatos, que seria encaminhado ao julgamento de seus atos, ao 
mesmo tempo em que pisava o solo da Itlia, o humilde Zacarias.
      
           imperador Tibrio fora conduzido ao trono de Roma no ano 14 da era Crist, tendo governado, nos primeiros 10 anos com razovel tirocnio, envolvido pelas 
questes de um Estado cada vez mais amplo e complexo.
      Por esse motivo, ocupar o trono de Rmulo e Remo era carregar um peso descomunal sobre os ombros humanos, notadamente na poca em que os costumes estavam to 
pouco modificados pela compreenso das leis morais que dirigem os homens para a elevao de seus espritos.
      Acostumados a pensar apenas em si prprios e nas vantagens do poder e do mando, as sedues que eram criadas no imaginrio das criaturas acerca dos privilgios 
de que desfrutavam os imperadores faziam com que estes fossem pessoas invejadas, cortejadas pelalisonja mentirosa, aduladas por falsos amigos, cercados pelos que, 
ao mesmo tempo em que faziam reverncia com o corpo, carregavam o punhal oculto na manga de suas tnicas vistosas, prontos para dar o golpe traidor to logo surgisse 
a oportunidade favorvel.
      A indstria do assassinato por interesse ou convenincia era quase que uma instituio governamental, ainda que contra ela todas as autoridades, tanto do governo 
imperial quanto do Senado romano, se levantassem em combate.
      Isso, no entanto, no impedia que os prprios governantes, em qualquer nvel de importncia, tivessem no copo de veneno ou na emboscada covarde, importantes 
aliados na soluo de conflitos de interesses.
      No nos esqueamos'de que ainda no fazia um sculo que o prprio imperador Jlio Csar houvera sido friamente assassinado em pleno prdio do Senado Romano 
pelos integrantes dessa instituio poltica com um sem nmero de punhaladas, na presena de quase
      
todos os senadores, que assistiram impvidos e omissos,  execuo do grande condutor das reformas na Roma que nascia, vigorosa.
      Por esse motivo, a conduo dos negcios de Estado, j naquela poca, significava ter que dirigir um navio imenso e pesado por um oceano de incertezas e maldades, 
cheio de aliados de ocasio e traidores, escasso de amigos verdadeiros e confiveis, o que obrigava o administrador mais cuidadoso a temer pela prpria vida nas 
coisas mais simples que o rodeavam.
      Estar na condio de Imperador Romano representava, portanto, um desafio, no s  capacidade do homem intelectual, mas sobretudo  sua astcia, ao seu cabedal 
de coragem e ao seu poder de sobreviver um dia depois do outro.
      E com Tibrio, tal situao se foi agravando, levando sua personalidade delicada  condio neurotizante de estar vigiando a tudo e a todos para que se defendesse 
de qualquer ato de traio.
      Tanto que no perodo em que sua idade j cobrava o preo pelo desgaste da administrao de to vasto territrio, notadamente depois do ano 31 d.C, foi ele 
envolvido pelo crescente temor da infidelidade, o que levava o Senado a usar, como recurso de defesa, um instrumento legal existente na estrutura legislativa de 
Roma e que consistia em permitir-se a qualquer pessoa acusar algum de conspirador e lev-lo a julgamento perante o prprio Senado imperial que, com poderes especficos 
de tribunal, tinha poder absoluto sobre a vida do acusado e, como forma de recompensar o acusador de to importante denncia, entregava-lhe parte do patrimnio do 
denunciado como prmio pelos servios prestados.
      Era o princpio contido na conhecida "Lex Maiestatis" que fora criada no perodo da Roma Republicana e que tinha por contedo combater "tudo o que pudesse 
diminuir a majestade do povo romano".
      Todavia, com o suceder dos anos, tal sentido poltico de defesa da majestade do povo romano migrou para a pessoa do seu governante e, na fase do Imprio, passou 
a ser aplicada no s  rebelio ou conspirao, mas a tudo o que pudesse ser considerado desrespeito ao imperador, ainda que, em muitos casos, fossem apenas comentrios 
difamatrios dirigidos contra os senadores, que eram tidos como outra extenso do povo romano e, por isso, aptos a se considerarem protegidos pela "Lex Maiestatis".
      Tanto o Imperador como o mais singelo cidado romano poderia levar  corte senatorial a acusao contra algum outro que, por palavras, gestos, intenes, tivesse 
ferido a honra ou se manifestado contra as idias do soberano ou do Senado e ser acusado de conspirao.

      Com isso, pretendia-se desestimular os movimentos de traio, to comuns nos perodos antigos quanto nos dias atuais, ainda que, agora, nos grupos nacionais 
mais civilizados, j no seja to comum o recurso do assassinato direto comoelemento de transformao poltica, apesar de sabermos que, aqui ou ali, ocasionalmente, 
morrem um ou outro governante de um tipo de morte que se poderia chamar de "no natural".
      Tal recurso, no entanto, produziu um efeito contrrio, ao longo dos anos sucessivos, propiciando um aumento considervel de denncias infundadas, baseadas 
apenas no interesse monetrio do acusador que pretendia herdar parte dos bens do denunciado, ou mesmo no seu desejo de vingar-se do acusado por ser-lhe adversrio 
poltico ou competidor em interesses negociais.
      Passou a ser uma arma de ataque solerte e vil, muitas vezes usada por pessoas perigosas porque poderosas e influentes, contra os seus adversrios, em geral 
indefesos e incapazes de exercer qualquer tipo de reao eficaz diante de um Senado conduzido, nos bastidores, pela influncia do prprio acusador.
      Se no perodo inicial de sua administrao Tibrio buscou coibir o uso generalizado de tal invocativo legal, com o passar dos anos, como j se disse, principalmente 
quando seu prprio colaborador mais prximo, o ministro Sejano fora acusado e, ao final, terminara estrangulado como traidor, o prprio imperador se viu assombrado 
pelos efeitos da onda sucessiva de denncias, surgindo conspiradores e traidores por todos os lados, numa avalanche de acusaes torpes e desumanas.
      Tal situao produzira no governante maior uma alterao significativa de seu comportamento, j por si mesmo mais retrado, levando-o a um estado de afastamento 
e isolamento tanto psquico quanto fsico, nica forma que encontrou para livrar-se do covil no qual Roma havia se transformado.
      Assim, no perodo final de seu imprio, Tibrio, abatido, amedrontado e doente, fragilidades que o empurraram para um comportamento marcado pelo medo e pela 
superstio, retirou-se de Roma para uma ilha no MarTirreno na qual edificou um majestoso palcio e de onde governou at a sua morte.
      Na ilha de Capri, local sede dos ltimos dez anos de seu governo, o imperador se fez cercar de amigos ntimos, homens de letras e astrlogos e o isolamento 
a que se fizera votado permitiu a construo de inmeras lendas sobre licenciosidades e orgias, fruto do imaginrio de pessoas inescrupulosas que, no podendo l 
se encontrar junto do Imperador, mais no fizeram do que levantar, contra ele e os seus favorecidos, acusaes e leviandades prprias dos sentimentos e tendncias 
que tais acusadores carregavam no ntimo de suas almas.
       Mais uma vez, entendemos Jesus quando adverte que a boca fala daquilo que est cheio o corao, que a rvore boa no d mau fruto e que a rvore m no produz 
fruto bom.
      Nesse cenrio, a administrao de Tibrio no poderia terminar sob a aclamao popular, de tal sorte que, nos anos finais de seu governo, no possua popularidade 
junto s massas, ao mesmo tempo em que recebia no velada hostilidade por parte do Senado radicado em Roma, que via no imperador um homem fragilizado para o exerccio 
da direo dos negcios do Estado e para a satisfao dos interesses de poder dos prprios senadores.
      Todavia, encastelado em Capri e cercado de pessoas de sua mais absoluta confiana, no tinham os senadores ou outros interessados como exercer a influncia 
direta nem conseguir com facilidade exterminar-lhe a vida atravs de algum golpe oculto e dissimulado.
      Em face de tais circunstncias, as relaes do imperador com o resto do mundo romano ocorriam no isolamento da referida ilha, para onde se haviam dirigido 
todos os elementos de informao e de administrao da organizao governamental. Dali o maior mandatrio romano administrava os interesses do Estado, cada vez mais 
ampliado pelas conquistas e incorporaes de outras naes como outros Estados fiis e pagadores de tributos.
      Eventualmente, em raras ocasies, Tibrio deixava a sua proteo na ilha de Capri e comparecia a Roma para o exerccio de algumas funes para as quais era 
indispensvel a sua presena.
      Nessas ocasies se fazia acompanhar de todo o squito que o envolvia, evitando contato mais direto e imediato com outros personagens da administrao que pudessem 
pr em risco sua integridade fsica, sempre vidos por conseguirem colocar as mos no trono do Imprio.
      Desde o dcimo ano de seu governo, o estado emocional e as facilidades do conforto, somadas  ao invisvel de inmeras entidades perseguidoras que buscavam 
atacar o mais poderoso romano da poca infundiam nele, que carregava o pesado fardo do Imprio, os prejuzos normais das alteraes emocionais e orgnicas.
      Sempre que se est em situao de to grave responsabilidade, mais indispensvel se torna o recurso  orao, como escudo protetor contra todos os tipos de 
agresso.
      
      No entanto, no havia entre os romanos de ento, a noo mais aprofundada da necessidade de uma ligao direta com as foras superiores, pois o panteo do 
paganismo reservava o culto aos diversos deuses nos seus respectivos templos atravs dos diversos sacerdotes e das oferendas e sacrifcios pagos segundo as exigncias 
e tabelas apropriadas para cada desejo ou necessidade.
      Mesmo o culto dos chamados deuses lares e penates a realizar-se no interior dos lares romanos segundo a tradio ancestral do culto aos antepassados, redundava 
numa cerimnia ritualstica, despida de sentido mais profundo a propiciar elevao do esprito dos que dela participavam.
      Eram uma mescla de crena aprendida como dever perante os ancestrais e burocracia formal, sem maior profundidade de sentimento.
      Todavia, as crenas individuais, no corao de cada criatura, variavam segundo a sua capacidade espiritual de sentir mais ou menos a ligao com o mundo invisvel 
e, valendo-se de tais condutas exteriores, havia sempre aqueles que se mantinham em posio ntima mais elevada e os que, acostumados a frmulas exteriores, limitavam-se 
a realiz-las crendo que seriam suficientes como prova de devoo.
      
      Tibrio no era diferente de todos os outros romanos, notadamente nas suas atribuies de majestade entre os cidados, pouco lhe restando em questo de tempo 
ou de disposio para dedicar-se a processos de elevao espiritual que poderiam proteg-lo das perturbaes igualmente avantajadas quando falamos de personagem 
to importante no governo da poca.
      Por isso, o Imperador estava sempre s voltas com dores e enfermidades que o incomodavam e para as quais esperava alguma soluo entre os sbios ou msticos 
que o cercavam, sempre incapazes de resolver os seus conflitos fsicos com as tisanas e frmulas esdrxulas, que empregavam mais para impressionar do que para serem 
eficazes.
      Entretanto, ainda que se tornando crnicas, tais enfermidades no tiravam do Imperador o desejo de se ver livre dos incmodos fsicos que o perturbavam, o 
que produziu nele o interesse por todo e qualquer recurso existente cuja notcia lhe chegasse aos ouvidos.
      E as notcias se avolumavam acerca do taumaturgo milagroso que realizava maravilhas na longnqua Palestina, provncia sob seu comando imperial.
      Comearam a chegar pela boca dos funcionrios mais simples, que falavam dos milagres aos seus superiores como assunto novo e interessante at que, na vasta 
rede de conversas to prprias dos bastidores do poder, atingiam os tmpanos do Imperador.
      A princpio no pareciam ser coisa digna de ser levada em conta, eis que existiam inmeros relatos de profetas e homens de f poderosa que vinham daquelas 
paragens msticas do oriente.
      No entanto, com o passar dos meses, bastava chegar uma nova galera oriunda da Palestina, que uma grande enxurrada de notcias, muitas delas avolumadas pela 
capacidade criativa de quem contava o feito, ganhava os ouvidos dos cidados romanos, a maioria dos quais se portava com indisfarado cinismo sobre a veracidade 
dos relatos.
      Mas no eram s notcias que chegavam. Junto com os boatos, as galeras traziam passageiros, alguns romanos, outros estrangeiros, que haviam presenciado fatos, 
conversado com pessoas, escutado as palavras daquele profeta diferente dos anteriores, o que tornava o boato em uma questo mais digna de f e levantava, no corao 
de muitos, a esperana de conseguirem avistar-se com esse homem e obter a melhora que anos e anos de tratamentos rudimentares no haviam conseguido produzir.
      A dor, como conselheira diria, faz parecer banquete a mais pequenina migalha de esperana.
      Por isso, Tibrio se achava profundamente interessado na possibilidade de conseguir a melhora necessria para seus males fsicos, atravs do concurso de tal 
homem.
      Todavia, era o Imperador de todos os Romanos. No lhe cabia, na posio social que ostentava e no orgulho de poderoso mandatrio, a postura de sair ao encontro 
de um reles estrangeiro, sem que estivesse devidamente informado sobre sua personalidade, sobre a verdade de seus poderes sobrenaturais.
      Assim, uma vez constatados com certeza e discrio, providenciar-se-ia um meio de traz-lo  sede do poder imperial a fim de que, no anonimato de seus aposentos, 
sem comprometer a sua autoridade com crenas alheias, de uma provncia pobre e desprezvel, o imperador se lhe submetesse ao tratamento.
      Era a viso do homem mundano, acreditando-se poderoso o suficiente para ter tudo sob o seu comando e dirigido pela sua vontade imperial.
      Poderia solicitar informes de Pncio Pilatos, o procurador da Judia, que, com certeza, estaria ao corrente de todos estes fatos.
      No entanto, Pilatos no privava da absoluta estima de Tibrio. Pelas injunes polticas e influncias de interesses de patrcios importantes que precisavam 
ser atendidos para a manuteno das
      
diversas redes de apoio e de aliados que mantinham o imperador no poder, Tibrio aceitou enviar para a Palestina um homem cujo perfil no lhe agradava. Por este 
motivo, no desejava confidenciar-lhe assunto to pessoal, que chegava s raias da intimidade, a fim de no estabelecer com ele um contato que fosse alm das formalidades 
das funes de I stado e do governo das provncias.
No! Pilatos no lhe serviria.
      Eis, no entanto, que alvissareira visita lhe chega em uma tarde ao palcio a fim de apresentar-lhe uma solicitao especial.
      Anunciado aos seus ouvidos, o Imperador autorizou a entrada em seus aposentos, de um senador amigo, em quem confiava pelos laos antigos de ambas as famlias 
tradicionais que os uniam. Tratava-se do senador Flamnio Severus. Era o ano 31 da era crist, dcimo stimo do governo de Tibrio que, apesar de j ter se transferido 
para a referida ilha de Capri, viera a Roma, depois da queda e assassinato de Sejano.
           
           Apresentadas as saudaes impostas pelo protocolo da poca, encontramos o representante do Senado imperial perante Tibrio, mantendo a postura de respeito 
e considerao para com o mais alto governante.
      - Ora, Flamnio, que os velhos tempos falem mais alto do que as tolices de nossos compromissos polticos de hoje - falou o imperador, procurando criar o ambiente 
mais leve, ainda que na suntuosa sala de audincias, cuja atmosfera, por si s, era capaz de intimidar a qualquer.
      - Agradeo, venervel Tibrio, a liberdade de exprimir as idias de acordo com a nossa velha tradio patrcia, livre dos entraves das expresses cerimoniosas.
      - Como est Calprnia? - perguntou Tibrio, desejando dar ainda mais intimidade ao colquio ao direcion-lo para o aspecto da intimidade do senador.
      - Ela e os pequenos esto bem de sade, graas  proteo dos Deuses e aos favores de Fortuna que nos concedeu, igualmente, a vossa proteo.
      - Fico deveras satisfeito em saber da tua felicidade e poder ter este contato pessoal contigo depois de tanto tempo em que tenho de me manter mergulhado nas 
questes de governo, complexas e maantes como tu mesmo sabes serem tais coisas. Este momento de leveza em que me reencontro com nossas boas lembranas  um refrigrio 
raro e muito me satisfaz. Agradeo-te por esta possibilidade.
      - Desejaria, majestade, que o fardo que deveis carregar pudesse no vos massacrar a fim de que todos ns envelhecssemos sob os auspcios da vossa liderana.
      - A realidade, contudo, Flamnio,  a que temos diante dos olhos e no a que nossos olhos desejam ver - disse Tibrio soturnamente. 
Se, ao menos, no tivesse de lutar contra os fantasmas que me circundam, sejam os da ameaa de traio constante, espreitando por detrs das suntuosas colunas, sejam 
os da que se oculta na comida que me endeream, j por isso seria mais leve a carga. No entanto, tais coisas no so assim e, por mais que pensemos que ser imperador 
romano  mandar sobre o mundo conhecido, percebemos que nosso poder pode esbarrar numa pequena taa de vinho envenenado ou que, se me incumbe o dever de dirigir 
vinte e oito legies de soldados no maior exrcito regular de que se tem notcia, no consigo controlar a cozinheira do palcio e ter certeza de que na comida que 
me destina no se encontra a minha sentena de morte.
      A expresso do velho monarca dava bem a noo das constantes aflies a que era submetido,  medida que se vai perdendo a ingenuidade no exerccio do poder.
      Mas, percebendo que o clima da conversa estava derivando para um lado obscuro da vida, o prprio Tibrio incumbiu-se de alter-lo, agregando:
      - Ora, meu amigo, no desejo receber de ti as alegrias desta visita e retribuir-te com as misrias de um abutre velho. Vamos ao que interessa para que o nosso 
ambiente seja de alegria por esta hora.
      Sorrindo de maneira jovial, o senador, convidado pelo governante, sentou-se em um pequeno assento prximo ao local onde Tibrio estava, para que pudessem ter 
a conversa mais ntima como era do gosto do imperador, com pessoas de sua confiana.
      Assim colocado nas cercanias do ouvido imperial, Flamnio tocou o assunto que o levava at ali:
      - Desculpo-me, inicialmente, por buscar-vos trazendo questes importantes de cunho dos interesses do Estado. Ter sido recebido aqui desta forma me deixa envergonhado 
diante de vossa generosidade para com a minha indiferena, indigna de nossos laos mais sagrados. Todavia, o excesso dos compromissos do trono me impediam de incomodar-vos 
com questes pessoais ou intimidades que poderiam ser consideradas como uma tentativa indigna de aproximao daquele que  o mais importante dos romanos.
      - No penses assim, Flamnio. Ainda que compreenda os teus escrpulos e reconhea estarem pautados pela sabedoria de homem amadurecido como tu, desejo que 
saibas poder encontrar em mim o mesmo Tibrio dos jogos da juventude e das aspiraes poticas. Meu corpo envelheceu, mas minha confiana em ti segue a mesma dos 
tempos que passamos juntos, em contato direto, ainda que, depois, nossos caminhos tivessem tomado rumo diverso.
- Mais um demonstrativo de vossa grandeza, Csar dos Csares,

clemente na superioridade de vossos conceitos. No entanto, ouso dar seguimento ao assunto para que minha conscincia no me acuse de ocupar o tempo to exguo do 
mais alto dirigente da Terra.
- Pois ento, prossegue, meu amigo.
      Assumindo posio mais prxima de Tibrio, Flamnio seguiu falando:
      - Venho at vossa presena com um problema que somente a vossa sabedoria poder equacionar. Trata-se de um outro patrcio nosso, igualmente conhecido pelos 
dotes de honradez e integridade que tm sido colocados ao servio de Roma desde muitas geraes, tanto no Senado quanto nos Tribunais.
      Tibrio ouvia atento e se via enaltecido por estar sendo considerado como o orculo solucionador de problemas intrincados.
      - Refiro-me ao tambm senador Pblio Lentulus Cornlius, meu amigo pessoal de longa data e que est passando por problemas muito graves no seio de sua famlia.
      Ouvindo-lhe o nome, Tibrio meneou a cabea como que concordando com as referncias elogiosas que Flamnio fazia a Pblio.
      - O jovem senador  casado com mulher de peregrina beleza e integridade moral  altura das mais dignas matronas de nossas antigas tradies.
      O casal possui uma filhinha, de nome Flvia, que veio ao mundo como a esperana de dois coraes enamorados e devotados ao mais nobre sentimento de amor verdadeiro. 
Tanto que o senador  um dos que tm lutado intensamente contra as depravaes de nossos costumes, guardando as tradies mais elevadas e venerveis.
      Interessando-se firmemente pelo assunto, Tibrio dava mostras de desejar saber mais, o que estimulava Flamnio a seguir na mesma linha.
      - Ocorre, majestade, que de uns tempos a esta parte, a pequena comeou a definhar seguidamente, sem qualquer motivo que se apresente como plausvel ou que 
os cuidados de nossos mdicos pudessem coibir e reparar. Levada pelos pais a todos os facultativos conhecidos, nada se lhe pde fazer, a no ser abater ainda mais 
o seu corpinho com disciplinas cada vez mais esdrxulas e incabveis.
      E o que  mais grave, principalmente para uma famlia to conceituada e importante em nosso meio,  que tendo levado a pequenina at Tibur, onde conceituados 
mdicos se radicam, ali obteve o diagnstico fatal que lhes abateu o nimo e as esperanas...
E sabendo que a notcia seria tambm muito grave, Flamnio interrompeu o desfecho da histria para que Tibrio pudesse assimilar os passos do relato.
      Vendo o silncio de Flamnio, a curiosidade de Tibrio imps ao senador o dever de terminar o relato como numa ordem.
      - Vamos, Flamnio, esclarece rpido o que os especialistas disseram de to grave!
- Sim, majestade, disseram que a pequena  leprosa...
O silncio estendeu-se no ambiente por alguns instantes.
      Ser leproso, naquele perodo, era algo terrvel e desesperador, no apenas para o prprio doente, mas, principalmente, para a sua famlia que, em geral, era 
considerada igualmente desfavorecida pelos deuses.
      Possuir algum membro do cl que apresentasse tal molstia significava uma sentena de banimento social para todos os seus membros, inclusive, considerados 
portadores de miasmas internos que produziam tais desajustes, na pouca compreenso a respeito das enfermidades e suas maneiras de contgio, prprias da ignorncia 
daquela e de todas as pocas.
      Realmente, possuir a doena era triste para a criatura, notadamente uma criana. Mas ser-lhe pai e me, irmo ou parente igualmente era uma ndoa amarga que 
no se poderia esconder ou ignorar.
      A crueldade social assim o impedia. Da porque tais pessoas eram banidas da prpria famlia para lugares longnquos, a fim de que ningum soubesse a que grupo 
pertenciam. Eram viagens de emergncia, afastamentos bruscos, sem explicaes, todos eles visando alijar-se do meio coletivo, no apenas o doente que se ia desfazendo 
em vida, mas tambm o risco de os demais perderem tudo o que haviam ajuntado, tanto em termos de negcios materiais quanto em questo de considerao e respeito 
sociais.
      Tibrio sabia de todos estes problemas e Flamnio tinha em mente conseguir a adeso do imperador aos seus projetos para o amigo que passava por tal transe 
difcil.
      - Isso  um problema muito grande, Flamnio-disse o imperador. Se se tratasse de um dos moradores do Esquilino ou do Velabro, tais questes no seriam to 
catastrficas, ainda que no se possa desprezar a condio humana dos miserveis. Todavia, numa famlia patrcia da mais alta estirpe em nossa tradio, essa ocorrncia 
 algo de graves propores. Ser que no pode haver equvoco dos mdicos de Tibur?
Entendendo os escrpulos de Tibrio, Flamnio respondeu:
- Acreditamos que no, pois recentemente, eu mesmo pude constatar o avano da enfermidade na pele da criana, quando as manchas violceas cantam os cnticos da tragdia 
entrevista pela experincia dos facultativos.
      - Mas isso pode produzir uma fissura profunda na estrutura do equilbrio poltico do prprio Senado, eis que o senador Pblio ser igualmente atingido pela 
tragdia de sua filha e, fatalmente, perder o conceito elevado de que  detentor.
      - Por isso, Majestade,  que aqui me encontro solicitando-vos o auxlio decisivo para encontrarmos uma soluo que impea o perecimento da pequenina e, ao 
mesmo tempo, a desmoralizao do senador e de sua famlia, como  tpico de nossos costumes. At o presente momento, mais ningum conhece o diagnstico mdico a 
no ser eu, vossa majestade e os pais dela, naturalmente.
      Encostando-se na cadeira imperial como fazia sempre que era chamado a refletir sobre os assuntos mais graves, Tibrio buscou pensar por alguns minutos usando 
o raciocnio acostumado a prever e equacionar, buscando ver  distncia.
      - Precisamos propiciar ao nobre senador que se afaste de nosso centro urbano por algum tempo - retomou a palavra o imperador depois de algum tempo de reflexo.
      - Tambm havia imaginado ser esta uma medida importante para a manuteno dos valores morais longamente acumulados por sua famlia. O problema, Divino Csar, 
 que o senador espera, para daqui a alguns meses, o advento de um novo integrante de sua famlia, eis que a esposa amada se encontra grvida, o que dificulta a 
partida imediata, j que se trata de deslocamento incompatvel com as necessidades de descanso e de cuidado, to ao gosto de nossos mdicos, que recomendam o repouso 
em homenagem ao futuro sdito que vir ao mundo.
      Tibrio passou a mo pelo rosto como que imaginando uma soluo adequada a tal situao e acrescentou:
      - Bem, neste caso, acredito que a pequena dever ser mantida afastada do convvio pblico, recolhida no seio da famlia at que, com o nascimento do filho 
se possa dar-lhes o destino aprecivel para o caso.
      - Sbias palavras, majestade. Acredito que somente com esse alvitre e a permisso do Trono de Roma, o senador poder se ver autorizado a deixar suas funes 
e dirigir-se para outro local sem levantar suspeitas, -acrescentou Flamnio, como que a induzir o imperador a pensar segundo seus prprios planos, j anteriormente 
alinhavados.
      - Isso mesmo, Flamnio. Pblio no pode ser afastado de suas funes sem um motivo relevante, pois do contrrio, isso poder ser interpretado como demrito 
ou como o indcio de algum problema mais grave, a confirmar qualquer boato que estiver no ar sobre o estado de sade da filha. Assim, creio que j posso cogitar 
contigo de alguma tarefa em meu nome pessoal com a dupla vantagem de poder contar com homem de confiana a meu servio e, ao mesmo tempo, propiciar-lhe a oportunidade 
de afastamento seguro no rumo do tratamento da filha querida.
      - Eu sabia, meu senhor, que no seria capaz eu mesmo de pensar em melhor soluo, at porque tambm h notcias de que em outros lugares do Imprio existem 
climas mais amenos e apropriados para o tratamento eficaz de tal doena nefasta.
      E voltando o assunto para a questo da enfermidade de Flvia, Tibrio teve o pensamento trazido  questo de suas prprias dores, o conjunto de enfermidades 
que ele prprio carregava e que no era capaz de solucionar, apesar de todo potencial que detinha, cercado dos melhores mdicos e especialistas.
      Ao mesmo tempo, lembrara-se das notcias acerca do homem estranho cujas curas estavam se espalhando a partir da Palestina, em forma de notcias misturadas 
a relatos exaltados e fantasiosos por todos os lados do Imprio.
      Seria uma ameaa  estabilidade de Roma? Tal homem seria poderoso o suficiente para iniciar uma revoluo contra os interesses imperiais? E, na mente do imperador, 
a principal indagao era a de que seria verdade a capacidade de curar de que era detentor?
      Imediatamente sintonizado com tais questes, Tibrio voltou-se para Flamnio e considerou com autoridade:
      - A bondade dos deuses est sendo muito grande para comigo neste dia. Ao te trazerem a mim, Flamnio, no apenas me alegraram a alma, mas igualmente trouxeram 
a soluo de um problema que me estava incomodando e que, agora, unindo a nossa necessidade  necessidade das circunstncias, poderemos propiciar que tanto o senador 
e sua famlia se beneficiem quanto os interesses de Roma sejam protegidos.
      Sem entender muito as referncias subjetivas do imperador, Flamnio seguia atento e interessado.
      - Sim, senador amigo, tenho necessidade de um homem de confiana junto ao governo da provncia da Judia, na longnqua Palestina, na qual est o procurador 
Pilatos, em quem no deposito confiana suficiente para acreditar nas suas resolues e necessidades, de acordo com os relatos que me envia. Crs que o senador Pblio 
estaria disposto, em face de tais circunstncias delicadas, a dirigir-se para l com a famlia?
      Sem acreditar no que ouvia, Flamnio sorriu largamente com satisfao e afirmou, sem medir as palavras:
      - Pois era justamente para aquela regio que se esperava poder deslocar com sua famlia, em face das qualidades atmosfricas e da natureza l existente, majestade.
      Feliz com a concordncia satisfeita do senador, Tibrio acrescentou:

      - Alm disso, desejo que o senador Pblio Lentulus, como legado de Csar e do Senado, possa fazer algumas diligncias que necessito, a fim de me auxiliar em 
um caso pessoal que, no momento oportuno lhe relatarei, de maneira a permitir que sua presena na Palestina nos beneficie mutuamente.
      Por isso, Flamnio, incumbo-te de providenciar os detalhes da dispensa de Pblio dos servios administrativos do Senado e a sua designao como legado do poder 
imperial nas provncias orientais, com plenos poderes para, em meu nome, agir como melhor lhe aprouver, exercendo as funes de fiscal do Imprio na observao dos 
atos dos procuradores investidos da confiana de Roma, mantendo-se, deste modo, o pagamento de seu salrio como servidor direto do Imperador. Alm disso, providencia 
os documentos necessrios  notificao de todas as autoridades l designadas a fim de que o esperem e se inteirem de que os olhos de Tibrio estaro olhando atravs 
dos olhos de seu enviado para todos os delitos e desmandos que possam existir por l.
      Quanto ao pedido de cunho pessoal, quando se aproximar a partida do senador ao destino acertado, entender-me-ei pessoalmente com ele, no por desconfiar de 
ti, mas porque, at l, as coisas podem ter se modificado e no precisarmos mais de tais cuidados.
      Abaixando a cabea em sinal de reverente respeito, Flamnio agradeceu ao imperador a deferncia daquele encontro e, depois de mais alguns minutos de conversa 
fraterna, ambos se despediram, deixando as solues para o caso de Flvia e Pblio assentadas e sob a responsabilidade do prprio Flamnio.
      
       Depois de ter preparado todos os detalhes da modificao administrativa junto s autoridades senatoriais na questo autorizada por Tibrio, Flamnio levou 
ao amigo as boas novas sobre a concretizao de sua transferncia para a Palestina, to logo se lhe permitisse a viagem, em face da gravidez de sua esposa, j no 
perodo final.
      Todavia, ainda que aguardassem o advento do novo integrante da famlia Lentulus, era do desejo do imperador entender-se pessoalmente com o seu futuro representante 
junto ao governo da provncia distante, o que levou Flamnio a estabelecer um encontro entre Pblio e Tibrio, nos aposentos imperiais no palcio da ilha de Capri, 
para onde, poucos meses antes, houvera voltado o governante maior dos romanos.
      - O que desejaria o imperador de to especial com esta audincia, Flamnio? - perguntava Pblio ao amigo, enquanto colocava as partes superiores da tnica 
senatorial, vestimenta cerimonial usada nas ocasies de maior relevo e que demonstrava a condio de nobreza patriarcal do cidado que a ostentava.
      - No fao idia, meu amigo. Naturalmente posso imaginar que pretende dar-te instrues especficas que s a ti interessaro.
      - Sim  possvel. No entanto, em geral, todas as instrues oficiais soem vir por escrito nos documentos que constituem a salvaguarda do legado que representa 
o Imprio e que, em geral so apresentados ao procurador que dirige a Judia. Se no est nos escritos tampouco est no mundo oficial.
      - Tens razo sobre esta considerao. No entanto, tal encontro foi determinao do prprio Tibrio que, com certeza, deve ter algum motivo para falar-te.
- Ser que nosso imperador est piorando de seu estado geral

depois de tantos anos com o peso rduo do governo de to vastos domnios, Flamnio?
      - A sua postura geral aponta para um desgaste fsico considervel, se nos prendermos ao seu aspecto dos primeiros tempos. Todavia, no me parece que seu tirocnio 
tenha sido afetado nem a sua lucidez esteja comprometida por algum tipo de limitao ou doena que justifique qualquer desconfiana sobre seu equilbrio. Eu o conheci 
quando jovem e juntos passamos bons momentos durante nossos encontros recreativos, os quais foram lembrados com detalhes por ele quando de minha primeira entrevista 
sobre o teu caso pessoal.
      Nesse dilogo rpido, Pblio se apressou para reunir sua pequena bagagem que lhe permitiria estar diante do imperador de acordo com o respeito que essa audincia 
exigia, eis que, ainda que fosse integrante da camada mais abastada e influente da sociedade romana, no era usual dirigir-se pessoalmente ao mais alto mandatrio 
em um encontro como aquele.
      Tomaram a liteira que os levaria at o barco oficial, quando iniciariam o percurso que os conduziria at o palcio de Tibrio, agora transferido para o golfo 
de Npoles, no litoral sul do mar Tirreno e, por entre os solavancos do caminho, o brao escravo transportava os dois amigos que, em silncio, davam largas ao pensamento 
de curiosa ansiedade sobre os motivos do imperador.
      Chegando ao local, deixaram-se conduzir por funcionrios que os levaram at a ante-sala da audincia, na qual todos os interessados deveriam aguardar a autorizao 
para o ingresso.
      Assim, passaram-se alguns minutos para que se lhes convocasse a entrada no recinto principal, j que Tibrio atendia a outra questo que ocupava a pauta daquele 
dia.
      Enquanto isso, Pblio corria o olhar pelos detalhes suntuosos do palcio, encanto da inspirao romana que levaria qualquer esprito a reverenciar a grandeza 
de um povo que estivesse  altura de edificar aquelas colunas majestosas, aqueles adornos dourados e rebuscados. Madeiras resinosas e perfumadas,  guisa dos modernos 
incensos do oriente, queimavam sobre um trip envolvendo o ambiente em uma atmosfera especial. Soldados em seus uniformes de gala, ajaezados com os brilhantes cintures 
e lanas, protegiam e davam segurana ao imperador, alm de impor ao ambiente a seriedade indispensvel ao visitante.
      A viso do mar azul ao longe era impressionante, de forma a possibilitar ao espectador um encantador momento de inspirao e devaneio.
Estar ali sem se arrepiar era impossvel.
no entanto, a entonao de venerao e amizade sinceras que Flamnio demonstrava sempre a Tibrio, seu antigo camarada.
Desta maneira, o imperador ordenou com um gesto que se aproximassem e tomassem assento diante dele, coisa que reservava apenas a poucos que com ele se entrevistavam.
- Pois ento, Flamnio, aproxima-se o dia em que teus auspcios iro favorecer o Imprio com os valorosos servios de nosso Pblio, disse Tibrio, sem tocar no assunto 
delicado da enfermidade infamante de Flvia.
- Sim, majestade. Como  de vosso conhecimento, nossa famlia est na iminncia de ser ampliada com a chegada de mais um romano que vos prestar reverncia, eis 
que a esposa do senador Pblio, para breve, espera o nascimento de mais um filho da gens Comlia. E to logo isso ocorra e esteja recuperada a nobre matrona, toda 
a famlia estar pronta para seguir no cumprimento das determinaes de vossa Augusta vontade.
- E posso afirmar que  uma das mais importantes misses a beneficiar o Imprio, essa que o nobre senador Pblio se dispe a realizar.
Assim se manifestando, Tibrio dirigia-se diretamente ao senador nomeado como seu representante junto ao governo da Palestina, buscando observar-lhe a reao pessoal 
diante da referncia.
Sabendo dos intentos de Tibrio, Pblio fixou o seu olhar nos olhos do imperador de maneira a demonstrar-se o mais sincero e verdadeiro, no devotamento fiel que 
lhe marcava a personalidade firme e idealista, para responder-lhe sem titubeios:
- Honra-me com tal confiana, majestade, e tudo o que estiver dentro das determinaes de Roma ser feito com o sacrifcio de minha vida pessoal, de minha sade 
e de meus interesses.
Aproveito o ensejo para agradecer-vos pessoalmente to enobrecedora oportunidade que me  concedida a fim de buscar servir a vossos interesses no governo do Imprio 
com minhas parcas, mas firmes disposies e capacidades.
Vendo-lhe a manifestao determinada, Tibrio se sentiu encorajado e feliz pela escolha, sobretudo por se tratar de um homem ligado s tradies mais nobres dos 
costumes antigos, j em processo de desagregao na sociedade permissiva e farta daquele tempo.
Ao mesmo tempo, era amigo de seu amigo, ligando-se todos eles por laos de respeito e fidelidade que, na tradio romana significavam confiana cega e apoio recproco 
em qualquer situao.
Diante desse quadro, Tibrio apanhou os documentos que estava terminando de ler quando da chegada dos dois visitantes e entregou-os a Flamnio para que os passasse 
a Pblio, dizendo:- Nobres amigos, eis aqui as tarefas administrativas nas quais Invisto o ilustre senador Pblio e lhe outorgo a funo de ser meu representante 
pessoal junto s provncias orientais. Ser a extenso de meus olhos na observao dos fatos e condutas administrativas daquele que no possui a minha confiana 
pessoal, mas que detm, provisoriamente e por presses polticas, a funo governativa da Judia um nome de Roma.
Com tais documentos, Pblio estar acima do poder de Pilatos, som, contudo, poder conflitar com ele nas questes de governo. Pilatos no poder impedi-lo de realizar 
qualquer diligncia. Com esta nutorizao que outorgo em teu favor, senador, tua autoridade dever ser respeitada e ningum poder impedir-te a realizao de qualquer 
investigao, de qualquer interrogatrio. Poders escolher os legionrios, ordenar-lhes segundo teus critrios de necessidade, respeitando, naturalmente, as peculiaridades 
l existentes. Possuirs uma guarnio pessoal consistente de uma centria de soldados sob tuas ordens diretas que te prestaro obedincia exclusiva, sem que Pilatos 
a possa comandar. Escolhers os soldados que a comporo, o centurio que a dirigir e as tarefas que realizaro para o bom desempenho do legado que outorgo por fora 
de minha vontade e do interesse do povo de Roma.
Com base em tais documentos e poderes, nada ficar impedido de chegar teu conhecimento. Nenhum processo ficar oculto de teus olhos, nenhuma deciso de Pilatos ficar 
desconhecida se tua vontade assim o desejar. Desde algum tempo, venho recebendo informes isolados sobre a conduta indigna do procurador, mas no posso tomar nenhuma 
atitude diante das foras que o apoiam se no tiver provas suficientes de sua improbidade e dos desmandos que pode estar permitindo ocorrer em nome do Imprio.
A Palestina  uma provncia difcil pelas suas caractersticas peculiares. Tem um povo muito arraigado s suas tradies religiosas e avesso a qualquer dominao, 
pelo que parece ser composta de uma totalidade de conspiradores. Seus habitantes, por mais amistosos, esto sempre desejando obter alguma coisa das facilidades do 
poder, pois so especialistas em mercadejar com tudo o que possua algum valor. Todavia, no titubeiam em apunhalar o melhor dos vendedores ou compradores se disso 
depender a libertao do domnio romano que dizem aceitar pacificamente.
Possuem uma religio absolutamente diferente da nossa, acreditando em um s deus e lutando, gerao aps gerao, para manter as tradies incorruptveis. No se 
casam seno entre si mesmos e costumam matar as mulheres que se relacionem com os representantes do poder estrangeiro, julgadas sumariamente como traidoras da causa 
judaica miscigenando-se com invasores, como nos consideram no interior de suas reunies ntimas.Pilatos, no incio, mantinha-se  distncia de tais questes. Todavia, 
com o tempo se foi deixando comprar pelas ofertas sedutoras que os espertos judeus lhe iam fazendo a fim de conhecerem seus limites de honradez e honestidade, at 
faz-lo fraquejar nas tentaes, com a finalidade de passar a comand-lo de acordo com seus interesses imediatos que mesclam o culto ao dinheiro com o desejo de 
liberdade.
Agora, compete-nos observar para conhecer e, depois, julgar adequadamente. Junto dele est o pretor Slvio Lentulus, tambm pertencente  nossa administrao, mas 
que no soube se manter no patamar da honradez que caracterizou sempre a famlia Lentulus junto ao Imprio, tendo sido destitudo dos cargos mais elevados e ocupando, 
agora, apenas modesta posio junto a Pilatos, seu co-cunhado.
Ambos seguem indignos de minha confiana pelos deslizes que j cometeram. No entanto, se o pretor Slvio j foi flagrado nas situaes calamitosas que denegriram 
seu mrito, falta avaliarmos as provas contra Pilatos.
Assim, senador, seguirs com estas ordens oficiais.
Demonstrando admirao por to grande leque de poderes e autoridade recebidos do prprio imperador, Pblio meneou a cabea seguro e respeitoso, aduzindo de viva 
voz:
- A vossa vontade, majestade, ser cumprida com a iseno, com a correo e com o denodo de tal maneira que a vossa confiana em minha pessoa ser retribuda com 
a verdade absoluta.
No me deixarei levar por indcios superficiais a fim de no fraudar a realidade com injustas concluses. Respeitarei o direito de qualquer pessoa, romana ou no, 
sem invadir ou vilipendiar os valores regionais com uma prepotncia indigna de Tibrio e de Roma. No entanto, saberei ver com acuidade e argcia da guia que nos 
simboliza o poder que dirige e a fora que sustenta.
Usarei de nossos princpios jurdicos para defender ou apreciar os feitos que tiver sob minhas vistas e no avanarei um passo sequer nos limites que este legado 
estabelece. Todavia, dentro deles no haver palmo de areia que no seja avaliado em nome de vossa confiana e da necessidade de aclaramento para o juzo seguro 
do imperador de todos os romanos.
Calando-se o senador, Tibrio deu-se por satisfeito nas explicaes de tal misso espinhosa, fazendo pensar, ambos os senadores, que estava terminada a audincia.
Todavia, to logo se entenderam sobre estes assuntos administrativos, o imperador retomou a conversa para tratar de outro assunto.- Bem, senador, se esta foi uma 
audincia sobre os negcios de I stado to importantes para nossos interesses, preciso de teus prstimos, no mais como senador, mas como amigo e confidente para 
Ir.ilar de um assunto pessoal, que interessa to somente a Tibrio.
Escutando tais referncias e,  meno de tratar-se de um assunto i xlromamente pessoal que dizia respeito to s ao imperador e a Pblio, Flamnio levantou-se 
respeitosamente, solicitando autorizao para deix-los a ss, evitando o constrangimento de Tibrio em ter que lhe solicitar a sada do ambiente, no que foi contido 
pelo gesto do governante que o impediu de sair, dizendo:
- Flamnio, no h assunto que, pertencendo  minha intimidade no possa ser dividido contigo, meu amigo. Por isso, peo que permaneas e dividas conosco uma parte 
de minhas angstias, solicitando de ambos, apenas, a discrio e o sigilo por se tratar de assunto delicado e secreto.
Honrado por tal deferncia, Flamnio sentou-se novamente, agradecido.
- Como ia dizendo, senadores, no  novidade para vs que o desgaste do corpo me tem comprometido a paz fsica nas dores que nossos mdicos so incapazes de solucionar 
ou apaziguar.
Por isso, muitas vezes tenho me isolado mais do que seria de meus desejos, j que no tenho serenidade fsica para permanecer muito tempo diante das assemblias 
oficiais e das cerimnias pblicas, sempre to longas e suntuosas, to ao gosto do povo e das autoridades.
Recorri a todos os deuses de nossas crenas, sacrifiquei a todos os que nos aconselharam nossos mais abalizados sacerdotes, tomei toda a sorte de poes ou misturas 
que os nossos facultativos dizem ser remdios e no pude obter qualquer melhora.
No posso, contudo, ostentar fragilidade no comando do Imprio, pois o trono de Roma seria, imediatamente, julgado fraco pelos prprios romanos e, depois, pelos 
cidados de todos os povos agregados e tributrios nossos, tornando-se impossvel governar.
Assim, no possua qualquer esperana de me ver libertado de tais entraves at que me chegaram insistentes e constantes notcias de algum que, na Palestina, vem 
realizando curas fantsticas e quase inacreditveis.
A Judia  uma terra de muitas supersties na maneira peculiar com que se relacionam com o sobrenatural, como j vos disse. Todavia, por inmeras fontes nos tem 
chegado a afirmao de que no se trata de mais um simples profeta, desses to abundantes naquelas paragens.
Parece ser um homem simples, sem maiores posses ou ooderes.que prega a existncia de um reino invisvel do qual seria representante celeste.
Muitos me trouxeram esta notcia com a preocupao de que se tratava de mais um conspirador contra o Imprio. Todavia, se eu for dar ouvidos a toda informao que 
seja parecida com esta, tenho que transferir Roma para Jerusalm e no fazer outra coisa que no perseguir um por um os cidados da Palestina.
Assim, com a ida do senador Pblio para tais paragens, tenho interesse em ser informado com detalhes sobre esse homem especial e diferente, cujos poderes estranhos 
esto encantando as pessoas.
Seja para a constatao de suas reais intenes, seja para a avaliao de seu poder miraculoso, gostaria de que o senador me informasse sobre este homem, sua aparncia, 
seus poderes, seus princpios, para que eu prprio avalie a sua ameaa ou possa, mesmo, valer-me de seus poderes pessoais para melhorar meu estado geral.
Naturalmente que no posso submeter-me direta e pessoalmente a procur-lo por motivos que conheceis sobejamente.
No entanto, em se caracterizando como taumaturgo a quem se atribuem outras tcnicas ou mtodos, nada me impediria de traz-lo a Roma para, no anonimato de meus aposentos, 
submeter-me aos seus tratamentos, mantendo, deste modo, o respeito s tradies romanas e recuperando a sade necessria para continuar a defender os interesses 
do trono pelo tempo que os deuses me concederem.
Era uma confisso de dor pessoal que no era costume se fazer diante de outras pessoas.
A referncia de Tibrio a um estrangeiro que poderia ser a soluo para suas enfermidades fsicas, se feita por algum romano menos influente, poderia ser encarada 
como traio, como fraqueza, como indignidade, punida at mesmo com o processo e a priso, com a perda dos privilgios de casta e a deportao.
No entanto, vindo do prprio imperador, atestava aos olhos dos dois senadores a fragilidade humana em face do sofrimento e das ineficazes solues acadmicas nos 
tratamentos incuos e dolorosos que os mdicos de todos os tempos buscam usar para tentarem sanar os corpos.
Tocados por essa demonstrao de confiana e fragilidade do maior de todos os romanos, tanto Flamnio quanto Pblio se mantinham silenciosos esperando que ele terminasse.
Aproveitando o silncio para pr fim a esse longo intrito, Tibrio continuou:
- Por isso, senador, preciso saber se, alm de tais deveres de homem de Estado, poderei contar com a tua generosidade para auxiliar um outro amigo romano, necessitado 
de mais foras e energias, compreenso e amizade para que me possam ser concretizadas as esperanas de melhoria. Trata-se de uma misso que no ser materializada 
em qualquer papel, eis que no se trata de determinao que se escreva. No entanto, permanecer firmada em nossas almas com o sigilo de nossa tradio mais respeitosa, 
de igual maneira que, se no for de seu desejo aceder a tal pedido, continuar mantida a outorga do legado que acaba de te ser entregue, permanecendo digno de minha 
mais elevada confiana pessoal na misso administrativa.
Diante da postura quase humilde daquele homem que envelhecia nos sacrifcios administrativos que a maioria das pessoas ignora e no valoriza, Pblio no poderia 
responder de outra maneira, sem quaisquer julgamentos pessoais sobre a correo, a convenincia ou a impropriedade da solicitao.
Assim, levantando-se do assento para tornar mais solene a sua declarao, em face daquele que lhe convocara a confiana para o servio pessoal, contestou:
- Nobre imperador, se muito me honrou o legado outorgado pela vossa confiana de homem de Estado, mais me enaltece por me concederdes o privilgio de ser vosso servo 
na busca de vossa melhoria pessoal, compartilhando conosco os vossos sofrimentos. Estejai certo, senhor, de que cumprirei com o mesmo respeito tanto o compromisso 
escrito nos pergaminhos oficiais quanto os que esto lavrados no pergaminho de nossa confiana afetiva e, tomando os deuses como testemunhas invisveis e Flamnio 
como legitimador visvel de meus votos, declaro que hei de cumprir vossos desejos antes de concretizar meus prprios sonhos pessoais.
Ali estava selado o compromisso entre os trs homens de Estado.
Flamnio compromissado com o sigilo da dupla misso de Pblio.
Este, levando nos ombros a difcil tarefa de ser fiscal do corrupto e violento governante da Judia e de buscar a soluo para os questionamentos de Tibrio quanto 
aos problemas de sade.
E este ltimo, compromissado com as tarefas administrativas e com os sofrimentos decorrentes do processo de amadurecimento, que lhe impunham, ainda que na condio 
do mais poderoso dos humanos, o dever de obedecer por sua vez aos limites que a imperadora enfermidade estabelecia caprichosamente.
Assim, poucos meses depois deste acerto, j com o nascimento do segundo filho, a famlia Lentulus deixava o porto de stia em direo ao futuro difcil na Palestina 
onde Jesus os esperava.Crx/ confuso se estabelecia entre as pessoas aflitas que, carregando suas desgraas individuais ou ajudando outros a carreg-las, acercavam-se 
de Jesus, sempre buscando algo que as aliviasse.
A Palestina era um local de frtil manifestao religiosa, sobretudo por causa da tradio judaica, fiel  condio de herdeira do patrimnio espiritual de Abrao, 
na crena monotesta que era uma exclusividade naquele perodo de muitos deuses por todos os lados.
A tradio religiosa detinha inmeras demonstraes miraculosas de poder que enchiam o imaginrio do povo e auxiliavam as autoridades dirigentes da raa a exercerem 
o seu mando sempre com base nos livros sagrados da lei.
Ali estavam grafadas as epopias dos ancestrais que se submeteram cegamente s exigncias e ordens sobrenaturais e houveram conquistado as benesses almejadas, como 
a terra prometida.
Lembravam-se de cultuar a libertao do cativeiro no Egito, de onde foram retirados pelos poderes sobrenaturais, a comear pelas pragas que Moiss invocara sobre 
o pas dominador a fim de amolecer o corao do Fara dspota que os retinha.
O caminho em direo ao desconhecido, orientado pela luminosa estrela que lhes apontava o rumo no horizonte; o mar Vermelho, vencido pela interveno superior e 
que se vira aberto para a passagem do povo, antes de ser dizimado pelas foras militares do Fara arrependido; o man que caiu do cu para alimentar as pessoas em 
pleno deserto, a gua sada da pedra, etc. As foras poderosas, que estavam sempre demonstrando a sua capacidade de encantar o povo pelo sobrenatural, faziam parte 
da personalidade religiosa da raa hebria.
Por isso, no era novidade que algum se apresentasse com alguns poderes que encantassem os demais, se bem que j h muito tempo no houvesse entre os judeus algum 
que representasse com grandeza e brilho as foras invisveis. Na maior parte das vezes, o que se podia observar eram pequenos feitos, muito prximos da magia ou 
do encantamento ilusrio, ou ainda, pessoas inescrupulosas, desejando enganar a boa f ou o desespero de outros sofredores, em busca de vantagens materiais.
Povo acostumado s prticas do comrcio e extremamente apegado aos trmites materiais das riquezas, a sua relao com o Divino estava sempre a servio de sua prosperidade 
imediata e tinha a, muitas vezes, o nico objetivo.
Assim, a religio pura e venervel que paira acima das convenincias pessoais estava prejudicada nos sentimentos da maioria que a ela se endereava, to somente 
para conseguir vantagens ou posies.
Eram raros os crentes sinceros e desprendidos, seguidores da essncia da velha lei de Moiss, representada no seu contedo moral pelo declogo simples e direto.
No emaranhado de ritos e tradies, os sacerdotes judeus e os representantes das castas mais elevadas do povo tratavam de se defender com a invocao de passagens 
dos livros mosaicos, de onde retiravam todo o tipo de justificativa para corromper princpios elevados, para distorcer deveres morais e para fazer do formalismo 
estril a principal causa da religio, graas  qual, poderiam continuar defendendo seus interesses materiais.
A ritualstica sobrepujara a simplicidade do contato com a Divindade.
Pela ao solerte dos intrpretes, o povo ia sendo guiado por criaturas mesquinhas e sem elevao de carter. Tudo era motivo de ganho e de troca e, para isso, os 
textos eram consultados, espancados, espremidos, torcidos e retorcidos at que atingissem o estado que desejavam os interessados em obter vantagens ou justificar 
suas atitudes.
O povo sentia tal estado de coisa, ainda que no ousassem se manifestar contra as autoridades que os dirigiam, eis que temiam ser considerados infiis e banidos 
ou mortos pelos asseclas dos administradores da f.
Por isso, a presena de Jesus no meio das pessoas humildes era logo acolhida e admirada, j que o Divino Mestre vinha trazendo uma forma muito diferente de relacionamento 
com Deus.
Sua palavra doce e sensata parecia orvalho novo na face empoeirada dos desesperados, sempre explorados pelos outros religiosos que no lhes ofereciam nada como consolo 
e que, ainda por cima, lhes exigiam valores e bens que no detinham, como condio para realizarem alguma intercesso em seu favor.
Com Jesus era diferente.
Amor flamejante no seio da escurido do egosmo farisaico, sua luz falava no discurso sem palavras de sua bondade.
No era Jesus que lutara tanto para impor-se. Era a maldade dos religiosos que contrastava tanto com a Sua bondade que, nessa comparao, aparecia com maior fulgor.
E o esprito simples do povo esquecido sabia identificar essa diferena como a mais novel criana sabe identificar entre o azedo do vinagre e o doce do mel, sem 
conhecer-lhes a qumica intrnseca.
Por isso, o nome de Jesus j se houvera espalhado por muitos lugares e ganhado vrias regies, de onde acorriam desesperados para buscar-lhe a ajuda, a cura, a orientao.
Rodeado de homens simples e quase absolutamente desguarnecidos de cultura ou preparo intelectual, o seu ministrio era transparente e totalmente voltado para os 
derrotados do mundo.
Contrastando com o Imprio que governava a regio distante da Judia, o celeste mandatrio no tinha suntuosidade alguma nem qualquer aparato exterior que viesse 
a impressionar a viso dos que o seguiam.
No queria iludir as almas fracas que se impressionam com coisas que brilham ou amedrontam pela grandeza material.
Tibrio encastelara-se no paraso fsico da natureza exuberante da costa amalfatina, em Capri, onde erguera sua Vila Jovis, verdadeira preciosidade arquitetnica 
para aqueles tempos e de onde dirigia as naes distantes pela fora de seus exrcitos.
Jesus no tinha casa fixa e, se se pode dizer possuir alguma coisa, era a multido dos coxos e lacrimosos que o buscava. Seus ajudantes eram dos mais despreparados 
e seus decretos administrativos eram lies de renncia e devotamento aos desesperados, que buscava elevar  condio de filhos de Deus, da qual haviam se desacreditado 
por no confiarem mais em si prprios.
E no meio da multido que seguia seus passos, entre outros, Zacarias se encontrava, desejando estar entre os mais prximos ao Divino Amigo.
Viera de Emas trazendo um companheiro que era enfermo incurvel, confiante de que, ao contato com o novo profeta, tal doena seria curada como ele mesmo houvera 
visto ocorrer com outros que conhecera.
J possua idade e os anos passados no lhe traziam boas lembranas se se lhe observassem a histria das rugas em seu rosto.
Era um homem solitrio, pois no fora feliz na unio que tanto desejara em idade adulta. Sua esposa, muito jovem e imatura para as elevadas funes do matrimnio, 
fora flagrada por terceiros em prevaricao inexplicvel e, conquanto lhe permitisse a lei de Moiss o apedrejamento da infiel, o corao generoso de Zacarias, despedaado 
no afeto vilipendiado de que era vtima, deu  mulher a liberdade para que seguisse seu caminho junto daquele que escolhera para substitu-lo.
Tal situao escandalosa obrigou-o a mudar de cidade a fim de que no tivesse de suportar o escrnio dos outros, eis que, por essa poca, j se preferia criticar 
a absteno da vingana em vez de se enaltecer a elevao do perdo e da renncia.
Zacarias, ento, sem filhos e sem iluses de felicidade, transferira-se para Emas onde se estabelecera como sapateiro para ganhar a vida, trazendo as chagas abertas 
no peito e a fome de afeto na alma.
No fundo, seu esprito apontava para a aprovao de sua conduta com relao  mulher traidora. Todavia, na mente esfogueada, as dvidas ainda existiam e no estava 
plenamente convencido de que houvera leito o correto em face das exortaes da lei religiosa que lhe permitiria ter-lhe tirado a vida como exerccio de Justia autorizada 
pelas ordenaes mosaicas.
No entanto, a sua natural bondade interior se apresentava sempre antes, impedindo qualquer resposta mais rude perante os desafios da vida.
Tudo isso mudou para sempre na ocasio em que escutara a mensagem do novo reino de Deus no caminho dos Homens, nas palavras daquele nazareno desconhecido cujo magnetismo 
era inesquecvel a tantos quanto se Lhe aproximassem.
Nas suaves exortaes espirituais, Zacarias havia encontrado o refrigrio para seus temores, confirmao para suas crenas ntimas, esclarecimento para suas dvidas 
e remdio para seus sofrimentos afetivos.
No mar dos egostas que mandavam vingar-se e consideravam a generosidade do esquecimento como sinal de fraqueza, Zacarias entendeu a beleza do perdo como fortaleza 
da alma que o tornaria mais ntegro e feliz por dentro.
E bastou encontrar Jesus uma nica vez para se deixar seduzir pela beleza daquela nova Verdade que o mais inspirado dos rabinos era incapaz de entrever ou de pronunciar 
no mais inspirado dos discursos que proferisse.
Parece que Moiss se tornara uma criana rabugenta e caprichosa diante Daquele que surgia como o amigo equilibrado, dirigindo os passos dos que o seguiam com respeito 
e confiana.
Nenhuma exortao belicosa, nenhum momento de brutalidade, nenhuma palavra excludente a criticar isto ou aquilo.
Sem preconceitos, Jesus abraava leprosos que os Judeus baniam para os vales, recebia prostitutas que os mesmos mantinham como seus instrumentos de prazer na calada 
da noite, explorando suas dificuldades para mant-las escravizadas aos seus caprichos carnais.
Aceitava a presena malcheirosa de velhos miserveis e crianas enfermas acompanhadas de suas mes em desespero.
Zacarias o conhecera no incio do ministrio de Amor, apenas alguns meses depois de ter convocado os doze seguidores e se lastimava muito de no ter podido estar 
entre aqueles a quem o Senhor houvera chamado diretamente.
No entanto, empreendia qualquer caminhada para poder seguir o Mestre onde Ele se encontrasse.
Levando seu amigo enfermo at a presena do profeta da esperana, conseguiu que o mesmo fosse entrevisto pelo olhar manso e tivesse recuperada a sade, o que lhe 
valeu como derradeiro sinal de superioridade daquela nova doutrina em face dos velhos e carcomidos textos mosaicos.
To logo regressou a Emas com o amigo maravilhado ante a cura miraculosa, Zacarias deliberou fechar a sapataria e seguir os passos do Galileu por onde ele fosse, 
ainda que no tivesse sido escolhido para estar entre os doze mais ntimos.
Era preciso ter muita coragem para .abdicar de todo o mundo pessoal que houvera conquistado e sair em viagem ao lado do Messias esperado, por simples vontade de 
aprender e ser melhor.
Abeberar-se com a linfa pura dos ensinamentos superiores, vivenciados ao longo do caminho pedregoso das estradas do deserto spero no atendimento dos cados era 
para ele o novo ideal de sua alma.
Fechou a casinha que o abrigava, colocou os pertences de sapateiro em sua pequena bagagem, informou aos amigos mais chegados que realizaria viagem para cidade mais 
distante a fim de no levantar suspeitas sobre sua converso ao novo profeta e, em certa manh, deixou Emas para seguir Jesus.
50No desejava mais qualquer prova, qualquer vantagem, qualquer
cura.
Queria aprender a servi-lo onde fosse necessrio, melhorando-
86.
E, desde esse dia, Zacarias passou a ser mais um no meio da multido que estava sempre onde Jesus estava.
Afirme-se, por importante, que a grande massa que o buscava ora composta de pessoas aflitas que, residentes nas regies que ele cruzava, acercavam-se em busca de 
auxlio imediato e, to logo o recebiam, regressavam para seus afazeres imediatos, muitas vezes esquecendo-se das bnos conquistadas.
Todavia, pequeno grupo de peregrinos seguia em marcha ao Seu lado, desejoso de aprender e de presenciar as belezas do Reino do Cu, acreditando estar ao lado do 
Messias prometido.
Era composto pelos doze escolhidos e por um grupo maior que Ia aumentando com o passar do tempo, no qual se encontravam homens como Zacarias que, encantados com 
as novas verdades, tudo deixaram para estarem ali, captados pela doce hipnose da bondade e devotados  prpria transformao.
Por mais que os apstolos desejassem manter a exclusividade de seus privilgios como escolhidos em primeira hora, o prprio Mestre era simptico a essa pequena corte 
que se ia formando, deixando claro que no era propriedade de nenhum dos que escolhera. Ao contrrio, era de todos e a todos os de boa f aceitava como seus seguidores, 
independentemente de formalismos e burocracias.
Mais de uma vez Zacarias presenciara Jesus acercando-se de homens que Simo havia afastado da sua proximidade por cimes ou /elos excessivos, aos quais ia buscar 
para reparar o dano emocional que a ignorncia do apstolo havia produzido com sua rusticidade natural.
Quando o grupo principal se instalava em algum lugar que no permitia a presena de todos, os optros ficavam por perto, albergados em estalagens miserveis, dormindo 
ao relento, conversando com transeuntes, contando das belezas do novo reino, trazendo mais e mais pessoas para conhecerem o Filho Amado de Deus.
Assim que era retomada a jornada, voltavam eles a se incorporar  caravana e seguir o caminho.
Assim, com o passar dos meses j no havia apenas os doze apstolos, mas ao lado de Jesus e de sua corte primitiva, um agregado i Io almas igualmente devotadas se 
formara, dando sustentao e suporte aos deslocamentos, propagando pelas redondezas a chegada doMessias, falando de seus feitos, difundindo a sua mensagem como primeiros 
propagandistas da f e da Verdade Superior que chegava.
Com o passar dos meses, tais homens foram sendo conhecidos de Jesus e dos apstolos, com os quais passaram a se relacionar amistosamente e receber a considerao 
fraterna que Jesus tanto desejava se instalasse entre os que o seguiam de perto.
Dessa maneira, Zacarias passou a ser considerado um irmo devotado e respeitado pela sua idade j amadurecida, mas que, como criana feliz, se rejuvenescera no entusiasmo 
da f e do ideal do bem.
Algumas vezes se afastava no atendimento de alguma misria moral que lhe chegava ao conhecimento at que conseguisse auxiliar a criatura para que fosse at a presena 
do mensageiro da paz.
Nas reunies mais ntimas recebeu o direito de dirigir perguntas ao Mestre em busca de orientaes e conselhos, sempre que, primeiro, solicitasse dos apstolos a 
autorizao para usar a palavra.
E desta maneira, o corao de Zacarias foi sendo modificado para que mesmo as cicatrizes morais dos sofrimentos do passado fossem desaparecendo por completo, tornando-o 
um pequeno farol na escurido do desespero para beneficiar muito os que sofriam.
Os meses passaram e Zacarias era outra pessoa.
Trabalhava como sapateiro ambulante quando necessitava ou o tempo lhe permitia e, dos seus modestos ganhos, retirava os recursos mnimos para si e entregava a maior 
parte para o grupo de idealistas que seguiam o Mestre a fim de que pudessem ter como comprar o po ou a migalha que os sustentaria e auxiliaria a minimizar a dor 
de muitos miserveis.
Mesmo assim, suportara a escassez e a fome muitas vezes, na renncia silenciosa, para que algum mais desesperado pudesse alimentar-se.
Todos os seus gestos de devotamento eram feitos no mais absoluto anonimato, para que no aparecessem como exerccio de virtude ou de prospia.
Os meses se passaram e o ano de 32 chegara com as esperanas aumentadas no corao daqueles homens que se maravilhavam mais a cada dia, na caminhada da evoluo 
de seus espritos.QAes.
essa condio de prximos do crculo apostlico encontravam-se, alm de Zacarias, um grupo aproximado de 70 outros seguidores que, dentro do idealismo do esprito 
de renovao que havia descido  Terra naquele perodo to importante da humanidade, haviam aceitado a tarefa de engrossar as fileiras dos devotados servidores que 
se sacrificariam at o mais profundo de si prprios para darem testemunho de sua efetiva transformao e, ao mesmo tempo, fecundarem o terreno rido com o seu devotamento.
Josu era outro desses empenhados seguidores do Divino Amigo que, como Zacarias, se agregara ao grupo e, pelas mostras de empenho e dedicao conseguira granjear 
a simpatia de todos.
Naturalmente, tais pessoas traziam consigo as limitaes culturais de sua poca, os preconceitos aprendidos pela convivncia com homens rudes e ignorantes de seu 
tempo.
Todavia, ao se aproximarem da Verdade Espiritual que Jesus representava, como que um banho luminoso lhes retirava a parte mais grossa de tais entulhos ntimos, deixando 
brotar na alma a fonte do celeste compromisso assumido antes da reencarnao, ainda no mundo invisvel.
Chegado o momento, apesar das prprias tendncias e desejos, a fora do contato com o Verbo Amoroso desatava o lacre interno que deixava ressurgir o sentido efetivo 
da sua existncia e, assim, todos os que sentiam esse chamamento, em geral, eram os que sabiam em seu inconsciente ter chegado a hora da jornada luminosa ter o seu 
incio.
E na sua maior parte, quem sentia essa energia poderosa, que a conscincia identificava como o foco sublime que os convocava, deixava-se levar pela maravilha daquela 
tarefa e, dentro do dever e da alegria de estar cumprindo com o compromisso assumido, entregava-se de corpo e alma ao sublime aprendizado que Jesus propiciava.Entre 
Zacarias e Josu formou-se um lao de amizade muito grande, pois ambos eram provenientes da mesma regio e, apesar de Zacarias apresentar-se fisicamente mais idoso, 
Josu compartilhava com ele a mesma jovialidade de esprito e a alegria venturosa de estarem fazendo o que a alma lhes apontava como o correto.
- Voc viu, Zacarias, hoje, quando a mulher enferma procurou o Mestre e no tinha foras sequer para gritar-lhe o nome no meio do povo?
- Pobre criatura, deveria estar to fraca que corria o risco de ser massacrada pelos outros - respondeu Zacarias.
-  mesmo, meu amigo. Eu, de longe, sobre um pequeno aclive do terreno estava observando a passagem do Senhor e aquela criatura me chamou a ateno. Parece que uma 
fora invisvel me fazia observar-lhe a angstia e a dificuldade em caminhar desesperadamente at onde Jesus ia passar. Tentei ir ao seu encontro, mas era impossvel 
atravessar a multido afoita.
- E eu, Josu, estava no meio dessa confuso, tentando ficar o mais perto possvel do Mestre para impedir que ele acabasse sufocado.
- Mas o mais interessante, Zacarias,  que a pobre criatura ia ficando para trs e ningum se incomodava com ela, j que no tinha condies de seguir o passo dos 
outros mais fortes. Sua voz mal lhe saa da garganta, seus braos finos e trmulos se esticavam como a suplicar ajuda e nenhum dos homens e mulheres que passavam 
interrompeu sua marcha atrs do Mestre para auxiliar essa coitada. De onde eu estava, podia ver suas lgrimas de desespero escorrendo pelas faces enrugadas, que 
brilhavam  claridade do dia, sem que isso comovesse quaisquer dos passantes.
A pobre era uma splica viva que passava desapercebida no meio dos outros mais fortes e mais capazes que, curiosos, maliciosos, oportunistas ou enfermos, seguiam 
Jesus em busca de seus favores.
- Mas voc, Josu, no teve como ajudar essa mulher? -perguntou o amigo que ouvia com ateno o relato do mais jovem. Talvez se voc gritasse para algum ajudar 
a mulher...
- E voc pensa que eu no o fiz? Esgoelei at ficar rouco, mas quem me escutou no meio daquele alvoroo? Todos falavam, gritavam o nome de Jesus, contavam o seu 
caso, o seu problema, pediam ajuda em altos brados. Simo tentava proteger Jesus e os outros escolhidos do Mestre se acotovelavam  sua volta como se quisessem guardar 
a jia rara para que ningum lhe aambarcasse ou se apossasse de sua beleza. Jesus mesmo no se importava tanto com o tumulto e parecia se deixar levar pelos amigos 
nossos sem protestar, mas tambm sem desejar afastar-se da multido. Foi a que o mais interessante aconteceu. - O que foi, Josu? Voc est me deixando curioso 
com essa conversa.
- Sabe, Zacarias, eu acho queJesusme escutou... - disse Josu meio tmido diante da curiosidade com que o amigo o fitava.
- A sua gritaria, que mais ningum ouviu, voc acha que Jesus escutou? - perguntou Zacarias sem entender.
- No, Zacarias, a gritaria no, pois ele j tinha passado e estava envolvido pelo tumulto.
- Ento o que  que Ele escutou?
- Bem, olhe, o que eu vou falar no  para voc pensar que eu estou desejando me tornar importante, mas foi uma coisa to interessante que estou lhe contando, para 
que voc observe e tente fazer como eu fiz para ver se d certo.
Bem, eu estava com o corao muito entristecido com a desgraa daquela pobre velhinha desesperada e esquecida, mas me lembrara que ouvira Jesus dizer que Deus escuta 
todas as nossas preces ditas com o corao. Voc sabe, desde os velhos tempos as nossas oraes sempre foram feitas na sinagoga e diante dos sacerdotes frios e indiferentes, 
apenas preocupados com os rituais e cerimnias. Por isso, nunca tinha imaginado at que ponto Jesus estava querendo chegar quando nos ensinou a conversar com Deus 
como se ele fosse nosso Pai querido. Nessa hora, pela primeira vez, lembrei-me dos ensinamentos do Mestre e, como ainda no havia guardado de cabea a orao que 
ele nos havia ensinado, levei meu pensamento ao nosso Pai e comecei a falar-Lhe mentalmente da desgraa daquela velhinha. E o tumulto ia seguindo seu trajeto e eu 
conversava com Deus pedindo ajuda para aquela mulher incapacitada de seguir em busca de sua esperana. Ao mesmo tempo em que me dirigia a Deus falando dela, meus 
pensamentos falavam na direo de Jesus e eu me lembro de dizer:
- Mestre, uma velhinha aqui perdida e enferma no teve condies de chegar at voc e eu mesmo no pude chegar at onde ela est. O Senhor, que  to generoso, pea 
por ela ao nosso Pai, a fim de que ela melhore porque eu sou muito miservel para que Deus me escute, mas meu corao pede que eu faa alguma coisa... - era mais 
ou menos isso que me lembro de estar dizendo.
- E a, Josu, o que aconteceu?
- Bem, meu amigo, alguma coisa aconteceu e eu no sei explicar por quais mecanismos se deu. Enquanto eu pedia, escutava o tumulto ir adiante, levando Jesus no seu 
rumo incerto ao destino que o aguardava. Todavia, depois de alguns minutos, passei a escutar que a confuso estava voltando e o barulho aumentava em meus ouvidos.- 
Sim, eu me lembro que Jesus parou e resolveu regressar, para espanto dos prprios amigos que estavam  sua volta que lhe diziam que o caminho era para frente - disse 
Zacarias.
- E eu, que continuava sobre o morrinho durante meus pensamentos, pude observar que Jesus voltava e se encaminhava diretamente para o lugar onde a velhinha estava. 
No acreditava no que estava vendo. Era muita coincidncia e, para mim, no sabia se aquilo era fruto de minhas preces. Ser que j era a resposta de Deus ao meu 
pedido? Ser que Jesus escutava meus pensamentos? Eu no sei e ainda estou pensando nisso tudo. No entanto, o certo  que Ele voltou-se para a mulher que, agora, 
ajoelhada aos seus ps, no sei se por fraqueza ou por emoo, chorava ainda mais. Jesus colocou a sua destra sobre seu cabelo sujo e despenteado, ergueu os olhos 
para o cu e, como se estivesse falando com algum invisvel, parecia se deixar envolver por uma claridade diferente da luz do dia. Os que estavam ao seu lado, no 
empurra-empurra, ficaram estticos e eram incapazes de pronunciar um simples monosslabo. As mesmas pessoas que viram a mulher aflita e passaram por ela sem nada 
fazer, agora cercavam-na como se ela lhes fosse uma parente querida. No pude conter minha emoo, diante daquela mulher aflita que Jesus atendia com desvelo e verdadeiro 
Amor. As lgrimas chegavam-me aos olhos e caam em minha roupa na gratido a Deus por toda a ajuda que havia mandado quela criatura desventurada. Depois de alguns 
minutos rpidos, durante os quais, acredito, Jesus desejava acalmar o povo com a orao que fazia por aquela mulher, tomado de um jbilo especial, o Mestre abaixou-se 
e, com muito cuidado, levantou a velhinha do solo poeirento. A pobre desvalida no sabia como reverenci-lo, mas suas palavras eram cheias de vida e bnos quele 
a quem chamava de Profeta. Suas vestes, seus cabelos, seus braos frgeis continuavam os mesmos, mas de seus olhos apagados pelo tempo brotaram nova chama de esperana 
que a tornava uma outra pessoa aos que a haviam visto anteriormente.
- Eu me lembro dela, Josu, e para mim, era apenas mais uma anci que Jesus atendera e melhorara de suas dores antigas - falou Zacarias, referindo-se s inmeras 
curas que o Mestre j havia feito e que se tornavam quase uma rotina em suas caminhadas.
- Eu j estava feliz com a sua melhora e meu corao exultava de alegria pela alegria da velhinha que, pela fora que passara a demonstrar parecia ter rejuvenescido. 
Escutei sua voz pela primeira vez de onde eu estava e pude ouvir-lhe a promessa: "Profeta, eu te prometo que desta bno que recebi muitos miserveis como eu tambm 
se beneficiaro. De hoje em diante, enquanto eu tiver vida neste corpo velho, darei comida na porta de meu casebre a quem tiver fome e direi a todos que fao por 
amor a ti, Filho da Bondade. Nem que for um pedao de po pobre, rogarei a Deus me conceda a possibilidade de ajudar para espalhar a bondade que recebi".Escutei 
Jesus abenoar-lhe o projeto de transformao interior e de servio aos que sofriam com um sorriso de serenidade e despedir-se daquela criatura.
Parou um pouco a narrativa para cobrar flego e controlar a emoo que o fazia chorar novamente ao simples efeito da lembrana de tais fatos. Zacarias tambm aguardava 
a continuidade do relato, igualmente emocionado com o gesto da anci e a emoo do prprio amigo.
Alguns segundos depois, secando as lgrimas do rosto que insistiam em cair, Josu continuou:
- Depois de despedir-se da velhinha, Zacarias, parece que o momento de magia se desfez e o povaru voltou  condio anterior, no aperta-empurra inconsciente e desesperado. 
Os apstolos voltaram ao caminho e Jesus voltou a ser conduzido. Todavia, a emoo maior deste dia que eu pensava ter sido o atendimento daquela nossa irm, Zacarias, 
estava para ocorrer da a alguns instantes.
- O que foi de mais emocionante, Josu? - estava Zacarias hipnotizado pelo relato das belezas de Jesus que o amigo lhe fazia.
- Sabe, Zacarias, o mais emocionante para mim  que, quando a multido voltou ao rumo anterior, retomando o caminho, eles todos tiveram que passar por onde eu me 
encontrava, j que ficara esttico e imobilizado pela emoo em cima do montinho que me acolhera. E quando o Mestre passou por onde eu estava, seus olhos faiscantes 
se encontraram com os meus, apagados e pobres, e no sei se de seus lbios ou se de seu esprito, mas eu sei que ele me olhou e meus ouvidos escutaram a sua voz 
que me disse:
- "Josu, obrigado por ter pedido por ela!".
Voltando a chorar enquanto falava desse momento, Josu continuou:
- Zacarias, Ele me chamou pelo nome...Ele me agradeceu por ter me preocupado com aquela velhinha intil e pobre. Mas como pode ter sido isso se ningum mais sabia 
que eu havia feito uma orao e pedido a Ele que atendesse a pobre da mulher esquecida? - perguntava como se falando sozinho o jovem Josu, que se achava indigno 
de ser notado, ainda que estivesse no meio dos 70 seguidores mais prximos.
- Que coisa linda, Josu - respondeu o amigo, tambm emocionado. Jesus escutou seu chamamento porque partiu de um corao puro e cheio de compaixo, coisa rara no 
meio das criaturas de hoje, que querem sempre receber as bnos do Alto sem se erguerem a nveis mais elevados. Estou certo de que sua orao chegou a Deus
e, como seu Filho Amado estava to prximo da irm infeliz, o Pai deixou que Ele escutasse sua rogativa e atendesse sua splica.
      - Mas voc acredita que nossas oraes so escutadas assim to rapidamente? - perguntou Josu, entre inocente e surpreendido pela compreenso generosa do amigo 
Zacarias.
      - Sempre que oramos com confiana, na sinceridade dos propsitos de ajudar quem sofre e na pureza de um corao bondoso como o seu, estou seguro de que a resposta 
no tarda a chegar. Foi por isso que Jesus fez questo de dizer-lhe que Ele atendeu a mulher por causa do seu pedido. Se Ele no lhe tivesse falado, voc no saberia 
do poder que uma simples orao possui para mudar o trajeto das coisas.
      - Mas eu nunca pensei que Deus escutasse a orao de um qualquer como eu e que Jesus fosse se dirigir a mim chamando-me pelo meu nome... - admirou-se Josu 
com sinceridade. Afinal, Zacarias, so muitas pessoas que andam  sua volta. Imagine se d para algum guardar os nomes desse amontoado de pessoas que se esforam 
para seguir seus passos. Nem sempre so os mesmos, um dia falta um e vem outro, no outro dia as coisas se invertem... Eu mesmo nunca dirigi minha palavra a Jesus 
nem fiquei por perto dele quando ensinava o povo. Ao contrrio, me metia no meio dele para escutar como mais um que o admira e o ama com verdadeiro afeto e desprendimento. 
Nessas horas ficava pensando nos meus pais e irmos que, l em nossa cidade, no compreenderam minhas necessidades de elevao quando decidi deix-los para ir ao 
encontro do Messias. Para voc, Zacarias, a escolha no envolveu as presses familiares, pois voc era sozinho, abandonado pela mulher, sem filhos, com poucos amigos. 
No quero, com isso, diminuir o seu mrito por deixar as coisas do mundo para seguir as pegadas de Jesus. Quero apenas ressaltar que, no meu caso, eu possua o peso 
da famlia que me cobrava uma conduta de acordo com os costumes de nossos antepassados. No estava livre para decidir por mim mesmo, pois a tradio nos impunha 
um dever de servir ao velho pai, agora que estava na condio adulta e tinha mais foras fsicas do que ele prprio. Meus irmos, do mesmo modo, no aceitavam minhas 
escolhas interiores porque faziam da religio apenas um artigo de exerccio temporrio e transitrio, quando as coisas no iam bem, quando os negcios no se realizavam 
a contento, quando os ganhos diminuam. Ainda assim, me deixei arrastar por essa fora incoercvel que me empurrava para o caminho do Messias, o que me custou a 
humilhao de ser deserdado, de perder os benefcios de qualquer recurso material, de ter sido banido do seio da famlia e de receber a maldio de meu pai, incapaz 
de entender o contedo da mensagem do Mestre e perdoar ou compreender minhas prprias necessidades.
Seguia Josu contando sua histria e de como se comportava
quando estava no meio da multido que escutava as prdicas do Divino Amigo, embevecida com as notcias do reino da Verdade e do Amor:
      - Sentado no meio do povo, escutava o Mestre falando e pensava nas minhas prprias experincias de dor e sofrimento, entendendo que deixara uma famlia de 
sangue em troca da grande famlia dos desventurados da Terra, muitos dos quais estavam ali, ao meu lado, sentados sobre o solo seco, escutando as mensagens que eram 
o orvalho de Deus em nossas dores.
      -  verdade, Josu, a mensagem do Mestre  como uma gota de gua na secura de nossas gargantas. O que voc menciona  a mais pura realidade, pois comigo aconteceu 
da mesma maneira. Eu carregava meu peito com a mgoa de minha mulher, por ter me trado com um homem bem mais jovem, que sequer pude conhecer para ir tomar satisfao 
pessoalmente, como o sedutor de minha mulher. Depois de vrios anos em que procurei dar-lhe o que de melhor me permitiam a sade e o trabalho, Judite foi flagrada 
na situao deprimente e, apesar de no ter exercido o direito de tirar-lhe a vida como a lei me possibilitava, dei-lhe a liberdade para, depois, ver-me encarcerado 
nas grades do rancor, da mgoa. Muitas vezes pensei ter agido mal e que deveria ter realizado o ato nefasto de tirar-lhe a vida para aliviar meu interior. Todavia, 
depois que encontrei Jesus, entendi as fraquezas de meus semelhantes por encontr-las em mim tambm. Entendi as necessidades da jovem Judite, sua nsia por demonstraes 
afetivas que julgava serem necessrias para a felicidade, algo que um homem mais amadurecido como eu no lhe propiciava, fosse nas emoes fortes que seus desejos 
pleiteavam, fosse no simples gesto de carinho e ateno que nossas tradies mataram dentro de ns por causa de uma conduta religiosa torpe e egosta. Entendi que, 
como um faminto tem no estmago a poderosa alavanca que o empurra para o furto de comida, Judite possua no ntimo a insatisfao que a forava a buscar aquilo com 
que acreditava saciar-se. No lhe valia mais meu afeto, minhas atenes e cuidados que eu achava serem grandes o suficiente para se considerarem normais como os 
da maioria dos casais que conhecia. Iludida pelo jogo dos sentidos, Judite deu ouvidos s exigncias da emoo, do mesmo modo que o faminto no se v saciado por 
conselhos: agiu para saciar sua carncia. Agora, depois que conheci a grandeza da mensagem de Jesus, passei a entender seus motivos e, mais do que isso, passei a 
ver em mim mesmo coisas que eu achava naturais, mas que, agora, percebo terem sido equvocos de conduta que nossos costumes tratavam com normalidade, mas que, no 
fundo, eram escravizao daquelas que acreditamos ser inferiores aos homens.
Josu ouvia com carinho os desabafos do amigo Zacarias que, por primeira vez, descia aos detalhes de sua tragdia pessoal e de seu passado pouco conhecido.
     - Sim, meu amigo querido, tratamos as mulheres com desprezo por causa de um maldito pecado original que as tradies religiosas dizem termos cometido por causa 
delas, nos tempos do velho Ado. Mas como lhes deixar o peso de terem fracassado nas tentaes do fruto proibido nas belezas do jardim do den, sem assumirmos nossa 
culpa nisso tambm? Porque Eva  culpada por um escorrego e os homens se do o direito de seguirem escorregando por todos os sculos que vieram depois e nunca se 
julgam culpados? Quantas quedas os homens cometeram, a quantas tentaes se entregaram desde ento, quantas mulheres alheias seduziram, quantos filhos engendraram 
nos ventres inexperientes, envolvidos por suas teias de promessas e benesses jamais cumpridas? Por que a pobre Eva deve merecer o dio ancestral sem que os homens 
se dignem conduzir-se por caminhos retos? Ser que Eva era o mal exclusivo e o homem o ingnuo companheiro, bonzinho, generoso e enganado cruelmente? Ou ser que 
trazia tambm o ponto fraco das fragilidades morais que o fizeram aceitar o convite da mulher iludida pelas promessas da serpente? Se fosse melhor do que ela, ter-lhe-ia 
esclarecido o equvoco e impedido que ela casse no mal. Se o homem fosse melhor do que a companheira no paraso, ao invs de ter-lhe seguido os passos claudicantes 
e aceitado a proposio, trataria de tirar-lhe da idia o sentido da traio e a educaria para transform-la para melhor. Todavia, no foi isso o que ele fez. No 
se sabe se, encantado pela proibio do fruto ou pelas curvas sedutoras de Eva, o certo  que Ado se demonstrou to despreparado e censurvel quanto a mulher. E 
o que  mais grave e ningum fala  o seguinte: Eva foi seduzida pela serpente, que na tradio religiosa seria a corporificao do mal, astuto, experiente nos processos 
de aliciamento, perigoso inimigo que sabe como conquistar a confiana dos que o escutam. Eva, por mais experiente que fosse, estava diante de um oponente de peso 
e com conhecimento de sua tarefa de criar iluses.
      Todavia, Ado no passara por este teste difcil. Ado foi envolvido pelas argumentaes de Eva, a ingnua criatura que compartilhava com ele das alegrias 
do paraso. Assim, podemos perguntar a ns mesmos quem  mais culpado pelo erro: a criana que cai nas tentaes e armadilhas que a astcia produziu em seu caminho 
como ocorreu com Eva, ou o adulto que se tem em conta de sbio, experiente, srio (como pensamos de ns mesmos, herdeiros de Ado), mas que acaba convencido pela 
palavra de uma criana e vai com ela em vez de retir-la do erro?
Assim, Josu, nossa conduta para com as necessidades das nossas irms est muito distante da correo e, em face de nossa promiscuidade tida como um quase direito 
da masculinidade, temos induzido as mulheres aos crculos mais degradantes para, logo depois, culp-las pelo pecado original com direito ao apedrejamento. Produzimos 
a fome em seus coraes, oferecemos comida para que satisfaam suas necessidades e permaneam sob nosso controle e, depois que nos saciamos, as acusamos de glutonas, 
de pervertidas, de mulheres de m vida.
      E que dizer dos homens que as buscam para satisfazerem seus apetites mais torpes? No os mantm a indstria da torpeza com os recursos que possuem? Por que 
no se satisfazem com a elevao de seu carter na troca de afeto com as companheiras que escolheram para seus destinos? Por que buscam as aventuras clandestinas 
para apimentarem suas sensaes? Onde esse Ado virtuoso, pobre vtima de uma Eva tentadora? No  o que nossa civilizao tem visto por a. Os Ados de hoje parecem 
mais a serpente da fbula e as Evas atuais parecem mais escravas sem escolha, sem vontade, sem direito, vivendo das migalhas e misrias que os homens lhes endeream.
      E digo tudo isto depois de muito refletir sobre minha prpria conduta nos idos de minha juventude e depois com a construo frustrada de meu lar. No levanto 
tais crticas contra os outros. Fao-as contra mim mesmo que, hoje, percebo o peso injusto que colocamos nos ombros das nossas mulheres, ao mesmo tempo em que tudo 
nos permitimos na falsa moralidade que criamos, com base nas histrias lendrias de nosso povo.
     Se tivesse escutado mais as necessidades de Judite, se a tivesse Iratado com verdadeiro carinho, esse carinho que estamos aprendendo .1 dedicara velhinhas desconhecidas, 
crianas desamparadas, ancios desvalidos e que nos so desconhecidos da alma nesta jornada, talvez a companheira no se tivesse deixado levar pela nsia de seus 
sentidos, porque estou seguro que, na queda de Judite como na queda de qualquer mulher existe sempre um ou mais homens que merecem ser responsabilizados tambm. 
No foi somente o jovem que lhe ofereceu as emoes da novidade, entremeadas por palavras de doura e elogio to ao gosto dos coraes carentes. Eu tambm assumo 
a responsabilidade por sua queda, pelas condutas indiferentes que tive para com seus anseios de carinho, por no lhe ter falado mais sobre as belezas de suas virtudes, 
por no ter sido mais generoso com suas pequenas necessidades e caprichos, por no lhe ter concedido aquilo que ns estamos aprendendo a conceder aos que nos rodeiam, 
graas aos exemplos de Jesus: compreenso, compaixo, companheirismo.
      No que Judite no tenha falhado ao fazer o que fez. Creio que todo o tipo de traio  queda que precisar ser retificada de um modo ou de outro. Todavia, 
aprendi a ver a culpa dos homens tambm.
      O jovem com quem desertou aproveitou-se da carncia para preench-la com sua maneira de ser.
      E eu produzi a carncia em seu corao quando poderia ter feito diferente.
Tanto ela quanto eu temos culpas a expiar.
      Zacarias no conseguia mais falar diante de to pesadas lgrimas que desciam de sua face, por reconhecer a prpria responsabilidade na queda de sua esposa, 
e Josu, tocado de compaixo por aquele irmo envelhecido pelas dores do corao, afagou-lhe a cabea num gesto fraterno e se lembrou de Jesus, numa orao pelo 
amigo Zacarias.
      Afinal, daquele dia em diante, Josu sabia que o Mestre o escutava nas preces em que seu corao sincero pedia ajuda pelos que sofriam.
   "o governo romano da Judia, nesse perodo do ano 32, estava instalado o nosso personagem conhecido por Pncio Pilatos, casado com uma virtuosa romana, Cludia, 
cuja nobreza de carter no era capaz de inspirar no marido maiores transformaes em sua conduta masculina e de homem pblico, uma vez que sua estrutura interior, 
arraigada s tradies e ao orgulho de seu posto, impediam que se julgasse necessitado de alguma corrigenda ou transformao.
      Na cidade de Jerusalm, a capital da provncia, Pilatos estabelecia seu escritrio de comando central, ainda que tivesse, fosse em Cesaria fosse espalhada 
por toda a Palestina, outros postos importantes de qoverno, casas de veraneio, lugares aprazveis por onde perambulava em diversos perodos do ano, com a desculpa 
oficial de inspecionar o territrio sob sua jurisdio, mas com a inteno pouco dissimulada de estabelecer seu trfico de interesses inferiores, tanto nos negcios 
comerciais quanto em suas aventuras amorosas.
Em que pese a sua capacidade administrativa, era ela suplantada pelo descaso com as coisas pblicas, as quais deixava sempre  merc das correntes locais, sob o 
governo de Herodes e sob a vigilncia fiel dos sacerdotes judeus, igualmente hbeis negociantes da f.
      Estabelecera um sistema de interesses compartilhados atravs dos quais recebia favores e bens em troca de uma certa liberdade que permitisse aos judeus manterem 
seus negcios em funcionamento, de acordo com suas regras e costumes mesquinhos.
      Havia, assim, um conbio esprio que desnaturava a funo do procurador da Judia como representante de Csar e mantenedor da ordem comum dentro dos padres 
romanos de justia e civilidade.
      Para manter-se  frente de tal sistema, contava ele com a ajuda fiel de diversos assessores que igualmente recebiam a sua parte para que a mquina pudesse 
funcionar.
As aes de governo, na proteo dos interesses do Estado e da

garantia da integridade das pessoas privilegiava, antes de tudo, a sua condio social e as suas posses e influncias dentro do sistema de foras ilcitas que se 
movimentavam ao redor do poder central.
      Pessoas humildes no possuam razo, mesmo quando injustamente vitimadas se, do outro lado, estivesse a pessoa de um abastado judeu, de um sacerdote, de um 
fariseu influente e astuto que, com suas artimanhas procuravam sempre retirar maiores vantagens de tudo e de todos os que possussem coisas que eles cobiassem.
      Todo este processo, fraudado pela imperfeio dos homens e pela predominncia de seus interesses, era algo que no chegara diretamente ao conhecimento de Tibrio, 
mas que, em funo das diversas rotas comerciais e dos processos de transmisso das notcias naquela poca, atingia os crculos do poder romano, produzindo maior 
ou menor espanto, mas classificadas como mentiras espalhadas pelos judeus para enfraquecer o poder imperial na direo de seus destinos.
As autoridades imperiais e pessoas influentes que procuravam manter Pilatos no lugar importante de procurador de Tibrio em Jerusalm no mediam esforos para advogarem 
a defesa do governador, alegando tratar-se de notcias mentirosas, plantadas pela astcia dos hebreus para desestabilizar a autoridade, ao mesmo tempo em que diziam 
que, por observarem tais reaes dos povos governados se poderia imaginar que a postura do governador estava lhes contrariando muito os interesses pessoais.
      Eram os velhos processos interpretativos que, distanciados dos fatos verdadeiros no poderiam produzir maiores definies porque eram deturpados por todos.
      Todavia, desde alguns meses, Pilatos passara a preocupar-se de maneira acentuada, eis que um correio de Tibrio lhe trouxera a indicao de que um senador 
de tradicional famlia estaria aportando em breves dias na regio e que possua poderes to amplos quanto os dele prprio e que os usaria para averiguar todo o sistema 
administrativo, como se fora um fiscal, com livre acesso a todos os documentos e processos.
      Isso produzira em Pilatos uma acendrada preocupao, que fora compartilhada com os seus mais chegados e o obrigara a maquiar todo o processo descarado de desmandos 
administrativos, ocultando-os, suspendendo temporariamente as atividades suspeitas, empurrando para debaixo do tapete da clandestinidade todos os indcios que pudessem 
ser indicadores de tais impudiccias.
      Naturalmente receberia o senador com todas as honras mentirosas e lisonjeiras para conquistar-lhe a confiana, procurando demonstrar que tudo estava correto. 
Dar-lhe-ia condies para sentir-se em sua

prpria terra, com luxo e conforto para que no impedisse a concretizao de seu projeto de amplo enriquecimento, para retirar-se da vida pblica em excelentes condies 
e gozar uma velhice respeitvel no seio dos romanos da capital do Imprio.
      Ao lado de sua caracterstica venal, possua uma personalidade extremamente vaidosa e muito ligado aos prazeres fsicos que a excelncia de sua posio lhe 
facilitava conseguir, na explorao da favorvel condio de governador e poderoso representante do Imprio que decidia os destinos de todos. Muitas jovens de beleza 
especial e que inspiravam seus desejos nunca saciados conheceram a intimidade de suas cmaras palacianas, sempre sob os olhos atentos de seus asseclas, que tudo 
faziam para agradar seu senhor e continuar gozando das facilidades que a proximidade do poder lhes garantia.
      Inmeras jovens filhas hebrias, cuja beleza encantasse o procurador, eram assediadas e, por fim, acabavam se deixando levar para a alcova do governador sendo, 
depois, remuneradas com presentes e valores com os quais calavam a conscincia e conquistavam o silncio da prpria famlia ultrajada que, recompensada materialmente, 
no se animava a expor-se perante to poderoso governante, capaz de destruir-lhes o pouco equilbrio material que possuam com confiscos, banimentos e assassinatos 
covardes, na calada da noite, como j ocorrera inmeras vezes.
      Mas no s na raa judia se encontravam vtimas do poder de seduo ou de convencimento exercido por esse sistema de facilidades. Inmeras romanas, emigradas 
da capital ou do Imprio, se sentiam honradas em serem cortejadas pelo procurador de Tibrio e ostentavam tal condio com o orgulho que apontava para a superioridade 
de seus dotes em relao aos das demais.
      No esprito feminino, acostumado muitas vezes s disputas da emoo, s tertlias da conquista, imaginando que tais vitrias representam superioridade sobre 
as outras mulheres, estar sob os lenis do leito de Pilatos significava a preferncia do mais importante mandatrio e, por isso, muitas romanas, mesmo casadas ou 
comprometidas aceitavam de bom grado - quando no se ofereciam insinuantes -a corte que lhe fazia o procurador, acostumado  facilidade na satisfao de seus desejos 
inferiores.
      Tal ausncia de barreiras morais lhe tornava comum o abuso dos sentidos fsicos e as trocas de companhias j que, uma vez tornadas usuais e atingida a conquista 
desejada, perdia-se o interesse por mant-la.
Pilatos, com isso, foi se tornando um homem enfraquecido na emoo e sem capacidade de reger seus prprios mpetos, acostumado a conseguir sempre o que almejava 
sem ser contrariado por ningum.
      No entanto, em face de tais peculiaridades, seguia sendo cobiado por muitas moas ou senhoras que nele viam o poder que lhes preencheria o vazio de aventuras 
importantes numa terra to inspida de emoes ao estilo da grande capital imperial que se ia perdendo na devassido dos costumes.
      Orgulhosa e sem maiores pendores para os comportamentos respeitosos, Flvia, cunhada de Pilatos, era o prottipo desse tipo de mulher, irresponsvel diante 
das aventuras e cnscia de sua beleza e juventude que parecia lhe granjear todas as portas de acesso aos patamares mais elevados do poder.
      Casada com Slvio por causa de interesses comuns, desde cedo deixou bem claro ao consorte que no se satisfaria com a vida acomodada da tradio patrcia, 
afeita aos trabalhos caseiros e  criao da prole, sempre numerosa, para garantir a descendncia e a perenidade do Imprio.
      Desejava festas e recepes, divertimentos e prazeres. Slvio, que era um homem fraco para as coisas afetivas e materiais, houvera sido o foco de um grave 
escndalo que explodiu nas altas camadas da sociedade Romana e lhe custou o cargo pblico que exercia. Tendo sido destitudo de suas funes, fora relegado a um 
posto administrativo inferior, como forma de humilhao e acabou desterrado para longnquas paragens como era comum se observar na prtica administrativa romana.
      A sua unio com uma jovem de provocante beleza foi a maneira de afrontar os demais e fazer-se invejado pelos outros homens, vingando-se deles com a ostentao 
de uma mulher cobiada por todos eles, ainda que, para isso, tivesse que suportar as vaidades, interesses e desejos interminveis de Flvia.
      Ela aceitara a negociata com a condio de estar sempre cercada de conforto e de fazer o que desejasse, desde que, naturalmente, aceitasse fazer o papel da 
esposa de Slvio sempre que este desejasse exp-la como precioso trofu de sua capacidade sedutora.
      Assim, valendo-se da favorvel situao que sua irm, Cludia, esposava como consorte do procurador da Judia, no foi difcil para Flvia aceitar transferir-se 
para a Palestina e acercar-se da ribalta do poder romano, insinuando-se por entre os convidados e cortesos, conquistando os mais importantes, produzindo situaes 
de seduo, sem considerar a dignidade da prpria irm, at chegar ao leito do cunhado, que se deixou levar pelas diatribes da mulher experiente e acostumada  flacidez 
dos costumes, to diferente de sua irm.
      Pilatos se deixou encantar pela cunhada e, apesar de saber de seu consrcio com Slvio e da filha comum que geraram com a unio, estabelecera um comrcio fsico 
dos mais intensos com a exuberante Flvia, que se tornou uma de suas amantes preferenciais, o que a enchia de jubiloso orgulho.
      Os subalternos e cmplices do governador sabiam de todos estes envolvimentos e tratavam-na com certo respeito, pois a tinham em conta de mulher perigosa, cheia 
de caprichos e capaz de interferir para ajudar ou prejudicar quem quer que fosse. Mais do que respeito, tratavam-na com o receio prprio dos fracos que se vergam 
para no se verem atacados.
      Por isso, Flvia se sentia no direito de exercer algum poder na sombra de Pilatos, a quem sabia comprar sempre com os seus favores fsicos e carinhos quando 
ele se via irritado com sua maneira arrogante de interferir nas suas decises.
      Alis, Pilatos sofria muito quando tinha de tom-las. Apesar de estar no posto mais alto para toda aquela regio, sua personalidade tbia se via em dificuldades 
para resolver sobre questes importantes que envolvessem os interesses de pessoas que tinha como suas aliadas ou comparsas.
      Para tratar do povilu desprotegido e sem voz na sociedade, era duro e inflexvel cumpridor das determinaes dos cdigos romanos ou dos costumes locais.
Todavia, bastava que lhe aparecesse uma disputa entre dois de seus aliados nos procedimentos esprios para que Pilatos se perdesse na dificuldade de decidir, pois 
a nenhum dos dois desejava contrariar.
Sabia de sua ligao com ambos e de sua dependncia moral e material de toda a teia que eles tambm ajudavam a manter.
      Contrariar a um deles seria prejudicar seus prprios interesses e correr o risco de romper o tecido delicado de suas alianas locais.
      Por isso, sempre procurava compensar a perda de algum privilgio concedendo outro privilgio para agradar o prejudicado, o que demonstrava a sua fraqueza perante 
todos os que dirigia.
      Raramente tomou uma deciso dura e manteve-se nela at o fim, custasse o que lhe custasse, desde que isto estivesse envolvendo pessoas importantes.
      Todos os homens que o conheciam sabiam dessa peculiaridade, fruto dos problemas decorrentes da cumplicidade com o erro.
      Flvia tambm sabia tanger as cordas da fragilidade afetiva e de personalidade de Pilatos, pois o conhecera na intimidade.
Sabia-o um homem descontrolado quando irado, capaz de atrocidades e sandices indescritveis, ao mesmo tempo em que sabia como agrad-lo para conseguir o que queria, 
tornando-o um verdadeiro cordeiro nos momentos em que, com experincia, tangia as cordas certas na vaidade do homem de Estado romano.
      Preocupava a Pilatos a chegada de Pblio Lentulus, da mesma forma que incomodava a Flvia a sua prxima vinda  Palestina, pois nos idos de sua vida na capital, 
Roma, mantivera um desejo ntimo de acercar-se do senador, sobrinho de Slvio, seu marido.
      A chegada da famlia Lentulus seria um momento muito especial para a vida de todos os que ali se achavam acostumados aos atalhos da retido, nos quais se permitiam 
todos os excessos dos sentidos e prazeres.
      No sabiam todos que o objetivo primordial do senador era conseguir o tratamento e a melhora de sua pequena Flvia e, to logo reunisse todos os informes oficiais 
e extra-oficiais que Tibrio lhe houvera encomendado, regressaria a Roma onde deixara todos os seus negcios e sua carreira pblica pendentes, sob os cuidados do 
amigo Flamnio.
      Assim, no demorou a que a famlia do senador aportasse na Palestina, onde a esperava a corte militar que Pilatos houvera preparado para receb-la com todas 
as honras oficiais, com a finalidade de impressionar seus integrantes e conduzi-los com segurana a Jerusalm, de onde seriam tomadas as medidas necessrias ao exerccio 
de sua tarefa pblica, desde os arranjos bsicos para sua hospedagem, a qual, pretendia Pilatos, fosse em sua prpria casa como forma de melhor controlar os movimentos 
do senador.
Slvio Lentulus, o tio de Pblio, igualmente ofereceu a sua moradia como representante exclusivo da gens Cornei ia nas paragens orientais, tambm induzido a faz-lo 
pelos conselhos sutis de Flvia, que tanto desejava estar prximo de seu cobiado objetivo de conquista, no passado.
      Assim, as teias do destino comearam a se formar ao redor das personagens desta histria, enquanto que, ao longe, Jesus e seus seguidores tratavam de espalhar 
a semente da bondade no corao dos homens, semente essa que faria muita falta no dos que se achavam agora aproximados pelas necessidades evolutivas de cada um.

      A chegada da famlia romana  Palestina produziu efeitos muito diferentes em todos os espritos.
Pblio no se apercebera dos meandros negativos que ali estavam enredando aquelas almas e se mantinha muito mais ligado aos seus deveres de enviado de Csar do que 
 avaliao dos problemas humanos que teria pela frente junto das pessoas que o rodeavam.
      Lvia, sua esposa, muito mais sensitiva e preparada para a percepo sutil das realidades invisveis, ao contrrio, imediatamente se deu conta das dificuldades 
que teria de enfrentar, seja na companhia daquela Flvia irreverente e sem o menor tato no tratamento dos visitantes, seja em decorrncia da proximidade de Pilatos, 
cujo esprito desafiador e arrojado na questo afetiva se lhe impunha como adversrio ferrenho.
      A presena de Flvia, a pequenina leprosa, junto de seus pais na Judia daqueles tempos, fora uma triste e desagradvel surpresa, que fizera de sua estada 
em Jerusalm um verdadeiro martrio moral.
      Ainda que a criana tivesse acusado muita melhora ao contato com aquelas novas paragens, sua condio de enferma no poderia ser ignorada pelos olhos que a 
divisassem, eis que era flagrante o seu comprometimento orgnico.
      E ainda que o pretor Slvio se mantivesse controlado diante da situao da menina, evitando demonstraes de repulsa cruel, sua esposa, pouco disposta ou pouco 
acostumada a conter-se nas demonstraes de sua voluntariedade, inmeras vezes fez menes diretas ou veladas acerca dos problemas que Flvia possua e que lhe causavam 
incmodo, fosse por causa de sua pequena filha, fosse por sua prpria causa, temerosa de se ver contaminada por tal enfermidade.
      Valendo-se dos momentos em que o sobrinho de seu marido no se encontrava, Flvia se mantinha distante da nobre visitante, quando no se dirigia a ela de maneira 
spera e quase agressiva.
      Lvia aceitava tais manifestaes no sem sentir a decepo natural em face da inocncia da filha doente e do fato de entender o medo que a mulher que os recebia 
ostentava. No entanto, evitava relatar ao marido tais ocorrncias a fim de no levantar qualquer antagonismo em seu esprito, sempre mais irritvel e prximo dos 
padres orgulhosos de seu tempo.
      Mas nada disso se comparava ao risco que a presena do procurador da Judia infundia em seu esprito.
      A mulher do senador, desde que chegara a Jerusalm e fora apresentada ao governador, produzira nele uma estranha sensao de euforia, atribuda, inicialmente, 
ao fato de ser recm-chegada da capital e, juntamente com seu marido trazer notcias frescas da vida romana e de possurem cabedais culturais que no eram comuns 
em regio to hostil.
      Todavia, o encantamento que Pilatos sentiu por Lvia tinha outras causas reais.
      Falava aos seus instintos a beleza diferenciada daquela mulher simples, discreta, to diferente de todas as outras que por ali eram encontradas para servirem 
aos seus caprichos.
      A novidade despertava a curiosidade, e esta empurrava para a aventura da conquista. A presa em sua mira era algum de elevado conceito e de to elevada formosura 
que se afigurava um trofu que no poderia desprezar, na sua galeria de conquistas.
      Entretanto, o encantamento exterior lhe fazia supor que aquela ser-lhe-ia a mulher ideal para estar ao seu lado, j que infundia em sua alma a sensao de 
euforia juvenil, desde h muito esquecida pelo contato rotineiro com sua plcida esposa e, da mesma forma, desgastada pelo sucessivo exerccio com mulheres insossas, 
sem atrativos elevados e mais nobres.
      No entanto, todos estes sentimentos contraditrios e intensos que brotavam em seu esprito pela simples aproximao daquela mulher discreta e valorosa tinham 
sua raiz no nos excessos masculinos de Pilatos e na permissividade com que se deixava governar pelos prazeres.
      Era decorrncia das experincias anteriores j vivenciadas, nas quais o mesmo esprito que, ento, se encontrava na Palestina como Pilatos, estivera em terras 
do Egito vestindo outro corpo fsico em sculos anteriores, guardando ele a sensao de desejo profundo por aquela mulher que, tambm tendo vivido nos mesmos tempos 
do passado, produzira o desejo intenso de t-la sob seu poder.
      Isso havia ocorrido quando ambos tinham estado nas paragens africanas onde a civilizao egpcia do novo Imprio, o ltimo fulgor da epopia desse povo domesticador 
das rochas e desafiador das ;idversidades, propiciara a estas duas personagens o cenrio para o desenvolvimento de suas experincias evolutivas.
      Pilatos, ento encarnado sob o nome de Horaib, era detentor de recursos acumulados por sua conduta ilcita junto s autoridades (jovernamentais e perante o 
povo, que explorava com seu amplo talento para obter lucros e vantagens.
     Ainda que no pertencesse diretamente ao squito do fara, estava sempre pendurado nas negociatas de Estado, de onde retirava o dinheiro e o poder com o qual 
se mantinha na cobiada condio de homem bem sucedido.
     Da mesma forma que na atualidade de nossa histria, sua personalidade dava vazo aos seus instintos mais inferiores e, com sua riqueza pessoal pretendia sempre 
comprar todas as coisas e pessoas.
      Grande parte delas tinha o preo que ele poderia pagar e, efetivamente, colocavam-se  sua disposio para que seus desejos fossem atendidos.
      No entanto, o homem egpcio se encantara por modesta filha de serviais seus, mantidos em seus domnios quase que como escravos e que tinham, na filha jovem 
que os ajudava, a mo amiga e dedicada que, com seu esforo pessoal, era capaz de equilibrar os problemas familiares, amparando as outras quatro crianas que compunham 
aquele humilde lar egpcio.
Horaib, acostumado a conseguir tudo o que desejava, passara a cobiar aquela jovem, cuja formosura e fragilidade lhe emprestavam a imagem de uma debilidade digna 
de amparo e proteo que estimulavam nele o desejo de mant-la sob sua vigilncia e guarda.
Naturalmente cobiava-lhe o corpo e pensava oferecer-lhe suas vantagens materiais como forma de convencimento.
      Nem mesmo por hiptese lhe ocorria a idia de ser recusado pela jovem Tamiris, a quem julgava destituda de vontade e vulnervel ao vigor de seu raciocnio 
mais maduro e ao poder de sua fortuna.
      No obstante todos estes elementos e, apesar de se tratar de um homem muito mais velho do que a jovem cobiada, Horaib viu frustradas as suas primeiras investidas.
Quando muitas outras mulheres caam em suas garras com facilidade, Tamiris se mantinha  distncia de suas armadilhas insinuantes.
     Aumentou o assdio sobre ela, mas obteve a mesma resposta indiferente e respeitosa do silncio.
Vendo que tal posicionamento lhe causava ainda mais desejos,
Horaib passou a ser envolvido pela idia fixa de possu-la custasse o que custasse.
      Mantida sob seus domnios materiais j que pertencente  famlia de seus servidores, Tamiris no tinha como deixar os pais trabalhadores que contavam com ela 
para a criao dos demais filhos pequenos. Aproveitando-se dessa condio de superioridade, Horaib passou a presentear seus pais com favores que chegavam com grande 
alegria no seio da famlia, mas que, obviamente, tinham a finalidade de comprar-lhes o consentimento para a aproximao desejada.
Ajovem moa no se encantava com as prendas que eram, aos olhos de seus pais, presentes que recebiam por serem distinguidos na ateno do poderoso patro.
Tamiris sabia tratar-se de plano covarde e clandestino atravs do qual Horaib pretendia minar qualquer resistncia daqueles que seriam os nicos a proteg-la na 
Terra do assdio negativo de pessoas sem escrpulos.
Os planos do astuto seguiam exitosos quanto ao aliciamento de seus genitores, mas quanto a ela prpria, mais e mais se enojava daquele homem velho que tinha por 
ela apenas a volpia de um lobo caprichoso e sedutor.
      Horaib intua nas reaes de Tamiris o antagonismo que mais e mais lhe produzia desejo, eis que seu modo de ser transformava o desafio em combustvel para 
perseverar at conquistar o objetivo. E quanto mais difcil mais saboroso o sucesso.
Vendo-se incapacitado de penetrar na fortaleza do corao de Tamiris, Horaib passou a usar de estratagemas mais covardes e criminosos. Afastando os pais do ambiente 
familiar, empregando-os em tarefa em lugar mais distante, que garantia um maior tempo de solido a Tamiris e seus irmos, o homem astuto enviou, atravs de pessoas 
de sua confiana, inmeras guloseimas que ele sabia serem muito cobiadas por crianas, e nelas colocou substncia txica obtida de plantas especficas e que produziria 
mal-estar no corpo infantil, apesar de serem perfeitamente assimiladas por organismos mais robustos que nada sentiriam.
      Assim, no demorou muito para que os irmos menores de Tamiris apresentassem os sinais de alerta apontando para alguma enfermidade fsica. Sem saber do que 
se tratava, mas imaginando que era fruto do que haviam comido, sem ter a mais remota noo de que tudo aquilo fazia parte de um plano orquestrado por Horaib para 
ter acesso fcil e aproximar-se dela, a jovem no teve outra opo a no ser recorrer aos recursos do senhor que os mantinha sob sua proteo, a suplicar a

ajuda para as crianas, especialmente para os dois menores cuja aparncia e reaes fsicas mais preocupavam.
      Horaib no se fez de rogado e, de pronto, assumiu o tratamento das crianas com o que de melhor tinha em sua esfera de ao, convocando mdicos e apontando 
maneiras de tratamento que ele sabia serem eficazes para a melhoria do estado geral, uma vez que possua, tambm, as plantas que neutralizavam aqueles efeitos venenosos 
ou irritantes.
     Ao fim do dia, quando os seus pais chegaram do trabalho, a modesta casinha estava alvoroada com os acontecimentos e Tamiris se preocupava em contar aos pais 
o sucedido, bem como a necessria e importante ajuda que recebera do senhor Horaib para o salvamento dos jovens irmos.
Perspicaz ao extremo, o homem no se aventurou em aproveitar a mar favorvel com exigncias que denunciariam a sua inteno. No entanto, apesar de tudo o que houvera 
feito, continuava a sentir a repugnncia que causava em Tamiris, que no se deixava levar por suas maneiras melfluas.
     Aquilo j estava lhe produzindo uma irritao e fazia com que perdesse um pouco da maneira controlada, acostumado que estava a ser voluntarioso e impaciente 
na conquista de seus objetivos.
      Tamiris seguia sentindo a maldade oculta pelo vu da delicadeza com que Horaib pretendia confundir o juzo das pessoas  sua volta. No entanto, sua sensibilidade 
apontava para o lobo ocultado pela veste de cordeiro, do qual pretendia a maior distncia possvel.
      Passados alguns meses nessa faina inglria, Horaib determinou-se a pr um fim na interminvel novela da conquista de Tamiris e partiu para o ataque frontal, 
declarando seus objetivos aos seus pais que, surpresos e inocentes, viam nisso a grande oportunidade de melhorarem de vida atravs da entrega da filha, o que prometeram 
fazer mesmo sem consult-la.
      A promessa dos pais, naquele perodo da vida e dos costumes humanos, era algo que representava garantia absoluta e, por isso, no interessava a vontade ou 
a opinio da filha, uma vez que seus pais tivessem decidido por ela.
      No entanto, Horaib iria ver que com Tamiris no valiam as leis e costumes da barbrie. Era um esprito independente e consciente de suas vontades, livre para 
exercit-las sem aceitar as imposies de costumes inquos e desprovidos de humanidade.
      Assim, quando comunicada por seus pais que tivera o destino entregue a Horaib, Tamiris se viu atacada no que tinha de mais sagrado em seu afeto, considerando 
seus pais como seus nicos guardies dignos de sua confiana. Como aceitar que a tivessem negociado em troca dos favores daquele homem intragvel?
      Notificada de tal deciso que, sabia ela, ser definitiva, Tamiris informou a seus genitores que no aceitava aquele homem como seu marido e que no se submeteria 
a ele, ainda que os pais a tivessem entregado sem consult-la.
Assustados com a afronta de sua filha, inusual para os costumes daquela poca, os pais lhe impuseram castigos fsicos que ela suportou com compreenso e triste serenidade 
interior.
      E percebendo que no poderia enfrentar em condio de igualdade o seu antagonista, deliberou abandonar a famlia para seguir seu prprio caminho, deixando 
tudo para trs.
Quando soube de sua deciso, Horaib foi tomado de uma ira incontida e, creditando tal fuga ao arrependimento dos genitores de Tamiris, mandou prend-los como fraudadores 
da palavra empenhada, at que sua filha lhe fosse entregue conforme o acerto anteriormente realizado. Da mesma maneira os filhos pequenos do casal foram mantidos 
encarcerados nas proximidades, alimentados por criados de Horaib como forma de serem usados como argumento para convencer o corao apertado de seus pais e submeter 
o esprito inflexvel de Tamiris.
Com a conscincia em fogo pela fuga empreendida e imaginando que Horaib no desistiria, a jovem moa no foi para longe das cercanias de sua antiga morada e, por 
isso, ficou sabendo de todo o sucedido com seus parentes, no suportando no corao a dor que eles deveriam estar sentindo.
      Assim, para salv-los da maldade de Horaib, Tamiris deliberou regressar  antiga propriedade senhorial, no sem antes recorrer  proteo de autoridades que 
sabia no simpatizarem com Horaib. Afinal, aquele comensal do governo era muito odiado pelos prejuzos que j havia produzido na vida de muita gente, nos golpes 
que sua astcia tinha realizado para aambarcar bens alheios, tudo isto se erguendo como um esplio de dores e tragdias que ficara sob sua responsabilidade.
      Por isso, antes de regressar  casa, depois de ter se inteirado de todo o ocorrido com seus familiares, Tamiris buscou a proteo de pessoas influentes que 
tinham sido vtimas do mesmo homem e lhes confiou seus problemas, contando inclusive da priso dos prprios irmos, crianas ainda, o que consistia numa prtica 
de desumanidade por ser realizada contra pessoas de sua prpria nacionalidade, o que se costumava desculpar quando praticada contra estrangeiros escravizados.
     Alinhavando, pois, os sentimentos de revolta que Horaib tinha semeado nos coraes alheios, Tamiris conseguiu a simpatia de outro importante cidado egpcio, 
Pekiat, homem de conduta digna e de nobres princpios, conquanto se tratasse de pessoa ligada aos procedimentos sociais de seu tempo.
      Partilhava da vaidade e do orgulho de sua procedncia, mas trazia em seu esprito a noo mais elevada de Justia e correo no trato com a administrao de 
negcios.
      Conseguindo os bons auspcios de Pekiat, as notcias dos desmandos de Horaib chegaram s autoridades superiores, incluindo a tentativa de envenenamento de 
seus irmos que, a esta altura, chegara igualmente ao seu conhecimento por causa da revolta que causara a priso dos pequeninos na alma de todos os que estavam ligados 
aos destinos daquele grupo.
      Assim, sabendo que os pequeninos estavam sendo desumanamente tratados, o servo que lhes levara o bolo contaminado a pedido de Horaib, ligando todos os fatos 
e lembrando-se da misteriosa enfermidade ocorrida na mesma poca em que fora entregue a encomenda, concluiu sabiamente ter recebido ela algum veneno misturado  
guloseima. A partir disso, foi muito fcil concluir pela culpa de Horaib j que fora ele quem recomendara a entrega do presente sem revelar a sua origem.
     Todas estas notcias chegavam at Tamiris pelos amigos igualmente servos de Horaib, que se sentiam horrorizados com o destino de sua famlia.
Da mesma forma, acabaram aos ouvidos de Pekiat que tomou as dores de todos eles e, nelas, incluiu a sua insatisfao com a maneira desleal como Horaib se relacionava 
comercialmente com ele prprio.
      O certo  que a teia dos desafetos de Horaib havia sido acionada e, para sua surpresa, um destacamento policial, atendendo a determinaes do prprio fara, 
estacionou  porta de sua faustosa moradia, trazendo Pekiat  frente com a ordem de busca dos familiares de Tamiris que, ao seu lado, se apresentava como a principal 
motivadora daquela medida.
No foi difcil encontrarem, nos calabouos particulares daquela grande casa, a famlia da Tamiris que, a esta altura j estava tomada pelo desespero e pelo medo 
de Horaib que, insensvel, no se permitia ceder aos termos do mandado, afirmando ser o dono daquelas pessoas, com direito de puni-las como desejasse.
      Seu sentimento por Tamiris passou a ser um misto de cobia e raiva por sua insubmisso.

      Amparada pela fora legal de Pekiat, a jovem conseguiu que todos os seus fossem resgatados do domnio de Horaib, que no teve como provar serem eles seus escravos.
     A partir de ento, o sentimento de Horaib empederniu-se e Tamiris passou a ser a presa difcil de ser agarrada, mas cujo desafio estimulava a sua astcia.
     Ajudada por Pekiat, sua famlia passou a manter-se sob a sua proteo material, como maneira de impedir que Horaib se vingasse violentamente.
      Tamiris seguia cuidando dos irmos, mas, agora, votava uma gratido profunda a Pekiat que, apesar de sozinho, sem famlia, em momento algum deixou de respeit-la 
e consider-la como mulher digna dos mais elevados encmios.
      No demorou a que os modos clssicos e os dotes de virtudes de Tamiris produzissem em seu protetor o sentimento de admirao que se transformou em amor com 
o passar do tempo, no que passou a ser correspondido por ela que, em nenhuma outra parte encontrara pessoa que lhe dedicasse o respeito to pouco comum em homens 
daquele tempo s mulheres de sua poca.
      E a unio de Tamiris com o protetor de sua famlia calou fundo no esprito rebelde de Horaib, que jamais se esqueceu do desejo que fustigava seu esprito com 
relao quela altiva jovem, nem do desprezo que sentia por Pekiat, o desafiador concorrente que lhe furtara das mos a presa to desejada.
      E ao longo da vida vivida naquelas paragens, Horaib passou os dias imaginando uma maneira de destruir a unio de ambos, ao mesmo tempo em que mais e mais deixava 
crescer em seu esprito baixo e sem evoluo, a cobia por aquela jovem to bela e intocvel, incapaz que era de compreender o seu estoicismo e austeridade.
      Nessa disputa no solucionada entre tais espritos, Tamiris e Horaib se mantiveram distanciados um do outro, como a presa que o lobo no conseguira obter para 
si.
      Pekiat era o obstculo que se levantava entre os dois e que, apesar de ser esprito mais ligado s coisas do mundo, sem condies de partilhar plenamente a 
elevao espiritual de sua companheira Tamiris, passara a receber dela o devotamento e a gratido de um amor sincero e verdadeiro que tolerava as suas imperfeies 
e se dedicava a enaltecer suas virtudes. Pekiat passara a ser considerado por Tamiris o protetor de sua fragilidade e de sua famlia desvalida, alm de ser o homem 
sobre o qual seu ideal de felicidade se permitiria construir o seu castelo de sonhos e esperanas.
Passados os sculos, novamente ei-los reunidos no mesmo ambiente da Jerusalm dos tempos apostlicos.
Tamiris na figura generosa e firme de Lvia.
Horaib na condio fraca e temperamental de Pilatos.
Pekiat na pessoa do amado esposo de Lvia, Pblio.
      
      Por tudo isto  que as leis do Universo permitem que as criaturas se encontrem novamente e possam retirar do velho ba das vivncias do passado as emoes 
adulteradas para que sejam retificadas por novas experincias, corrigindo os equvocos e seguindo o caminho evolutivo atravs do perdo das ofensas, da tolerncia 
e pacincia com as criaturas difceis e do amadurecimento da compreenso das causas dos problemas humanos.
     Apesar de todas estas oportunidades que a lei da reencarnao propicia aos seres humanos, quo poucos so os que as aproveitam com sabedoria. Na maioria das 
vezes, a inexperincia precisa do sofrimento para acordar, e isso no seria diferente no caminho de Pilatos e Pekiat.
      E era por causa do passado comum que Pilatos tinha antagonismo e receio de Pblio, mas votava uma paixo inexplicvel por Lvia, a quem desejava conquistar 
desta vez como no o conseguira no passado, ao mesmo tempo em que Lvia possua uma averso natural e sem explicao atual pelo procurador da Judia.
     As velhas leis aproximavam os velhos contendores para a melhoria de seus sentimentos.

logo conhecera os integrantes da famlia Lentulus, o governador romano se deixou encantar pela beleza simples da esposa do senador, acostumado a conquistas fceis.
      Contrastando com as artificiosas personalidades  sua volta, Lvia era a anttese de todas as falsas concepes de afetividade da maioria das mulheres romanas 
que se encontravam ao redor do governador.
      Com exceo de Cludia, sua esposa, mulher digna dos mais elevados conceitos da tradio romana, mas amadurecida pelos anos, todas as demais eram almas entregues 
ao turbilho das aventuras, sem ideais mais nobres do que o de aproveitar as sensaes e gastar as horas na procura de prazeres fceis, mesmo que desrespeitando 
os sagrados laos matrimoniais.
     A conduta serena e naturalmente digna de Lvia, envolvida com a preocupao com os dois filhinhos, representava um quadro que perturbava a sensibilidade grosseira 
de Pilatos, infundindo-lhe nsias, despertando-lhe desejos, construindo sonhos de conquistas ilcitas, como se a mulher almejada j lhe estivesse garantida pelo 
poderoso argumento de ser a pretendida pelo governador da Palestina, como, alis, ele estava to habituado a fazer.
No entanto, Lvia era diferente de tudo o que conhecera.
      Na verdade, em seu ntimo, Pilatos, o mesmo Horaib dos sculos do pretrito, reencontrava Lvia, a mesma Tamiris do passado e se deixava levar novamente pelas 
mesmas tendncias inferiores. Seu esprito, sem compreender o porqu, revivia a excitao emocional de uma afetividade no correspondida que lhe surgia como um novo 
desafio e que, agora, tudo mereceria para ser realizado.
      No lhe importava sequer a presena de seu esposo, ao qual ela se ligava pelos laos mais sagrados do verdadeiro afeto, nem

modificavam seus mpetos conquistadores a existncia dos filhinhos do casal.
      Desejava, a todo o custo, impor-se  mulher cobiada e aproveitaria as oportunidades para conseguir faz-lo.
      Estando a famlia hospedada na residncia do tio de Pblio, o pretor Slvio, com o pretexto de manter conversao com os recm-chegados da metrpole romana, 
todas as noites o governador se dirigia quele local, numa conduta pouco comum, mas que era interpretada pelos vares da famlia Lentulus como um gesto de cortesia 
e considerao.
No entanto, aquilo que ao esprito vaidoso dos homens era visto como enaltecimento, na alma feminina era interpretado pelo seu sentido verdadeiro, a saber, desejo 
de aproximao ilcita, empolgao emotiva, sentimento inconfessvel.
Lvia, esprito mais elevado do que seu esposo, facilmente observou os modos comprometedores daquele homem cujo desejo carnal no acompanhara o envelhecimento do 
corpo e o obrigava a um comportamento juvenil de entusiasmo e ansiedade.
     Vendo-se no centro do furaco emotivo de Pilatos, mais e mais Lvia se recolhia a uma posio secundria, evitando sempre permanecer muito tempo na companhia 
dos homens, usando como escusa a necessidade de cuidados da filhinha Flvia.
     Assim como Lvia percebera as intenes do governador, outra mulher, essa bem acostumada s candncias da paixo desregrada, tambm notara a excitao daquele 
governador e, o que era pior, que tal empolgao no era dirigida a ela e sim  recm-chegada.
      Tratava-se de Flvia, a alma rude e mesquinha que se permitia a devassido nas cmaras ntimas do governador, desprezando o respeito que devia  sua prpria 
irm, esposa de Pilatos.
Notando os zelos deste para com os recm-chegados e conhecendo a personalidade de seu amante, acostumado s conquistas rpidas e empolgado pela beleza da visitante, 
no foi difcil que Flvia visse em Lvia a adversria perigosa, a mulher competidora com quem deveria bater-se no desafio de manter a influncia sobre o governador 
romano.
Pensava Flvia que todas as mulheres eram como ela, acostumada a ver o mundo pela sua tica depravada e oportunista.
E a simples ameaa ao seu posto lhe causava fria silenciosa e ordenava adotar as necessrias medidas para atirar gua fria na fervura daquele homem fraco.

Todos estes fenmenos da emoo ocorriam no interior das criaturas, sem que nenhuma palavra que os denunciasse fosse proferida ou rompesse a aparncia de correo 
na conduta de todos.
      Nas reunies noturnas dessa primeira semana aps a chegada a Jerusalm, encontraremos Pblio e Pilatos em colquio natural, na residncia do tio, Slvio:
- Pois ento, nobre senador, observando mais detidamente toda a documentao oficial que Csar me remeteu por seu intermdio, percebo o peso de atribuies vastas 
que foram conferidas aos seus ombros e que apontam, naturalmente, para uma considerao especial do trono e um enaltecimento da capacidade do romano que dela foi 
digno - falou Pilatos adocicado.
- Nosso imperador  homem generoso e necessitado de controlar um vasto domnio. Para isso conta apenas com homens que lhe possam ser olhos e ouvidos, recolhendo 
informaes e levando-lhe os quadros que a ele paream importantes serem conhecidos. No se trata de excessiva capacidade dos eleitos. Trata-se, apenas, de tarefa 
grande demais e de ferramentas limitadas para realiz-la - respondeu Pblio, tentando retirar de si mesmo a ateno que Pilatos mencionara.
- Sim,  verdade que a obra  grande, vastos so os domnios. Todavia, Tibrio j possui por aqui os que administram em seu nome e lhe prestam contas constantemente 
de tudo o quanto seja importante para os atos de governo central - falou o governador, tocando em um assunto delicado para todos. Se enviou romano to importante 
e com to amplos poderes,  porque est pretendendo saber mais do que lhe tem sido informado, num gesto que se aproxima da desconfiana ou do julgamento apriorstico 
de inidoneidade.
- No penso assim, Pilatos. O imperador tem em alto grau de considerao a todos os que mantm nos cargos administrativos em seu nome, eis que se no fossem dignos 
de confiana j os teria substitudo. Ocorre que, como falei, muito amplos so os domnios e se um procurador como voc  responsvel por um trecho limitado do Imprio 
e sobre ele precisa manter uma rede de soldados e informantes que o possibilitem exercer o domnio e conhecer os principais fatos, imagine a Tibrio, como deve ser 
difcil administrar  distncia, sem maiores informaes que os relatrios parciais que lhe chegam de todos os governantes.
- Sim, isso  verdade - falou Pilatos algo mais sereno para no denunciar aos olhos de todos os seus receios mais ntimos. E por falarmos em preocupaes imperiais, 
pelo contedo dos documentos, observo que nosso imperador colocou  sua disposio uma centria para que a comandasse pessoalmente, sem minha interferncia direta...
     Tal comentrio de Pilatos era uma referncia ao teor dos papis Oficiais que lhe haviam chegado s mos, mas que, no fundo, representavam um desprestgio  
sua autoridade, acostumada a ser a ltima instncia nas questes que lhe eram afetas. Agora, com a chegada de Pblio, vira-se apequenado pela coexistncia com algum 
que, se no tinha a funo de exercer o governo da Palestina, tinha, no fundo, a tarefa de avali-lo, de fiscaliz-lo, de investig-lo com amplos poderes.
     Vendo que o governador tocara no tema delicado e, acostumado as manobras polticas no seio do senado, Pblio imediatamente avaliou os temores daquele homem 
e, para dissuadi-lo de qualquer idia de antagonismo que poderia dificultar ainda mais a sua tarefa poltica junto ao governo da Judia, respondeu-lhe:
- Sim, nobre governador. Foi desejo de Csar investir-me do privilgio de possuir uma fora militar ao meu comando, privilgio este que no pretendo utilizar, a 
menos que seja imperioso faz-lo, j que me sinto devidamente protegido pela sua hbil capacidade de manter a ordem nestas paragens.
     Dispensando o comando de soldados naquele momento, Pblio sinalizava a Pilatos um gesto amistoso de confiana e aparente submisso, que era muito do agrado 
do governador e que permitiria que o mesmo se sentisse mais seguro diante da velada ameaa que o senador representava aos seus interesses imediatos e inconfessveis.
- Agradeo a confiana depositada em minha capacidade de lhes garantir a segurana e a proteo e esteja seguro de que sua estada na Palestina ser uma agradvel 
e serena experincia, no que depender de meus cuidados.
     A palestra seguia por assuntos de outras naturezas, sem que Pblio ou Lvia pudessem atinar para as falsidades que haviam se tornado naturais nos espritos 
dessas personagens afeitas ao comportamento inadequado ao objetivo de suas paixes mais baixas e torpes.
      Notando que suas investidas em casa do pretor Slvio eram cordialmente rechaadas pela mulher do senador, que se ausentava constantemente de sua presena, 
Pilatos organizou-lhes uma recepo em sua prpria casa, na qual iria estar em condies de impression-los com o faustoso cerimonial romano e com o que havia de 
melhor naquelas paragens, imaginando que tal convite lhes seria agradvel pelas emoes que lhes produziriam ao reviver as tradies da Roma dos brilhos e caprichos.
      No imaginava Pilatos que os Lentulus no se filiavam  extravagante corrente dos romanos desejosos de gozos e volpias infindveis, marca dos tempos modernos 
da capital poderosa que rompia com as tradies patrcias de frugalidade e simplicidade diante da vida.
Nesse encontro formal e cerimonioso, tinha certeza de poder contar com a presena de Lvia que, por cumprimento do dever de acompanhar o poderoso marido, no poderia 
deixar de comparecer e de ficar sob a sua influncia pessoal.
E para a recepo no seria corts deixar de lado a figura dos anfitries Slvio e Flvia que, igualmente, foram convidados para participarem.
      Pilatos esmerou-se no ato de impressionar, pois, sem medir gastos e nem fazer uso do bom senso, produziu um ritual envolvente, onde no faltaram vinho, pratos 
exticos que se sucediam nas mos de servos sem conta, danarinas, cantores, mas que tivera o efeito, apenas, de confirmar no esprito de Lvia e Flvia os temores 
e a desconfiana anteriores.
      A primeira, com mais cuidado se mantinha distante das conversaes, entretida em amparar a filhinha Flvia, que fizera questo de levar consigo para aquele 
ambiente, em que pesasse o seu estado de sade fragilizado. Seria o seu escudo protetor, na postura digna daquela que deseja lembrar a todos a sua condio principal, 
como me desvelada e cuidadosa.
      A outra, Flvia, sentia-se picada em seu orgulho de mulher para a qual nunca o amante enaltecera sequer com um modesto brinde, que dizer, ento, com uma festa 
daquelas. O esprito invejoso e ciumento de Flvia se mantinha armado para somar todas as contrariedades e, depois, cobrar-lhes o preo que acreditasse justo.
Nesse ambiente, as conversas envolviam tambm o homem de confiana de Pilatos, o seu brao direito nas negociatas comerciais com as quais ia se enriquecendo, o lictor 
Sulpcio Tarqunius.
      E das conversaes que se seguiam durante o repasto, ouviu Pblio a meno de Sulpcio  figura de Jesus, relatando os feitos do novo profeta que surgira entre 
os miserveis, fazendo-o com esmerado requinte de detalhes, inclusive mencionando os casos especficos em que romanos se aproximaram do taumaturgo e conseguiram 
obter curas impressionantes.
      Pilatos escutava sem nenhuma empolgao, acostumado que se achava, j h pelo menos seis anos no exerccio do governo da Judia, com o misticismo daquele povo 
estranho e extremamente religioso.
      Lvia, Pblio e Flvia escutavam igualmente a conversao, mas com outros ouvidos, guardavam as informaes do lictor Sulpcio como notcia importante e digna 
de nota.
Pblio porque, pela primeira vez escutava pessoalmente o relato sobre aquele homem cuja existncia tanto interessava a Tibrio por quem fora incumbido de averiguar 
sigilosamente sobre a verdade dos boatos que chegavam a Roma e a Capri e que envolviam Jesus.
      Lvia, por possuir um esprito sensvel, era passvel de ser tocada por todos os exemplos de nobreza e elevao j que seu esprito elevado mafinizava facilmente 
com as coisas belas e nobres, ao mesmo tempo um que pensava na sade de sua filhinha.
Flvia, a pequenina criana doente e sofredora, escutava na sua
inocncia, a meno quele homem santo e poderoso que curava os
doentes e que era chamado de profeta pelo povo.
      Instigado por comentrios de Pilatos que levava o assunto adiante, Sulpcio seguia descrevendo os fatos, afirmando que o referido homem especial estava vivendo 
nas proximidades do lago de Genesar, ao norte, im pequena comunidade conhecida como Cafarnaum, na regio da Galilia, sua terra natal.
      E para culminar sua narrativa, relatou o caso do centurio romano que apresentara a Jesus o filho enfermo e desfalecido, s portas da morte, e que fora revivido 
pelo simples toque das mos do profeta, como que por um milagre, diante de todos os presentes.
      A palavra do homem de confiana de Pilatos era envolvente e imperada pela vivacidade daquele que presenciou muitos fatos e que laia do que, efetivamente, pde 
constatar, principalmente por no ser Um dos seguidores daquele profeta to diferente dos outros.
      Se se tratasse de um testemunho comprometido pela simpatia do tlopoente pela causa em questo, tal relato seria tomado com cuidado por no representar, com 
iseno, a realidade dos fatos.
      Todavia, vinha da boca de um romano que continuava romano na sua essncia, ainda que subalterno e sem projeo na sociedade patrcia o nobre, onde a estirpe 
representava carto de visitas e prenuncio de respeito e confiabilidade.
      Ele havia visto e escutado Jesus junto  multido dos sofredores do Cafarnaum e se impressionara com aquela majestosa simplicidade que, sem qualquer atavio, 
dominava os ouvintes que permaneciam em silncio para escut-lo.
Assim, Pblio comeava a receber informes importantes para a segunda misso, aquela no declarada, graas  qual iria confidenciar a Tibrio sobre a existncia real 
daquele homem lendrio e que se encontrava entre as esperanas do imperador para obter a melhoria fsica e a cura para seus males crnicos.
      Naquela noite, pretendendo estabelecer moradia na provncia oriental, mas longe dos olhos do governador, atendendo s sugestes do Pilatos, Pblio havia elegido 
a Galilia como local para sua fixao naquelas paragens, j que no pretendia permanecer hospedado na casa de seu tio e de sua perigosa mulher, cuja conduta coleante 
e frouxa j houvera sido tambm percebida por Pblio.
      E em que pese ter optado por Nazar, acatando sugestes de Pilatos que, com isso, pretendia manter o senador e sua esposa em regio na qual tambm tinha residncia 
particular, no ntimo do senador surgia a idia de transferir-se para as proximidades do profeta, j que tinha uma misso do imperador a cumprir. Quanto mais rpido 
o fizesse, mais rapidamente se desincumbiria da tarefa e poderia atender aos anseios de Csar.
      Naquele dia, depois do jantar, os fatos desencadeariam efeitos que acabariam por lev-lo, efetivamente, a escolher Cafarnaum como refgio distante.
      Assim  que, depois do repasto farto e cansativo, os convidados foram aos jardins da residncia senhorial desfrutar a noite fresca, seguindo aos pares como 
mandava a tradio, ficando Pblio com Cludia, a anfitri, Pilatos com Lvia e Sulpcio acompanhando Flvia, cujo marido se apartara do grupo atendendo a seus desejos 
estticos junto a obras artsticas que ornamentavam a residncia do governador.
      Cludia se mantinha na posio de mulher nobre e agradvel, cumpridora de seus deveres sociais e familiares, na anttese do marido que esposara.
      Pilatos, contudo, no se punha no lugar que lhe cabia, aproveitando-se das circunstncias favorveis, como ele houvera previsto, para iniciar o cortejamento 
da mulher alheia, tentando ser envolvente e sutil nas suas indiretas, que chegavam ao corao nobre de Lvia como petardos dolorosos e difceis de suportar como 
lhe impunha a condio de convidada.
      Valendo-se do natural distanciamento entre os pares na lenta caminhada pelo vasto local, Pilatos declarou-se  Lvia e escutou dela a natural recusa que no 
era costumeira aos seus ouvidos.
No ntimo de suas almas, reviviam as experincias antigas e pregressas j relatadas no captulo anterior e, para infelicidade de Lvia, que se via ferida pelas palavras 
insinuantes, o esprito de Pilatos continuava a ser quase o mesmo arrogante e conquistador do pretrito.
Sem tirar os olhos de ambos, Flvia acompanhava o caminho do casal procurando manter-se atenta a todas as cenas, ainda que no lhe fosse possvel captar os pormenores 
do colquio pelas vias auditivas.
      Sulpcio, ao seu lado, sentia-se orgulhoso por acompanhar bela mulher cuja vida dissoluta conhecia detalhadamente e, por isso mesmo, almejava a oportunidade 
de, ele tambm, receber-lhe os favores carnais que imaginava fceis e envolventes.
      J lhe havia proposto de forma direta a possibilidade de servir-lhe com zelo e afeto sincero em troca de uma oportunidade em sua intimidade, mas Flvia recusara, 
no por lhe ser indiferente a proposta de aventuras sexuais, mas porque, na sua concepo romana, Sulpcio era um empregado de Pilatos e, entre deitar-se com ele 
e com o seu patro, para a sua condio de mulher seria mais importante entregar-se ao mais poderoso ao invs de aventurar-se com o subalterno.
      Pudores em meio da depravao, tpicos do ser humano em crescimento a partir da ignorncia.
      Flvia, no entanto, observara o desejo de Pilatos nos gestos, nos olhares, na maneira encantadora com que ele se dirigia a Lvia e na situao inesperada que 
os envolvera durante a qual tomara entre as suas a mo da esposa do senador porquanto, diante de to pesados dardos energticos de Pilatos, Lvia fora presa de um 
abatimento e desfalecera momentaneamente, tendo sido impedida de cair por vetusto tronco de rvore ali existente onde se apoiara e pelas mos do governador que, 
temendo a queda da delicada mulher desejada, como se disse, segurara-lhe pelas mos, num gesto que,  distncia, poderia ser interpretado como um enamoramento, mas 
que, em realidade, mais no era do que uma imposio do estado fragilizado de Lvia.
      To logo se sentiu invadida pelo toque fsico do adversrio astuto, Lvia recobrou-se e, aproveitando-se da chegada de Pblio e Cludia, retomou a conversao 
com o esposo e a anfitri, ignorando as investidas de Pilatos e deixando-o sem qualquer outra palavra durante o restante da noite.
      Tal fragilidade fsica de Lvia soara ao esprito conquistador de Pilatos como o prembulo de uma capitulao, pois fora por ele interpretada como um sentimento 
correspondido em luta contra a sua condio de esposa e me, nos conflitos entre os desejos ocultos e as virtudes naturais de sua alma feminina.
      Para Pilatos, Lvia dava mostras de, ainda que lhe recusasse o assdio com palavras claras, era trada pela reao orgnica que indicava a emoo que a levara 
ao desequilbrio fsico.
      Isso era estmulo para a continuidade de suas empreitadas indignas, acostumado que estava ao estratagema usado com outras, que sempre iniciavam o relacionamento 
recusando formalmente os seus convites para, logo depois das primeiras investidas, entregarem-se ao desvario completo em sua companhia.
Flvia via tudo de longe e, com os olhos voltados para o centro dos acontecimentos, levou Sulpcio, igualmente, a observar os fatos acima narrados.
      Vendo a cena com os olhos da maldade e da depravao que lhe corrompiam o esprito, e sabendo da maneira sedutora com que Pilatos se conduzia com as mulheres, 
imaginou que Lvia estaria sendo cooptada pela sua teia pegajosa, tornando-se a nova conquista do governador.
Dirigindo-se a Flvia, ironizou-a, dizendo:
      - Pois eu no sabia que voc j tinha cado em desgraa junto ao governador, trocada, assim, to depressa por outra mais nova nestas terras. E eu que venho 
me oferecendo como fiel e dedicado servidor de seu afeto, s tenho recebido sua repulsa... - falava, astuto, para produzir o efeito de ferir o corao decepcionado 
de Flvia, ao mesmo tempo em que desejava apresentar-se-lhe como um homem que lhe valorizava a companhia enquanto Pilatos lhe desdenhava e a trocava descaradamente 
por outra.
      Ferida, Flvia se deixou enredar pelas teias inferiores onde seu esprito chafurdava naturalmente, prometendo-se ao lictor se ele a ajudasse a afastar Pblio 
e Lvia de Pilatos ao mesmo tempo em que, no momento oportuno, semearia no esprito do senador a venenosa desconfiana com relao  esposa fiel e devotada, dupla 
maneira de vingar-se daquela que parecia ser a pudica matrona romana, mas que, aos seus olhos, valia-se de sua condio socialmente elevada para dar vazo s torpezas 
mais baixas.
      Ali realizaram o pacto trevoso que custaria muito aos seus espritos, por sculos e sculos do futuro, na recuperao efetiva de suas quedas fragorosas.
       Alguns dias depois desta cena, visando cumprir a promessa feita  Flvia, segundo a qual tudo faria no intuito de afastar o senador e sua esposa da presena 
de Pilatos, Sulpcio fizera ver ao enviado romano que o seu desejo de fixar-se em Nazar, conforme lhe houvera sugerido o governador da Judia, no lhe ficairia 
bem, em face da rudeza das acomodaes, ali sempre escassas e abaixo das necessidades de conforto da famlia.
      Tendo sido convocado a opinar sobre a transferncia para um local apropriado para o exerccio de seus deveres como legado de Tibrio na provncia da Palestina, 
Sulpcio aprestou-se a lhe sugerir a fixao na comunidade mais distante, localizada ao redor do lago de Genesar, ao norte de Nazar, onde um conjunto de ncleos 
habitacionais se congregava para usufruir a paisagem gentil e auspiciosa propiciada pela grande massa aquosa, chamada pelas pessoas de mar da Galilia, tal a sua 
dimenso.
      Dele as criaturas poderiam retirar no apenas o alimento para sobrevivncia, como tambm a aragem suave que atenuava a rigorosidade da atmosfera de secura 
e aridez encontrada em muitas outras partes daquela regio, apesar de que, no perodo em que nos fixamos na presente narrativa, a Palestina apresentava-se revestida 
de um verdor e beleza que em nada se parecia ao seu estado atual.
Escutando-lhe a sugesto, o senador perguntou-lhe:
      - Voc est seguro de que a regio  salutar e agradvel, Sulpcio?
      - Posso afirmar com toda a segurana, nobre senhor, que em momento algum se arrepender da escolha que fizer, se ela recair sobre a localidade que estou apontando. 
Ademais, a moradia que me  possvel (>ferecer, pertencendo a um dos nossos, poder facilmente ser arrendada por perodo que seja conveniente aos seus interesses 
oficiais, poupando a despesa com a aquisio definitiva.  gleba de terras muito aprecivel, com pomares e plantas que ornamentam a rea que, de alguma sorte
faz lembrar os ambientes campestres de nossa capital. Alm do mais, a casa poder ser reformada rapidamente para atender s necessidades de sua famlia, pois est 
em bom estado de conservao.
      - Apenas a localidade no me  conhecida. Sei que Nazar dista um bom pedao para o norte de Jerusalm. E essa localidade que voc aponta, para onde fica?
      - Bem, senhor, Cafarnaum fica ainda mais ao norte, mais distante de Nazar.
      - Cafarnaum, Cafarnaum... -falou pensativoosenador-j ouvi referncias a esse nome. A moradia que voc est sugerindo no fica em Genesar? - perguntou Pblio, 
confundido pelas denominaes diferentes e procurando retirar da memria a lembrana na qual estaria arquivada a referncia a essa localidade.
      - Sim, meu senhor -respondeu Sulpcio - acostumar-se s localidades  uma das maiores dificuldades para os que chegam  Palestina, j que so pequeninos amontoados 
de pessoas, todos com nomes muito diferentes da nossa maneira de chamar as coisas, muitos deles parecidos uns com os outros, pela maneira com que se pronunciam. 
No entanto, Genesar  o nome do lago que falei onde se localizam muitas cidadezinhas, inclusive uma que foi fundada em homenagem a Csar, de nome Tiberades. Cafarnaum 
fica mais ao norte, circundando o lago, bem mais distante de Nazar.
Pblio escutava-lhe as explicaes, lembrando-se de que quanto mais afastada ficasse a sua moradia, melhor aos seus interesses de investigar Pilatos, de atender 
aos interesses da pequena Flvia, a filha doente, e de conseguir informaes sobre aquele Jesus que Tibrio lhe pedira para conhecer.
      Em seu pensamento rpido, lembrando-se de Jesus, recordou-se da referncia a Cafarnaum.
      - Agora me volta  mente nossa conversa de dias atrs, por ocasio do jantar em casa do governador, quando voc fez referncia  pessoa de um taumaturgo, de 
um curandeiro que est por esta regio fazendo seus milagres e assustando as pessoas, no foi, Sulpcio? -perguntou afirmando o senador.
      - Ah, sim, senador.  verdade que falamos sobre Cafarnaum. L pude presenciar a pregao desse homem que  chamado de Mestre por muitos dos que o seguem e 
que tem se notabilizado no apenas por sua forte e atraente personalidade penetrante, mas tambm por levar esperana e cura para muitos dos que o seguem. Seu nome 
 Jesus e est morando, pelo que pude observar, na mencionada cidade onde se fixam alguns de seus mais fiis seguidores.

      Imaginando que a sugesto do lictor lhe estava caindo como uma perfeita soluo a todos os seus anseios, meditou sobre a efetiva convenincia de transferir-se 
para Cafarnaum. Restava-lhe apenas confirmar alguns detalhes sobre a salubridade da regio, por causa da sade da filhinha que precisava preservar.
      - Voc sabe, lictor, que um dos motivos de minha vinda at a Palestina  o problema de sade de minha filha mais velha, que precisa de local agradvel, saudvel, 
livre de pestes, de mosquitos, de calores excessivos e da presena de muita gente, sempre capaz de concentrar os miasmas da enfermidade ao seu redor. Temo que a 
concentrao excessiva de pessoas possa tornar inconveniente o local.
Na verdade, o pai zeloso tambm estava preocupado em expor a filha aos olhos maldosos das pessoas que, em convvio direto com enfermidades como a de Flvia, facilmente 
identificariam o seu estado fsico e a origem de seus males, possibilitando reaes negativas e rudes da parte dos mais ignorantes e amedrontados.
      Percebendo a necessidade de convencer o senador da convenincia de tal escolha, Sulpcio no se fez de rogado e acrescentou:
      - Pois se tal  a necessidade primeira, a sade da pequenina poder ser recuperada to s ao contato das aprazveis brisas da regio a que me refiro. Em verdade, 
senhor, no h em toda a Galilia outro stio mais favorvel do que aquele, eis que as aragens do lago, as perfumosas flores e o sabor adocicado das frutas que l 
crescem so o atestado da salubridade e das condies de conforto que o ambiente propicia. Alm disso, no que toca  discrio e  tranqilidade to necessrias 
para o tratamento da pequena doentinha, a gleba a que me refiro no se localiza no setor urbanizado, distando quase um quilmetro do aglomerado de casas, o que permite 
o isolamento necessrio para a serenidade da famlia. No est de todo afastada - o que tambm no seria conveniente em face dos perigos naturais e da fragilidade 
da segurana - nem est de todo encravada no meio da populao, - o que, igualmente, seria nocivo aos objetivos pretendidos.
      Convencido pelos argumentos do interlocutor que se fazia atencioso e interessado no melhor para os confortos do senador, Pblio assentiu que Sulpcio procurasse 
fixar a moradia dos Lentulus na regio por ele sugerida, o que lhe vinha a calhar, pois representava uma combinao favorvel para a realizao de todos os seus 
objetivos.
      Ficaria longe de Pilatos, a quem j comeara a no suportar por ser homem cheio de meneios de conduta, procurando manter um comportamento verstil e interesseiro.
      Como j vimos, com sua sugesto de fixar a residncia do senador em Nazar, Pilatos desejava no apenas ter sob sua mirada a figura de 82        P (Mno* quece
Lvia a quem dedicava a cobia de seu esprito lascivo, mas tambm estar observando os movimentos do enviado de Tibrio para melhor constatar as suas atitudes e 
precaver-se. Por isso que o governador sugerira a fixao da famlia em Nazar onde ele prprio possua moradia ou instalaes nas quais passava boa parte do tempo.
      Da mesma maneira, aos ouvidos do senador, Flvia j havia feito chegar as notcias maldosas dando a conhecer, segundo o seu ponto de vista, o encontro de Pilatos 
e Lvia no jardim da residncia deste, na noite do jantar, levantando suspeitas da prevaricao da esposa de Pblio. Acostumado a uma considerao honesta e de boa 
f sobre as pessoas, o senador refutara as acusaes sobre a conduta de Lvia, mas as insinuaes agudas de Flvia fizeram em seu ntimo as marcas naturais a que 
esto vulnerveis todos os homens e mulheres que so frgeis no afeto.
      Assim, afastar-se do antro de intrigas onde estava instalado, igualmente seria benfico ao estado geral da famlia Lentulus.
      Pilatos no lhe agradava, como governante e como homem e, pelos seus sentimentos passava o temor de perder a felicidade familiar no meio do torvelinho das 
intrigas e da inveja. Afastar-se dali era o que seus pensamentos mais lhe aconselhavam.
Do mesmo modo, ficaria isolado em localidade distante da sede de influncias do procurador, quando ento poderia acumular as informaes sobre seus atos administrativos 
e sua maneira de ser como representante maior de Csar naquela regio. No seria incomodado por suas presses e por sua vigilncia dissimulada.
      Alm disso, poderia manter a filha em ambiente aprazvel e protegida dos olhares indiscretos e maldosos das pessoas, aguardando a sua melhora plena.
      Mesmo no que tange s obrigaes no oficiais que Tibrio lhe solicitara, em Cafarnaum o senador poderia encontrar as informaes sobre aquele homem que era 
possuidor de um modo especial e diferente de tratamento de doenas e que estava produzindo curas assombrosas.
      Em Cafarnaum se encontravam todas as condies para que o senador desempenhasse os misteres nos quais fora investido por Tibrio e pelo prprio Senado Romano.
      Ali realizaria os atos necessrios para poder voltar  sede do Imprio com a misso cumprida.
      Ainda no se passavam quinze dias da estada da famlia na cidade de Jerusalm e Pblio j se sentia sufocado pelos seus modos, pelos costumes estranhos daquela 
gente, pelas insinuaes mesquinhas de Flvia e se passaria quase um ms at que os preparativos da mudana estivessem prontos, favorecendo a transferncia dos Lentulus 
para a regio distante da Galilia, junto ao lago de Genesar, onde estavam acontecendo os eventos mais relevantes para a histria da Humanidade.
      Enquanto isso, na sede do governo, Pilatos se via contrariado com a escolha do senador pela pequenina Cafarnaum, distante de suas vistas.
      Assim, deu ordem aos seus asseclas que se mantivessem atentos, para que qualquer movimento suspeito de Pblio lhe fosse imediatamente comunicado, pois ele 
sabia que o senador representava perigo  consecuo de seus planos indignos.
     
      Como se sabe, o homem que tem coisas a esconder teme a presena de qualquer outro que lhe atrapalhe as intenes escusas.
      Acostumado a levar uma vida dupla, tendo de parecer honesto representante de Csar e ao mesmo tempo procurando retirar de seu cargo todas as vantagens indignas 
que a proximidade do poder favorece, Pilatos, que j se encontrava h seis anos no governo da Judia, por primeira vez se via defrontado por um adversrio a ser 
vigiado de perto, pois Pblio estava investido de uma autoridade mais elevada do que a dele prprio, conquanto no pudesse administrar a Palestina em seu lugar.
      Por isso, alegando necessidades urgentes, Pilatos passou a empreender pequenas viagens para localidades nas cercanias de Jerusalm, onde estavam pessoas importantes 
em seu trfico de interesses, a fim de entender-se pessoalmente com elas quanto  discrio indispensvel  sobrevivncia dos esquemas montados.
      Na prpria Jerusalm, encontrou-se pessoalmente com o sumo sacerdote com quem tratou de questes comuns e combinou condutas mais discretas na soluo de problemas 
de interesse de ambos, evitando-se cenas comprometedoras ou que pudessem revelar, em seus contornos, mais do que a formal relao que deveria haver entre o dirigente 
romano e o representante religioso do suntuoso templo dos judeus.
Lvia, contudo, no lhe saa da cabea.
      Sua presena, seu porte nobre, sua repulsa e ao mesmo tempo a sua vertigem apontavam-lhe uma silenciosa capitulao ante a sua irresistvel personalidade - 
pensava Pilatos, presunoso - entrevendo 0 prximo encontro e a prxima possibilidade de envolv-la com sua astcia de vbora.
Em vo Flvia procurou aproximar-se do governador a fim de faz-lo sentir os seus sentimentos provocantes e insinuantes, sempre encontrando a justificativa de que 
o procurador no poderia
atend-la ou que estava ausente do palcio.
       Tal distanciamento no passava despercebido da argcia feminina de Flvia, acostumada aos jogos da seduo e  personalidade previsvel daquele homem e, na 
condio de mulher maliciosa e de pensamento prevenido, tudo interpretava como perda dos privilgios conquistados nas aventuras ilcitas com o cunhado e culpava 
Lvia por isso.
       Naturalmente, deveria dar tempo a Pilatos para que ele pudesse esgotar sua emoo com a novidade que a mulher do senador representava em sua vida. Estaria 
por perto para dar o bote no momento adequado. J havia feito chegar a Pblio a notcia maldosa falando do envolvimento de Lvia com o governador, na forma de sua 
interpretao maliciosa da cena noturna do jardim.
       Agora, com o afastamento do senador para a localidade distante de Cafarnaum, Flvia poderia voltar  carga junto de seu amante e cunhado, procurando mant-lo 
sob o seu controle, mesmo que precisasse usar das armas da seduo para impor-se ao seu domnio.
       Sulpcio tinha feito a sua parte no acerto inicial que fizeram naquela noite, afastando o casal das proximidades de Pilatos.
       O lictor, atendendo s determinaes de Pilatos, ficaria com a famlia do senador em Cafarnaum, com a desculpa de proteg-los em localidade distante, no comando 
de pequena guarnio de soldados que se manteria ao servio da segurana do enviado de Tibrio. No fundo, a funo de Sulpcio era a de vigiar Pblio e enviar notcias 
a Pilatos sobre seus atos.
       Assim, em pleno ano de 32, encontraremos Pblio, Lvia e seus filhos instalados nas proximidades do mar da Galilia, envolvidos pelas tramas mesquinhas dos 
interesses subalternos e muito prximos da redeno de seus espritos pelo contato direto com a personalidade mais marcante que j pisara o solo terreno.
       L estava Jesus tambm, com os estropiados do corpo e do esprito, seguido pelo cortejo das lgrimas e das splicas, entregue aos aflitos e sobrecarregados 
pelas misrias humanas para dar-lhes esperanas e foras para o reino da Justia e da Misericrdia que iria se instalar entre os homens.
       Ali se encontravam tambm Zacarias e Josu, que seguiam Jesus por toda parte, ao lado dos doze escolhidos e dos outros sessenta e oito vares que se dedicavam, 
por espontneo devotamento, ao aprendizado das mais altas lies da espiritualidade na regenerao de suas prprias almas.
        COM As oportunidades de trabalho no caminho do amor multiplicavam as necessidades de mais e mais mos que pudessem levar a mensagem de esperana a todos 
os stios, em uma poca na qual a ausncia de meios de comunicao mais avanados dificultava a propagao das verdades da alma.
       Assim, os jornais inexistentes eram substitudos pelos viajantes que relatavam, por onde passavam, os fatos e as notcias mais importantes e, assim, as novidades 
eram difundidas de maneira lenta e difcil.
       As curas e os ensinamentos de Jesus que se concentravam no ncleo urbano onde se manteve por mais tempo iam, igualmente, sendo transmitidas aos que residiam 
nas localidades que, com a sede de melhora, procuravam encontr-lo pessoalmente.
       Dessa maneira, no segundo ano de seu ministrio, a notcia de sua capacidade curadora, de seu magnetismo potente e inigualvel, de seu modo diferente de falar 
do Reino da Verdade, da sua mensagem sobre um mundo diferente que acolheria a todos e faria justia diante das injustias terrenas trazia gente de todos os lados 
e tornava ainda mais dificultosa a realizao de uma tarefa to imensa, j que as criaturas imaginavam que a sua mensagem visava apenas curar o corpo.
       Multides passaram a busc-lo, vindas de todas as regies circunvizinhas ao lago de Genesar e isso obrigava a Jesus e aos seus discpulos recorrerem a meios 
ou estratgias que lhes permitissem seguir realizando as obras da Boa Nova sem se verem massacrados pela multido exigente e temperamental.
       Muitas vezes Jesus se valeu da barca de Simo para que, atravs do lago, pudessem atingir outras localidades sem que fossem seguidos pela turba e sem que 
o volume de curiosos e pessoas sem compromissos com a transformao verdadeira lhes atropelasse o caminho.

      Naturalmente, ouvindo falar das inmeras realizaes do Divino Amigo, muitos sofredores o buscavam, da mesma maneira que uma chusma de pessoas sem doenas 
fsicas tambm desejava estar por perto para ver a realidade dos fenmenos fsicos que se produziam em sua presena.
      Mais do que desejosos de melhoria para si mesmos, eram curiosos que queriam estar a par das coisas e ver com os prprios olhos.
No havia, ento, como discernir na turba barulhenta que o seguia pelos caminhos quem era necessitado de amparo verdadeiro e quem era apenas observador desconfiado.
      Diante de tal situao, os prprios discpulos procuravam manter Jesus sob o seu campo de proteo, acreditando que deveriam proteg-lo como pedra preciosa 
que algum pudesse desejar furtar ou destruir por inveja e por no lhe valorizar a grandeza de sua misso.
      Em inmeras ocasies se pde constatar a existncia de pessoas sem desejo de verdadeira melhora cercarem Jesus, ao passo que alguns poucos, efetivamente doentes, 
buscavam-lhe a proximidade com o nimo sincero de recuperao, diferente dos demais.
      Isso se deu e pde ser constatado na ocasio em que, chegando a Cafarnaum depois de uma de suas breves visitas a povoados que se banhavam no lago, Jesus foi 
solicitado por Jairo, o chefe da sinagoga, para que atendesse sua prpria filha, enferma e desenganada. Naturalmente, at a sua chegada  casa do aflito pai, novamente 
a multido cercava o Mestre acompanhando-o na jornada at o local onde se encontrava o sofrimento a ser socorrido.
      Ao longo do trajeto, no entanto, Jesus interrompeu a caminhada e perguntou aos que estavam ao seu redor:
- Quem me tocou?
      E diante da negativa de todos os que o cercavam, Simo se admira da pergunta e acrescenta:
      - Ora, Senhor, por onde vamos h uma multido que nos oprime, nos aperta e que, naturalmente te toca sem que possamos saber quem foi ou o que deseja. Como 
identificar uma criatura em especial que te tenha tocado?
E vendo que os seus ouvintes no entendiam a profundidade de suas palavras, Jesus foi mais claro:
- Algum me tocou de maneira a retirar de mim uma virtude.
      E a afirmativa do Mestre indicava que ele sabia que algum o havia tocado de maneira distinta.
Naturalmente tal ocorrncia  significativa para que se possa avaliar o tanto de criaturas que ombreavam com Jesus e o tocavam sem qualquer interesse elevado, apenas 
por acompanhar uma boa fonte de novidades, apenas por desejar estar ao lado de algum diferente e de quem se diziam coisas maravilhosas.
      No entanto, uma pessoa se aproximara Dele de maneira especial, diferentemente de todos os outros que apenas lhe acompanhavam os passos em busca do maravilhoso.
      Essa pessoa Jesus identificara e tal fora a sua interao com ela que estacara o passo e pedia, agora, que se identificasse.
      Diante de um profeta assim to reverenciado, a pessoa enferma trazia no ntimo a esperana de obter uma bno para suas mazelas.
       natural, em muitas criaturas, notadamente naquelas massacradas pela indiferena dos semelhantes, uma timidez em assumir os prprios desejos, as prprias 
buscas.
      Desse modo, entre as pessoas que ali estavam, uma mulher muito enferma, que se ocultava por entre mantos pobres e surrados que lhe disfaravam as condies 
de fraqueza e a mantinham no anonimato procurou buscar-lhe o amparo, sem se considerar com direito de apresentar-se  vista de todos para solicitar a cura.
      Isso ocorria porque ela j estava acostumada com o julgamento dos homens de seu tempo que a consideravam mulher desditosa e amaldioada. Afinal, fazia doze 
anos que era vtima de uma hemorragia que lhe corroa as foras fsicas e lhe causava toda a sorte de dificuldades e problemas.
Os mdicos no haviam conseguido dar fim ao problema.
      Recorrendo aos sacerdotes, deles obtivera o diagnstico de que estava possuda pelo diabo, eis que s ao diabo apraz manter uma mulher na condio de sangrar 
lentamente. Alm do mais, nos conceitos daqueles tempos, a mulher era tida como criatura desconsiderada, primeiramente por ser responsabilizada pela queda de Ado 
e a sua conseqente expulso do Paraso, como j explicamos anteriormente.
      E, depois, por ser aquela que produzia os desejos impudicos nos homens, o veculo da luxria, da seduo, e de todos os sentimentos impuros ligados s fraquezas 
do sexo, agravados pelo fato de, todos os meses, apresentar os sinais da sua culpa, atravs do sangramento regular que produzia os incmodos naturais, piorados por 
uma falta de recursos modernos da higiene que s com o progresso seriam equacionados e atenuados.
      Por isso, era naturalmente associada  idia de amaldioada. Mais ainda quando, no caso especfico daquela filha de Deus, se mantinha em processo de sangramento 
constante.
O seu aspecto fsico era muito desagradvel porque a fraqueza orgnica lhe produzia uma epiderme descorada, esbranquiada e rugosa, alm de suas olheiras profundas 
produzirem um olhar sem vida, petrificado, prprio das pessoas tomadas pelo demnio, como se pensava naqueles tempos.
Seu odor igualmente era pouco atraente, uma vez que, por mais que conseguisse higienizar-se - e isso j no era fcil naquela poca e naquele local - a permanncia 
do fluxo sangneo, aliado ao calor constante, produzia um odor caracterstico de putrefao que ela tentava disfarar cobrindo-se com mantos, buscando abafar o 
cheiro que a denunciaria ou que afastaria as demais criaturas.
       Nesse sentido, tendo sabido da presena daquele homem abenoado, deixou seu pequeno povoado e tomou o rumo de Cafarnaum onde esperava encontr-lo. Todavia, 
carregava consigo o esplio de anos e anos de sofrimento e preconceito, considerada mulher indigna, filha do diabo, condenada  periferia dos aglomerados humanos.
       Assim, tmida, no buscou Jesus diretamente, mas se limitou a misturar-se  multido para aproximar-se dele e toc-lo, com a esperana de que seu problema 
se solucionaria no anonimato.
E to logo encontrou a ocasio, assim o fez na certeza de que, se nada lhe acontecesse, da mesma forma nada perderia.
       Tal era a sua esperana naquele encontro, que no imaginava que o prprio Mestre pudesse identificar o seu gesto de splica sem palavras, com a sua sensibilidade 
perfeita e em sintonia com as dores ocultas a que ele viera servir por Amor.
       Aquelas palavras ainda ecoavam em seus ouvidos: - Algum me tocou porque eu senti que de mim saiu uma virtude...
E como mais ningum se apresentasse diante de tal apontamento seguro e peremptrio, apresentou-se ela, coagida por uma fora muito maior do que sua desdita e sua 
enfermidade.
       Trmula e amedrontada, sem saber como reagiria a multido, a mulher prostrou-se aos seus ps e, em lgrimas de medo e de emoo, relatou ali os seus padecimentos, 
sem ousar erguer os olhos, do mesmo modo que a fizera saber que, por uma fora misteriosa e gigantesca, ao simples toque de suas vestes, sentira parar o sangramento, 
causando um impacto muito grande em todos os que ouviam o relato franco e que denunciava o seu estado pessoal e a sua identidade, para sua prpria vergonha.
       Com muito amor por sua desdita, Jesus abaixou-se e tomou-lhe os braos  vista de todos os que o circundavam e, fitando-a com enternecimento incomparvel, 
sorriu-lhe como a lhe agradecer o gesto corajoso e autntico de apresentar-se  vista de todos, quando a maioria ali continuaria ocultando-se por medo de se apresentar 
e ser repreendido.
       A pobre mulher, que empobrecera nas inmeras tentativas de curar-se com mdicos e procedimentos pouco eficazes, que s lhe haviam piorado o estado geral, 
nada mais tinha para dar alm do prprio testemunho.
       E, para que servisse de exemplo aos outros que seguiam Jesus por mero diletantismo ou por desejarem estar prximos das novidades e dos fatos miraculosos, 
a mulher passou de annima a criatura reverenciada pelo Mestre, que lhe abenoou a luta e lhe afirmou:
       - Filha, vai-te em paz. Grande foi a tua f e ela te salvou. De hoje em diante ests livre de teu mal.
       Surpreendendo a todos com esse gesto, Jesus retomou a caminhada deixando a pobre e infeliz mulher embevecida com tal poder e generosidade.
       Mas a multido continuou apertando-o, espremendo-se as pessoas umas contra as outras, sem que desejassem outra coisa seno estarem prximas do espetculo.
       Por todos estes motivos, a pregao de Jesus estava gerando muitos problemas, alm do fato de que havia muitos enfermos que no podiam se locomover de seus 
leitos, de suas pobres enxergas, de seus catres, e que, assim, se viam privados de qualquer benefcio.
       Os que andavam e o seguiam, muitas vezes no queriam aprender ou aceitar. Os que necessitavam e ansiavam por um encontro, muitas vezes no tinham como chegar 
at ele.
       Diante disso, Jesus era bombardeado constantemente por splicas mentais, oraes emocionadas e recheadas de desespero e dor que lhe pediam a presena e o 
auxlio.
       Sentia as peties magnticas que lhe chegavam de todos os lados ao esprito sensvel e, sabendo das necessidades de muitos e da pouca f que poriam na mensagem 
superior se apenas se operasse uma cura  distncia, sem a presena de nenhuma prova de que fora produzida de uma intercesso superior, Jesus, em sua sabedoria, 
sabia da necessidade de levar a tais rinces, a prova viva das verdades do Reino de Amor que ele mesmo vivia.
       Assim, vendo que em sua jornada se iam agregando mais e mais almas que o seguiam, alm dos doze amigos por Ele escolhidos para os labores principais da Boa 
Nova, Jesus realizou aquela que seria a primeira medida de difuso ampla da mensagem do Reino do Pai por outras paragens.
       Sabendo das limitaes individuais no pouco conhecimento ou na fragilidade daquelas almas diante dos desafios da jornada, Jesus deliberou enviar os setenta 
mais prximos a diversas localidades em


Seu nome, para entregar as bnos de Deus aos cados que no podiam ir at a sua presena fsica.
      Assim, reunidos em uma de suas andanas, advertia os seus seguidores sobre as necessidades do devotamento diante das dificuldades.
      Por essa poca, o Divino Emissrio passou a se valer da ajuda dos integrantes desse grupo, conhecido como o grupo dos setenta, para que, em duplas, antecedessem-no 
como arautos da anunciao da sua chegada nas cidades por onde ele passaria e, nelas, muitas vezes, realizassem os milagres que os sofredores esperavam que o prprio 
Jesus produzisse.
Por isso, aos que se aproximavam de maneira mais ntima nas inmeras jornadas de pregao e semeadura, Jesus lanara sobre eles a convocao para o trabalho e a 
renncia.
      No entanto.nem todos os que o seguiam mais de perto, desejavam estar ao seu lado rompendo os laos com o mundo que os seduzia.
      Assim, quando alguns desejavam se postar ao seu lado como que disputando um lugar de destaque perante os outros, Jesus advertia, sereno:
      - As raposas tm suas tocas, as aves do cu fazem seus ninhos...mas a mim no me cabe ter sequer onde reclinar a cabea. Estais preparados para a mesma renncia 
que me cabe?
      E diante desta pergunta clara, arrefeciam os mais fracos diante da idia de no possurem coisas, nem casas, nem compromissos que os impedissem de seguir Jesus 
por onde ele fosse.
      A outros que aceitavam a convocao, mas pediam um prazo para irem ultimar seus negcios, enterrar seus mortos, despedir-se dos de sua casa, Jesus advertia:
      - Todo aquele que coloca a mo no arado e olha para trs, no est apto para entrar no reino de Deus - ao que desanimavam aqueles que se prendiam s coisas 
materiais e s convenes dos homens mais do que ao impulso de ser servidor dos ideais do Criador.
      Assim, selecionados os que compreenderam o que Jesus desejou falar, entre os quais estavam Josu e Zacarias, que no titubearam em se oferecerem segundo as 
condies estabelecidas pelo Mestre para o trabalho, estabeleceu-se o colquio no qual Jesus os abenoara e autorizara a realizar, em seu nome, os atos de amor a 
todos os que encontrassem.
E antes de design-los, dois a dois, aconselhou-os:
- A seara  ampla e h muitos sofredores necessitados. Todavia, muito pequeno  o nmero dos que se dispem ao trabalho de acolh-los. Por isso, eu digo a todos 
vs: Ide, em nome do Pai. Eu vos envio como cordeiros para o meio dos lobos.
      No carregueis bolsa, alforje nem sandlias que possam representar cobia aos que vos escutarem. Na ausncia de coisas valiosas os que vos encontrarem escutaro 
o valor de vossas palavras. Pedi acolhida nas casas humildes que se abrirem para vs e bendizei os seus moradores com palavras de paz e carinho. Ali estejai bebendo 
e comendo do que vos for dado, pois esse  o salrio do trabalhador e  tudo o que recebereis em troca. No escolhais moradias mais agradveis ou mais abastecidas 
e ali permanecei enquanto tiverdes coisas a cumprir, anunciando a proximidade do reino de Deus.
      Se, todavia, a cidade onde entrardes no vos acolher com simpatia, no por isso deixareis de propagar a mensagem do reino de Deus. Dir-Ihe-eis que o reino 
de Deus est prximo e que o desprezo com o seu anncio pesar sobre todos os seus moradores indiferentes, tendo desperdiado o chamamento que os poderia salvar. 
Da, afirmai que se retiram dali sem desejar levar-lhes sequer a poeira que se apegar s vossas sandlias.
Segui adiante at que a tarefa esteja concluda e voltai at mim.
      Ento, depois de os ter advertido da seriedade da pregao do reino e de lhes ter atribudo o poder de curar e abenoar os que os recebessem com fraternidade, 
Jesus passou a separ-los com um gesto, apontando quem seguiria com quem.
      Circundou os candidatos emocionados e lhes foi indicando o companheiro que aguardava em silncio o trmino da designao.
      E o que se observava  que, em alguns casos, Jesus colocava juntos dois amigos que se queriam muito. Em outros casos, o divino Mestre, apesar de no lhes ser 
to ntimo quanto o era dos doze apstolos, escolhia como se conhecesse a divergncia que lhes ia na alma, fazendo com que dois companheiros que tivessem diferenas 
pudessem caminhar lado a lado, aproximarem-se e unirem-se, j que estariam sozinhos e precisariam um do outro.
      - Tu, Jeroboo, ir com Ezequias e percorrereis os vilarejos do lago. No esqueais, no entanto, que o Senhor conhece os seus filhos por muito se amarem... 
- falava Jesus a ambos, causando-lhes o constrangimento interior daquele que se v desnudado em seus mais ntimos segredos.
      Afinal, Jeroboo se havia irritado com Ezequias por causa de sua maneira alegre de ser que lhe soava como irresponsabilidade ou leviandade. Ezequias era mais 
jovem do que ele e, naturalmente, se mantinha de maneira menos taciturna diante da vida. Alm disso,

no dia imediato, os pares foram deixando a companhia <le Jesus, tomando o rumo apontado e levando consigo a possibilidade de espalhar a mensagem aos que estavam 
apartados da Boa Nova.
       No  preciso dizer que, no ntimo da maioria dos enviados, um sentimento de receio pesava em cada corao.
       Isto porque, seguir Jesus por onde Ele caminhava era uma coisa. Dedicar-se a escut-lo ao longo dos trajetos, a anteceder-lhe a chegada nos locais por onde 
passaria e fazer-lhe companhia nas andanas representava para todos uma oportunidade de aprendizado.
       No entanto, agora, estavam  frente da ao. Antes eram espectadores. Agora, teriam de agir por si prprios, sem a presena daquele que admiravam e em quem 
confiavam.
       Precisariam agir com base em todos os ensinamentos recebidos e demonstrar, pelos exemplos, que estavam  altura de representar o Divino Messias.
       A jornada feita pelos enviados do Senhor significava esforo de superao, j a partir do prprio trajeto que deveria ser vencido com o trabalho das prprias 
pernas.
       E, tendo em vista as fragilidades interiores de todos os que se acercavam da mensagem evanglica, Jesus, sabiamente, designou-os dois a dois para que se fortalecessem 
e se apoiassem nos momentos de fraqueza ou dvida.
       Nesse panorama, Josu e Zacarias no eram diferentes dos demais.
       Carregavam seus sentimentos e temores que, agora, deveriam ser vencidos por uma luta pessoal, por um desafio de seus limites.
At ento, haviam acreditado em Jesus.

94        P rfmo* uece
Daqui para a frente, deveriam acreditar em si mesmos.
       - Ah! Zacarias, eu estou com meu corao apreensivo e preocupado-falou, sinceramente, o amigo Josu.
       - Eu tambm, companheiro - respondeu-lhe o ouvinte enquanto caminhavam rumo a Nazar.
       - Cada passo que damos parece que pesa uma montanha em meus ombros. Afinal, Jesus nos deu a autoridade para fazermos o que ele faz, mas est bem longe de 
ns sermos o que ele . Eu olho para mim, vejo meus defeitos e fraquezas e me sinto despreparado para agir como se fosse algum com virtudes e poderes para curar 
enfermos, expulsar demnios, falar do reino de Deus com a autoridade necessria para isso.
       - Eu o compreendo e sinto a mesma coisa, Josu. Em meu interior, vislumbro todos os passos errados que dei, as lutas materiais que me levavam a gozar o lucro 
com os negcios do mundo, como se estivesse ganhando com justia aquilo que s por fora da astcia estava conseguindo conquistar, em prejuzo de meus irmos mais 
ingnuos. Sentia orgulho de mim mesmo com o sucesso material que me permitia manter minha vida e minha esposa, procurando dar-lhe o melhor em termos de conforto 
e boas condies de alimentao, apesar de nossa simplicidade. Mesmo como sapateiro, minha capacidade de ganhar e economizar beirava a usura, mas eu a identificava 
como virtude de um bom comerciante. Somente depois que pude conviver com o mestre  que passei a entender o necessrio e indispensvel desapego das coisas materiais 
de maneira efetiva e, lhe confesso, essa era a parte mais difcil de minha jornada. O hbito que foi se instalando dentro de minha alma, herana de minha criao 
e de nosso modo de ver a vida, numa raa que tanto presa a arte dos negcios e os ganhos com as transaes, representava uma maneira verdadeira e correta de ver 
o mundo. Para mim, a vida era pautada por essas leis de mercado que enalteciam os lobos e ridicularizavam os cordeiros. Os primeiros eram os capazes e os segundos, 
os tolos sobre os quais os capazes triunfavam.
       Agora, envergonho-me de ter agido como agi, de ter-me valido de mulheres inocentes para cobrar-lhes valores muito acima do que, efetivamente, merecia receber. 
De ter recusado consertar sapatos de velhos que no tinham como me pagar pelo servio. E eu no consigo me esquecer de uma cena que protagonizei um certo dia e que 
carregarei por toda a minha vida como smbolo do egosmo de minha alma.
>. Falando assim, caminhavam por entre as veredas que levavam ao seu destino, lentamente, interrompendo a jornada de tempos em tempos para que pudessem descansar 
ou comer algo do que haviam preparado para a jornada.
       Naturalmente, no levavam provises muito avolumadas, mas o que 10 pobre, a quantidade de gua necessria para o trajeto, algumas frutas secas e a possibilidade 
de colher outras silvestres tornavam a viagem uma experincia cuja salubridade no atingia apenas o corpo pelos exerccios fsicos que propiciava, mas, igualmente, 
a alma que se  exercitando para os desafios naturais da evoluo indispensvel.
       Recuperando o flego de uma subida mais ngreme e, porque se aproximava a hora sexta quando o Sol a pino crestava os caminhos e aconselhava os seres vivos 
a buscarem a proteo necessria para o excessivo calor, os dois amigos acolheram-se sob a sombra frondosa de rvore amiga ao longo da estrada, dividindo entre si 
a rao que haviam trazido e esperando o tempo necessrio para a retomada da trajetria.
       Sem que Josu indagasse ao amigo sobre a continuidade do dilogo, eis que no era do seu feitio tocar nas feridas alheias para lhes conhecer o amargor e abrir-lhes 
ainda mais as bordas ulceradas, o assunto foi interrompido pela necessidade de descanso, depois de vrias horas de caminhada.
       Zacarias, todavia, sabia onde havia parado a narrativa e, admirando-se do amigo que no lhe perguntava sobre a continuidade da sua histria, afirmou, sereno:
       - Acho que estou sendo muito maante falando de mim mesmo, no , Josu?
- Por que voc diz isso, meu amigo?
       -  que parei de falar justamente no momento crucial que me  to marcante e voc nem perguntou sobre a sua continuidade, certamente porque no est com desejo 
de conhecer seu desenrolar...
       - Ora, Zacarias, voc  meu amigo e tudo o que lhe  importante o  igualmente para mim. Apenas no desejava que minha curiosidade fosse aquela que o fizesse 
sofrer ainda mais por lembranas duras e difceis que todos ns temos arquivadas em nossa alma. No queria que voc se visse obrigado a continuar, ferindo-se, apenas 
porque a minha curiosidade o obrigasse a isso. No entanto, se lhe apraz contar-me, estou feliz por merecer tal confiana e venerarei toda a sua confisso como se 
me fosse o tesouro secreto mais bem guardado de minha vida.
       A simplicidade e a pureza de Josu encantavam Zacarias que, surpreso, via-se apequenado por aquela maneira to inusual de vencer at mesmo a curiosidade para 
preservar o amigo que se revelava nos seus deslizes, quando a maioria das pessoas tem nsia para matar a curiosidade, ainda que isso signifique matar de dor aquele 
que se revela.
       - Desculpe a minha ignorncia, Josu. Eu aqui estou julgando-o sem perceber que sua generosidade est querendo me proteger de mim mesmo. Veja voc quanto 
tenho que aprender com seus exemplos -falou Zacarias envergonhado.
       - No seja assim, Zacarias. Lembre-se do que nosso mestre disse: "Os meus discpulos se reconhecero por muito se amarem".
       Todavia, sentindo a necessidade de alvio ntimo, Zacarias no pretendia esconder-se na sombra incgnita, no silncio da omisso, pois sentia que necessitava 
abrir-se ao amigo para que ele fosse melhor diante de seus olhos e de si mesmo.
       Por isso, Zacarias necessitava desabafar e contar as suas misrias, j que elas lhe pesavam demasiadamente no corao arrependido.
       Assim, valendo-se do momento de repouso depois da alimentao suave e frugal daquela hora, Zacarias retomou a conversa.
       - Sabe, Josu, eu me recordo de um dia em que um ancio me procurou. Na verdade, ele no me procurou. Praticamente caiu na porta de minha oficina. Era um 
homem muito idoso e cansado pela vida, naturalmente abandonado pelos filhos na hora difcil do ocaso da existncia. Eu o conhecia. Era o velho Absalo. Tivera dias 
de abastana quando o cercavam de gentilezas e carinhos. Sua rotina de vida, quando mais jovem, era a mesma que eu prprio levava. Trabalhava e ganhava nos negcios 
para gastar em hbitos luxuosos com os quais ostentava a sua condio de homem bem aquinhoado. Sua vida era do mesmo padro que a dos nossos, segundo as tradies 
mentirosas a que nos prendemos.
       No entanto, naturalmente, a vida d suas voltas. O tempo passou e o envelhecimento cobrou o seu preo. Junto dele, a viuvez tornou desrtico o seu jardim, 
e os filhos, desejosos de seguir os mesmos passos que haviam aprendido com os exemplos do velho Absalo, foram subtraindo-lhe as riquezas e se apropriando de maneira 
indigna dos bens que o velhinho havia conquistado com a velha astcia de nosso povo comerciante. To logo conquistaram a ltima migalha, que lhes fora entregue pelo 
velho pai mediante a promessa dos filhos de velar por ele nos seus achaques de ancio, foi ele ignorado como traste sem valor e relegado ao abandono, passando a 
viver perambulando de porta em porta, mendigando o alimento que os prprios filhos lhe negavam.
Em realidade, Absalo estava recebendo o que havia plantado, na indiferena com que tratava os sofredores que lhe batiam  porta, ensinando os filhos a serem frios 
com os vencidos, a quem chamava de preguiosos e vagabundos. Eu mesmo pude presenciar vrias vezes, nas ruas de nosso povoado, os gritos de Absalo insultando algum 
pedinte que lhe obstrua o caminho com as mos estendidas suplicantes. No importava se era criana, me ou idoso. Sua conduta era sempre a mesma, de afastar os 
inconvenientes com a ponta de sua bengala luxuosa.
      Mas naquele dia, ali estava no mais o jovem orgulhoso de si, irias, sim, o velho vencido pelo sofrimento diante de minha porta. Havia cado ao solo tanto 
por causa da fraqueza orgnica quanto por causa da precariedade de seus sapatos.
      Fui at ele para que dali se levantasse, pois no poderia permanecer interrompendo a entrada de meu estabelecimento. No desejava que em minha porta aquele 
homem viesse a fazer uma cena desagradvel que me afastasse a freguesia. Por isso, levantei-o do solo e dei-lhe um banquinho para que se sentasse por alguns instantes.
      Olhou-me com olhos de gratido que s agora eu sei identificar, mas que,  poca, achei que fossem olhos de alucinado ou de quase louco.
Lembrou-se de mim e me disse:
      - Ora, Zacarias, meu velho, desculpe por causar-lhe este transtorno, mas j faz algum tempo que tenho me sentido fraco e trpego, com estes sapatos que no 
me servem.
      Olhei para seus ps e pude perceber que o que Absalo falava era verdade. Ali estava o homem usando um par de sapatos absolutamente destrudos pelo tempo e 
pelas ruas pedregosas e poeirentas. Mas alm disso, como tal calado lhe houvera sido dado por algum que se condoera de seu estado, pude verificar que o mesmo era 
muito maior do que seus ps pequenos e velhos. Por isso, o homem no tinha como andar corretamente nem era capaz de, na sua fraqueza, manter-se em equilbrio, tendo 
que arrastar um sapato to maior que seus prprios ps. A cena era de comover at pedras pontudas. Meu corao se encheu de compaixo por aquele velho, mas acostumado 
aos nossos padres de sentimento que procuram, antes de tudo, a indiferena para que nosso corao no nos traia e nos obrigue a abrir o bolso, passei a olhar para 
o homem procurando fixar em minha mente a figura do antigo Absalo, arrogante, esbanjador, mesquinho que eu mesmo houvera conhecido.
      Bastou que lhe lembrasse os exemplos de vida faustosa para que um banho de gua fria me invadisse a alma e me afastasse de todo o sentimento de misericrdia.
      Enquanto relatava tais fatos, Zacarias deixou escorrer duas pequenas lgrimas pela face rugosa e queimada, as duas primeiras de uma srie que se prolongaria 
por toda aquela narrativa.

       Afinal, era necessrio que sua alma fosse lavada pelo arrependimento confessado e pela vergonha de si mesmo, apresentada ao amigo que o escutava, igualmente 
tocado pela emotividade daquela hora.
       Depois de breve pausa para concatenar melhor as idias, retomou a histria.
       - Pois ento, nesse momento procurei me esconder de meus bons sentimentos trazendo  lembrana os modos mesquinhos daquele a quem me competia ajudar. Esfriei 
meus impulsos e voltei meus pensamentos para os ensinamentos da lei, para os rigores de nossos preceitos de indiferena e mesquinharia com que nos temos educado 
ao longo dos anos e sculos.
       Vendo que minha face se tornara mais fria e impenetrvel pelo afastamento da compaixo e da simpatia, o pobre velhinho, vitimado pelas armadilhas que ele 
havia criado ao longo da vida, fixou-me os olhos e, com humildade, falou:
       - Ser que voc, Zacarias, no teria por a algum sapato velho que me servisse? No precisa ser novo, no. Pode ser bem surrado. Apenas gostaria que fosse 
do tamanho dos meus ps, pois eu no agento mais andar por a me arrastando com um sapato que no consigo prender para caminhar com segurana.
       Naquele momento, Josu, eu lhe posso afirmar que tinha uma pilha de sapatos inteis, de pessoas que me haviam comprado novos e que deixaram ali o velho par 
que, usurrio como sempre, eu mesmo reformava e revendia, depois de lhes dar algum trato, substituindo o couro gasto ou a sola avariada. No me seria difcil encontrar-lhe 
um par que lhe coubesse confortvel mente no meio daquele amontoado de sapatos inteis ou gastos que mais mereciam o destino do lixo do que o dos ps de algum.
       Um sentimento de bondade me passou pelo corao, impulsio-nando-me para que fosse at a pilha ao fundo e retirasse tantos sapatos quantos eu desejasse para 
servir ao velho. Todavia, novamente o conselho do egosmo me falou aos ouvidos: "Lembre-se o quanto este velho gozou na vida, gastou inutilmente, esbanjou como um 
perdulrio. Ele est recebendo o que merece..."
       E, novamente, esfriou-me o sentimento nobre para dar lugar ao negcio.
       - Sabe, Absalo, eu devo ter alguma coisa por aqui, mas no sei se voc poder comprar... - respondi friamente.
       Acostumado aos procedimentos que ele prprio tivera ao longo da vida, Absalo abaixou a cabea sem qualquer protesto, j que sabia IIJIO ter condies nem 
recursos em dinheiro para adquirir o mais barato dos pares de sapatos, pois entendera que eu estava dizendo que no lhe daria o par como presente ou como caridade.
Ainda assim, fui ao fundo e retirei da pilha um surrado par de apatos que a prtica me fez acertar serem do tamanho dos ps de Absalo.
       Trouxe-os at o velho que, desanimado e vencido, no erguia os olhos para mim.
       Coloquei-os no cho diante de suas vistas e esse gesto criou no ancio a idia de que eu o estava presenteando, apesar de no ter dito isso com palavras. 
A simples idia de que eu pudesse estar lhe entregando um sapato para vestir novamente encheu-o de esperanas. Sem muito esforo, afastou os sapatos velhos que lhe 
caam sozinhos, to folgados que se achavam. A pude ver o estado real dos ps daquele homem. Eram um amontoado de ossos e pele ferida pelo atrito com o couro rude 
que lhe danava de um lado para o outro e lhe produzia chagas dolorosas, revestidas por uma casca grossa de areia e poeira que penetravam por todas as brechas do 
sapato e se fixavam sobre o sangue e a linfa que brotava das bolhas rompidas, criando um aspecto muito deprimente.
       Foi difcil para o velho colocar o sapato que lhe dei. Seus ps doam muito e isso dificultava a operao.
       Agora, eu me pergunto por que no providenciei uma bacia para limpar-lhe as feridas, dando-lhe um pano para secar-lhe as chagas e lavar-lhe os ps?
       Por que no o ajudei a ser melhor com um gesto de acolhimento e de bondade, quando eu tivera o impulso de faz-lo?
       E as lgrimas rolavam abundantes, diante da confisso de sua conduta fria e indiferente daquela hora dolorosa para sua alma.
       Soluava baixinho ao peso daquela revelao franca de sua misria moral que mais ningum, alm de Absalo, havia testemunhado.
       - Depois de algum tempo, Josu, o velhinho conseguiu pr os sapatos e ensaiou alguns passos dentro de minha loja, a muito custo. Percebeu que, apesar de serem 
de seu tamanho, no conseguiria caminhar com os sapatos enquanto no curasse os ferimentos ou os envolvesse em bandagens protetoras.
       Olhou-me agradecido e cheio de esperanas, mas ouviu de mim a frase fria e agressiva do meu egosmo:
- Custam duas moedas... -falei maldoso, como a desejar ensinar


quele velho vencido o valor do dinheiro que ele mesmo houvera desperdiado durante a vida.
Nunca me esqueci de sua reao. Parecia uma flor que murchara repentinamente, sobre a qual se atirara um carvo incandescente.
      - Ah! meu filho, se eu tivesse duas moedas, eu j teria comido alguma coisa hoje... - respondeu-me o ancio, sentando-se para retirar os sapatos e me devolver, 
humilde e abatido.
      Aquela fala na boca de um velho trpego seria capaz de adocicar o mais amargo fel e, dentro de mim mesmo, causou um abalo ainda mais forte. No entanto, estava 
disposto a dar uma lio naquele homem que, agora, estava entregue ao abandono e  derrota humilhante.
Tocado por aquele momento, disse-lhe, procurando manter-me frio e distante.
      - Ora, Absalo, voc tem crdito aqui nesta loja. No precisa pagar agora. Dou-lhe uma semana para me pagar pelos sapatos.
      "D-lhe os sapatos com amor" - gritava minha conscincia. "D-lhe os sapatos... d-lhe os sapatos"... mas eu no queria escutar a voz da bondade dentro do 
corao.
      Vendo que minha mesquinharia no lhe concederia a ventura de poder caminhar sobre um par de calados, mas sim sobre um par de dvidas que ele no conseguiria 
quitar, com a dignidade que lhe restava no esprito olhou-me, dizendo:
      - Lamento, meu filho, mas nem assim poderei aceitar-lhe o crdito, pois no tenho como lhe garantir o pagamento nesse prazo. No desejo dar prejuzo a mais 
ningum nesta vida. Prefiro que me devolva os sapatos antigos e eu partirei j muito agradecido de voc me ter recebido em sua loja, eu que no mereo considerao 
de ningum por no ter sido homem que a tivesse ofertado aos outros durante a vida.
Dizendo isso, foi retirando os sapatos.
      Sem saber o que fazer, me preparava para recolher o par quando o olhar de Absalo brilhou e ele retomou a palavra dizendo:
      - Pensando melhor, e se... eu pagasse.... pelos sapatos...com este meu casaco... voc aceitaria?
      A sua pergunta vinha envolvida num fio de esperana que o fazia quase rejuvenescer.
Aquele no era um casaco. Havia sido, um dia.
Era apenas um tecido roto, grosseiramente costurado, mas que servia de proteo contra o frio da noite.
      Mas era uma proposta feita por um homem que no tinha mais nada na vida e, ainda assim, procurava adquirir um sapato velho sem llcar devendo nada a ningum.
      E  aqui que a cena se torna ainda mais dolorosa para minhas lembranas, Josu.
      Vendo-me defrontado pela oportunidade, esqueci-me da piedade, dos sentimentos de fraternidade, das coisas mais humanas que pudessem me fazer digno da paternidade 
Divina e aceitei o negcio que Absalo me propunha, com um sorriso de satisfao na face indiferente.
      Vio-o retirar sofridamente o velho pedao de roupa de cima de suas costas ossudas e entregar-me como pagamento referente a duas moedas, em troca de um par 
de sapatos gastos, surrados, mais adequados ao lixo do que aos ps de uma criatura.
      Entreguei-lhe o sapato que comprara e acompanhei-o at a porta da rua seguindo-lhe os passos descalos pela ruela afora, carregando nos braos, como um tesouro, 
o par que acabara de comprar.
      Nesse momento um sentimento de vergonha muito grande invadiu meu ser e, naquela hora passei a perguntar a mim mesmo, onde, efetivamente, estaria o homem miservel. 
Seria Absalo, vencido e humilhado que partia ou seria eu mesmo, mais miservel do que ele, indiferente diante do sofrimento daquele velho totalmente vulnervel 
e indefeso?
      Nesta altura da confisso, Zacarias no conseguia mais falar. Chorava como criana desesperada.
Josu lhe amparava a cabea nos ombros amigos e chorava com
ele.
      E no meio das dobras da tnica do amigo onde Zacarias se refugiava em desespero e fugindo da prpria vergonha, sua voz rematou entre os soluos:
      - E agora, Josu, Jesus pede que este traste de homem -referindo-se a si mesmo - fale em seu nome e cure as chagas dos que sofrem...
      No havia mais nada a contar. S lgrimas de arrependimento surgidas num corao transformado pela capacidade de Amar que Jesus semeava e semeia dentro de 
todos ns, nica forma de nos erguer do lamaal de nossas culpas e erros.

  Nazar, naquele perodo, era uma pequena cidade, quase uma aldeola que se erguia na baixa Galilia, envolvida por uma srie de colinas que lhe garantiam uma atmosfera 
muito harmoniosa e amena, sobretudo por permitir ao invasor romano encontrar uma paisagem que lhe trazia  lembrana algumas das existentes na longnqua capital 
imperial.
      Vegetao abundante, de um verde especial e vioso, permitia ao romano recm-chegado, confundir-se, acreditando estar em algum dos stios aprazveis circundantes 
da grande metrpole distante.
      Alm do mais, as condies climticas contrastavam com o calor abrasador das cidades mais ao sul, notadamente Jerusalm, Jerico, Belm, sempre aoitadas por 
cancula que castigava os seus habitantes em alguns perodos do ano.
Por isso, Nazar se levantava como refgio para os romanos mais aquinhoados que podiam dar-se ao luxo de possuir alguma moradia para passar o vero em terras mais 
amenas.
      A pequena cidade, composta basicamente de criaturas humildes, no por isso deixava de possuir a sua vida cotidiana envolvida no comrcio, na troca, nas relaes 
pessoais, nos ritos religiosos e nas prticas ilcitas que sempre acompanham os aglomerados humanos, neste perodo difcil de sua evoluo atravs do erro e do sofrimento.
      Sua sinagoga era o centro religioso dos que ali se mantinham estabelecidos e, com a prtica do culto, os sacerdotes e os fariseus se impunham aos demais como 
os que ditam as prticas locais, na interpretao dos ensinamentos dos livros sagrados. Muito honrava a Nazar e aos seus dirigentes que, naquelas modestas paragens, 
o governador romano tivesse estabelecido uma de suas residncias, atrado pelas vantagens j acima referidas e que, com a sua autoridade lhe permitiam passar agradveis 
momentos e realizar vantajosos negcios.

      Por mais que os judeus odiassem o invasor romano, tal sentimento <ii a muito atenuado nas classes que, sem poder enfrentar a fora imperial, poderiam beneficiar-se 
com a proximidade dela, ganhando coisas, 11 conquistando vantagens, ampliando riquezas.
      Roma sabia da promiscuidade que medrava na alma de muitos povos invadidos e, assim, tratava muitas vezes de conquistar as mais diversas classes de um povo 
oferecendo vantagens desmesuradas aos seus representantes que, a partir da, passavam a ver a invaso estrangeira como um bom negcio que lhes permitiria prosperar.
      Por esses motivos, tais representantes oficiais das castas judaicas no sentiam muito favorecidos com a proximidade do poder romano e, se certo que diante 
de seus pares de raa profligassem a invaso, I ombatendo a ocupao estrangeira com palavras de indignao  luz do dia, na calada da noite se misturavam com o 
invasor em recepes luxuosas nas quais estabeleciam o seu comrcio de interesses mundanos, realizando conchavos e negociando a boa convivncia entre o ditador e 
o povo que lhes competia dirigir e influenciar.
      Sempre que convocados a explicaes diante das assemblias do judeus, afirmavam a necessidade de se manterem com boas relaes com o invasor romano a fim de 
que conhecessem os seus planos e pudessem interferir para evitar coisas piores ou atitudes que seriam mais prejudiciais aos integrantes do povo sofrido.
      Na verdade, jogavam nas duas reas, procurando tirar vantagens dos dois lados, como maneira de amealhar mais e mais recursos e vantagens.
      Conhecendo a personalidade viciada de Pilatos, os responsveis pelo culto religioso de Nazar sabiam envolv-lo em todos os processos Hedutores que manteriam 
o governador interessado nas promissoras relaes com os dirigentes nazarenos.
      Por isso, to logo se estabeleceu o governador em Nazar, fazendo-a uma das pousadas de seu governo provincial, mais prximos o amistosos se fizeram os sacerdotes 
e fariseus mais abastados, oferecendo-lhe presentes e vantagens negociais que envolviam, inclusive, as prticas religiosas em suas oferendas, parte das quais destinavam 
ao governante romano como agrado pessoal e como gesto de gratido por no interferir nos ritos locais.
      Alis, esta era uma prtica que os prprios asseclas de Pilatos, em nome dele e com o seu consentimento verbal, realizavam com as autoridades locais dos lugares 
para onde Pilatos desejava instalar-se. Como a sua presena representava vantagens e realce, os representantes religiosos de tais localidades fatalmente sucumbiam 
s Insinuaes e solicitaes veladas para que a convivncia entre todos fosse harmoniosa.

E, COMO SABIAM OS RELIGIOSOS, SERIA BOM TER O GOVERNADOR NA SUA REA DE INFLUNCIA, POIS QUANDO SE LEVANTAVAM ZONAS DE INTERESSES CONFLITANTES ENTRE OS PRPRIOS 
JUDEUS, A PROXIMIDADE E A BOA CONVIVNCIA COM ELE ERA A MELHOR POLTICA.
       DA, COSTUMEIRAMENTE SEPARAREM DAS OFERENDAS ENTREGUES AO TEMPLO, BOA QUANTIDADE DE MOEDAS QUE FAZIAM CHEGAR AO GOVERNADOR QUANDO DE SUA VINDA  CIDADE, NESSES 
ENCONTROS DE CONFRATERNIZAO QUE, OUTRA FINALIDADE NO TINHAM, DO QUE A DE ACERTAREM AS CONTAS E RENOVAREM OS ACORDOS, MODIFICANDO ALGUNS ACERTOS, CONSEGUINDO ALGUNS 
NOVOS FAVORES, CEDENDO EM ALGUMAS NOVAS EXIGNCIAS.
POR ISSO, NAZAR, NAQUELES DIAS, ESTAVA EM FERVOROSA ATIVIDADE.
       HAVIA CHEGADO A NOTCIA DE QUE PILATOS ESTAVA SE ENCAMINHANDO PARA NAZAR E QUE, DA A POUCOS DIAS ESTARIA NA CIDADE ONDE PASSARIA ALGUM TEMPO, EM REPOUSO 
E DESFRUTANDO DA ACOLHEDORA COMUNIDADE.
       NO  PRECISO DIZER QUE OS NAZARENOS, COMO DE RESTO TODOS OS JUDEUS, SABIAM DAS QUEDAS MORAIS DE PILATOS, DE SEU MODO RUDE DE SER, TEIMOSO E ARROGANTE, FRACO 
DE CARTER, MAS ORGULHOSO DE ESPRITO, COM INCLINAES PARA AS FRAQUEZAS DA CARNE.
POR ISSO, QUANDO SE APRESENTAVAM TAIS OCASIES, OS PRPRIOS FARISEUS PROVIDENCIAVAM, DENTRE AS MULHERES MAIS BELAS DA COMUNIDADE, AQUELAS QUE SERIAM APRESENTADAS 
AO GOVERNADOR E QUE COMPORIAM O SEU SQUITO DE JUDIAS FCEIS  SUA SANHA DE HOMEM SEM BARREIRAS MORAIS.
NATURALMENTE, OS FARISEUS NO OBTINHAM TAIS FAVORES FEMININOS COM OS QUAIS DESEJAVAM AGRADAR A FERA COM O MEL DA CARNE HUMANA APENAS COM SUAS ARGUMENTAES TORTUOSAS.
       CONSTATANDO A PRESENA DE ALGUMA JOVEM DE BELEZA DIFERENTE E INTERESSANTE, GERALMENTE NAS FAMLIAS MAIS POBRES E MENOS PATRCIAS -POIS NAS FAMLIAS MAIS RICAS 
E TRADICIONAIS SERIA MAIS COMPROMETEDOR INVESTIR - OS FARISEUS PROCURAVAM PELO SEU CHEFE OU RESPONSVEL E, FALANDO-LHE DAS LEIS DE DEUS, DAS NECESSIDADES DE SACRIFCIO, 
DA HONRA DE PODER COLABORAR COM OS INTERESSES DE TODA A RAA, CONVOCAVAM-NO A AUTORIZAR A PARTICIPAO DA FILHA NOS BANQUETES QUE RECEPCIONARIAM O GOVERNADOR ROMANO.
       NO  PRECISO DIZER QUE FAZIAM REALAR O CARTER DA NOBREZA DE TAL GESTO, ESTANDO TO PRXIMA DO MAIS ALTO MANDATRIO INVASOR E QUE ISSO PODERIA REPRESENTAR 
UMA VERDADEIRA E NICA OPORTUNIDADE DO DESTINO, NA MELHORIA DE VIDA PARA TODA A FAMLIA.
E SE TAIS ARGUMENTOS NO ERAM AINDA SUFICIENTES PARA CONQUISTAR A CONFIANA DO VARO RESPONSVEL PELA JOVEM, OS PRPRIOS FARISEUS DEIXAVAM-LHE UMA BOLSA DE DINHEIRO 
COMO FORMA DE RECOMPENSAR AQUELA PERDA, NA CERTEZA DE QUE, DIANTE DE TAL IMPORTNCIA, A RESPOSTA FAVORVEL FACILMENTE SE OBTERIA.
MUITAS VEZES, TAL PRTICA NO SE LIMITAVA AOS PAIS. CHEGAVA AT OSMO AOS ESPOSOS, QUE SE VIAM ASSEDIADOS PARA QUE SUAS MULHERES LIURTICIPASSEM DAS CERIMNIAS FAUSTOSAS 
SEM A SUA PRESENA.
       NATURALMENTE, TUDO ISSO ERA FEITO COM MUITO CUIDADO E TINHA COMO MOTIVO, NICO E EXCLUSIVO, CONSEGUIR PARA O GOVERNADOR AS PRESAS FCEIS AO SEU INSACIVEL 
APETITE POR AVENTURAS NOVAS. NESSAS NEGOCIATAS ILCITAS, NUNCA APARECIAM OS NOMES DOS FARISEUS J QUE ELAS SE REALIZAVAM POR INTERPOSTA PESSOA, BAIXA O SUFICIENTE 
PARA SER O PORTA-VOZ DE TAIS MICRESSES E O TRANSPORTADOR DA BOLSA DE DINHEIRO COM A QUAL SE PRETENDIA COMPRAR A CONSCINCIA ALHEIA, DE PAI OU DE MARIDO.
       SE A DIGNIDADE DESTES FOSSE MAIS CARA DO QUE A OFERTA, OS PROPONENTES SE AFASTAVAM SEM QUE SE REVELASSE DE ONDE PARTIA A INICIATIVA IMPUDICA, PRESERVANDO, 
ASSIM, A IMAGEM DOS IMPORTANTES E MESQUINHOS FARISEUS.
       MAS COM O PODER DOS ARGUMENTOS MONETRIOS QUE POSSUAM, RARAMENTE OS SEUS EMISSRIOS SE RETIRAVAM SEM CONSEGUIREM FECHAR O NEGCIO.
       RESTAVA  JOVEM SUPORTAR O PESO DAS ESCOLHAS QUE TINHAM SIDO FEITAS EM SEU NOME E AMARGAR O SOFRIMENTO DE TER QUE SE ENTREGAR AO DESCONHECIDO TIRANO, QUE 
AS USARIA SEM CONSIDERAO E, EM ALGUMAS VEZES, LHES OFERTARIA ALGUMA COISA COMO POBRE PAGAMENTO POR SUA DIGNIDADE VILIPENDIADA.
       TODA ESSA COMERCIALIZAO DE PESSOAS E SENTIMENTOS ERA FEITA PELOS PRPRIOS JUDEUS, MUITAS VEZES COM A AQUIESCNCIA E COLABORAO DE ALGUNS SACERDOTES MAIS 
VENAIS E INTERESSADOS NAS VANTAGENS QUE CONSEGUIRIAM COM A GRATIDO DE PILATOS.
       CONTAVAM COM O FATO DE QUE, DEPOIS DE SEUS HORMNIOS ESTAREM SACIADOS E ACALMADOS EM DECORRNCIA DAS MEDIDAS ESPRIAS QUE OS PRPRIOS JUDEUS LHE CONCEDIAM, 
FACILMENTE LHES SERIA MAIS FCIL CONSEGUIR QUALQUER RETRIBUIO, MANTENDO-SE, DESTE MODO, O TRFICO DE INTERESSES QUE PILATOS SABIA SER-LHE IGUALMENTE FAVORVEL.
       EM ALGUMAS SITUAES, PARA QUE O GOVERNADOR NO TIVESSE  SUA DISPOSIO APENAS INEXPERIENTES RAPARIGAS CAMPONESAS, NUNCA TRANSFORMADAS EM GRANDES AMANTES 
DA NOITE PARA O DIA, OS SACERDOTES SE VALIAM DE MULHERES CONHECIDAS DA COMUNIDADE PARA QUE, BEM AJAEZADAS E VESTIDAS COM APRUMO E BOM GOSTO, PUDESSEM MUDAR A APARNCIA 
DE VULGARIDADE QUE LHES CARACTERIZAVA A PERSONALIDADE NAS RELAES IMPURAS DE QUE SE FAZIAM OBJETO PARA OS HOMENS DAQUELES STIOS.
       VINDO DE LONGE, NATURALMENTE DISTANCIADO DAS NOTCIAS LOCAIS, PILATOS NO SABERIA DISTINGUIR UMA PROSTITUTA DE UMA PATRCIA LOCAL SE AMBAS ESTIVESSEM TRAJADAS 
COMO MANDA A BOA TRADIO. POR ISSO, SERIA UMA SURPRESA AGRADVEL AO GOVERNADOR LEVAR PARA O LEITO UMA MULHER MAIS EXPERIENTE NOS TRMITES CAPRICHOSOS DOS SENTIDOS 
MUNDANOS, ACREDITANDO TER CATIVADO UMA ELEVADA REPRESENTANTE DA SOCIEDADE LOCAL QUE NO RESISTIRA AOS SEUS ENCANTOS DE HOMEM SEDUTOR.
       ALM DO MAIS, USAR PROSTITUTAS BEM DISFARADAS ERA MAIS ECONMICO E MENOS TRAUMTICO, POIS TAIS MULHERES NO TINHAM DONOS OU RESPONSVEIS COMO ERA COMUM NA 
POCA, ALM DO FATO DE QUE, DEPOIS DO ENCONTRO COM O GOVERNADOR, NO TEREM DIFICULDADE ALGUMA DE RETOMAR SUAS VIDAS, COISA QUE NO ERA FCIL PARA OS SACERDOTES E 
FARISEUS CONTORNAR QUANDO SE TRATAVA DE FILHA OU ESPOSA DE ALGUM OUTRO JUDEU, SEMPRE VULNERVEL A RECADAS E ARREPENDIMENTOS DEPOIS DOS FATOS CONSUMADOS E DE ACABADO 
O DINHEIRO QUE RECEBERAM PELA AQUIESCNCIA.
MUITOS DESTES PAIS OU MARIDOS, DEPOIS QUE LHES ERAM DEVOLVIDAS AS ESPOSAS, PROCURAVAM AS AUTORIDADES PARA ACUSAR ALGUM, QUE ELES NO CONHECIAM, DE LHES TER CORROMPIDO 
A FILHA OU A MULHER, J QUE A MESMA LHES FORA RESTITUDA DEPOIS DE TER-SE DEITADO COM OUTRO HOMEM.
       NATURALMENTE QUE LHES ERA OMITIDO ESTE DETALHE DURANTE A NEGOCIAO, OU SEJA, NUNCA LHES ERA DITO QUE, DURANTE O ENCONTRO NOTURNO, AS MULHERES ESTARIAM SUBMETIDAS 
AOS DESEJOS DO GOVERNADOR, QUE TANTO PODERIA DESEJAR DEITAR-SE COM ELAS QUANTO LHES PODERIA OFERECER TRATAMENTO CORDIAL E LHES DISPENSAR A COMPANHIA.
       DURANTE OS ACERTOS PARA A CONTRATAO DAS MULHERES, TAL INFORMAO FICAVA NAS ENTRELINHAS PARA UM BOM ENTENDEDOR, COISA QUE MANTINHA O NEGCIO DENTRO DE UM 
PADRO TICO MINIMAMENTE ACEITVEL PELO CONVENCIONALISMO FORMAL DOS NEGCIOS. NO SE ESTAVA VENDENDO O CORPO DA MULHER. ESTAVAM RECRUTANDO BELAS MULHERES PARA EMBELEZARA 
NOITE DO GOVERNADOR ROMANO, QUE PODERIA ENCANTAR-SE COM ELAS E FAVOREC-LAS COM GENTILEZAS.
       TODAVIA, QUANDO VOLTAVAM PARA CASA E RELATAVAM, ENTRE VERGONHA E PRANTO, TEREM SIDO USADAS PELO GOVERNADOR, QUE NO SABIA NADA DE SEUS DRAMAS PESSOAIS NEM 
DE COMO HAVIAM SIDO ARREGIMENTADAS, UM SENTIMENTO DE AFRONTA MUITAS VEZES FAZIA COM QUE O PAI OU O MARIDO PROCURASSEM AS AUTORIDADES PARA RECLAMAR SEUS DIREITOS 
OU ENTO BUSCASSEM O TEMPLO PARA SE QUEIXAREM DE TAL ENGODO.
       ALGUNS PEDIAM MAIS DINHEIRO PARA QUE SE CALASSEM E COMPENSASSEM O PREJUZO SOFRIDO SOB PENA DE DIVULGAREM TODA A TRAMA, O QUE PODERIA DIFICULTAR AOS FARISEUS 
AS FUTURAS AQUISIES.
       POR TODOS ESTES PROBLEMAS, OS SACERDOTES E OS FARISEUS, MUITAS VEZES, PREFERIAM A COMPANHIA DE PROSTITUTAS A QUEM FANTASIAVAM COM BONS TRAJES E JIAS VISTOSAS 
PARA QUE ENGANASSEM OS IMPULSOS DE PILATOS E, DEPOIS, NO LHES CRIASSEM PROBLEMAS, J QUE ESTARIAM EXERCITANDO SEU PRPRIO TRABALHO, PARA O QUAL J SE ACHAVAM ACOSTUMADAS 
E PREPARADAS.


       DESTA MANEIRA, AQUELA ESTAVA SENDO UMA SEMANA DE MUITO TRABALHO PARA OS QUE DIRIGIAM OS DESTINOS DAQUELA LOCALIDADE.
       O ALVOROO LOCAL FAZIA COM QUE,  BOCA PEQUENA, SE SOUBESSE QUE O GOVERNADOR ESTARIA NA REGIO EM VISITA OFICIAL E QUE ELA PODERIA DURAR O TEMPO NECESSRIO 
PARA QUE TODOS SE BENEFICIASSEM DE ALGUMA SORTE COM A SUA PRESENA POR ALI.
       ISSO PORQUE OS ARTESOS SE ESMERAVAM EM PRODUZIR MELHORES OBJETOS COM QUE ESPERAVAM AGRADAR AO GOVERNADOR E LHES PROPICIAR MAIORES RENDIMENTOS.
       OS PRODUTORES DE VINHO RETIRAVAM DE SEUS RESERVATRIOS OS MAIS FINOS PRODUTOS PARA COLOC-LOS  DISPOSIO DOS FUNCIONRIOS DE PILATOS, INCUMBIDOS DE ABASTECER 
AS SUAS ADEGAS E DE REARRUMAR AS INSTALAES DE SUA VIVENDA.
       E, POR CAUSA DE TUDO ISSO, OS PREOS SUBIAM MAIS, AS PESSOAS SE TORNAVAM MAIS ASTUTAS VISANDO MELHORES NEGCIOS E GANHOS, TENTAVAM SUBORNAR OS FUNCIONRIOS 
ROMANOS PARA QUE SEUS PRODUTOS TIVESSEM ACESSO DIRETO  MESA DO GOVERNADOR E, ASSIM POR DIANTE.
       A VINDA DE PILATOS  CIDADE, POR CAUSA DE SUA PERSONALIDADE VICIOSA, DESPERTAVA NOS QUE O CIRCUNDAVAM OS MESMOS BAIXOS INSTINTOS E INDUZIAM OS MORADORES A 
SE PERVERTEREM PARA CONSEGUIREM VANTAGENS QUE O GOVERNADOR SABIA SEREM TO DESEJADAS POR ELES, NA MISRIA EM QUE VIVIAM.
       ASSIM, POR SUA CONDUTA MENTAL DETURPADA NO EXERCCIO DO PODER, PILATOS ACHAVA QUE TUDO AQUILO ERA UMA MANEIRA DE BENEFICIAR A COMUNIDADE COM A SUA PRESENA.
       GRAAS A ELE, O COMRCIO NA REGIO VICEJAVA, AS MOEDAS SAAM DE BAIXO DOS COLCHES, A CIDADE SE MOVIMENTAVA E INICIAVA-SE UMA LUTA ENTRE SEUS PRPRIOS MORADORES 
PARA QUE SEUS DESEJOS FOSSEM ATENDIDOS.
       TODAVIA, SE ISSO ACONTECIA REALMENTE, OCORRIA APENAS COM BASE NA NOCIVA INFLUNCIA QUE SUA PESSOA EXERCIA SOBRE OS MORADORES DE CADA LOCALIDADE, INFLUNCIA 
ESTA QUE ERA AFIRMADA PELOS ASSECLAS QUE O ANTECEDIAM E QUE TRATAVAM DE DAR O TOM DA NEGOCIATA QUE ESTAVAM PRESTES A FIRMAR COM A CHEGADA DO MAIS IMPORTANTE DOS 
ROMANOS NAQUELAS PARAGENS.
       DESTA MANEIRA, OS QUE DESEJAVAM TER ALGUMA CHANCE NAQUELE LOCAL ESQUECIDO E REMOTO NO PODERIAM PERDER A OPORTUNIDADE QUE SURGIA QUANDO DA CHEGADA DO GOVERNADOR. 
ERA O MOMENTO DE SE CONCRETIZAR O SONHO PESSOAL E, NA MAIORIA DELES, O DINHEIRO OU O PODER ERA PEA FUNDAMENTAL.
       POR ISSO, PARA NO DEIXAR PASSAR A CHANCE, O MAIS BAIXO DOS INSTINTOS SE APRESENTAVA NA SUPERFCIE DO CARTER DOS CIDADOS E A


CONVIVNCIA ESQUECIA TODAS AS REGRAS DE RESPEITO, CONSIDERAO E RELIGIOSIDADE PARA PERVERTER-SE EM UM EMARANHADO DE COMPETIDORES, PRONTOS A SE SACRIFICAREM, A SE 
MATAREM UNS AOS OUTROS PARA CONSEGUIREM A MIGALHA QUE O PODER ROMANO LHES OFERECIA PELO S E EXCLUSIVO MOTIVO DE PASSAR ALGUNS DIAS NA CIDADE.
       AGRADAR AO GOVERNADOR ERA O DESEJO DE TODOS. DO MAIS HUMILDE AO MAIS PODEROSO JUDEU DE NAZAR.
ESSE ERA O PANORAMA QUE JOSU E ZACARIAS ENCONTRARAM QUANDO CHEGARAM  CIDADE, PERTURBADA PELA EUFORIA NO DECLARADA DAQUELE MOMENTO, O QUE LHES CAUSOU UM SIGNIFICATIVO 
ESPANTO.
NO CARREGAVAM CONSIGO NENHUM RECURSO QUE LHES PUDESSE GARANTIR POUSADA SEGURA NAQUELA NOITE QUE SE APROXIMAVA. NO CONHECIAM NINGUM NA CIDADE E NO PODERIAM COMEAR 
A PREGAO NAQUELE MOMENTO PORQUE NO HAVIA A QUEM PREGAR.
       NESSE SENTIDO, PROCURARAM AS PROXIMIDADES DA SINAGOGA MODESTA NA QUAL A VIDA RELIGIOSA DOS JUDEUS SE CONGREGAVA. O PRDIO ESTAVA ESCURO J QUE NO ERA DIA 
DE CULTO NORMAL. NO ENTANTO, ACREDITAVAM QUE ALGUM ESTARIA ALI PARA LHES INDICAR ALGUM LUGAR PARA O DESCANSO.
       NINGUM SE APRESENTOU E AOS DOIS HOMENS CANSADOS E EMPOEIRADOS PELA LONGA JORNADA DE VRIOS DIAS A SITUAO PARECIA ALGO DESCONCERTANTE.
       TODAVIA, SEGUIRAM JUNTOS PARA UM RECANTO QUE LHES PARECEU PROTEGIDO DAS TEMPERATURAS MAIS FRIAS DA NOITE, PRXIMO DE CONJUNTO DE RVORES NOS ARREDORES DA 
PEQUENA COMUNIDADE.
       ACOSTUMADOS A DORMIR AO RELENTO, PASSARAM A CONGREGAR FOLHAS CADAS PARA IMPROVISAR MODESTAS CAMAS ONDE REPOUSARIAM O CORPO EXAUSTO COMO FORMA DE ESQUECER 
TAMBM DA FOME QUE OS CASTIGAVA, DEPOIS QUE SE ACABARAM AS PROVISES PELO CAMINHO.
       A GUA, HAVIAM CONSEGUIDO QUANDO DE SUA CHEGADA A NAZAR, EM CISTERNA PBLICA QUE SERVIA AOS QUE DELA NECESSITASSEM.
       QUANDO ESTAVAM SE PREPARANDO PARA SE DEITAREM, ESCUTARAM VOZES QUE PASSAVAM AO LONGE E QUE CONVERSAVAM ANIMADAMENTE, DIZENDO:
       - VOC VIU, ACAB, O MALDITO PROCURADOR DA JUDIA EST PARA CHEGAR E OS ABUTRES DO TEMPLO J ESTO POR A, PROCURANDO POMBINHAS INOCENTES PARA OFERECER AO 
LOBO FAMINTO. AINDA ONTEM ESTIVERAM EM MINHA CASA PRETENDENDO O CONSENTIMENTO DE MEU PAI PARA LEVAREM MINHA IRM DE 14 ANOS  RECEPO QUE ESTO ORGANIZANDO.
       - E SEU PAI, ESDRAS, APROVEITOU A OPORTUNIDADE NICA DE CONSEGUIR DINHEIRO PARA PAGAR SUAS DVIDAS?
- EU NO SEI, POIS O VELHO ME MANDOU SAIR DO AMBIENTE PARA QUE NO PRESENCIASSE A SUA DECISO. S SEI QUE SARA ESTAVA AO FUNDO, SEM UNHAR O QUE SE ESTAVA PASSANDO 
E EU TIVE MUITA PENA DE SEU ESTADO, pois NS SABEMOS O QUE ACONTECE COM AS MOCINHAS QUE CAEM SOB OS Olhos DE PILATOS POR AQUI. MALDITA POBREZA ESTA QUE NOS FAZ ESQUECER 
Que SOMOS PESSOAS DE BEM OU NOS FAZ VER QUE NO VALEMOS NADA MESMO, COMO DESEJAM QUE ACREDITEMOS AQUELES QUE NOS QUEREM COMPRAR A PRPRIA DIGNIDADE. AH! SE EU TIVESSE 
PODER, MATAVA PILATOS E OU SACERDOTES COM MINHAS PRPRIAS MOS..
       - CALE-SE, ACAB, ALGUM PODE ESCUTAR E VOC VAI MORRER NAS MOS DOLES SEM QUE SEU PAI RECEBA NENHUM TOSTO POR ISSO - FALOU ESDRAS IRONIZANDO A CONDIO DE 
CARNCIA DE AMBOS DIANTE DOS MAIS RICOS QUE LHES DIRIGIAM OS DESTINOS.
       OUVINDO AQUELA CONVERSAO FORTUITA, OCULTADOS QUE ESTAVAM PELAS FOLHAGENS DO ARVOREDO, ZACARIAS E JOSU SE INTEIRARAM DE QUE AS DIFICULDADES DE SUA ESTADA 
NAQUELA LOCALIDADE SERIAM MAIORES DO QUE ELES MESMOS TINHAM IMAGINADO.
       A PRESENA DE PILATOS NA REGIO, AGUARDADA PARA BREVE, TORNAVA QUASE IMPOSSVEL FALAR DE OUTRA COISA S PESSOAS.
       MESMO NA SINAGOGA, O ASSUNTO NO DEVERIA SER OUTRO QUE NO A CHEGADA DO GOVERNADOR.
       COMO FALAR DO REINO DE DEUS A PESSOAS QUE ESTARIAM TO DESESPERADAS PARA SE APROXIMAREM DAS VANTAGENS DO REINO DA TERRA?
       - VEJA, ZACARIAS, EM QUE PROBLEMA PROFUNDO NS NOS METEMOS DESTA VEZ. E AGORA ESTAMOS SEM JESUS POR PERTO. QUE DESAFIO PARA NOSSA INCAPACIDADE.
       ESCUTANDO A PALAVRA DO AMIGO MAIS JOVEM E MAIS INEXPERIENTE, ZACARIAS TOMOU A PALAVRA E DISSE:
       - SABE, JOSU, DEPOIS QUE ENCONTREI JESUS, APRENDI MUITO COM ELE E POSSO LHE DIZER UMA COISA: O MESTRE SABE O QUE ACONTECE EM TODOS OS LUGARES. LEMBRA DA 
ORAO PARA AQUELA VELHA QUASE PISOTEADA PELA MULTIDO?
- SIM, ZACARIAS, EU ME RECORDO.
       - POIS ENTO. DO MESMO JEITO QUE JESUS ESCUTOU A PRECE MENTAL QUE VOC FEZ E QUE REDUNDOU NA VOLTA DO SENHOR PARA ATEND-LA, A DETERMINAO DELE PARA QUE 
ESTIVSSEMOS AQUI DEVE TER ALGUM SIGNIFICADO PARA NS PRPRIOS E REPRESENTAR ALGUM DESAFIO QUE ELE NOS ACHOU DIGNOS DE ENFRENTAR. ALM DISSO, DEPOIS QUE DESABAFEI 
COM VOC SOBRE AS MINHAS TRAGDIAS PESSOAIS, AO LONGO DA NOSSA CAMINHADA AT AQUI, PASSEI A SENTIR UM ALVIO TO GRANDE, COMO SE UM GRANDE E IMENSO SENTIMENTO DE 
COMPAIXO POR TODOS OS MEUS SEMELHANTES ME VISITASSE, DEPOIS DE ME TER PERDOADO AS MAIS DURAS OFENSAS E ERROS.
       AGORA EU ME SINTO PRONTO A OLHAR PARA A FRENTE. SEJA POR SUA ACOLHIDA GENEROSA DE MEUS DEFEITOS, SEJA PELO PERDO QUE DEUS ME ESTENDEU DURANTE MINHAS LGRIMAS, 
EU POSSO LHE DIZER QUE SOU OUTRA PESSOA E QUE, SE NO CONSEGUISSE FALAR DO REINO DE DEUS PARA NINGUM NESTA VIAGEM, ELA J TERIA VALIDO A PENA, PORQUE ENCONTREI 
UM PEDAO SIGNIFICATIVO DO REINO DE DEUS DENTRO DE MIM MESMO.
E SE ELE  TO GRANDE E GENEROSO COMO PASSEI A SENTIR EM MEU CORAO MISERVEL E CHEIO DE DEFEITOS, TAMBM PODER SER PARTILHADO COM QUALQUER CRIATURA DESTA CIDADE, 
NO IMPORTA SE ESTEJAMOS FALANDO A MULTIDES OU APENAS A DOIS CES PERDIDOS NA RUA AO DESAMPARO.
EU, QUE ME DEI AO LUXO DE EXPLORAR O POBRE ABSALO E TOMAR-LHE A TNICA COMO PAGAMENTO POR UM PAR DE SAPATOS VELHOS, AGORA NO POSSO ME DAR AO LUXO DE ESCOLHER CONDIES 
PARA FALAR DO REINO DE DEUS. AS CONDIES SERO AQUELAS QUE ENCONTRARMOS E NS NOS SERVIREMOS DE APOIO UM AO OUTRO. VAMOS ORAR A JESUS COMO VOC FEZ NAQUELE DIA, 
AGORA QUE NOS PREPARAMOS PARA DORMIR E O SENHOR NOS AJUDAR.
       E COMO SEU CORAO TEM A PUREZA QUE AS ESTRELAS ESCUTAM, JOSU, ESTOU DETERMINANDO QUE FAA A ORAO EM MEU NOME TAMBM.
       TOCADO NA ALMA PELAS PALAVRAS SBIAS DE ZACARIAS, A QUEM ADMIRAVA COMO UM IRMO MAIS VELHO E EXPERIENTE E A QUEM NO PRETENDIA CONTRARIAR NUNCA, DIANTE DA 
RETIDO DE SEU CARTER E DOS EXEMPLOS DE ESFORO QUE OFERECIA, JOSU, EMOCIONADO E REVERENTE, AJOELHOU-SE NA RELVA, NO QUE FOI ACOMPANHADO POR ZACARIAS E DISSE EM 
VOZ SUAVE DIANTE DO ALTAR MAJESTOSO DAS RVORES QUE LHES GUARDARIA O SONO:
       - PAI BONDOSO, AQUI ESTAMOS EM TEU NOME PARA SERVIR-TE. GRANDE  A OBRA E PEQUENOS SO OS SERVIDORES. PERMITE QUE TEU FILHO AMADO, NOSSO MESTRE JESUS NOS 
ESCUTE NA SPLICA POR ESCLARECIMENTOS.
NO DESISTIREMOS POR DORMIR AO RELENTO, POR COMER COM OS CACHORROS, POR SUPLICAR AGASALHO OU POR TERMOS DE SECAR DE NOSSO ROSTO AS CUSPARADAS QUE NOS CHEGUEM. APENAS 
NO SABEMOS COMO COMEAR, NEM PARA ONDE IR, NEM O QUE DIZER.
       ASSIM, SENHOR, PERMITE QUE, NAS ASAS DO SONO, NOSSO AMADO MESTRE NOS AJUDE E NOS APONTE O QUE FAZER PARA QUE NO PERCAMOS A OPORTUNIDADE DE SERVIR AO BEM, 
CONFORME ELE MESMO NOS DESTINOU NESTA JORNADA.
SABEMOS DA TUA PROTEO, DOS RECURSOS DO ALTO.
       TEMEMOS APENAS AS NOSSAS MISRIAS, QUE PODERO ATRAPALHAR A NOTCIA DO TEU REINO DE AMOR.
       NO SABEMOS SE GRITAMOS NAS ESQUINAS QUE O REINO DE DEUS EST PRXIMO, SE NOS DIRIGIMOS  SINAGOGA VAZIA PARA NELA PREGAR, SE NOS

MINTAMOS E ESPERAMOS QUE O GOVERNADOR V EMBORA PARA COMEARMOS A OBRA.
       AJUDA-NOS, JESUS, POIS ESTAMOS AQUI POR TI E NO POR NS MESMOS,  MUITO DEVEMOS E NOS JULGAMOS MUITO ABAIXO DAS ALTAS RESPONSABILIDADES DE TE REPRESENTARMOS 
NO MEIO DO REINO DO MUNDO.
      DESCULPA-NOS A FRAQUEZA MORAL E AS DVIDAS DA ALMA. FORTIFICA-OS COM TUA SABEDORIA QUE TUDO V, TUDO CONHECE E TUDO ENCAMINHA PARA A MELHOR SOLUO.
    NO ESTAMOS COM MEDO, SENHOR. ESTAMOS CONFUSOS COM TUDO O QUE NOS RODEIA.
       AJUDA-NOS AGORA PARA QUE POSSAMOS TE AJUDAR EM ALGUMA COISA DAQUI PARA A FRENTE.
AMM.
    JOSU E ZACARIAS TINHAM OS JOELHOS CRAVADOS NO FRIO DA TERRA, MAS OLHOS VOLTADOS PARA AS ESTRELAS DO CU E, NAS LGRIMAS QUE ESCORRIAM SUAS FACES RUTILAVAM AS 
LUZES ESTELARES QUE, ACESAS POR DEUS, TESTEMUNHAVAM OS ESFOROS DO BEM NOS CORAES DESACOSTUMADOS A ENTENDER-LHE A LGICA DO AMOR.
ERA NECESSRIO ENTENDER COMO FAZER O BEM COM A LGICA DO AMOR.
       ISSO  O QUE HAVIAM PEDIDO A JESUS NAQUELA NOITE INESQUECVEL PARA SUAS ALMAS.
       E SUAS PRECES NO SERIAM ESQUECIDAS PELO SOBERANO AMOROSO QUE, MUITO DIFERENTEMENTE DE PILATOS OU DE QUALQUER OUTRO REPRESENTANTE DE PODER MUNDANO, NO SE 
VALIA DO PODER PARA TIRAR VANTAGENS PESSOAIS. VALIA-SE DELE PARA AMAR E ELEVAR AS CRIATURAS, RENUNCIANDO A SI MESMO.
       ERA O MOMENTO DE SE EVANGELIZAREM, EVANGELIZANDO COM A MENSAGEM DA BOA NOVA OS OUVIDOS INOCENTES DOS QUE ESCUTARIAM SUAS PALAVRAS.
       POR ISSO, DEITARAM-SE CHEIOS DE ESPERANAS DIANTE DAQUELA SPLICA SINCERA E AUTNTICA, DISTANCIADA DE TODOS OS RITUAIS FORMALISTAS DOS FALSOS RELIGIOSOS DE 
TODAS AS POCAS, QUE FAZEM DAS ORAES MOMENTOS DE EXALTAO DE SUA VAIDADE, DE DEMONSTRAO DE UM PODER MISERVEL DO QUAL NUNCA DO TESTEMUNHO PESSOAL, DE AMEAA 
A F SINCERA DE MUITOS INCAUTOS QUE ENTREGAM NAS MOS DE TAIS INDIGNOS SACERDOTES DE TODAS AS CRENAS, A RESPONSABILIDADE POR PASTOREAREM UM REBANHO, ESQUECENDO-SE 
DAS ADVERTNCIAS DE JESUS DE QUE:
"QUANDO UM CEGO GUIA OUTRO, AMBOS CAEM NO BURACO!"
        DURANTE A NOITE DE REPOUSO, OS ESPRITOS DE ZACARIAS E JOSU FORAM RETIRADOS DO CORPO E LEVADOS A UM LOCAL QUE ENCANTARIA O MAIS DURO E INDIFERENTE DOS HOMENS 
SOBRE A TERRA.
       TRATAVA-SE DE UM LOCAL DIFERENTE DAS PARAGENS QUE A NATUREZA DAQUELA REGIO ERA TO PRDIGA EM PRODUZIR, AINDA QUE SE TRATASSE DE UM AMBIENTE CERCADO DE BELEZAS 
NATURAIS, MAS DE UMA CONSTITUIO DIFERENTE DE TUDO AQUILO QUE ELES J TINHAM VISTO.
       UMA LUZ SERENA E DE ORIGEM DESCONHECIDA SE ESPRAIAVA POR TODOS OS LADOS COMO SE UM OCULTO SOL ESTIVESSE PRESTES A ERGUER-SE NO HORIZONTE. E, NO ENTANTO, ELE 
INSISTIA EM NO NASCER.
       TODAS AS COISAS QUE OS CIRCUNDAVAM ESTAVAM BANHADAS POR ESSA VIBRAO DE MARAVILHOSO ENCANTAMENTO QUE SE APROXIMAVA DE UMA VISO DE MAGIA E SONHO.
       OS DOIS ESPRITOS, TEMPORARIAMENTE AFASTADOS DO CORPO, SE MANTINHAM UNIDOS POR UMA FORA QUE DESCONHECIAM, MAS QUE NO OS CONSTRANGIA OU ALGEMAVA.
       CADA PASSO DE UM, NO ENTANTO, ARRASTAVA O OUTRO JUNTO COMO SE AMBOS ESTIVESSEM FAZENDO PARTE DE UMA MESMA ENTIDADE MAIS POTENTE, APESAR DE SUAVE E INVISVEL, 
QUE LHES APONTAVA OS RUMOS PARA ONDE DEVERIAM IR SEM OS OBRIGAR COMPULSORIAMENTE A SE DIRIGIREM PARA L.
UM IMPULSO INTERIOR, COMO UMA SUGESTO, FAZIA COM QUE TOMASSEM O CAMINHO E, APESAR DISSO, TINHAM A LIBERDADE SUFICIENTE PARA PARAR E ADMIRAR AS BELEZAS DAQUELA HORA 
TO ESPECIAL PARA SUAS VIDAS DEVOTADAS AO BEM E AO CRESCIMENTO.
       SEM SE APERCEBEREM DO TEMPO EM QUE ESTAVAM ALI ADMIRANDO AS COISAS QUE OS CIRCUNDAVAM, NEM DE QUANTO TINHAM CAMINHADO DESDE QUE SE VIRAM EM TAL AMBIENTE, 
O CERTO  QUE FORAM SURPREENDIDOS POR ENCANTADORA PEA MUSICAL QUE, QUAL CAVATINA EXECUTADA POR MOS

INVISVEIS, LHES ANUNCIAVA ESTAREM PRXIMOS DE ALGO MUITO ESPECIAL. A EMOO LHES TOCAVA AS FIBRAS MAIS NTIMAS E AS LGRIMAS BROTARAM ESPONTNEAS DE SEUS OLHOS 
SURPREENDIDOS, ATESTANDO A SENSIBILIDADE NATURAL DE QUE ERAM CONSTITUDOS, NO MAIS NTIMO DE SEUS ESPRITOS.
       ERAM SONS DOS QUAIS NO SE VIA A ORIGEM, MAS QUE, CERTAMENTE, ESTAVAM SENDO EXECUTADOS POR MESTRES ANGELICAIS, TO BELAS ERAM AS SUAS COMBINAES E OS SEUS 
ACORDES, A PONTO DE TRAZEREM AOS OUVIDOS UMA CANO NO ARTICULADA ATRAVS DA QUAL SE ENALTECIA A GRANDEZA DO CRIADOR DO UNIVERSO, EM HOSANAS DE GRATIDO E ALEGRIAS.
       TAL SENTIMENTO OS TRANSPORTAVA PARA UMA ATMOSFERA DE REVERNCIA JAMAIS EXPERIMENTADA POR SEUS ESPRITOS E, NAQUELE MESMO LOCAL, ONDE COMEARAM A CHORAR PELA 
PROFUNDIDADE DA MELODIA, ESTACARAM E SE PUSERAM AJOELHADOS JUNTO  RELVA, CUJA SUAVIDADE ERA TAL QUE FAZIA PARECER CASCALHO O MAIS SUAVE DOS TAPETES, TO COMUNS 
QUANTO INDISPENSVEIS NAQUELAS PARAGENS CARACTERIZADAS PELA NECESSIDADE DE TAIS APARATOS, NA ARIDEZ DO DESERTO.
       UMA FORA PODEROSA LHES DETIVERA O AVANO QUE, AOS SEUS OLHOS, PARECIA UMA PETULANTE DEMONSTRAO DE ARROGNCIA OU INVASO INDIGNA DE UMA SEARA QUE NO ADMITISSE 
A PRESENA SENO DE ESPRITOS ENOBRECIDOS E PURIFICADOS.
       AJOELHADOS E CONFUSOS DIANTE DE TAL SENTIMENTO DE SUBMISSO, NO CONSEGUIAM CONTER AS LGRIMAS E A EMOO SERENA QUE LHES BROTAVA POR TODOS OS POROS SEM QUE 
PUDESSEM DIVISAR QUALQUER OUTRA PESSOA NAQUELE LOCAL.
       - SER QUE ESTAMOS NO PARASO, ZACARIAS? - PERGUNTOU QUASE AMEDRONTADO O COMPANHEIRO MAIS JOVEM.
       - NO SEI, JOSU. NUNCA PENSEI QUE PUDESSE EXISTIR ALGO COMO ISTO E, SE AQUI  O PARASO, POSSO LHE DIZER, COM SINCERIDADE, QUE EU NO MEREO ENTRAR NELE 
- RESPONDEU O AMIGO, HUMILDE E CONSCIENTE DE SEUS ERROS.
       NO ENTANTO, ALGO SE MOVIMENTAVA  FRENTE DOS DOIS QUE, AGORA, MAIS AFEIOADOS AO AMBIENTE, TIVERAM A ATENO SOLICITADA PELOS DETALHES, QUE ERAM MELHOR CAPTADOS 
NAS OBSERVAES DE SEUS ESPRITOS, ENQUANTO QUE A MSICA CONTINUAVA A LHES EMBALAR OS MELHORES SENTIMENTOS.
       PODER-SE-IA DIZER QUE A MELODIA, NAQUELES PLANOS, SURGIA COMO UM MANANCIAL DE PURIFICAO DO ESPRITO, FAVORECENDO  ALMA SE DESPISSE DE TODOS OS MAIS TORPES 
EFLVIOS QUE O MERGULHO NA MATRIA, NATURALMENTE, LHE INFUNDISSE.
       O ESPRITO, LEVADO A PLANOS ESPIRITUAIS SUPERIORES, POR DETERMINAES MAIS ELEVADAS E EM VISTA DE NECESSIDADES ESPECFICAS, NECESSITA AMBIENTAR-SE EM LOCAIS 
ADEQUADOS QUE LHE FAVOREA A FINALIDADE DE ESCLARECIMENTO AO MESMO TEMPO EM QUE NO LHE FIRA A SENSIBILIDADE ESPIRITUAL, MUITAS VEZES INCAPAZ DE SUPORTAR AS BELEZAS 
SUBLIMES PARA AS QUAIS NO EST PREPARADO.
       DESTE MODO, JOSU E ZACARIAS SE DEIXAVAM ENLEVAR PELAS HARMONIOSAS VIBRAES DA MSICA, QUE LHES IA ESCULPINDO, NO MAIS RECNDITO DA ALMA, A ELEVAO NECESSRIA 
PARA QUE PUDESSEM SE DESPIR DOS LIAMES DENSOS E MATERIAIS QUE, MUITAS VEZES, PRENDEM OS ESPRITOS DIANTE DOS PROBLEMAS DA VIDA, DE SUAS LUTAS E DESAFIOS, QUE EMPEDRAM 
AS SENSAES MAIS PURAS E SUPERIORES.
       ACOSTUMADO S CONTENDAS DEVASTADORAS E S COMPETIES ANIMALESCAS EM UMA VIDA DE JOGOS E ASTCIAS, O HOMEM SE VAI AMORTECENDO E SE PERMITINDO TORNAR  INSENSIBILIDADE, 
NA QUAL, JULGANDO ERRONEAMENTE, V GARANTIDA A FRIEZA NECESSRIA PARA SE MANTER NA LUTA COM O SANGUE FRIO DE QUE PRECISA PARA SE TORNAR UM VENCEDOR.
       POR ESSE MOTIVO, ENCONTRAMOS EM JESUS A INDAGAO DIRETA E VERDADEIRA QUE NOS FAZ MEDITAR:
       "POIS, O QUE APROVEITAR O HOMEM SE GANHAR O MUNDO INTEIRO E PERDER A SUA ALMA?" (MT. 16, 26).
       ASSIM, QUANDO SE FAZ NECESSRIO PERMITIR AO HOMEM O REENCONTRO COM SUA REALIDADE NOBRE E DIVINA, NO  A RECURSOS DA RAZO QUE O UNIVERSO RECORRE PARA LEV-LO 
A TAL ESTGIO. A RAZO, MUITAS VEZES,  COMO A TEIA DA ARANHA: REVELA O ARACNDEO E TAMBM SERVE PARA OCULT-LO. O RACIOCNIO  O MARAVILHOSO MECANISMO DE COMPREENSO 
POR MEIO DO QUAL O HOMEM SE ERGUE DA CONDIO ANIMALESCA E IRRESPONSVEL PARA OS PRDOMOS DA HUMANIDADE E RESPONSABILIDADE. NO ENTANTO, MUITAS VEZES  NELE QUE OS 
HOMENS SE OCULTAM PARA NEGAR, DUVIDAR DE SUAS PRPRIAS PERCEPES E NO ACREDITAR NO QUE LHE ESTEJA SENDO REVELADO  RAZO.
POR ISSO, COMO O HOMEM, MUITAS VEZES, UTILIZA O RACIOCNIO PARA TORNAR-SE CTICO POR COMODISMO OU POR CONVENINCIA, A SABEDORIA DO UNIVERSO SE VALE DOS RECURSOS 
QUE PODEM PENETRAR O MAIS NTIMO DE SEUS SENTIMENTOS E RECONDUZI-LO  NOO REAL, A DE UM FRGIL ESPRITO EM EVOLUO.
       NO  COM BASE EM DISCURSOS E PEAS LITERRIAS DIRIGIDOS AO RACIOCNIO QUE TAIS PROCESSOS SE FUNDAMENTAM, POIS ABRIRIAM UMA FRONTEIRA DE DISCUSSO E ANLISE 
QUE MAIS PERTURBARIA DO QUE AUXILIARIA O SER HUMANO.
       A SUAVIDADE DA MELODIA, COMO BISTURI AMOROSO, COMO CINZEL SUAVE,  CAPAZ DE ABRANDAR O PESO DO MARTELO QUE VAI SE IMPONDO  DUREZA DOS RACIOCNIOS. E, SEM 
SE SENTIR VIOLENTADO POR UM ARGUMENTO MAIS FORTE DO QUE  SEU ORGULHO SERIA CAPAZ DE ACEITAR, POR UMA RAZO SUPERIOR  SUA, IUC O HOMEM QUASE SEMPRE JULGA NO EXISTIR, 
A EMOO  DESPERTADA PELAS RIAS ANGELICAIS, DESBASTANDO A INSENSATEZ DO ESTILO DE VIDA QUE OU HOMENS ELEGERAM PARA SI E TOCANDO A PROFUNDEZA DE SEU INTERIOR, ONDE 
RESIDE A CONVICO DA SUPERIORIDADE DE DEUS.
       TAIS RECURSOS TM SIDO DESCOBERTOS E APROVEITADOS PELOS NCLEOS MLIGIOSOS QUE, CADA VEZ MAIS, RECORREM  HARMONIA DAS MELODIAS SUAVES
ELEVADAS PARA ENVOLVEREM OS CORAES ANGUSTIADOS DE SEUS SEGUIDORES T LHES PROPICIAR ALGUNS MOMENTOS DE REFLEXO E ESVAZIAMENTO DAS TNNSES A QUE ESTO EXPOSTOS 
DURANTE AS HORAS DO DIA, COMO UM SUAVE INLRIGRIO PARA AS SUAS NSIAS E DECEPES. NESSAS HORAS, A AO DOS ESPRITOS AMIGOS  CAPAZ DE SE FAZER SENTIR MAIS INTENSAMENTE, 
DANDO-NOS CORAGEM, AFASTANDO ESPRITOS NECESSITADOS QUE TAMBM SE PERMITEM EMOCIONAR COM O TEOR DAS MELODIAS, COMO QUE HIPNOTIZADOS POR LEMBRANAS POSITIVAS DE PASSADOS 
MAIS FELIZES, QUANDO NO ODIAVAM NO QUERIAM VINGAR-SE DE SEUS DESAFETOS. A AO MELODIOSA DOS TEMAS ENCANTADORES NO SE LIMITA A FAZER VIBRAR OS TMPANOS E OS OSSOS 
DO
IMDUTO AUDITIVO, NEM PARAM NAS CLULAS CEREBRAIS S QUAIS SE DESTINAM EM PRIMEIRO LUGAR. COMO QUE NUM PASSE MGICO, DESPERTAM EMOES ARQUIVADAS NO MAIS SECRETO 
ESCANINHO DAS ALMAS E, POR UM MILAGRE NO PALAVRAS, MUITAS VEZES ABREM O DIQUE DE LGRIMAS RENITENTEMENTE DEFENDIDO POR UM SER HUMANO ORGULHOSO DE SEU AUTODOMNIO, 
QUE ACABA POR SE ENTREGAR  EMOO SILENCIOSA E ABRE OS VERTEDOUROS POR ONDE LLUIR O FEL ACUMULADO NAS DECEPES DA VIDA.
    ISSO PROPICIA UMA LIMPEZA PROFUNDA E UMA HIGIENIZAO DA ALMA E O MAIS INSPIRADO DOS DISCURSOS, MUITAS VEZES, NO PODER CONSEGUIR ALIZAR SE LIMITAR APENAS S 
FRASES DE EFEITO E AO PALAVRRIO DESTINADO AO RACIOCNIO.
       POR ESSE MOTIVO, OS ESPRITOS DE ZACARIAS E JOSU ESTAVAM ENCANTADOS COM AS VISES DE BELEZA DAQUELAS PARAGENS, MAS S CHEGARAM S LGRIMAS QUANDO OS ACORDES 
MAVIOSOS LHES CHEGARAM, PELOS OUVIDOS,  ACSTICA DO CORAO.
       ISSO ERA NECESSRIO AO PROCESSO DE PREPARAO PARA O ENCONTRO QUE TERIAM COM O DIVINO AMIGO QUE LHES CAPTARA A ORAO SINCERA E LHES FALARIA ORIENTANDO A 
CAMINHADA, J QUE OS DOIS ESTAVAM EM UMA TAREFA MAIS DELICADA DO QUE A DE MUITOS OUTROS DE SEUS ENVIADOS.
NAZAR RECEBERIA PILATOS NAQUELES DIAS E ESTAVA ALVOROADA.
       AO MESMO TEMPO, NAZAR ERA A CIDADE ONDE ESTAVA A FAMLIA DE JESUS E SEUS PARENTES MAIS PRXIMOS, A MAIORIA DOS QUAIS NO LHE VOTAVA NENHUM CRDITO E, MESMO, 
PARTILHAVA DA PREVENO DE MUITOS QUE ACREDITAVAM QUE ELE TINHA PERDIDO A SUA ALMA.


       SUAS ALMAS SE ENCHERAM DE JBILO QUANDO PERCEBERAM QUE O MOVIMENTO QUE COMEARAM A DIVISAR ADIANTE ERA PRODUZIDO PELA APROXIMAO MANSA E AMIGA DE UMA FIGURA 
MUITO QUERIDA, COM OS CONTORNOS CONHECIDOS DAQUELE A QUEM CHAMAVAM DE MESTRE, QUE LHES VINHA EM SOCORRO DE SUAS SPLICAS.
CONHECIAM AQUELES MODOS E SE DEIXARAM VENCER PELA ALEGRIA E EMOO QUANDO PUDERAM CONSTATAR-LHE A ATMOSFERA RADIANTE QUE, IRISADA DE LUZES E TONALIDADES OPALINAS 
DESCONHECIDAS DE SEUS OLHOS, AINDA MAIS ATESTAVA A SUA ALTA CONDIO DE EMBAIXADOR CELESTE NO MEIO DOS HOMENS IGNORANTES.
UM MISTO DE FELICIDADE E DE TEMOR LHES IMPREGNAVA A ALMA COMO SERIA NATURAL NO NTIMO DE QUALQUER PESSOA QUE SE VISSE DEFRONTADA PELO MARAVILHOSO, MAS TIVESSE CONSCINCIA 
DE SUAS PRPRIAS MISRIAS, DESEJANDO DESFRUTRAR DA INOLVIDVEL OPORTUNIDADE TEMENDO, ENTRETANTO, NO LHE SER DIGNADA TAL ALEGRIA PELA EXIGIDADE DE SEUS MRITOS, 
TO ESCASSOS.
CONHECENDO-LHES TAL SENTIMENTO, APROXIMOU-SE JESUS E, EM VEZ DE FAZ-LOS SE LEVANTAREM, SENTOU-SE EM PEQUENA ELEVAO  FRENTE DE AMBOS PARA QUE ESTIVESSE QUASE 
QUE NA MESMA ALTURA DE SUAS CABEAS.
       AQUELE GESTO DE HUMILDADE E IGUALDADE PENETROU AINDA MAIS FUNDO NO NTIMO DAQUELES DOIS SERVIDORES DEVOTADOS QUE, SEM SE ACHAREM MERECEDORES DE TAL INTIMIDADE 
TIVERAM UM GESTO DE QUASE AFASTAMENTO.
       - QUE AS BNOS DE NOSSO PAI NOS ENVOLVAM EM SUA AUGUSTA MISERICRDIA...
SUA VOZ NO ERA UM TROVO, MAS TINHA A FORA DE TODAS AS TEMPESTADES. AO MESMO TEMPO NO ERA SUAVE COMO O CANTO DOS PSSAROS, MAS TRAZIA A SUTILEZA DA BRISA FRESCA 
DA MANH.
NO ERA COMO ELES A OUVIAM QUANDO ESTAVAM AO SEU LADO NO MEIO DO POVO. PARECIA QUE NO PRECISAVAM DOS OUVIDOS PARA ESCUT-LO. QUALQUER PENSAMENTO QUE EMITISSE LHES 
IMPRESSIONARIA A ACSTICA DA ALMA COMO SE ELE OS TIVESSE PROJETADO AO VENTO COM A FORA DAQUELA VOZ SERENA E JUSTA.
       - VINDE A MIM, TODOS VS QUE ESTAIS CANSADOS E SOBRECARREGADOS, E EU VOS ALIVIAREI. TOMAI SOBRE VS O MEU JUGO E APRENDEI DE MIM QUE SOU BRANDO E HUMILDE 
DE CORAO E ACHAREIS DESCANSO PARA AS VOSSAS ALMAS. PORQUE O MEU JUGO  SUAVE E O MEU FARDO  LEVE.
       - OH! SENHOR, NADA H QUE MAIS DESEJEMOS DO QUE TOMAR O VOSSO FARDO E SUBMETERMO-NOS AO VOSSO JUGO - PENSOU ZACARIAS, SEM OUSAR FALAR-LHE DIRETAMENTE.
       - SIM, MEUS FILHOS, TENHO CONVICO DE VOSSAS INTENES NOBRES E DE VOSSOS TEMORES DIANTE DAS NOVAS ESTRADAS QUE SE ABREM AOS VOSSOS PASSOS.
    A DVIDA  SINAL DE APRENDIZADO E A ORAO  SINAL DE SABEDORIA SI SUBMISSO A DEUS COMO AQUELE NICO QUE SABE ORIENTAR E ESCLARECER OS  ERROS. NESSA NSIA, 
CHAMASTES-ME POR CONFIARDES EM MIM MAIS DO QUE EM VS PRPRIOS. E COMO SERES AMADOS, SENTI VOSSOS CORAES DESESPERADOS, EM NOME DE MEU PAI, VOS ATENDO AS ROGATIVAS 
PARA VOS DIZER QUE NO VIM PARA OS SOS E SIM PARA OS ENFERMOS.
       NO TEM O FILHO O DIREITO DE ESPERAR MELHORES CONDIES DO QUE AQUELAS QUE O PAI LHE OUTORGOU PARA O CUMPRIMENTO DE SEUS DEVERES.
     E ME ENCONTRO ENTRE OS HOMENS COMO AQUELE QUE VEIO PARA SERVIR E SER SACRIFICADO COMO PROVA DE MEU AMOR POR TODOS.
        NO AMOR VERDADEIRO PELOS DESDITOSOS DA VIDA QUE ENCONTRAREIS A CHAVE QUE ESCLARECER TODOS OS ENIGMAS DA EXISTNCIA HUMANA PORQUE (EM CADA SOFREDOR PODEREIS 
ENCONTRAR AS MARCAS DAS PRPRIAS CULPAS, O PESO DAS PRPRIAS DVIDAS QUE SO O SINAL DO VOSSO DEGRAU EVOLUTIVO.
       TODOS OS QUE ESTO NA TERRA NELA SE ENCONTRAM PORQUE POSSUEM DEFEITOS SEMELHANTES A CAMINHO DO TRATAMENTO.
       E SE ALGUNS J TIVERAM A ALEGRIA DE COMEAR A INGERIR A MEDICAO QUE ATENUA OS MALES E FAZ VER MELHOR AS REALIDADES DA ALMA, COMO  O VOSSO CASO, H UMA 
MULTIDO DE CRIATURAS ENFERMAS SEM SABEREM QUE O ESTO E QUE PRECISAM DO MESMO REMDIO QUE J BUSCAIS: O AMOR ATRAVS DA COMPREENSO, DA TOLERNCIA, DO DEVOTAMENTO 
AT O MAIS ABSOLUTO DE SEUS CORAES.
       NO ENTANTO, NUNCA DEIXEIS DE VER, EM UM DELES, A FIGURA DO QUE VS MESMOS J FOSTES UM DIA E, POR AMOR  PRPRIA REGENERAO, NO DESPREZEIS NENHUM DELES, 
POIS ISSO SERIA CONDENARDES A VS MESMOS.
       ENTENDE TEUS SOFRIMENTOS, JOSU, COMO A IGNORNCIA DAQUELES QUE TE CONDENARAM AO ISOLAMENTO POR TERES ESCOLHIDO O CAMINHO DA VERDADE, AO MEU LADO. O PERDO 
ESSENCIAL  O QUE SE ERGUE DE UM CORAO PURIFICADO DE TODA A MGOA E QUE  TO POTENTE QUE  CAPAZ DE ESQUECER DE ONDE VEIO O GESTO QUE O FERIU. QUANDO TE FOI APONTADA 
A PORTA DA RUA NA CASA DO VELHO PAI, INCAPAZ DE ENTENDER, POR ENQUANTO, AS ASPIRAES DE TEU ESPRITO, A CHAGA SE ABRIU EM TEU SER E TEU DESTINO PARECEU INCERTO 
DIANTE DO FUTURO SOMBRIO. NO ENTANTO, TEU SER BUSCOU EMEUS OS RECURSOS PARA SEGUIRES ADIANTE, AINDA QUE NO FOSSES CAPAZ DE ENTENDER O SIGNIFICADO PLENO DO PERDO 
VERDADEIRO.
       TEU PEITO AINDA ARDE  LEMBRANA DA INCOMPREENSO ALHEIA E, SEGUNDO TEUS ANSEIOS MAIS SECRETOS, A TUA PAZ S SERIA RESTABELECIDA NO DIA EM QUE TEUS AGRESSORES, 
TEUS PARENTES, TE PROCURASSEM PARA PEDIREM DESCULPAS OU PARA DEMONSTRAREM QUE TE ENTENDERAM AS ESCOLHAS E AS RESPEITAM. SEI QUE NO DESEJAS OS BENS QUE TE FORAM 
RETIRADOS. TUA DOR  POR CAUSA DA INCOMPREENSO E DA INJUSTIA. MAS

AINDA ASSIM, QUEM SE ACERCA DE DEUS NO PODE FAZ-LO COM MEIA VONTADE. A VERDADE  UMA LUZ QUE PODERIA CEGAR O INCAUTO QUE DESEJASSE ENGAN-LA COM A SUA DISSIMULAO, 
QUE DEMONSTRA MAIS INSENSATEZ QUE ASTCIA.
       POR ISSO, PARA COMEAR O CAMINHO A QUE FOSTE CHAMADO POR TUA PRPRIA INICIATIVA, PRECISARS CONTAR COM O MELHOR DE TEUS SENTIMENTOS, COM A MAIS VERDADEIRA 
DE TUAS DISPOSIES E COM O DESEJO SINCERO DE PERDOAR A TODOS, A PARTIR DOS MAIS ANTIGOS E INJUSTOS OFENSORES, POIS NUNCA SABEMOS O MOMENTO EM QUE OS REENCONTRAREMOS 
OU QUE A VIDA NOS COLOCAR NO MESMO CAMINHO QUE O DELES.
       QUANTO A TI, ZACARIAS, TEUS SEGREDOS REVELADOS COM SINCERIDADE E AUTENTICIDADE DIANTE DE TI MESMO FORAM OS BENFICOS MEDICAMENTOS QUE TE ATENUARAM AS DORES 
NTIMAS E, POR ISSO, TEU ESPRITO  CAPAZ DE MEDIR MELHOR OS ERROS ALHEIOS E LAMENTAR-LHES A DOLOROSA CONSEQNCIA SEM JULGAR-LHES AS ESCOLHAS TRGICAS. POR ISSO, 
A TUA MATURIDADE TE PERMITIR ENCONTRAR MAIS FACILIDADE DE COMPREENSO, DESDE QUE TE CONSIDERES UM HOMEM COMUM, SEM PRIVILGIOS, E QUE EST LUTANDO PARA MELHORAR-SE 
SEM TER LOGRADO AINDA A LTIMA VITRIA SOBRE TI MESMO. ESPERAM-TE BATALHAS AMARGOSAS NAS QUAIS TEUS SENTIMENTOS RENOVADOS PODERO SER AVALIADOS POR TI PRPRIO COMO 
VERDADEIROS OU, APENAS, COMO IMPULSOS DE UM MOMENTO DE EUFORIA E ENCANTO.
NO PERMITAS QUE TEUS ERROS DE ONTEM, QUE CONTAMINARAM TEUS SENTIMENTOS POR TANTO TEMPO, POSSAM AGIR COMO ANIMAIS SEM CONTROLE E ESTRAGAR TEUS ACERTOS DE AGORA.
       DIANTE DE MEUS OLHOS TENHO-VOS, AMBOS, EM PLENA CONFIANA PELA PUREZA DE ALMA QUE POSSO IDENTIFICAR EM VOSSOS NTIMOS. OS ERROS QUE COMETESTES SO OS MESMOS 
QUE TODOS OS OUTROS COMETEM. NO VOS ENVIO COMO JUIZES DOS HOMENS, MAS COMO SEUS IRMOS QUE LHES OFERECERO O MESMO MEDICAMENTO QUE VOS TRATOU DAS ENFERMIDADES MORAIS 
E PODER SER TIL A OUTROS ENFERMOS.
NO VOS IMAGINEIS MDICOS, NO ENTANTO.
       EM CADA POBRE DO CAMINHO, POBRE QUE PODER ESTAR VESTINDO UM ANDRAJO OU UMA TNICA DOURADA, VISLUMBREIS ABSALO, O COITADO VISITADO PELA DESDITA E ENTREGUE 
AO DESALENTO. DESEJAVAS OBTER O PERDO DAQUELE VELHO, NO , ZACARIAS?
       BUSCA TAL PERDO NOS ABSALES QUE TE ESPERARO PELAS ESQUINAS, PELAS CURVAS DO CAMINHO. SERO MUITOS A TE ESTENDEREM AS MOS ACREDITANDO SILENCIOSAMENTE EM 
TEU ARREPENDIMENTO.
QUE ESTE SENTIMENTO NO TE AFASTE DO DEVER DE FAZER O QUE 
CERTO.
ARREPENDER-SE SEM TRABALHAR PARA CONSERTAR O ERRO  EMBRIAGARCOM O VINHO PARA ESQUECER AS DORES QUE, DEPOIS DE CESSADA A PIEDADE, L ESTARO DO MESMO TAMANHO, AGRAVADAS 
PELAS CONSEQNCIAS DO EXCESSO DE BEBIDA.
     QUE TU E JOSU POSSAIS TRABALHAR NO SENTIDO DE ERGUER OS CADOS, QUEM, EM PRIMEIRO LUGAR, SE DIRIGEM MINHAS MENSAGENS. OS PODEROSOS VIRO A SEU TEMPO E PAGARO 
O PREO DE SUA ARROGNCIA.
       NO ENTANTO, OS CADOS A QUE ME REFIRO NO SO APENAS OS DA MISRIA MATERIAL. SO TODOS OS QUE SOFREM NA ALMA AS CRISES QUE VS MESMOS J VONCESTES OU ENFRENTASTES 
EM VOSSAS VIDAS. SO OS TRADOS NO AFETO E OS que TRAEM OS CORAES. SO OS QUE JULGAM SEM RAZO E OS QUE, JULGADOS, HO REVOLTAM COM AS SENTENAS INQUAS. SO OS 
QUE SOFREM AS ATROCIDADES MORAIS DOS QUE MANDAM E OS QUE AS PERPETRAM QUE NUNCA DEVERO SER DESPREZADOS POR SEREM CONSIDERADOS INDIGNOS DA VOSSA AFETIVIDADE.
LEMBRAI-VOS DE ODIAR O CRIME, MAS DE AMAR O CRIMINOSO.
       IDE, AGORA, NA DIREO QUE O AMOR DE DEUS, NOSSO PAI, VOS APONTA PARA O COMEO.
       NADA TEMAIS, POIS EU ESTAREI SEMPRE LIGADO AO VOSSO DESTINO, A SUSTENTAR-VOS COM MINHA PRPRIA VIDA.
       SEM SABER POR QUAIS MISTRIOS INSONDVEIS, A CENA SE FOI APAGANDO COMO SE UM IRRESISTVEL TORPOR LHES FOSSE FURTANDO A VENTURA DAQUELE MOMENTO NAS ASAS DO 
SONO QUE CHEGA NA HORA MAIS BELA DA EXPERINCIA DE SUAS VIDAS.
       AO FUNDO, A MELODIA CONTINUAVA A ECOAR EM SEUS ESPRITOS, MAS OS OLHOS PESADOS SE ENTREGAVAM A UM ENTORPECIMENTO COMO SE FOSSEM, AMBOS, CONVIDADOS A ADORMECER 
SOBRE AS PERNAS DAQUELE SER TO AMADO QUE OS ACOLHIA EM SEU REGAO COMO O PAI GENEROSO AOS FILHOS ABATIDOS E AMEDRONTADOS, DEPOIS DE LHES TER RESTITUDO A CONFIANA 
E A FORA EM SI MESMOS.
       AMBOS VOLTARAM AO CORPO FSICO E, NELE, FORAM RECOLOCADOS SUAVEMENTE, ENVOLVIDOS POR ENTIDADES MENSAGEIRAS QUE LHES FIZERAM OPERAES MAGNTICAS PARA QUE 
SEUS CREBROS HUMANOS PUDESSEM GUARDAR ALGUMAS DAS COISAS MAIS IMPORTANTES DAQUELE MOMENTO TRANSCENDENTE.
       A EMOO LHES MARCAVA O DESPERTAR, QUASE QUE SIMULTNEO. SUAS ALMAS ESTAVAM ENVOLVIDAS PELAS VIBRAES DAQUELE ENCONTRO INESPERADO E, SEM SABEREM EXPLICAR 
QUAIS FORAM OS MECANISMOS, JOSU E ZACARIAS OLHARAM-SE SURPRESOS E RADIANTES, COMO SE AMBOS NO PRECISASSEM DIZER UM AO OUTRO O QUE LHES HAVIA PASSADO.
NATURALMENTE, NO GUARDAVAM COM MUITA NITIDEZ TODOS OS DETALHES.
AMBOS SE RECORDAVAM, NO ENTANTO, DAS REFERNCIAS DE JESUS AOS SEUS CASOS ESPECFICOS E DA NOO SEGURA DE QUE O MESTRE DESEJAVA V-LOS JUNTO AOS QUE SOFRESSEM, ANTES 
DE TUDO.
       MAS AO MESMO TEMPO, NO SABIAM SE GUARDAVAM AQUILO COMO UMA REALIDADE OU UMA ILUSO QUE SEUS ESPRITOS PRODUZIRAM PELA NSIA DE ENCONTRAR UMA SOLUO AOS 
SEUS ANSEIOS.
       - MAS NO PODE TER SIDO CRIAO MINHA, POIS JESUS FALOU DE PROBLEMAS QUE S EU MESMO SEI QUE EXISTEM DENTRO DE MEU CORAO, ZACARIAS - AFIRMOU JOSU, TENTANDO 
CONCATENAR O RACIOCNIO DE MANEIRA FIRME.
EU NUNCA FALEI DE MINHAS MGOAS MAIS SECRETAS A NINGUM, SEQUER A VOC MESMO, POIS ACHAVA QUE ELAS DEVERIAM PERMANECER DENTRO DE MIM PARA QUE EU AS RESOLVESSE. NO 
ENTANTO,  VERDADE QUE ELAS ME CORROAM E QUE EU SONHAVA EM ME VER VITORIOSO DIANTE DE MEUS PARENTES COMO A LHES DIZER QUE EU TINHA RAZO E QUE ELES ESTAVAM ERRADOS.
       ALM DISSO, JESUS FALOU COISAS QUE VOC DISSE NA NOSSA JORNADA AT AQUI E QUE SOMENTE EU ESCUTEI, MAIS NINGUM. COMO  QUE ELE PODERIA INVENTAR TAIS COISAS 
SE NO FOSSE, ELE MESMO, O MESTRE QUE NS CONHECEMOS E QUE TUDO SABE, DESDE OS NOSSOS MAIS OCULTOS PENSAMENTOS?
       - SIM, MEU AMIGO, EU ESTOU ME CONVENCENDO DE QUE AS SUAS ORAES SO DESSAS QUE ABREM AS PORTAS DO PRPRIO PARASO E LHE AGRADEO POR TER-ME PERMITIDO ORAR 
COM VOC NESTA NOITE. JESUS NOS OUVIU E NOS ATENDEU. QUE NS POSSAMOS OUVI-LO, AGORA, E ATEND-LO NO QUE ESTIVER EM NOSSAS RESPONSABILIDADES QUE, COMO PUDE PERCEBER, 
PASSAM PRIMEIRO PELA NOSSA PURIFICAO INTERIOR PARA, DEPOIS, CHEGAR AOS QUE NOS CERCAM.
       JOSU, COM UM ACENO DE CABEA, CONCORDOU COM O AMIGO E SE DISPUSERAM A DORMIR MAIS UM POUCO, POIS O CU AINDA ESTAVA CARREGADO PELAS SOMBRAS DA NOITE, QUE 
TEIMAVAM EM DAR O AMBIENTE NECESSRIO A QUE AS ESTRELAS BRILHASSEM, COMO A DIZER AOS HOMENS QUE, APESAR DA ESCURIDO QUE AS ENVOLVE, GRAAS A TAL PENUMBRA  QUE 
ELAS PODEM FAZER SURGIR O PRPRIO BRILHO. ASSIM, SOMOS TODOS NS, CRIATURAS COM BRILHOS DIVERSOS, MAS QUE S SOMOS REVELADOS QUANDO A ESCURIDO DOS DESAFIOS NOS 
ENVOLVE COM O SEU MANTO DE INCERTEZAS E DORES.
       RECLINARAM AS CABEAS NO MODESTO COLCHO DE FOLHAS SECAS E AGRADECERAM, EM SILNCIO, A VENTURA DE SUAS VIDAS, NA TAREFA BENDITA DE SE ACENDEREM PARA SEREM 
PEQUENINOS PONTOS LUMINOSOS NO CAMINHO DOS QUE SE CONFUNDIAM COM A PRPRIA ESCURIDO.
QUANDO O DIA CHEGASSE, AMBOS J SABERIAM POR ONDE COMEAR E, EFETIVAMENTE, COMEARIAM SEM NENHUM RECEIO DE FRACASSAR.


     A CAMINHADA LHES SERIA DIFCIL, SABIAM ELES. NO ENTANTO, ELA TERIA O MU DE DIFICULDADE QUE SEUS ESPRITOS NECESSITASSEM PARA FLORESCER.
       ERA ESSE O DESAFIO QUE JESUS OS CONVIDAVA A ENFRENTAR, DENTRO DE SI MESMOS.
ERA PRECISO, PRIMEIRO, AJUNTAR PARA PODER DIVIDIR. SEM ESSA SABEDORIA, QUALQUER GESTO DE DOAO AO SEMELHANTE EST MUITO PRXIMO DE SER UM EXERCCIO DE VAIDADE DO 
QUE UMA ATITUDE GENEROSA VERDADEIRA.
       SER MAIS UMA OSTENTAO FINGIDA DE SUPERIORIDADE DO QUE UMA ENTREGA SILENCIOSA E FRATERNA.
       E PARA AJUNTAR, ERA PRECISO ENFRENTAR DENTRO DE SI OS FANTASMAS OCULTOS DAS PRPRIAS QUEDAS, AQUELAS DE ONDE RETIRARIAM AS FORAS PARA ERGUEREM-SE SEM SE 
ACHAREM SUPERIORES.
       A SUA TAREFA NO ERA A DE SE COLOCAREM ACIMA DOS HOMENS COMO ENVIADOS ESPECIAIS, APONTANDO CAMINHOS, PONTIFICANDO CONSELHOS, PREGANDO SOLUES OU MENSAGENS. 
ERA A DE COLOCAREM-SE ABAIXO DELES PARA SERVIREM DE ALAVANCAS QUE OS ERGUESSEM, POIS ESTARIAM FAZENDO AQUILO QUE O AMOR FIZERA POR AMBOS, UM DIA.
       SERIAM OS EXEMPLOS VIVOS, SEM SE REPUGNAREM PELOS SACRIFCIOS QUE ISSO LHES EXIGISSE, SEM RECLAMAREM DOS CANSAOS QUE ISSO PRODUZIRIA E, O QUE  MAIS IMPORTANTE, 
APRENDENDO A SORRIR COM ALEGRIA PARA A TAREFA SPERA E DIFCIL, EM VEZ DE REALIZ-LA COM O MAU HUMOR QUE OS ORGULHOSOS, DISFARADOS DE HUMILDES, EXPEM EM SUAS FACES 
IRRITADAS POR ESTAREM CUMPRINDO DEVERES EM VEZ DE CONCRETIZANDO IDEAIS.
       QUEM CUMPRE DEVERES DESSA MANEIRA, SE IRRITA POR TER QUE FAZ-LOS, AINDA QUE OS REALIZE PARA SE SENTIR COM DIREITO AOS PRMIOS POR SEU FINGIDO BOM COMPORTAMENTO.
       QUEM CONCRETIZA IDEAIS, NO CONTA AS GOTAS DE SUOR, O TAMANHO DAS CICATRIZES, O CANSAO DOS OSSOS NEM A DURAO DA FOME, POIS EST SEGURO DE QUE EST CONSTRUINDO 
A PRPRIA FELICIDADE E ISSO O ALEGRA, MAIS DO QUE QUALQUER OUTRA COISA.
      INFELIZMENTE, TAL DIFERENCIAO  COMUM SER OBSERVADA ENTRE AQUELE QUE CRIA FILHOS ALHEIOS E AQUELE QUE CRIA OS PRPRIOS FILHOS.
       DIA VIR, NO ENTANTO, EM QUE TODOS NS SABEREMOS SER O QUE ZACARIAS E JOSU SERIAM DALI PARA A FRENTE: DEVOTADOS SERVIDORES DA CAUSA DO AMOR.
POR ISSO, JESUS COSTUMAVA DIZER:
       "SE ALGUM QUER VIR APS MIM, A SI MESMO SE NEGUE, DIA A DIA TOME A SUA CRUZ E SIGA-ME. POIS QUEM QUISER SALVAR A SUA VIDA, PERD-LA-; QUEM PERDER A SUA 
VIDA, POR MINHA CAUSA, ESSE A SALVAR".(LC. 9, 3 A 24)

O DIA AMANHECEU LENTAMENTE E, COM A ALMA LEVE E A ALEGRIA EM SEUS CORAES, OS DOIS AMIGOS SE ERGUERAM MOVENDO O CORPO DOLORIDO POR CAUSA DO DESCONFORTO DO SOLO 
ONDE SE HAVIAM ALOJADO.
- BOM DIA, JOSU.
- BOM DIA, ZACARIAS.
       - QUE NOSSO DIA POSSA SER PROVEITOSO EM NOME DE JESUS -EXPRESSOU ESTE LTIMO OS VOTOS E OS ANSEIOS PARA A NOVA JORNADA QUE SE INICIAVA.
- QUE ASSIM SEJA - RESPONDEU-LHE O COMPANHEIRO.
       TO LOGO SE PUSERAM DE P, SENTIRAM QUE O ESTMAGO FUNDO COBRAVA O TRIBUTO NATURAL DE QUEM, J H QUASE VINTE E QUATRO HORAS, NO TINHA INGERIDO NENHUMA PROVISO.
       AMBOS SE MANIFESTARAM FAMINTOS E BUSCARAM, INICIALMENTE, SOLICITAR A AJUDA DE ALGUM QUE PUDESSE LHES FORNECER ALGO, COMO DEMONSTRAO DE CARIDADE.
DEIXARAM O RECNDITO ARBORIZADO ONDE DORMIRAM E DESCERAM  CIDADE, ONDE O COMRCIO COSTUMAVA SER O MOTIVADOR DA VIDA NO MEIO DAS CRIATURAS.
       ALGARAVIA SE HOUVERA INSTALADO BEM CEDO POIS, PARA AQUELE DIA, AO FINAL DA TARDE, ESTAVA PREVISTA A CHEGADA DO GOVERNADOR.
       APROXIMARAM-SE DE UMA RUDE TABERNA, NA QUAL AS PESSOAS ENCONTRAVAM TANTO BEBIDAS E COMIDAS VARIADAS, QUANTO POUSADA EM QUARTOS MUITO MODESTOS.
       O ESTALAJADEIRO OS RECEBEU COM INDIFERENA, J QUE SUAS VESTES APONTAVAM PARA UMA CONDIO DE SIMPLICIDADE E DESPOJAMENTO.
       - BOM DIA, SENHOR. QUE A PAZ ESTEJA NESTA CASA - FALOU ZACARIAS POR SER O MAIS VELHO.
       - BOM DIA! - RESPONDEU, SECAMENTE, O HOMEM J ACOSTUMADO QUELE TIPO DE GENTE MISERVEL EM SEU NEGCIO, A PEDIR E A PEDIR.
       - EU E MEU AMIGO AQUI ESTAMOS DE PASSAGEM POR ESTA CIDADE E, COMO NO TEMOS RECURSOS QUE NOS PERMITAM COMPRAR NOSSO ALIMENTO, OSTAMOS OFERECENDO NOSSO TRABALHO 
PARA QUE, COM ELE, POSSAMOS SER PAGOS COM A COMIDA DO DIA E, ASSIM, NOS DISPOMOS A FAZER QUALQUER TIPO DE SERVIO QUE O SENHOR TIVER PARA SER FEITO, EM TROCA DA 
COMIDA DE HOJE.
       A OFERTA LHE SAIU NATURALMENTE, SEM QUE HOUVESSE PENSADO NAS PALAVRAS E SEM QUE AS TIVESSE ENVOLVIDO EM UMA ENCENAO PARA PRODUZIR O EFEITO DE CONTAGIAR 
O CORAO DO SEU OUVINTE.
       O HOMEM ENCONTRAVA-SE PREPARADO PARA DISPENSAR-LHES A PROPOSTA POR ESTAR, J H MUITO TEMPO, ACOSTUMADO COM OS TIPOS QUE POR ALI PASSAVAM.
       TODAVIA, NUM RELANCE SE RECORDOU DE QUE, NAQUELE DIA, O GOVERNADOR CHEGARIA  CIDADE E, COMO COSTUMAVA ACONTECER NAS OUTRAS VISITAS DELE, UMA CARAVANA DAS 
REDONDEZAS SE ACHEGAVA AT NAZAR, SEMPRE BUSCANDO APROXIMAR-SE DO PODER MUNDANO PARA CONSEGUIR APROVEITAR AS SUAS VANTAGENS OU OBTER MAIORES FAVORES.
       OS ABUTRES SEMPRE SEGUEM A CARNIA E, COM ESSE PENSAMENTO NA CABEA, O ESTALAJADEIRO PENSOU MELHOR, NOTADAMENTE PORQUE, COM ESSES DOIS AJUDANTES DE LTIMA 
HORA, PODERIA RECEBER MAIS HSPEDES EM SEUS PEQUENOS QUARTOS, NATURALMENTE BARATOS E MUITO CONCORRIDOS.
       EM GERAL, SEUS AJUDANTES ERAM POUCOS E SE CONTAVAM ENTRE SEUS FAMILIARES, SEMPRE PROBLEMTICOS E TEMPERAMENTAIS, QUERENDO GANHAR ACIMA DO QUE ELE PODERIA 
PAGAR E, POR ISSO, ESSA OFERTA COM O PAGAMENTO EM COMIDA REPRESENTAVA UMA GRANDE OPORTUNIDADE DE SE VER BEM AMPARADO, JUSTAMENTE NA HORA MAIS VANTAJOSA.
       PENSANDO NISSO, O HOMEM ACEITOU-LHES A PROPOSTA E LHES CONCEDEU O CAF DAQUELE DIA, SIMPLES, MAS SUFICIENTE PARA LHES ESPANTAR A FOME CRESCENTE E LHES PERMITIR 
INICIAR O TRABALHO SEM FRAQUEZAS.
       COMBINARAM, ENTO, QUE OS DOIS TRABALHARIAM DURANTE O DIA E QUE, DURANTE A NOITE PODERIAM SAIR PARA AS SUAS TAREFAS PESSOAIS E PERMANECERIAM ALI SEM QUALQUER 
PRAZO ESTABELECIDO E SEM COMPROMISSOS QUE OS PRENDESSEM INDEFINIDAMENTE.
QUANDO LHES PARECESSE ADEQUADO, IRIAM EMBORA.
       DESEJANDO MANTER POR PERTO OS DOIS NOVOS AJUDANTES, O ESTALAJADEIRO OFERECEU-LHES UM QUARTINHO DOS FUNDOS, SUFICIENTE APENAS

PARA QUE SEUS CORPOS PUDESSEM DESCANSAR DURANTE A NOITE PARA AS ROTINAS DO DIA SEGUINTE.
ASSIM, NAQUELE DIA, J SABIAM POR ONDE COMEAR.
       TRABALHARIAM DURANTE AS HORAS DO DIA PARA SEU SUSTENTO E TRABALHARIAM DURANTE PARTE DA NOITE PARA REVELAR A PALAVRA DO REINO DE DEUS.
       E COMO JESUS OS HAVIA ACONSELHADO A SERVIR PRIMEIRO AOS POBRES E CADOS, LOGO PERCEBERAM QUE ALI SERIA O MELHOR LUGAR PARA ENCONTRAR OS DEBILITADOS DA SORTE, 
AS MULHERES DE M VIDA, OS BRIOS FRUSTRADOS PELAS PERDAS MATERIAIS E MORAIS, OS ENFERMOS DO CORPO E DO ESPRITO A QUEM O DIVINO AMIGO OS HAVIA AUTORIZADO CURAR.
       O DIA TRANSCORREU SEM NOTAS DIGNAS DE REALCE, A NO SER PELO AUMENTO SIGNIFICATIVO DOS FREQENTADORES DO LUGAR, POR CAUSA DO EVENTO QUE SE APROXIMAVA.
       AO FINAL DA TARDE, AMBOS SE PREPARARAM PARA A PRIMEIRA NOITE EM NAZAR.
DURANTE O DECORRER DO DIA, PUDERAM CONHECER PESSOAS DE TODOS OS TIPOS E SE INTEIRARAM DE QUE HAVIA, NA CIDADE, UM LOCAL ONDE SE REUNIAM OS MAIS DESGRAADOS PARA 
QUE SE CONSOLASSEM MUTUAMENTE E FICASSEM  DISPOSIO DA CARIDADE ALHEIA, SEMPRE TO ESCASSA E DISPUTADA.
       NA VERDADE, NO ERA UM MERCADO DE DORES, MAS ALGO MUITO PARECIDO COM ISSO.
       APROVEITAVAM-SE DA PROXIMIDADE DA SINAGOGA E TRANSFORMAVAM O CAMINHO QUE OS TRANSEUNTES USAVAM PARA ATINGI-LA COMO UM VASTO CORREDOR DE SOFRIMENTOS, NO QUAL 
IAM COLOCAR  MOSTRA SUAS MAZELAS  CATA DO PRECIOSO METAL QUE, L DENTRO DO TEMPLO, SERIA ENTREGUE COMO ELEMENTO DE OSTENTAO E VAIDADE.
       POR ISSO, TO LOGO CAIU A NOITE, OS DOIS SE DIRIGIRAM PARA O LOCAL QUE NO DISTAVA MUITO DA ESTALAGEM, NAQUELA NAZAR TO PEQUENINA DAQUELES TEMPOS.
FOI FCIL ENCONTRAR, POIS AS LUZES DE TOCHAS IMPROVISADAS APONTAVAM PARA A CONCENTRAO DAS DESGRAAS HUMANAS.
       ESTROPIADOS, DOENTES, PARALTICOS, CRIANAS, VELHOS, MISTURAVAM-SE AOS CES SARNENTOS E IMPUNHAM AO AMBIENTE UM ASPECTO DE DEGRADAO E MAU CHEIRO.
ISSO ERA TO GRAVE QUE OS SACERDOTES E FARISEUS HAVIAM CONSEGUIDO AFAST-LOS DAS PROXIMIDADES DA SINAGOGA, MANTENDO-OS A CERTA DISTNCIA QUE LHES GARANTISSE UMA 
ROTA DE ACESSO, SEM PASSAR POR SEU MEIO E SENTIR-LHES AS DESGRAAS, CONDUTA ESSA FRUTO DO EGOSMO E DA INDIFERENA DOS FIIS FREQENTADORES DO CULTO RELIGIOSO.
    NO ENTANTO, APESAR DE NO PODEREM SE ESTABELECER AT OS LIMITES DO TEMPLO, MANTINHAM-SE ALI COM A CONVICO DE QUE ERA O LOCAL MAIS ViVEL EM TODA A CIDADE PARA 
QUE SE ENCONTRASSEM COM OS RICOS E FAVORECIDOS PELA SORTE.
       JOSU E ZACARIAS ERAM APENAS MAIS DOIS NO MEIO DOS POBRES E MINDIGOS.
       NO ENTANTO, EM SUAS ALMAS CARREGAVAM UMA RIQUEZA QUE TRANSFORMARIA A VIDA DE MUITOS DOS QUE ALI SE ACHAVAM EM DESESPERO E QUE NO FAZIAM DA MENDICNCIA UMA 
MANEIRA DE GANHAR A VIDA, PARA QUAL ERAM ARRASTADOS POR FORA DE SUAS SUPERLATIVAS DESGRAAS.
       NO INSTANTE EM QUE SE ESTAVAM APROXIMANDO, ZACARIAS E JOSU PARARAM E, QUASE QUE AO MESMO TEMPO, COGITARAM DE ELEVAREM A DEUS UMA ORAO POR TODOS OS QUE 
IRIAM SER OS PRIMEIROS A ESCUTAR AS PALAVRAS DO REINO DO PAI, A FIM DE QUE PUDESSEM SER BENEFICIADOS E QUE GUARDASSEM BEM A MENSAGEM.
       ASSIM, ZACARIAS TOMOU A DIANTEIRA E, NUM DESVO ISOLADO DO LOCAL, A CERTA DISTNCIA DO TRISTE CENRIO, FALOU EM VOZ SUAVE, APENAS PARA QUE JOSU ESCUTASSE:
- DEUS, NOSSO PAI, AQUI ESTAMOS NA SEMEADURA DA VOSSA SEARA.
O        SENHOR CONHECE NOSSAS LIMITAES E NO DESEJAMOS IMPRESSIONAR A
NINGUM POR VIRTUDES E PODERES QUE NO TEMOS. NO ENTANTO, NOSSO MESTRE JESUS NOS DETERMINOU QUE, EM VOSSO NOME, AMPARSSEMOS E CURSSEMOS OS ENFERMOS. SABEMOS QUE 
O PODER NO NOS PERTENCE, MAS PROVM DE VS E A VS SER DEVOLVIDO, NA FORMA DAS BNOS QUE PUDEREM SER ESPALHADAS SOBRE OS DESDITOSOS. ASSIM, PAI QUERIDO, VELAI 
POR NS PARA QUE, DE NOSSAS MOS POSSA PARTIR ALGO QUE CHEGUE AO CORAO DE ALGUM DELES E SIRVA DE BASE PARA QUE CONSIGAM ESCUTAR NOSSAS PALAVRAS SOBRE O VOSSO REINO. 
AMM.
       UMA ONDA DE CALOR E ENTUSIASMO LHES ENCHEU O CORAO E, JUNTOS, SE ABRAARAM PARA QUE O COMEO DA JORNADA PUDESSE SIGNIFICAR A UNIO DOS DOIS CORAES FRATERNOS, 
A SERVIO DA BONDADE.
       COMBINARAM QUE UM FALARIA PRIMEIRO E O OUTRO FALARIA DEPOIS, SE A OCASIO PERMITISSE ASSIM PROCEDER.
ZACARIAS FOI INDICADO POR JOSU PARA COMEAR.
       NO ENTANTO, QUANDO SE APROXIMARAM DOS QUE L ESTAVAM, OS PLANOS HUMANOS FORAM ALTERADOS PELOS PLANOS DE DEUS, QUE LHES HAVIA ESCUTADO AS PRECES.
       ISSO PORQUE, TO LOGO SE ACHEGARAM AO AMONTOADO DE TRAGDIAS FISICAS E MORAIS, PUDERAM NOTAR UMA CONCENTRAO DE PESSOAS AO REDOR DE UM ANCIO QUE HAVIA CADO 
AO SOLO ESTREPITOSAMENTE.
CORRERAM PARA L, A FIM DE SE INTEIRAREM DOS FATOS E PUDERAM
PERCEBER, COM FACILIDADE, QUE O VELHINHO ESTAVA DESACORDADO E, DE SUA BOCA, UMA ESPUMA BRANCA ERA EXPELIDA, SEM QUE NINGUM TIVESSE CORAGEM DE TOCAR-LHE O CORPO 
ALQUEBRADO.
TODOS O CIRCUNDAVAM SEM QUE OUSASSEM AJUD-LO.
       PEDINDO LICENA, ZACARIAS E JOSU CHEGARAM, FACILMENTE, AO INTERIOR DA RODA DE CURIOSOS, TODOS IGUALMENTE ENFERMOS QUE, AMEDRONTADOS, NO QUERIAM SE COMPROMETER 
COM O MAIS DESDITOSO DENTRE ELES, NAQUELE MOMENTO.
NA VERDADE, FICARAM ALIVIADOS QUANDO PUDERAM VER OS DOIS SE ACERCAREM DO VELHO E SE COLOCAREM ALI, COM CARINHO POR ELE.
       ENQUANTO ACONCHEGAVAM A CABEA BRANCA EM PANOS POBRES PARA MELHORAR A SUA POSIO FSICA E PARA FAZER ESTANCAR O SANGRAMENTO PRODUZIDO PELA RUPTURA DA EPIDERME 
DECORRENTE DA QUEDA AO SOLO, OS CURIOSOS PERGUNTAVAM:
       - VOCS SO PARENTES DELE? NUNCA SOUBEMOS QUE ESSE POBRE COITADO TIVESSE ALGUM NESTE MUNDO - FALAVA UM DOS ANNIMOS COMPANHEIROS DE DESGRAA.
- SOMOS SEUS IRMOS - RESPONDEU ZACARIAS, EMOCIONADO.
       ERA A PRIMEIRA VEZ QUE FALAVA NESSA CONDIO FRATERNA, SEM ESTAR NA PRESENA DE JESUS E ENTENDENDO O SIGNIFICADO DA PALAVRA "IRMO" SEGUNDO O CONCEITO DO 
ESPRITO.
       OS QUE ESCUTAVAM, NO ENTANTO, PASSARAM A ACREDITAR QUE ELES SE TRATAVAM DE IRMOS CARNAIS DO VELHINHO E SE PUSERAM MAIS CURIOSOS E PERGUNTADORES.
       - POIS ENTO QUER DIZER QUE CALEB TINHA DOIS IRMOS E NUNCA FALOU NADA PARA A GENTE! - EXCLAMOU UM. OUTRO MAIS INSOLENTE J SE APRESENTOU DIZENDO: - PUXA 
VIDA, ESSE COITADO JOGADO NO MUNDO E VOCS DOIS SEM FAZER NADA PARA AJUD-LO. NO TM COMPAIXO DE SUA DESGRAA? CERTAMENTE ESTO FORTES E BEM ALIMENTADOS ENQUANTO 
NOSSO AMIGO PASSA DIAS SEM COLOCAR NADA NO ESTMAGO....
       ASSIM SEGUIAM OS CURIOSOS A JULGAR E PERGUNTAR, MAS, INVARIAVELMENTE, SEM ESTENDER AS MOS PARA AJUDAR.
       TOMADO DE UMA INSPIRAO QUE NO SABIA DE ONDE LHE VINHA, ZACARIAS LEVANTOU A VOZ PARA QUE TODOS OUVISSEM E ESCLARECEU:
       - SOMOS FILHOS DO MESMO PAI, MAS NO DO MESMO HOMEM. DEUS NOS GEROU A TODOS E NOS DEU UNS AOS OUTROS PARA QUE NOS AJUDSSEMOS. POR ISSO, ESTE VELHINHO QUE 
ACABAMOS DE CONHECER PELO NOME DE CALEB  NOSSO IRMO E ESTAMOS AQUI PARA AJUD-LO EM NOME DE DEUS E DE JESUS.

      A PALAVRA VIGOROSA ATENUOU OS MAIS EXALTADOS MAS, AGORA, OUTRAS DUVIDAS SURGIAM.
       CERTAMENTE NO SE TRATAVAM DE IRMOS DE CARNE E SIM DE FILHOS DO DEUS. MAS SE DEUS ERA CONHECIDO POR TODOS, QUEM SERIA AQUELE JESUS QUE ELE MENCIONAVA, EM 
NOME DE QUEM TAMBM ESTAVAM ALI?
    O ESTADO DE CALEB, CONTUDO, NO MELHORAVA. TODOS ESPIAVAM RIOSOS, MAS NINGUM SE DIGNAVA IR AJUDAR OS DESCONHECIDOS E SOLIDRIOS DIVDUOS.
AO CONTRRIO, NOVAS INDAGAES FORAM NASCENDO NO MEIO DO POVO.
- JESUS? QUEM  ESSE? - PERGUNTAVA UM.
       - NUNCA OUVI FALAR DESSE HOMEM. SER QUE  ALGUM DEUS PAGO MI ALGUM PROFETA QUE NS NO CONHECEMOS? - FALAVA OUTRO.
       O VELHINHO ARFAVA, RESPIRANDO COM DIFICULDADE, SEM RECOBRAR A CONSCINCIA.
       ENTO, SEM PENSAR EM NENHUMA OUTRA COISA A NO SER NA SADE DAQUELE HOMEM, JOSU E ZACARIAS TROCARAM OLHARES RPIDOS E, SEM PERGUNTAR  MULTIDO SE PODIAM 
FAZER, AMBOS AJOELHARAM-SE AO REDOR DO ENFERMO E, COM PALAVRAS EMOCIONADAS, ZACARIAS ERGUEU UMA PRECE A DEUS, PEDINDO AJUDA.
       - PAI QUERIDO, EIS AQUI NOSSO PRIMEIRO SOFREDOR QUE, NA CONDIO DE ANCIO, EST FRACO E DOENTE, SEM RECURSOS E SEM AJUDA DE NINGUM,
POSTO  COMISERAO PBLICA.
       SEU NICO RECURSO  A PROTEO DO CU QUE NOS COBRE COM SEU MANTO ESCURO SALPICADO DE LUZES QUE BRILHAM COMO BRILHAM NOSSAS ESPERANAS.
       POR ISSO, SENHOR, SABENDO QUE TEU AMOR NO V DISTNCIAS, DIGNA-TE RECEBER ESTE IRMO CALEB NO TEU SEIO PARA QUE ELE ENCONTRE CONSOLAES E O TRATAMENTO QUE 
O RECUPERE.
       QUE, EM NOME DE JESUS, TEU AMOR POSSA PENETRAR-LHE AS FIBRAS DO CORPO E TRAZ-LO DE VOLTA AO SEIO DE SEUS IRMOS.
       A ORAO FORA SIMPLES E RPIDA, MAS TIVERA O CONDO DE SILENCIAR A MASSA QUE SE CALARA PARA ESCUTAR-LHE AS ROGATIVAS.
       ENQUANTO ISSO, ELE E SEU AMIGO COLOCAVAM AS MOS SOBRE A CABEA E O CORPO DO ENFERMO QUE, NUM TIMO, RELAXOU OS MSCULOS RETESADOS, ENTREABRIU A BOCA, SERENOU 
A RESPIRAO E DEU SINAIS DE RECUPERAO, PARA SURPRESA DE TODOS OS QUE PRESENCIAVAM A CENA.
       NO DEMOROU MAIS DO QUE ALGUNS MINUTOS PARA QUE CALEB RECOBRASSE A CONSCINCIA E ABRISSE OS OLHOS, ESPANTANDO-SE POR VER A QUANTIDADE DE PESSOAS AO SEU REDOR.
       - AI QUE DOR NA CABEA - FALOU O ANCIO, LEVANDO A MO  REGIO POSTERIOR DO CRNIO, LOCAL DO CHOQUE NA QUEDA CONTRA O SOLO.
- CALMA, MEU IRMO. VOC MELHORAR DE TUDO ISSO.
       - MAS O QUE SE PASSOU COMIGO, QUEM SO VOCS QUE EU NO CONHEO? - ERAM AS PERGUNTAS QUE IAM VINDO NATURAL E DESORDENADAMENTE NA BOCA DE CALEB, QUE NO DAVA 
TEMPO PARA SEREM RESPONDIDAS.
O CARINHO DE ZACARIAS CONTRASTAVA COM OS OLHARES FRIOS DOS OUTROS, ACOSTUMADOS S CENAS DE TRAGDIAS E SOFRIMENTOS, MUITOS DOS QUAIS AS ENSAIAVAM PARA CONSEGUIREM 
MELHORES EFEITOS E DIVIDENDOS.
BUSCANDO ACALMAR O ANCIO, ZACARIAS FALOU-LHE AMOROSO:
       - CALMA, CALEB. ESTAMOS AQUI COMO SEUS IRMOS EM DEUS NOSSO PAI PARA AJUD-LO NAQUILO QUE NECESSITE. FOMOS ENVIADOS AT AQUI POR NOSSO SENHOR JESUS A FIM 
DE LHE DIZER QUE VOC  UM DOS CONVIDADOS PARA O REINO DE DEUS QUE SE APROXIMA E PARA DEMONSTRAR A VOC E AOS OUTROS, O PODER DAQUELE QUE NOS ENVIOU, COMO MENSAGEIROS 
DAS VERDADES DE DEUS AOS QUE SOFREM.
       POR ISSO, ACEITE A NOSSA AMIZADE QUE NO LHE PEDIR NADA MAIS DO QUE A SUA ALEGRIA E A SUA FELICIDADE.
RETOMANDO A LUCIDEZ AOS POUCOS, O VELHINHO FALOU PARA QUE TODOS PUDESSEM OUVIR O SEU TESTEMUNHO:
       - EU NO SEI QUEM VOCS SO. S SEI QUE EU ESTAVA NO ESCURO ABSOLUTO ONDE ME DEBATIA E ME FERIA NAS QUEDAS ENTRE PEDRAS E BURACOS, TENTANDO VENCER ESSA SENSAO. 
OLHAVA PARA CIMA E S VIA OLHOS DE VBORAS NA ESCURIDO QUE ME CERCAVA. OLHARES QUE, NA MESMA POSIO DAS ESTRELAS DO CU, APRESENTAVAM UM BRILHO AVERMELHADO, MAS 
QUE NADA FAZIAM PARA ME AMPARAR. ISSO AUMENTAVA A MINHA DOR E A MINHA AGONIA. TENTAVA FALAR, GRITAR, PEDIR AJUDA, MAS NADA CONSEGUIA.
NO SEI QUANTO TEMPO DUROU ESSE ESTADO, MAS SEI QUE, REPENTINAMENTE, VI QUE DESSA NOITE ESCURA E PROFUNDA, SAINDO DO MEIO DESSES FOCOS APAGADOS E SEM BRILHO, DUAS 
ESTRELAS DESCIAM DO FIRMAMENTO NA MINHA DIREO E ME ENVOLVIAM COM UM CALOR E UMA LUZ DIFERENTE DE TUDO. PARECEU QUE MEU ESPRITO PDE ACALMAR-SE NO MEDO QUE TINHA 
E QUE ME FAZIA DESESPERAR. TODAVIA, A SENSAO DE DIFICULDADE PERSISTIA.
       DEPOIS DISSO, NO DEMOROU MUITO TEMPO E PERCEBI QUE UMA FORA MUITO PODEROSA, COMO NENHUMA OUTRA QUE EU JAMAIS CONHECERA NA VIDA, SE ACERCOU DE MIM.
       ERA MAIS LUMINOSA DO QUE TODAS AS COISAS QUE EU J PUDE VER, DE FORMA A TOMAR O SOL QUE CONHECEMOS, PLIDA BOLA SEM VIDA. E, APESAR DISSO, PODIA OLHAR PARA 
ELA SEM ME QUEIMAR E SEM OFUSCAR MINHA VISTA.

       IMEDIATAMENTE MEU ESPRITO SE ASSERENOU E ME SENTI ENTREGUE NO MELHOR DOS MDICOS QUE J ENCONTREI, QUE ME TRATOU COM UM SIMPLES UNSTO DE MO E ME DISSE, 
DE MANEIRA SUAVE E CARINHOSA:
       - CALEB, NOSSO PAI TE CONVOCA PARA O SEU REINO DE AMOR. LEVANTA-LU O ESCUTA AS ESTRELAS QUE TE ENVIEI PARA QUE TEU ESPRITO FOSSE SALVO DAS INIQIDADES DO 
MUNDO.
       DITO ISTO, ELE DESAPARECEU E EU COMECEI A ACORDAR, VENDO-ME AQUI RODEADO POR TODOS VOCS.
       A PALAVRA DO VELHO ERA ENTRECORTADA PELA EMOO DE ALGUM QUE MIFRENTARA UMA SITUAO MUITO DESESPERADORA E DELA S CONSEGUIRA SAIR PELA INTERVENO DAS FORAS 
PODEROSAS DO INVISVEL.
       TODOS OS QUE ESCUTARAM A SUA PALAVRA E O SEU TESTEMUNHO, FACILMENTE PUDERAM ENTENDER QUE AS DUAS ESTRELAS QUE DESCIAM DO ALTO  SRAM OS DOIS IRMOS QUE SE 
ABAIXARAM AO SOLO PARA RECOLHER-LHE A MASSA CARNAL ENSANGENTADA.
       ISSO PRODUZIU UM IMPACTO MUITO FORTE NA ALMA DE MUITOS DELES QUE, AGORA, INTERESSADOS NO PODER DE QUE OS ESTRANHOS VISITANTES PARECIAM DISPOR, SE APROXIMAVAM 
PARA MELHOR ESCUT-LOS.
       RECOLOCANDO CALEB EM UMA POSIO DE CONFORTO QUE LHE FACULTASSE MELHORAR E LIMPAR O SANGUE QUE PARAR DE JORRAR DESDE O MOMENTO DA ORAO, ZACARIAS APROVEITOU 
O MOMENTO FAVORVEL E DISSE PARA TODOS:
       - IRMOS QUERIDOS, O QUE SE PASSOU AQUI NO OCORREU POR MRITOS NOSSOS, QUE SOMOS DEVEDORES PERANTE A LEI COMO QUALQUER UM DE VOCS. OCORREU PORQUE DEUS NOS 
AMPARA E NOS D SEMPRE DE ACORDO COM NOSSAS NECESSIDADES, SE TIVERMOS A HUMILDADE DE PROCUR-LO COM O CORAO AMIGO E GENEROSO.
       ESTAMOS ACOSTUMADOS A TRANSFORMAR NOSSAS VIDAS EM UM CAMPO DE DISPUTAS EM QUE O MAIS ASTUTO MERECE OS MELHORES PRMIOS E OS MAIS DESDITOSOS SO OS QUE NO 
TM A CORAGEM OU A VONTADE DE ENGANAR OS OUTROS. AVOLUMAM-SE OS QUE CHORAM SEM QUE LHES PAREA TER FIM O SOFRIMENTO.
       NO ENTANTO, A BONDADE DE DEUS  FORA VIVA E NO PODERIA DEIXAR QUE AS MULTIDES DOS AFLITOS FICASSEM  MERC DOS LOBOS INTERESSEIROS E VENAIS.
       POR ISSO, O PAI ENVIOU AQUELE QUE J HAVIA SIDO PREVISTO EM NOSSA ANTIGA LEI, O SALVADOR DE NOSSOS DESTINOS, O QUE ALIVIA O CORPO PARA ENCAMINHAR A ALMA, 
O QUE FALA DO FUTURO DE FELICIDADE PARA TODOS, NO S PARA ALGUNS. POR ISSO, ESTAMOS AQUI, EU E MEU AMIGO JOSU, QUE FOMOS ENVIADOS PARA QUE VOCS SOUBESSEM QUE 
O REINO DE DEUS EST PRXIMO E QUE, OS QUE TIVEREM OUVIDOS DE OUVIR POSSAM APROVEITAR ESTE MOMENTO SIGNIFICATIVO EM NOSSAS VIDAS PARA SE ARREPENDEREM DO MAL E CORRIGIREM 
SUAS CONDUTAS.
       A TRADIO DE NOSSOS ANTEPASSADOS FALA DE NO, CONSTRUTOR DA ARCA NA QUAL ABRIGOU POUCAS PESSOAS E MUITOS BICHOS. POR QU?
       PORQUE OS HOMENS NUNCA ACREDITARAM NOS ANNCIOS DE QUE NO ERA PORTADOR, POIS O ACHAVAM SENIL E CADUCO. NO ENTANTO, OS BICHOS, QUE USUALMENTE SO ARREDIOS 
E DESCONFIADOS, ACEITARAM O CONVITE E SE DEIXARAM CONDUZIR SERENAMENTE PARA O SEU INTERIOR.
       DEUS MANDOU FAZER UM NAVIO, DEU AS DIMENSES, DETERMINOU A POCA EM QUE DEVERIA ESTAR PRONTO, COMO ORGANIZAR AS COISAS EM SEU INTERIOR.
       E UM NAVIO, CONQUANTO POSSA LEVAR OUTRAS COISAS,  DESTINADO, EM PRIMEIRO LUGAR, AOS HOMENS.
E POR QUE NO HAVIA MUITOS HOMENS E MULHERES NELE?
       POR CAUSA DO NOSSO ORGULHO E DA NOSSA PREPOTNCIA, QUE SE JULGA MAIOR DO QUE OS AVISOS DE DEUS.
       OS ANIMAIS, POR VIVEREM EM PLENA NATUREZA, NO PERDERAM ESSE CONTATO COM AS LEIS SUBLIMES E, POR ESTAREM EM SINTONIA COM A VONTADE DO MAIOR GOVERNANTE DENTRE 
TODOS OS GOVERNANTES SOUBERAM ACOMPANHAR A VOZ DO SUAVE PASTOR E ENTRARAM NA ARCA.
       ASSIM TAMBM, AGORA, O SENHOR NOS MANDA AVISAR DA CHEGADA DE UMA OUTRA ARCA, NA FIGURA DO ENVIADO, POR NS TANTO AGUARDADO, AQUELE QUE NOS SALVAR DAS NOSSAS 
MISRIAS E QUE, TRAZENDO O AMOR EM SUAS PALAVRAS E ATITUDES, SE PREOCUPA COM OS QUE CHORAM E SOFREM, CURANDO-IHE AS CHAGAS, RESSUSCITANDO OS MORTOS, LEVANTANDO PARALTICOS, 
DANDO LUZES AOS CEGOS, CURANDO LEPROSOS, CONVERTENDO GUA EM VINHO, MULTIPLICANDO PES E PEIXES PARA DAR DE COMER A MULTIDES. ESSE  JESUS, QUE NOS MANDOU AQUI 
E QUE CALEB ENTREVIU NO LUMINOSO SOL QUE LHE VEIO CONVOCAR  NOVA JORNADA, NA ARCA DA VIDA, NA QUAL HAVER SEMPRE ESPAO PARA A NOSSA ANIMALIDADE, QUE APRENDE A 
SER RESIGNADA E HUMILDE, MAS NO PARA NOSSA HUMANIDADE QUANDO INSISTE EM SER ARROGANTE E INSOLENTE.
       O SILNCIO ERA DE INCOMODAR. AFINAL, ZACARIAS FALAVA NO APENAS POR SI PRPRIO E POR JOSU. FALAVA TENDO POR BASE UM FATO VIVO E QUE J ESTAVA SENDO INTERPRETADO 
COMO UM MILAGRE SIGNIFICATIVO.
       ENTENDENDO QUE SUAS PALAVRAS IMPRESSIONAVAM OS OUVINTES DE MANEIRA FAVORVEL, ZACARIAS VOLTOU A FALAR INSPIRADO:
       - JESUS NOS AMA COM UM AMOR QUE NS NUNCA ENCONTRAMOS EM LUGAR NENHUM E QUE, UMA VEZ SENTIDO,  CAPAZ DE MUDAR TODAS AS NOSSAS DORES EM ESPERANAS E FORAS.
NENHUM DE VOCS EST EXCLUDO DO CHAMAMENTO PARA ESSA
JORNADA. AGORA, EM ALGUM LUGAR DA GALILIA, JESUS EST FALANDO S MULTIDES QUE O PROCURAM. NO ENTANTO, SABENDO QUE EM CIDADES LONGNQUAS MUITOS INFELIZES NO PODERIAM 
IR AT ELE, MANDOU ALGUNS DE SEUS SEGUIDORES AT ESSES LOCAIS COM A FINALIDADE DE AMPARAR AS SUAS DORES E DAR-LHES A NOTCIA DE QUE O REINO DO PAI EST CHEGADO PARA 
TODOS OS HOMENS.
       ALM DISSO, COM ESPECIAL CARINHO NOS ENVIOU PARA C, J QUE SEGUNDO MUITOS IGNORAM, JESUS PERTENCE A UMA FAMLIA DESTA CIDADE, FILHO DE JOS E MARIA, COM 
IRMOS QUE DEVEM PERCORRER ESTAS RUAS, MAS QUE, COMO OS CONVIDADOS DE NO, IGNORARAM O CHAMAMENTO PARA INTEGRAREM A ARCA DA ESPERANA QUE ELE REPRESENTA PARA TODOS.
       POR ISSO, MEUS IRMOS, ESTAREMOS AQUI TODOS OS DIAS PARA CONTAR-LHES O QUE JESUS REALIZOU E REALIZA, A FIM DE QUE OS CORAES ABERTOS PARA A SUA PALAVRA POSSAM 
SE DEIXAR TOCAR E ENTENDER QUE A FELICIDADE EST AO ALCANCE DE TODOS NS. AT QUE NS NOS AFASTEMOS, PROCURAREMOS AJUDAR A TODOS VOCS PARA QUE MELHOREM SUAS VIDAS 
A FIM DE QUE TAMBM POSSAM MELHORAR AS VIDAS DOS OUTROS.
       LEMBREM-SE DE QUE JESUS  AMOR E NO EXISTE FORA MAIS PODEROSA DO QUE ESSA, COMO TODOS NS PUDEMOS VER NESTA NOITE, AGINDO SOBRE NOSSO IRMO CALEB.
       E POR FALAR NISSO, LEVAREMOS ESSE COMPANHEIRO CONOSCO PARA QUE SEJA TRATADO AT QUE SE RESTABELEA ADEQUADAMENTE, SE ELE ACEITAR NOSSA COMPANHIA.
       A EMOO DAQUELE VELHINHO ERA DE CONTAGIAR TODOS OS ESPRITOS QUE O CONHECERAM NA VIDA, RABUGENTO, GRITADOR, BLASFEMO, INSATISFEITO.
       SEM PODER ENUNCIAR PALAVRAS DE GRATIDO, PROCUROU AS MOS DE ZACARIAS PARA BEIJ-LAS COM RECONHECIMENTO, MAS ELAS NO FORAM ENCONTRADAS, POIS ESTAVAM, AGORA, 
PROCURANDO LEVANT-LO DO SOLO PARA LHE DAR APOIO A FIM DE QUE PUDESSEM SEGUIR PARA A ESTALAGEM.
       ACAMINHADA FOI LENTA, MAS NO MUITO DEMORADA, J QUE A POUSADA NO DISTAVA MUITO DO LOCAL ONDE SE REALIZARA O PRIMEIRO MILAGRE DA JORNADA DO BEM.
       OS QUE HAVIAM FICADO, HIPNOTIZADOS PELAS FORAS ESPIRITUAIS QUE ENVOLVERAM AQUELE FENMENO SINGULAR, NA SUA MAIORIA, SE PERMITIRAM TOCAR PELA MENSAGEM DE 
ESPERANA QUE NO PEDIA DINHEIRO NEM FAVORES, MAS SE OFERECIA COM BONDADE E BENEVOLNCIA.
       EM MUITOS CORAES SURGIU UM RAIO DE LUZ QUE LHES PASSOU A INSPIRAR AS CONVERSAS E OS COMENTRIOS, AINDA QUE NO CONHECESSEM ESSE JESUS DE MANEIRA PROFUNDA.
       CONHECIAM ZACARIAS E JOSU, BEM COMO CONHECIAM O FRUTO DO AMOR QUE SE MATERIALIZARA EM CALEB NAQUELE DIA.
       POR ISSO, TODOS ELES DEIXARAM DE COMENTAR A CHEGADA DO GOVERNADOR CORRUPTO E VIOLENTO, PARA S FALAREM DAQUELES DOIS DESCONHECIDOS E DO DIVINO AMIGO QUE ELES 
TROUXERAM, NA FORMA DE NOTCIA ALVISSAREIRA PARA SUAS LGRIMAS AMARGAS.
CALEB SEGUIU COM ELES PARA A ESTALAGEM.
       SEM PEDIR AUTORIZAO PARA O SEU PROPRIETRIO, QUE J SE HAVIA RECOLHIDO EM FACE DO AVANO DA NOITE, OS DOIS AMIGOS, ENTRANDO POR UMA PASSAGEM LATERAL QUE 
OS LEVAVA AT SEU MODESTO APOSENTO, DERAM O SEU QUARTINHO PARA O VELHO E FICARAM DORMINDO AO RELENTO PARA QUE O ANCIO PUDESSE DESCANSAR PROTEGIDO.
       NO DIA SEGUINTE, DIVIDIRIAM COM ELE A SUA RAO, COMENDO MENOS PARA QUE CALEB TAMBM SE ALIMENTASSE E SE RECUPERASSE.
       A ESPERANA VOLTAVA AO CORAO DAQUELE VELHINHO QUE, NO INVERNO DA VIDA, J ESPERAVA O MOMENTO DE REGRESSAR AO OUTRO MUNDO LEVADO PELAS ASAS DA MORTE QUE, 
NA SUA CONDIO DE DOENTE E ABANDONADO, MAIS LHE PARECIA O ANJO BOM DO QUE A TEMVEL CEIFEIRA DE VIDAS.
       AGORA, CALEB VOLTARA A TER O DESEJO DE VIVER PARA CONHECER JESUS PESSOALMENTE E PARA ENTENDER O QUE DEVERIA FAZER PARA SEGUI-LO TAMBM.
       ERA O AMOR FAZENDO A SUA PRIMEIRA CONQUISTA, SEM AGREDIR, SEM FERIR, SEM COMPRAR, SEM SE IMPOR.
OS DOIS HAVIAM ENTENDIDO O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS DE JESUS E, AGORA, ZACARIAS HAVIA ENCONTRADO O SEU PRIMEIRO ABSALO, AO QUAL DEVOLVERIA A ALEGRIA DE VIVER, PARA 
QUE ELE RECONQUISTASSE A ALEGRIA DE SER BOM, CONSERTANDO SEU PRPRIO PASSADO DE MALDADES E INTERESSES ESCUSOS.

O DIA SEGUINTE PROPICIOU AOS TRS NOVAS E AGRADVEIS SURPRESAS.
       COM A ACOLHIDA DE CALEB, A CONDIO ORGNICA DO ANCIO ACUSOU SIGNIFICATIVA MELHORA, NO APENAS POR TER DORMIDO ABRIGADO DAS SURPRESAS DA NOITE AO RELENTO, 
MAS TAMBM PORQUE O TRATAMENTO QUE RECEBERA NO SE LIMITARA A LHE RESTABELECER O EQUILBRIO FSICO COMPROMETIDO PELA QUEDA.
       NA AO FLUDICA DO MUNDO INVISVEL, AS FORAS GENEROSAS DO AMOR LHE HAVIAM INSTILADO UMA GRANDE QUANTIDADE DE FORA VITAL QUE LHE PUDESSE RETEMPERAR TODOS 
OS SISTEMAS ORGNICOS E RECONDUZI-LO, SE NO  LUVENTUDE DO CORPO,  JOVIALIDADE E AO BEM-ESTAR FSICO QUE ACABAVAM POR MELHORAR TODA A DISPOSIO GERAL, PRODUZINDO 
NO VELHINHO UMA SENSAO DE EUFORIA E ENTUSIASMO.
       DIR-SE-IA QUE CALEB HAVIA REJUVENESCIDO, O QUE SIGNIFICAVA, ENTRETANTO QUE, SE O CORPO CONTINUAVA ENVELHECIDO E DESGASTADO PELOS ANOS, A SUA LUCIDEZ, A SUA 
ALEGRIA, O SEU ESTADO GERAL ERAM ABSOLUTAMENTE DIFERENTES, O QUE LHE INFUNDIA OUTRA APARNCIA GERAL, PERCEPTVEL POR TODOS OS DEMAIS.
       EM UMA PEQUENA COMUNIDADE COMO AQUELA, TANTO ERAM NOTCIA A CHEGADA DO GOVERNADOR  SUA ESTNCIA NAS CERCANIAS DA CIDADE, QUANTO A APARIO DE FAZEDORES DE 
MILAGRES COMO AQUELE OCORRIDO NA NOITE ANTERIOR, EM PLENA VISTA DE TODOS.
       ASSIM, A AO DE ZACARIAS E JOSU, PELA FORA DA NECESSIDADE DE MUITOS E DAS CARNCIAS HUMANAS PASSOU A CORRER DE BOCA EM BOCA, TORNANDO-SE UMA ALVISSAREIRA 
NOVIDADE NAQUELAS PARAGENS TO ACOSTUMADAS  ROTINA DE SUAS PRPRIAS DESGRAAS.
       POR OUTRO LADO, AMBOS NO TINHAM IDIA DE QUE A EXPERINCIA DA NOITE ANTERIOR PUDESSE CALAR TO PROFUNDAMENTE NA ALMA DOS OUTROS DESESPERADOS QUE, AO CONTRRIO, 
SE PREPARAVAM PARA O REENCONTRO DA NOITE SEGUINTE.
EFETIVAMENTE, NO ENTARDECER DAQUELE MESMO DIA, O CORTEJO DE
PILATOS DEU ENTRADA EM SUA VILA CONFORTVEL, NOS ARREDORES DE NAZAR E ALI SE INSTALOU PARA UM PERODO DE TRANQILIDADE JUNTO AO AMBIENTE FAVORVEL E APRAZVEL DAQUELAS 
PARAGENS.
PILATOS TRAZIA CONSIGO UM ESTADO DE ESPRITO CONFUNDIDO PELO TEMOR E DESCONFIANA ACERCA DA PRESENA DO SENADOR PBLIO - QUE ESCOLHERA TRILHAR CAMINHO MAIS DISTANTE 
DE SUAS VISTAS, AO MESMO TEMPO EM QUE NO CONSEGUIA TIRAR DE SUA CABEA A FIGURA DE LVIA, AQUELA QUE FICARA GRAVADA EM SUA MEMRIA NO ENCONTRO NOS JARDINS DE SUA 
CASA EM JERUSALM, QUANDO HAVIA INTERPRETADO SUA FRAQUEZA COMO CAPITULAO AOS SEUS ARREBATADORES ENCANTOS.
       A IDIA FIXA EM LVIA FIZERA COM QUE, MENOS DE DOIS MESES DEPOIS QUE A FAMLIA LENTULUS SE HAVIA TRANSFERIDO PARA CAFARNAUM, PILATOS J PROCURASSE NAZAR 
A FIM DE PERMANECER EM POSIO MAIS FAVORVEL EM FACE DA MAIOR PROXIMIDADE ENTRE AS DUAS LOCALIDADES.
       ISSO PERMITIRIA QUE ESTIVESSE EM CONTATO COM OS PASSOS DO ENVIADO DE TIBRIO AO MESMO TEMPO EM QUE LHE PODERIA PERMITIR A APROXIMAO COM A ESPOSA QUE NO 
LHE SAA DOS PLANOS.
       TO LOGO SE ACOMODOU EM NAZAR, PILATOS REMETEU AT A RESIDNCIA DO SENADOR EM CAFARNAUM O EMISSRIO QUE LHE FAZIA CHEGAR A NOTCIA DE QUE O GOVERNADOR SE 
ENCONTRAVA NA REGIO E LHE ENVIAVA O CONVITE PARA QUE SE ENCONTRASSEM QUANDO FOSSE DO DESEJO DO IMPORTANTE VISITANTE.
       NA VERDADE, COM ISSO PILATOS DESEJAVA NO APENAS OFERECER SEUS PRSTIMOS A PBLIO, MOSTRANDO-SE CORTS E AMISTOSO, AINDA QUE ISSO NO FOSSE VERDADEIRO. DESEJAVA 
TAMBM CRIAR O CLIMA NECESSRIO PARA QUE PUDESSEM ENTRETECER NOVOS CONTATOS ATRAVS DOS QUAIS SUA PRESENA PODERIA ALINHAVAR MELHOR A TEIA COM A QUAL PRETENDIA AGARRAR 
A COBIADA PRESA QUE PARECIA QUER-LO E, AO MESMO TEMPO, FUGIA-LHE DAS MOS.
NO PRECISAMOS REPETIR QUE LVIA, EM MOMENTO ALGUM LHE DERA QUAISQUER SINAIS DE ACEITAO. ANTES PELO CONTRRIO.
       OCORRE QUE, NA MENTE DETURPADA DE TODO CONQUISTADOR IRRESPONSVEL, OS SINAIS NEGATIVOS MAIS EVIDENTES SO INTERPRETADOS COMO INDCIOS DE ACEITAO MAL DISFARADA 
POR UMA APARENTE RECUSA.
ENTO, POR MAIS HOUVESSE SE CONDUZIDO COM NOBREZA E CORREO, ABSTENDO-SE DE TODAS AS INVESTIDAS DO GOVERNADOR, MAIS E MAIS ESTE SE OBSTINAVA EM SEU CAPRICHOSO DESEJO 
DE TER TODAS AS CONQUISTAS AOS SEUS PS, SENDO AS MAIS DIFCEIS AS MAIS COBIADAS.
       DA PORQUE PILATOS ESTAVA QUASE QUE ENFEITIADO POR SUA PRPRIA ASTCIA, QUE O IMPEDIA DE VER OS FATOS PELA JANELA DA VERDADE.
       TAMBM LHE PESARAM NA DECISO DE VIAJAR A NAZAR AS PRESSES QUE FLVIA VINHA FAZENDO SOBRE ELE, EIS QUE DESEJAVA QUE PILATOS CONTINUASSE LHE PRESTANDO AS 
HOMENAGENS AMOROSAS E ILCITAS, COMO ElA DE CONTINUAR SE SENTINDO IMPORTANTE COMO A AMANTE DO GOVERNADOR fomano.
       E POR EXPERINCIA PRPRIA, PILATOS SABIA DO PERIGO QUE SEMPRE REPRESENTOU UMA MULHER CONTRARIADA NA VIDA DE UM HOMEM COM OS EQUVOCOS DE CARTER COMO OS DELE. 
ASSIM, COLOCANDO EM PRTICA A SUA IDEIA DE POLTICO MATREIRO, ENCETOU A VIAGEM A NAZAR COMO PARTE DE MEIAS TAREFAS DE GOVERNANTE DA REGIO, DE MANEIRA QUE SE MANTERIA 
AFASTADO DE FLVIA, QUE NO PODERIA SEGUI-LO EM FACE DE SUAS RESPONSABILIDADES PESSOAIS JUNTO  SUA FAMLIA EM JERUSALM.
       NO PASSOU DESPERCEBIDA DA AMANTE, NO ENTANTO, A CONDUTA DE PILATOS E O POR ELE BEM ORQUESTRADO AFASTAMENTO, FOSSE POR CAUSA DE SUA PRESSO, FOSSE POR CAUSA 
DA APARIO DE UMA CONCORRENTE EM SEU CAMINHO, CONCORRENTE ESTA QUE ELA SABIA SER DIFCIL DE VENCER POR CAUSA DE SUA POSIO DE IMPORTNCIA QUE, AOS OLHOS DA MULHER 
DESPEITADA E MESQUINHA, LHE PARECIA ESTUDADA E ARTIFICIAL.
       AO MESMO TEMPO EM QUE OS OLHOS DE PILATOS SE VOLTAVAM PARA CAFARNAUM, AS AUTORIDADES DE NAZAR ESTAVAM COM OS OLHARES VOLTADOS PAra O GOVERNADOR, PROCURANDO 
TUDO FAZER PARA AGRAD-LO E ENALTECER-LHE A PESSOA, COMO MANEIRA PROMSCUA DE SE MANTEREM A CAVALEIRO DE VANTAGENS E CONQUISTAS MATERIAIS.
       NA NOITE DA CHEGADA, COMO J HOUVERA SIDO ACERTADO POR SEUS SUBALTERNOS, PILATOS NO SE APRESENTARIA PARA NENHUM ENCONTRO OU COMEMORAO POR PREFERIR O DESCANSO 
DEPOIS DE LONGA VIAGEM.
    NO ENTANTO, A FESTA INICIAL DE SUA ESTADIA EM NAZAR ESTAVA MARCADA PARA A NOITE SEGUINTE, QUANDO OS MAIS IMPORTANTES DA CIDADE O RECEBERIAM EM RECINTO PRIVADO, 
PARA QUE TODOS OS ENCONTROS E CONVERSAES PUDESSEM SER REALIZADOS SEM A DESAGRADVEL PRESENA DE TESTEMUNHAS, COM SEUS OLHOS E OUVIDOS INDISCRETOS.
   ASSIM, NA NOITE SEGUINTE SE ENFILEIRARIAM OS JUDEUS DE MUITAS FACES AO LADO DOS SACERDOTES E RELIGIOSOS, BEM COMO DOS QUE EXERCIAM OS DEVERES PBLICOS EM NOME 
DE PILATOS, NOMEADOS PARA OS CARGOS OU QUE OS HAVIAM COMPRADO A PESO DE OURO, ALM DAS ATRAES FESTIVAS, COMO COMIDAS EXTICAS, TO AO GOSTO DO PROCURADOR, E COMPANHIAS 
FEMININAS SEDUTORAS, COMO SILENCIOSO OFERECIMENTO DOS HABITANTES DA REGIO PARA QUE O HOMEM MAIS IMPORTANTE DEPOIS DO IMPERADOR PUDESSE EMBRIAGAR-SE NO CAPITOSO 
VINHO DAS ILUSES FSICAS.
       AO MESMO TEMPO, DISTANTE DALI, EM CAFARNAUM, A FAMLIA LENTULUS PASSAVA POR APUROS AUMENTADOS.
     ISSO PORQUE BASTOU A CHEGADA QUELAS PARAGENS PARA QUE A PEQUENINA FLVIA VIESSE A PIORAR, PERDENDO EM POUCOS DIAS TODAS AS MELHORAS QUE HAVIAM SIDO OBSERVADAS 
QUANDO DE SUA ESTADA EM JERUSALM, O QUE PRODUZIA UM ESTADO DE QUASE DESESPERO NOS PAIS, QUE TUDO TENTAVAM FAZER PARA AUXILIAR A PEQUENINA CRIANA NA LUTA CONTRA 
ENFERMIDADE.
       TAL DIFICULDADE PESSOAL LHES MANTINHA AS ATENES VOLTADAS PARA A PEQUENA, EM TODAS AS HORAS DO DIA, PRINCIPALMENTE DE LVIA E ANA, SUA SERVA DE CONFIANA 
E CONFIDENTE PESSOAL.
       A PRESENA DE SULPCIO JUNTO DO SENADOR ERA ALGO QUE PILATOS HAVIA DETERMINADO ANTERIORMENTE E, POR ISSO, NOS MOMENTOS DE DOR E AGONIA EM QUE OS PAIS IMAGINAVAM 
ESTAR MUITO PRXIMO O DESENLACE DA FILHINHA AMADA, ERA ELE O NICO ROMANO CONHECEDOR DA REGIO E DOS COSTUMES A QUEM O SENADOR PODERIA OUVIR SOBRE OS BOATOS ACERCA 
DAQUELE PROFETA OU CURANDEIRO QUE SE ESTAVA TORNANDO FAMOSO.
       SULPCIO NO TINHA IDIA DE QUE PBLIO ERA ENCARREGADO PELO IMPERADOR TIBRIO DE ENVIAR-LHE NOTCIAS SOBRE JESUS E, NO DILOGO QUE TIVERAM SOBRE AS QUALIDADES 
DO DIVINO MESTRE, O LICTOR NO VIU MAIS DO QUE O INTERESSE DE UM PAI AFLITO PELO ESTADO DE SADE DE SUA FILHINHA, IMAGINANDO QUE ERA ESSE O NICO MOTIVO POR QUE 
PBLIO O ESTAVA CRIVANDO DE PERGUNTAS.
       EM REALIDADE, O PRPRIO SENADOR MUITAS VEZES TIVERA O PENSAMENTO DE PROCURAR A FIGURA DAQUELE HOMEM DESCONHECIDO, PESSOALMENTE, NO APENAS PARA CUMPRIR AS 
DETERMINAES DE TIBRIO, MAS EM FUNO DAS PRPRIAS NECESSIDADES DA FILHA ENFERMA.
NO ENTANTO, AO PENSAMENTO DE SUA APROXIMAO DIRETA E A SOLICITAO DE AMPARO AO NAZARENO DESCONHECIDO, OS PRURIDOS DE SEU ORGULHO, DE SUA POSIO POLTICA JUNTO 
A ROMA, DE SEUS MODOS REFINADOS E NOBRES DA TRADIO DA GENS CORNLIA, FIEL DEVOTA DOS ANTIGOS DEUSES DE SEUS ANTEPASSADOS, VINHAM-LHE  MENTE PARA DESENCORAJ-LO 
DE QUALQUER INICIATIVA.
       VIA-SE COMO UM GRANDE E IMPORTANTE CIDADO DO PRIMEIRO MUNDO DA POCA, RECORRENDO AOS RITOS MGICOS E S POES MIRACULOSAS DE ALGUM CURANDEIRO REGIONAL, 
IGNORANTE E ESPERTO O SUFICIENTE PARA ILUDIR A CRENDICE OU A BOA F DAS PESSOAS, IGUALMENTE IGNORANTES.
       A FALSA NOO DE SUPERIORIDADE O IMPEDIA DE ACERCAR-SE DA VERDADE DE MANEIRA DIRETA COMO ELE MESMO FIZERA VER A SULPCIO, AFIRMANDO NO SER DOS QUE COMPROMETERIAM 
O SEUS DEVERES DE HOMEM DE ESTADO, DESMORALIZANDO-SE DIANTE DOS OUTROS, QUE VERIAM NESSE SEU COMPORTAMENTO, A DERROCADA DE SUAS TRADIES SUPERIORES DIANTE DAS CRENDICES 
E SUPERSTIES ESTRANGEIRAS.
       ASSIM ESTAVAM AS COISAS AT QUE, NO DESESPERO DE SEU SOFRIMENTO, A PRPRIA FILHINHA FLVIA, ATENDENDO AO OFERECIMENTO PATERNO QUE LHE PROMETIA CUMPRIR TODOS 
OS CAPRICHOS PARA QUE ELA SE SENTISSE MAIS FORTALECIDA, RECUSARA-SE A PEDIR BRINQUEDOS, GULOSEIMAS, PASSEIOS.
       DE DENTRO DE SEUS MODOS INFANTIS, A PEQUENA FLVIA PEDIRIA QUE O PAI LHE TROUXESSE O PROFETA DE NAZAR.

       ASSIM, FOSSE POR CAUSA DA DETERMINAO DE TIBRIO, FOSSE POR CAUSA   DO DESESPERO DE PAI E, AINDA MAIS AGORA, ATENDENDO  SPLICA DA SUA FILHA, O SENADOR 
SE VIA VENCIDO EM SEU ORGULHO PATRCIO E ERA IMPELIDO PELAS CIRCUNSTNCIAS A IR ENCALO DAQUELE QUE, AT AQUELE
PONTO, TRATARA COM O DESDM DOS QUE JULGAM TUDO SABER E, POR ISSO, sentir
 EM PATAMAR DE SUPERIORIDADE.
       NO ENTANTO, COMO NO PRETENDIA QUE TAL ENCONTRO SE DESSE DIANTE DO POVILU QUE CONSTANTEMENTE O CERCAVA, DELIBEROU FAVORECER QUE ELE
VIVESSE COMO QUE PATROCINADO PELO ACASO OU DE MANEIRA FORTUITA, COMO forma DE LIVRAR-SE DOS COMPROMETIMENTOS QUE UMA PROCURA DIRETA E PESSOAL ACARRETARIA PERANTE 
OS OLHOS ALHEIOS E PERANTE SUA PRPRIA PERSONALIDADE QUE SE CONSIDERAVA MUITO IMPORTANTE.
       SABENDO QUE OS CAMINHOS QUE JESUS TRILHAVA ERAM, GERALMENTE, OS QUE O LEVAVAM AO LAGO JUNTO DOS PESCADORES QUE O SEGUIAM, O SENADOR PLANEJOU UM PASSEIO SOLITRIO 
PELOS MESMOS CAMINHOS, AO CAIR DA TARDE, A FIM DE QUE NO PARECESSE QUE ESTAVA PROCURANDO JESUS DESESPERADAMENTE E, SE O ACASO LHE POSSIBILITASSE TAL ENCONTRO, CONVID-LO 
ia PARA UMA VISITA A SEU LAR, COMO ERA COSTUME DA REGIO A ACOLHIDA DE ALGUM CONHECIDO COM QUEM SIMPATIZASSE, A FIM DE QUE, ENVOLVIDO PELAS ASAS DA CASUALIDADE, 
PUDESSE PROTEGER A SUA DIGNIDADE PESSOAL E POLTICA, AO MESMO TEMPO EM QUE ATENDERIA S NECESSIDADES DA FILHA DOENTE.
PLANEJOU E ASSIM REALIZOU.
       NO ENTANTO, AS PREOCUPAES MUNDANAS NO TINHAM IMPORTNCIA PARA A CONCRETIZAO DAS VERDADES INFINITAS.
       E SE O SENADOR PASSEAVA DISTRAIDAMENTE SEM TER REVELADO A NINGUM O TEOR DE SUAS INTENES, JESUS SEGUIA PELAS MESMAS TRILHAS, DELIBERADAMENTE, COM O FITO 
DE ENCONTR-LO PARA A CONVOCAO FATDICA do AMOR, QUE PODERIA TRANSFORMAR PARA SEMPRE O DESTINO DO HOMEM FALVEL.
       O ENCONTRO DE AMBOS FOI ABSOLUTAMENTE INESQUECVEL PARA PBLIO, OIS QUE, EM MOMENTO ALGUM DE SUA VIDA HOUVERA SENTIDO TAL IMPONNCIA VESTIDA DE SIMPLICIDADE, 
TAL GRANDEZA TRAJADA DE PEQUENEZ, UM MAGNETISMO QUE NENHUM DOS PODERES MUNDANOS CONSEGUIRIA, JAMAIS, ESPELHAR OU IMITAR.
       A EMOO DAQUELE INSTANTE PENETROU-LHE O SER E A RESPOSTA DAS PERGUNTAS ABUNDANTES SE FEZ ACONTECER QUASE QUE DE MANEIRA INCONTROLVEL OU IMPENSVEL.
       HOMEM ACOSTUMADO AOS TRMITES BUROCRTICOS, VACINARA-SE MUITAS VEZES CONTRA A EMOO QUE A MISRIA PODERIA CAUSAR, ADULTERANDO O SENTIMENTO COM A FRIEZA DE 
SEUS RACIOCNIOS QUE NO PODERIAM SER CORROMPIDOS POR SENTIMENTALISMOS.
       ASSIM, DESACOSTUMADO  EMOO, NO SOUBE COMO DOMIN-LA NEM FEZ NADA PARA IMPEDI-LA QUANDO JESUS SURGIU  SUA PRESENA, NAQUELE MOMENTO EM QUE A LUA DAVA 
OS SEUS SINAIS DE VIDA, NA NOITE QUE COMEAVA MAJESTOSA.
       E NO LIMITADO APENAS S LGRIMAS, O HOMEM DE ESTADO, INEXPLICAVELMENTE, SENTIU-SE IMPULSIONADO A AJOELHAR-SE NA VERDURA QUE LHE SUSTENTAVA OS PS, AINDA 
QUE A FIGURA DO MESTRE SE ENCONTRASSE A CERTA DISTNCIA DE SUA PESSOA.
       O SILNCIO AO REDOR ATESTAVA A AUSNCIA DE TESTEMUNHAS DIANTE DA CHEGADA DA NOITE. TODAVIA, O FASCNIO DE TAL ENCONTRO FORA TAL EM SEU ESPRITO QUE, EM MOMENTO 
ALGUM LHE PASSARA PELA CABEA A PREOCUPAO DE QUE ALGUM MAIS PUDESSE PRESENCIAR AQUELE GESTO DE SUBSERVINCIA, VINDO DE UM DOS HOMENS MAIS IMPORTANTES DA PALESTINA 
NAQUELES TEMPOS.
       VENDO-LHE A SUBMISSO QUASE MECNICA, INCAPAZ QUE ERA DE SE MANTER DE P DIANTE DE TAL MAJESTOSA SIMPLICIDADE, JESUS CAMINHOU NA DIREO DE PBLIO E, COM 
SUAVIDADE E MEIGUICE, DIRIGIU-LHE A PALAVRA QUE ERA COMPREENDIDA PELO SENADOR COMO SE JESUS LHE FALASSE NO MAIS BELO E CLSSICO LATIM.
- SENADOR, POR QUE ME PROCURAS?
       TOMADO PELO ENCANTAMENTO, PBLIO NO CONSEGUIA ARTICULAR PALAVRAS QUE SE SUFOCAVAM EM SEU PEITO. NO ENTANTO, SEUS PENSAMENTOS ERAM ESCUTADOS POR AQUELE HOMEM 
TO DIFERENTE DE TODOS OS OUTROS, COMO SE TIVESSEM O TIMBRE SONORO DA PRPRIA VOZ.
       SEM SABER O QUE DIZER, ANGUSTIOSO E VENCIDO, PENSOU NA CRIANA ENFERMA.
       EM RESPOSTA, JESUS O ADVERTIU DE QUE SEU ORGULHO NO LHE SERIA O MOTIVO DA SALVAO DA FILHA, MAS SIM A F DA ESPOSA AMADA QUE ENRIQUECIA A VIDA DE TODOS 
OS QUE PARTILHAVAM A SUA PRESENA E QUE OS PODERES QUE ELE DEFENDIA OU REPRESENTAVA ERAM EXTREMAMENTE FUGAZES DIANTE DOS PODERES SUPERIORES QUE DIRIGIAM OS DESTINOS 
DOS HOMENS.
       TAIS ADVERTNCIAS DA VERDADE SOBRE SEU CARTER ARROGANTE LHE ERAM FEITAS COM TAL BENEVOLNCIA QUE, SE NUM PRIMEIRO MOMENTO O SENADOR SE SENTIU FERIDO POR 
ELAS, RELEMBRANDO A GRANDEZA DO IMPRIO E DOS CSARES, A PALAVRA FIRME E GRANDIOSA DAQUELE DILOGO FAZIA-O DEFRONTAR AS PRPRIAS REAES IMEDIATAS, MOSTRANDO, NUM 
SEGUNDO MOMENTO, QUE TUDO AQUILO QUE SE LHE ESTAVA REVELANDO ERA A MAIS PURA REALIDADE.
       AO MESMO TEMPO, JESUS ATRIBUA A ELE O ACRSCIMO DE RESPONSABILIDADES PELA CURA DA FILHINHA, QUE FORA PROPICIADA PELA F DA ESPOSA SINCERA E HUMILDE, MAS 
QUE, PARA ELE, SIGNIFICARIA UM AUMENTO DE DEVERES PARA COM DEUS, NO SENTIDO DO AMOR AO PRXIMO.
       SEM CONSEGUIR FALAR NADA, PBLIO SE VIU AVASSALADO POR UM PODER MUITO MAIOR QUE QUALQUER UM QUE J HOUVERA DEFRONTADO OU CONHECIDO,

DE MANEIRA QUE SE MANTEVE NO MESMO LUGAR, CHUMBADO AO SOLO, NONCIANDO A TRANSFORMAO DAQUELE JESUS QUE SE MODIFICAVA AO NFLUXO DA ORAO, COM OS OLHOS VOLTADOS 
PARA O ARMAMENTO.
       POUCO DEPOIS, UM TORPOR INCONTROLVEL LEVOU O SENADOR AO SONO  PROFUNDO, DO QUAL SE LIBERTOU HORA E MEIA DEPOIS, ASSUSTADO E CONFUSO.
       HAVIA SONHADO? HAVIA SIDO VTIMA DE UM SORTILGIO, TO AO FEITIO DOS JUDEUS DAQUELAS TERRAS? COMO HOUVERA SE HUMILHADO DE JOELHOS DIANTE DE UM DESCONHECIDO? 
QUEM TERIA A AUTORIDADE PARA SE DIRIGIR A ELE NAQUELE TOM DE SINCERIDADE SOBRE A SUA PESSOA?
       TODOS ESTES PENSAMENTOS O FAZIAM SE SENTIR DIMINUDO OU MBAIXADO, CAUSANDO-LHE UMA CONFUSO MENTAL MUITO GRANDE, POIS APESAR DE TUDO ISTO, SUA MEMRIA GUARDAVA 
TODOS OS DETALHES DAQUELE ENCONTRO TO IMPORTANTE.
     SUA CONDUTA MENTAL ATESTAVA A LUTA ENTRE O MUNDO VELHO E O MUNDO NOVO, ONDE AS MENTIRAS DA OPULNCIA SOCIAL ERAM ATACADAS PELA VERDADE DA SIMPLICIDADE ESPIRITUAL, 
ONDE O SENADOR ROMANO ERA ACUSADO PELO ONDIGO NAZARENO.
     
    SUA PRESUNO DE SUPERIORIDADE, LONGAMENTE ACRISOLADA EM SEU ESPRITO PELO EXERCCIO DOS VALORES ROMANOS DA TRADIO DE SEUS ANTEPASSADOS, FEZ COM QUE ACABASSE 
POR CONSIDERAR RIDCULAS OU RISVEIS TODAS AQUELAS COGITAES QUE SE VOLTAVAM CONTRA O MAIS SAGRADO DE SUAS CRENAS E SE REPREENDEU MENTALMENTE POR TER DADO OUVIDOS 
AOS PEDIDOS DE SUA ESPOSA E DE SUA FILHA PARA REPRESENTAR AQUELE PAPEL RIDCULO NA COMDIA DAQUELA HORA, QUE FOI COMO ELE CONSIDEROU A OCORRNCIA QUE TESTEMUNHARA.
       COISA DE TOLOS E ALUCINADOS ACEITAR A FRATERNIDADE ENTRE OS MAIS DIFERENTES INDIVDUOS. COISA DE MALUCOS, ACREDITAR EM UM PREGADOR DE LILOSOFIAS TO PERIGOSAS 
OU PERTURBADORAS.
ASSIM PENSAVA, ATORMENTADO, PROCURANDO O CAMINHO DE CASA.
    NO SE ESQUECIA, PORM, DAS PROMESSAS QUE AQUELE HOMEM UVERA FEITO SOBRE A CURA DA FILHINHA AMADA, MAS NELAS NO DESEJAVA REDITAR EM FACE DO ESCRNIO QUE HAVIA 
VOTADO AOS PRINCPIOS ELEVADOS QUE O MESTRE LHE HAVIA APRESENTADO COM SINCERIDADE DIANTE DA ALMA ESCURECIDA PELO ORGULHO PATRCIO.
       CAMINHOU IMAGINANDO OS SOFRIMENTOS DA FILHINHA E SE PENITENCIANDO POR NO PODER FAZER MAIS NADA POR ELA, DIANTE DAS IMPOTENTES FORAS OU RECURSOS QUE LHE 
ESTAVAM  DISPOSIO.
       LEMBROU-SE DOS MDICOS CONSULTADOS, DAS POES MEDICAMENTOSAS QUE LHE FORAM MINISTRADAS, DOS PROCEDIMENTOS COM OS QUAIS SE PRETENDIA DIMINUIR O PADECIMENTO 
INFANTIL, TUDO EM VO.
NOVAMENTE LHE APERTAVA O CORAO A LEMBRANA DA DOR DAQUELE

SER AMADO QUANDO SE APROXIMOU DA MORADIA AGORA SILENCIOSA E PREPARADA PARA O REPOUSO NOTURNO.
       P ANTE P, ADENTROU NA VIVENDA E BUSCOU O ACONCHEGO DO QUARTO DA ENFERMA A QUEM DESEJAVA VISLUMBRAR ANTES DE SE RECOLHER.
       E, QUANDO ABRIU LENTAMENTE A PORTA QUE LHE PERMITIA O ACESSO AO SEU INTERIOR, NADA MAIS DE UMA CRIANA CHOROSA E ABATIDA, INCAPAZ DE DESCANSAR E SORRIR.
       LVIA CARREGAVA EM SEU COLO O PEQUENINO ANJO QUE REPOUSAVA, ENVOLVIDO NUM HALO DE SERENIDADE E CONFORTO QUE H MUITO TEMPO NO VISLUMBRAVA NO SEMBLANTE SEMPRE 
ABATIDO DE FLVIA.
       SEDUTOR SORRISO ESTAMPOU-SE NO ROSTO DA PEQUENINA CRIANA QUANDO SE INTEIROU DA CHEGADA DO PAI AMADO, CONVENCENDO-O DE QUE AQUELAS NO ERAM APENAS CONFUSAS 
APARNCIAS PRODUZIDAS PELO SEU DESEJO DE VER MELHORADA A FILHA.
       ESCUTANDO OS RELATOS DE LVIA, INTEIROU-SE DE QUE UM FENMENO SOBRENATURAL HAVIA ALI OCORRIDO E QUE, GRAAS A ELE, QUE ATRIBUAM  INTERCESSO DO PROFETA 
DE NAZAR, A PEQUENA ESTAVA SALVA, COM NIMO RECUPERADO, TENDO SE ALIMENTADO NORMALMENTE E DADO SINAIS DE ALEGRIA E DESEJO DE BRINCAR.
ALI ESTAVA A PROVA DE TUDO O QUE OCORRERA COM ELE, HORAS ANTES.
L ESTAVA A MO GENEROSA DE JESUS CURANDO-LHE A FILHA.
       NO ENTANTO, ADMITIR TAL PODER E GRANDEZA, SERIA, AO MESMO TEMPO, ADMITIR A PRPRIA INFERIORIDADE. ADMITIR A AO DE JESUS, MESMO  DISTNCIA, SERIA TER QUE 
CONSIDERAR VERDADEIRAS AS SUAS PALAVRAS SOBRE O SEU ESTILO DE VIDA E SEU MODO DE SER.
       ESCOLHER ENTRE O SEU MUNDO E O MUNDO DE JESUS - ERA ISSO QUE TERIA DE FAZER.
       ASSIM, PRESSIONADO ENTRE A HUMILDADE E O ORGULHO, APESAR DA PROVA CANDENTE OCORRIDA EM SUA PRPRIA CASA, PBLIO RECUSARA-SE A ATRIBUIR A CURA  INTERVENO 
DAQUELE SER TO ESPECIAL E RENEGARA A SUA AO PARA QUE NO TIVESSE DE ABDICAR DOS FAVORES DO MUNDO AOS QUAIS SE APEGAVA COM EXTREMO ORGULHO E VENERAVA COM TODAS 
AS FORAS DE SUA TRADIO.
       ENTRE ROMPER COM ROMA E ROMPER COM JESUS, PREFERIU NEGAR ESTE LTIMO PARA SEGUIR ATRELADO  PRIMEIRA.
       L DENTRO DE SI, PORM, NO CONSEGUIRIA ENGANAR-SE POR COMPLETO PARA SEMPRE.
       TAMBM EM SUA VIDA, CHEGARIA A SUA HORA DE RECONCILIAR-SE COM A VERDADE, AINDA QUE DEPOIS DE MUITO SOFRIMENTO.
NO ENTANTO, AGORA J TINHA O QUE FALAR A TIBRIO, COMO CUMPRIMENTO DE PARTE DE SUA MISSO NA PALESTINA.

AQUELES DIAS QUE SE SEGUIRAM  CURA DE FLVIA, O SEU ANISMO SE FOI RESTABELECENDO RAPIDAMENTE E A ALEGRIA REGRESSOU AO BIENTE DA CASA. NATURALMENTE, O SENADOR NO 
RELATOU COM OS DETALHES QUE CORRESPONDIAM  TOTALIDADE DA VERDADE O ENCONTRO QUE TIVERA COM JESUS.
       INDAGADO POR LVIA, QUE COM A CONVICO DE SUA F PURA E GENEROSA SINTIA QUE TAL MILAGRE HAVIA SIDO REALIZADO PELO PROFETA NAZARENO, PBLIO LIMITOU-SE A DAR 
EVASIVAS E GENRICAS DESCRIES DO QUE OCORRERA, SEM ROFERIR-SE  SUA POSTURA DE SUBSERVINCIA INVOLUNTRIA NEM S LGRIMAS DO EMOO.
       NATURALMENTE QUE O ESPRITO DE JUSTIA SEMPRE PRESENTE NA SUA MENTALIDADE DE PATRCIO ROMANO O IMPEDIA DE MENOSPREZAR AQUELE HOMEM OU DE NEGAR O ENCONTRO 
QUE TIVERA.
       TODAVIA, UMA VEZ QUE ATRIBUIU A CURA DA FILHA AO ESFORO DE TODA A FAMLIA COM MDICOS E REMDIOS, PROIBIU QUALQUER ALUSO AO REFERIDO PROFETA COMO RESPONSVEL 
PELA CURA DE FLVIA.
       QUALQUER IDIA NESSE SENTIDO SERIA COMBATIDA POR ELE E O RESPONSVEL SERIA SEVERAMENTE PUNIDO.
       LVIA CONHECIA O ORGULHO DO MARIDO AMADO E, UMA VEZ QUE FLVIA ESTAVA CURADA, ACEITOU-LHE AS EXIGNCIAS SEM QUE ISSO SIGNIFICASSE PARTILHAR DOS MESMOS PONTOS 
DE VISTA DO MARIDO.
       EM SEGREDO, COM A AMIGA ANA NA CONDIO DE SERVA DA FAMLIA, I IVIA SE PERMITIA DISCORRER SOBRE OS FATOS E ENTENDIA TER HAVIDO, ALI, A MTERCESSO DE FORA 
SUPERIOR, DADA  OCORRNCIA DE EFEITOS FSICOS JUNTO A CRIANA, COMO SE UMA MO LUMINOSA LHE ESTIVESSE TOCANDO A PELE E REMOVENDO OS PROCESSOS INFECCIOSOS E PURULENTOS, 
NA INTIMIDADE DO QUARTO ONDE SE ENCONTRAVAM, ENQUANTO PBLIO ESTAVA FORA, NAQUELE DIA TO ESPECIAL.

       ASSIM ESTAVAM AS COISAS QUANDO, POUCOS DIAS DEPOIS, A FAMLIA SE V VISITADA POR UM EMISSRIO DE FLAMNIO SEVERUS QUE, COMO AMIGO E CONFIDENTE DE PBLIO, 
ADMINISTRADOR DE SEUS INTERESSES EM ROMA, LHE FORA ENVIADO COM CORRESPONDNCIAS, PEQUENOS BRINDES, NOTCIAS, RELATRIOS E DOCUMENTOS QUE LHE CABIAM CONHECER.
       A CHEGADA DE QUIRILIUS, EX-ESCRAVO DE FLAMNIO E QUE SE ACHAVA VINCULADO  FAMLIA SEVERUS, ENCHEU DE ALEGRIA O AMBIENTE, POIS ELE TRAZIA NOTCIAS DOS QUERIDOS 
AMIGOS DISTANTES.
       ASSIM, O DIA FOI DE LEITURA DAS DIVERSAS CORRESPONDNCIAS E, AO MESMO TEMPO, OS DIAS SUBSEQENTES FORAM DE ARDOROSO TRABALHO PARA PBLIO QUE, ENCERRADO EM 
SEU ESCRITRIO, PASSOU LONGO TEMPO REDIGINDO RESPOSTAS E DOCUMENTOS NECESSRIOS  CONTINUIDADE DOS TRABALHOS DE FLAMNIO.
       NESSA OCASIO, AINDA QUE NO TIVESSE CUIDADO DE APROFUNDAR OS PROCESSOS DE INVESTIGAO SOBRE A ADMINISTRAO DA PALESTINA, PBLIO ESCREVEU LONGA CARTA, DESTINADA 
AO IMPERADOR E AO SENADO, DANDO A CONHECER A PERSONALIDADE DAQUELE HOMEM DIFERENTE, DESCREVENDO-O E REFERINDO-SE AO SEU EXTREMO E PROFUNDO PODER MAGNTICO, DIFERENTE 
DE TODAS AS COISAS QUE J HOUVERA CONHECIDO.
       FORAM PALAVRAS MEDIDAS PARA QUE NELAS NO FOSSEM VISTOS A EMPOLGAO INFANTIL OU O ENTUSIASMO POUCO CONVENIENTE NAS DESCRIES E QUE, EM GERAL, DESNATURAM 
O QUE SE EST DESCREVENDO, MAS, AO MESMO TEMPO, FORAM FRASES QUE PROCURARAM FAZER UM PERFIL FSICO E EMOCIONAL DO REFERIDO TAUMATURGO PARA QUE O IMPERADOR O PUDESSE 
CONHECER NO MAIS COMO LENDA, MAS SIM COMO VERDADE, TRAANDO-LHE, NA MEDIDA DO POSSVEL, A SUA ESTRUTURA PSICOLGICA.
       NESSA DESCRIO, SEM NENHUMA REFERNCIA PESSOAL AO OCORRIDO ENTRE ELES, PBLIO PROCUROU SER IMPARCIAL E NO DEIXOU QUE QUALQUER DESEJO DE ENCOBRIMENTO DA 
VERDADE LHE TOLDASSE O RACIOCNIO, J QUE ESTAVA A SERVIO DE TIBRIO, A QUEM PROMETERA FIDELIDADE NA EXPRESSO DA REALIDADE.
       ASSIM, FORA REMETIDA A CORRESPONDNCIA PELO MESMO EMISSRIO QUE REGRESSARA  CAPITAL DO IMPRIO POUCOS DIAS DEPOIS, CARREGANDO CONSIGO AS AMOROSAS RESPOSTAS 
DOS LENTULUS, BEM COMO DOCUMENTOS EM GERAL E A CARTA PARA TIBRIO QUE FLAMNIO TRATARIA DE FAZER CHEGAR S MOS DO PRPRIO, PESSOALMENTE.
NESSE MESMO DIA, AO CAIR DA TARDE, OUTRO MENSAGEIRO DEU ENTRADA AO REFGIO DO SENADOR, AGORA MAIS ALIVIADO E J PENSANDO EM REGRESSAR BREVEMENTE  SEDE IMPERIAL.
       ERA O EMISSRIO DE PILATOS, QUE LHE DAVA A CONHECER A ESTADA DO GOVERNADOR EM SUA RESIDNCIA DE NAZAR, COLOCANDO-SE  DISPOSIO DO SENADOR PARA QUALQUER 
NECESSIDADE.
   FELIZ POR SABER DE SUA PRESENA PRXIMA, PBLIO CONTAVA EM NO N PRECISAR VOLTAR A JERUSALM AO DAR POR ENCERRADO O SEU TRABALHO, IIIINI O FITO DE DESPEDIR-SE 
DO GOVERNADOR.
     PRETENDIA, RAPIDAMENTE, INTEIRAR-SE DAS PRTICAS ILEGTIMAS NA ADININISTRAO DOS NEGCIOS DE ESTADO NA PALESTINA E, ASSIM QUE TIVESSE BEM MUNICIADO, TORNARIA 
A ROMA RAPIDAMENTE COM TODA A famlia.
AS COISAS, NO ENTANTO, NO OCORRERIAM COMO DESEJAVA.
       ENVOLVIDO PELO TRABALHO DE INVESTIGAO E ALIVIADO DOS TRAUMAS DA DOENA INSIDIOSA DA PEQUENINA, AGORA EM FRANCA RECUPERAO, A ALEGRIA DO GRUPO TEVE BREVE 
DURAO, EIS QUE, PASSADO POUCO TEMPO, UMA NOVA DESGRAA SE ABATE SOBRE A FAMLIA, COM O DESAPARECIMENTO DO OUTRO FILHO DO CASAL, O PEQUENINO MARCOS.
    INEXPLICAVELMENTE O PEQUENINO SUMIRA, APESAR DA PROTEO DOS ESCRAVOS, DOS SOLDADOS, DOS SERVOS NTIMOS.
       A DOR DA FAMLIA, O DESESPERO DOS PAIS, AS ANGSTIAS DA PERDA LEVARAM O SENADOR A INSTITUIR O CASTIGO COMO MANEIRA DE TENTAR ENCONTRAR RESPOSTAS PARA O DESAPARECIMENTO.
       PARA O CHICOTE FORAM ENVIADOS OS ESCRAVOS, OS SERVOS MAIS DIRETOS LIGADOS AO PROCESSO DE VIGILNCIA, MAS TODOS DIZIAM NADA SABER OU NADA CONHECER
       AQUELE FATO MUDARA TODOS OS PLANOS DE PBLIO QUE, CONTRA A SUA VONTADE, NOVAMENTE SE VIA JUNGIDO QUELA TERRA QUE J ESTAVA CONSIDERANDO MALDITA.VOLTANDO 
A NAZAR, O DIA QUE SE SEGUIU  CHEGADA DE PILATOS FOI DE NORMALIDADE PARA OS NOSSOS PERSONAGENS, TRABALHADORES DA TALAGEM/TABERNA APENAS COM A DIFERENA DE QUE, 
TANTO ZACARIAS COMO OSU, NAQUELE DIA, DIVIDIRAM SUAS RAES COM O VELHINHO, QUE SE FOCUPERAVA A OLHOS VISTOS.
       O ENTARDECER LEVOU-OS AO PENSAMENTO DE QUE NOVAMENTE PODERIAM ESTAR NA REGIO ONDE CONHECERAM CALEB NO DIA ANTERIOR E, SEM TEREM QUALQUER IDIA DO QUE ENCONTRARIAM, 
ESTAVAM ANSIOSOS PARA VOLTAREM AO LOCAL E PREGAREM A PALAVRA DE DEUS CUJOS PRIMEIROS CONTORNOS HAVIAM SIDO HISTORIADOS NA NOITE ANTERIOR.
       NAZAR ESTAVA ENGALANADA PELA CHEGADA DO PROCURADOR DA JUDIA E NESSA MESMA OPORTUNIDADE SERIAM REALIZADAS AS CERIMNIAS OFICIAIS DE RECEPO.
A NOITE CHEGOU E OS DOIS HOMENS, ACOMPANHADOS POR CALEB, QUE NO PERMANECERA NA ESTALAGEM A FIM DE NO CRIAR PROBLEMAS AOS NOVOS AMIGOS DURANTE O DIA E QUE FORA 
ABRIGADO  SOMBRA DE VETUSTA RVORE NAS PROXIMIDADES, TOMARAM O RUMO DA CIDADE PARA DAREM SEGUIMENTO AOS SEUS OBJETIVOS.
L CHEGANDO, LOGO DE INCIO, PUDERAM PERCEBER,  DISTNCIA, UM ACMULO MAIOR DE CRIATURAS, TODAS ELAS PARECENDO SOFREDORAS E COMPONENTES DA TURBA DOS DESESPERADOS.
NO ENTANTO, NO MESMO LOCAL, UM NMERO MAIOR DE ENFERMOS, DE VELHOS, DE CRIANAS, DE PARALTICOS DAVA SINAIS DE QUE A NOTCIA DA CURA DE CALEB SE TINHA ESPALHADO 
E QUE, MAIS E MAIS PESSOAS PRETENDIAM CONHECER OS DOIS VISITANTES FORASTEIROS.
A CHEGADA DOS TRS LEVANTOU UMA ONDA DE CONTIDA EUFORIA ENTRE
TODOS.
       - SO ELES, SO ELES - GRITOU RAPIDAMENTE UM DOS QUE NA NOITE ANTERIOR HAVIAM PRESENCIADO OS FENMENOS ESPETACULARES. VEJAM O VELHO CALEB COMO VEM ANDANDO 
COMO SE TIVESSE VINTE ANOS. NEM PARECE QUE J EST NA CASA DOS SETENTA - FALARAM OUTROS QUE O CONHECIAM H MUITO TEMPO.
EM RESPOSTA, MAIS E MAIS PESSOAS SE AGLUTINAVAM AO REDOR DOS TRS HOMENS QUE, AGORA, J TINHAM CHEGADO AO STIO ONDE OS FATOS SE DESENROLARAM NA VSPERA.
       ALGUNS, COM OLHAR REVERENTE E AMEDRONTADO, TEMIAM QUE OS DESCONHECIDOS PUDESSEM TER PARTE COM AS FORAS MALIGNAS E QUE O DIABO LHES PUDESSE SER O AGENTE PRINCIPAL.
COMO SE FOSSE POSSVEL QUE O DEMNIO FIZESSE O BEM...!
       OUTROS SE MANTINHAM DESCONFIADOS, NA POSTURA TPICA DOS QUE PRECISAM VER PARA ACREDITAR, MAS QUE DUVIDAM SISTEMATICAMENTE AT QUE POSSAM COMPROVAR COM SEUS 
OLHOS, PESSOALMENTE.
       OUTROS, OS MAIS DOENTES, OLHAVAM PARA OS HOMENS COMO SE ESTIVESSEM VISLUMBRANDO A SOLUO PARA SUAS LGRIMAS, CRDULOS E SINCEROS, FORADOS A ISSO PELA DESGRAA 
PESSOAL DE SUAS ANGSTIAS QUE, PARA ELES, ERA A MAIOR DE TODAS AS BARREIRAS QUE PRECISAVAM VENCER.
       PARA VENCER TAIS DESAFIOS FSICOS, MORAIS, EMOCIONAIS, OS SOFREDORES, CANSADOS DA REALIDADE INSOFISMVEL DAS LGRIMAS E DAS FERIDAS PURULENTAS, ACEITAVAM 
OS FORASTEIROS COMO EMISSRIOS DE DEUS E TINHAM O DESEJO DE PODEREM, TAMBM, RECEBER O BENEPLCITO DE SEUS GESTOS DE CARINHO E SUAS BNOS.
       POR ISSO, ALI ESTARIAM E ESCUTARIAM TUDO O QUE FOSSE NECESSRIO, NA ESPERANA DE QUE TAL POSSIBILIDADE LHES SERVISSE DE REMDIO E SOLUO.
ESSE ERA O PANORAMA QUE SURPREENDEU OS DOIS EMISSRIOS DE JESUS 
   E AT O PRPRIO CALEB, QUE NO IMAGINAVA QUE HOUVESSE UMA TAL QUANTIDADE DE ESTROPIADOS EM NAZAR.
     NA VERDADE, NO HAVIA. NO ENTANTO, A NOTCIA CORREU AS REDONDEZAS DOS ARREDORES, MUITOS SE DIRIGIRAM AT A CIDADE, ALGUNS AT COM A DESCULPA DE QUE IRIAM VER 
A RECEPO A PILATOS.
       ALM DISSO, NO NOS ESQUEAMOS QUE, POR FORA DA CHEGADA DO GOvernador, A POPULAO FIXA DE NAZAR SOFRER UM AUMENTO SIGNIFICATIVO POR CAUSA DOS NEGOCIANTES, 
CURIOSOS, MERCADORES, QUE VIAM A A OPORTUNIDADE DE GANHOS.
       E QUANDO SE ENCONTRAM O PODER E O COMRCIO LOCALIZADOS EM ALGUM LUGAR, AS MISRIAS SE LHES CONCENTRAM AO REDOR, NA TENTATIVA DE APROVEITAREM ALGUMA MIGALHA 
QUE LHES CAIA DAS MOS.
       POR ISSO, TAMBM,  QUE SE ENCONTRAM TANTAS FAVELAS NAS CERCANIAS do GRANDES AGLOMERADOS DE RIQUEZAS, COMO BAIRROS NOBRES DE CIDADES IMPORTANTES, GRANDES 
CENTROS COMERCIAIS, QUE SEMPRE ATRAEM A COBIA DOS QUE QUEREM GANHAR MAIS DO QUE J POSSUEM E A ESPERANA DOS QUE COM O DESEJO DE CONSEGUIR ALGO DO INDISPENSVEL 
QUE LHES FALTA.
       NAZAR, ASSIM, TINHA MAIS GENTE DESESPERADA NAQUELE PERODO, GENTE QUE SOUBE DA CURA DE CALEB.
       OS MAIS IMPORTANTES E RICOS, MERCADORES OU NEGOCIANTES, PROCURAVAM A PROXIMIDADE DO GOVERNADOR, ACERCANDO-SE DO LOCAL ONDE ESTAVA DESIGNADA A SUA RECEPO 
PESSOAL.
       OS MAIS MISERVEIS E LAZARENTOS, DESESPERANADOS, ENFERMOS E VENCIDOS PROCURAVAM A PROXIMIDADE DOS ENVIADOS DO CRISTO, AGLOMERANDO-SE NA VIA DOLOROSA, NO 
LOCAL DESTINADO  RECEPO DA ESPERANA.
       QUANDO SE VIRAM CERCADOS POR AQUELA GENTE SIMPLES, JOSU E ZACARIAS SE LEMBRARAM DAS VEZES EM QUE VIRAM JESUS ENVOLVIDO PELA MASSA E PUDERAM TER UMA MODESTA 
E PLIDA NOO DO QUE SIGNIFICAVA SER O FOCO DO DESESPERO DAS PESSOAS, COMO O ERA O MESTRE QUERIDO, TENDO DE ENCARAR UM DESAFIO TO DIFCIL E VOLUMOSO.
       NAQUELE DIA, CONFORME HAVIAM COMBINADO, CABERIA A JOSU O EXERCCIO DA PALAVRA E, POR ISSO, EM FACE DA DESORDEM QUE REINAVA NO LOCAL, ZACARIAS TOMOU A FRENTE 
E FALOU EM ALTA VOZ PARA QUE FOSSE OUVIDO ACIMA DOS BURBURINHOS DA PLEBE.
       - IRMOS DE NAZAR, A PAZ SEJA CONVOSCO. FELICITAMOS A TODOS EM NOME DE NOSSO MESTRE JESUS E INFORMAMOS QUE AQUI ESTAMOS EM NOME DE SEU AMOR PARA FALARMOS 
DO REINO DE DEUS, TAREFA HOJE QUE SER FEITA PELO NOSSO QUERIDO IRMO JOSU. PARA QUE ISSO POSSA OCORRER EM PAZ E HARMONIA, PEO A TODOS QUE SE SENTEM A FIM DE ESCUTARMOS 
A MENSAGEM.AQUELA SOLICITAO PARECEU SER ATENDIDA NATURALMENTE POR MUITOS, MAS, PARA ALGUNS, FOI MOTIVO DE CONTRARIEDADE.
O POVO DESEJAVA A RAPIDEZ SEM ESFOROS.
       - QUEREMOS A CURA, NO A CONVERSA - FALARAM ALGUNS, ESCONDIDOS NO ANONIMATO DA MULTIDO, NO QUE FORAM SEGUIDOS POR OUTROS QUE CONFIRMAVAM, REPETINDO:  ISSO 
MESMO, A CURA, A CURA...
       VENDO O ESTADO DE NIMO DE ALGUNS QUE, FELIZMENTE, ESTAVAM EM MINORIA, ZACARIAS FOI FIRME E RESPONDEU:
       - NINGUM QUE EST AQUI, O EST OBRIGADO. QUEM NO DESEJAR ESCUTAR CONSIDERE-SE LIVRE PARA IR PROCURAR OUTRA COISA PARA FAZER. NS PERMANECEREMOS AQUI PARA 
FALARMOS DO REINO DE DEUS QUE  CHEGADO, PARA QUEM FICAR E COMPREENDEREMOS QUALQUER UM QUE, NO QUERENDO OUVIR, SE AFASTE DAQUI, LEVANDO CONSIGO AS NOSSAS BNOS 
TAMBM.
       A PALAVRA DE ZACARIAS TROUXE  REALIDADE OS IGNORANTES E PREGUIOSOS QUE SEMPRE DESEJAM O QUE  MAIS RPIDO PARA QUE, BENEFICIADOS, SE MANTENHAM IGUAIS NA 
MISRIA MORAL EM QUE SEMPRE VIVERAM.
       SEM OUTRO REMDIO E COMO NO SE AFASTOU NENHUMA ALMA DO LUGAR, NO LHES RESTOU OUTRA OPO SENO A DE PROCURAREM SE SENTAR O MAIS PRXIMO POSSVEL DOS VISITANTES 
PARA NO PERDEREM NENHUM DOS LANCES DE SUA PREGAO.
       AQUELA REUNIO, NO ENTANTO, PASSAVA DESAPERCEBIDA DAS AUTORIDADES DE NAZAR E DOS HOMENS MAIS IMPORTANTES, POIS QUE SE ACHAVAM CONGREGADOS AO REDOR DO GOVERNADOR, 
INTERESSADOS NAS NEGOCIATAS COM OS PODERES MUNDANOS.
       AGRADECIDO PELA INICIATIVA DO AMIGO, JOSU LEVANTOU-SE E PROFERIU SINGELA ORAO A DEUS, COM O QUE SEU CORAO POSSUA DE MAIS PURO E SINCERO, INTRODUZINDO 
NO AMBIENTE UMA ATMOSFERA FAVORVEL A QUE OS ESPRITOS ENCARNADOS E DESENCARNADOS CONSEGUISSEM ASSIMILAR AS NOES ESPIRITUAIS ELEVADAS DA MENSAGEM DE JESUS.
       AO MESMO TEMPO, ROGAVA INTERIORMENTE QUE JESUS NO LHE FALTASSE NAQUELA HORA DE DESAFIO PARA SEU ESPRITO QUE ERA BATIZADO, NAQUELE MOMENTO, COMO O PREGADOR 
DA VERDADE, SENDO, ENTRETANTO, IMPERFEITO E IGUALMENTE NECESSITADO DELA.
       TERMINADA A ORAO CURTA, MAS ENVOLVENTE, OS MAIS DE CINQENTA OUVINTES ESTAVAM COMO QUE HIPNOTIZADOS PELA SUA PALAVRA DOCE E FRATERNA, QUE DIFERENCIAVA MUITO 
DAS PRECES ARROGANTES DOS FARISEUS NAS SINAGOGAS, DOS SACERDOTES OFICIAIS, SEMPRE GRANDILOQENTES E PRESUNOSOS.
       A VOZ SUAVE DE JOSU ERA COMO O ORVALHO BRANDO QUE, INVISVEL, CAA DO CU E ACALMAVA A SEDE DAS FOLHINHAS NO CHO.TERMINADA A ORAO, JOSU COMEOU CONTANDO 
QUE A TRADIO RELIGIOSA DOS JUDEUS SEMPRE ESPEROU POR UM MESSIAS, CUJA TAREFA, QUE NEM ELES PRPRIOS IMAGINAVAM E PREGAVAM, DEVERIA SER A LIBERTAO QUE LIVRE DAS 
GARRAS DOS INVASORES, QUAL NOVO MOISS QUE, ENFRENTANDO A ARROGNCIA DO FARA DO EGITO, FOROU-O COM OS PODERES MIRACULOSOS A FINRMITIR QUE O POVO PARTISSE PARA 
A TERRA PROMETIDA.
       POR ISSO, POR LONGOS SCULOS, DE GERAO EM GERAO, SE FEZ IMAGINAR QUE UM NOVO LIBERTADOR VOLTARIA COMO O MESSIAS PROMETIDO PARA DAR VOZ AO POVO HEBREU 
E RECONQUISTAR A SUA INDEPENDNCIA.
       NO ENTANTO, AFIRMAVA ELE, INSPIRADO POR FORAS SUPERIORES, O MESSIAS ENVIADO PELO PAI ESTAVA NA TERRA PROMETIDA NAQUELE MOMENTO, "IIVERGANDO A HUMILDE VESTE 
DE UM NAZARENO APAGADO PARA QUE SE I (INSTRUSSE UM NOVO REINO NO CORAO DOS HOMENS.
       OUVINDO TAIS PALAVRAS, ALGUNS, MENOS SINTONIZADOS COM OS CONCEITOS ELEVADOS, DEMONSTRARAM DISCORDNCIA, QUE IMEDIATAMENTE FOI COMVATIDA POR JOSU, QUE SE 
ESPANTAVA COM A PRPRIA ELOQNCIA.
       - SIM, AMADOS IRMOS. MUITOS DE VS GOSTAREIS DE VER A CHEGADA DO PODEROSO SENHOR, ARROGANTE COMO OS INVASORES E LIBERTADOR DO NOSSO ORGULHO DE RAA. E NO 
ENTANTO, QUE SERIA ELE DEPOIS DE LIBERTAR A NAO? ()UTRO DSPOTA, A GOVERNAR COM AS MESMAS BASES TRADICIONAIS DO MEDO I DO PODER, DA TIRANIA E DA INTIMIDAO. 
SERIA ISSO A MUDANA ATRIBUDA NO MESSIAS? MUDAR AS COISAS PARA QUE PERMANECESSEM AS MESMAS? NO MAIS O INVASOR ESTRANGEIRO, ARROGANTE E PREPOTENTE. AGORA, O ARROGANTE 
E PREPOTENTE DITADOR NACIONAL. E, ALM DISSO, OLHEMOS PARA N.,'. MESMOS.
SOMOS IRMOS DE UMA MESMA RAA NO ?
       E, APESAR DISSO, ONDE ESTO OS NOSSOS CONTERRNEOS NESTA HORA? QUANDO VS ESTAIS SOFRENDO COM VOSSAS FERIDAS, COM VOSSA FOME, COM VOSSO DESESPERO, ONDE ESTO 
OS NOSSOS PATRCIOS? REFESTELAM-SE COM O PODER QUE O INVASOR REPRESENTA PARA DELE RETIRAR ALGUMA MIGALHA COM QUE AUMENTEM A PRPRIA RIQUEZA. POR QUE OS NOSSOS LDERES 
MUNDANOS NO PROTEGEM NOSSAS FAMLIAS? POR QUE MOTIVO NOS DEIXAM SEM RECURSOS PARA O TRATAMENTO DA NOSSA SADE, MAS NO NOS LIVRAM DOS DEVERES DE FAZERMOS OFERENDAS 
NOS TEMPLOS POR OCASIO DAS FESTAS TRADICIONAIS DE NOSSA F?
       E SO MEROS MORTAIS COMO NS, SUBMETIDOS S MESMAS LEIS DO UNIVERSO SEM QUE SE APERCEBAM DE QUE POSSUIRIAM MAIORES DEVERES DO QUE O DE ESPOLIAR A PRPRIA 
GENTE, MANTENDO-SE CEGOS  SUA DESGRAA.
        ESTE O TIPO DE MESSIAS QUE GOSTAREIS DE ENTRONAR NO GOVERNO DO MUNDO? UM QUE TIVESSE PODERES MUNDANOS E VENCESSE PELA ESPADA PARA, LOGO A SEGUIR, US-LA 
CONTRA O PRPRIO POVO?
       NO, MEUS AMIGOS, NO PODE SER, O MESSIAS, SINNIMO DE DESPOTISMO E EXPLORAO, VIOLNCIA E AGRESSIVIDADE.
       DISSO NS J ESTAMOS CHEIOS E ACOSTUMADOS A SUPORTAR O PESO DE SEUS MODOS INDIFERENTES E EGOSTAS.
       CADA FERIDA DE VOSSOS CORPOS POSSUI A MARCA DESSA INDIFERENA. D FOME QUE PASSASTE AT HOJE, DA FALTA DE MEDICAMENTOS E RECURSOS PARA A HIGIENE MNIMA, DE 
AMPARO NO FRIO, PROTEO DAS INTEMPRIES, DAS INJUSTIAS QUE SE COMETEM E QUE NUNCA SO JULGADAS COM BASE NA VERDADE E SIM NOS INTERESSES DOS QUE JULGAM E DOS PODEROSOS.
       O MESSIAS DEVE COMBATER TODAS ESTAS MAZELAS DANDO ESPERANA AOS QUE SEMPRE FORAM OS ESQUECIDOS DO MUNDO E DOS GOVERNOS. NO MAIS O QUE LIBERTARIA E BENEFICIARIA 
APENAS A PEQUENA PARCELA DE SEUS APANIGUADOS E SEGUIDORES. AGORA COMPREENDEMOS QUE O ENVIADO DE DEUS DEVER BENEFICIAR OS QUE NUNCA SE BENEFICIARAM COM OS FAVORES 
DO PODER MUNDANO.  PARA O POVO QUE VEM O MESSIAS E PARA SECAR AS SUAS LGRIMAS, CURAR SUAS DOENAS, DANDO-LHES COM ISSO, A VISO DE QUE O REINO DE DEUS PROCURA 
DESPERTAR O CORAO ABATIDO E DESCRENTE PARA A VERDADE DO AMOR QUE DEVE REGER AS RELAES ENTRE AS PESSOAS.
       AMAI-VOS UNS AOS OUTROS - NO SE CANSA DE REPETIR O DIVINO MESTRE, APONTANDO PARA A IMPORTNCIA DA NOSSA DEDICAO AO SEMELHANTE. NO MAIS PARA OBTER RECURSOS 
OU BENS, POR INTERESSE MESQUINHO E TO PRPRIO DE NOSSAS TRADIES MATERIALISTAS.
       AMAR SEM QUALQUER INTERESSE PESSOAL, AJUDANDO E DANDO ESPERANAS. ESSA  A FRMULA QUE VOS TROUXE AT AQUI NESTE DIA.
       O AMOR DE DEUS E DE JESUS, QUE CUROU O SOFRIMENTO DE CALEB, FOI TO PROFUNDO QUE ELE PERCORREU A CIDADE, OS ARREDORES E VOS TROUXE AQUI COM ESPERANA DE ENCONTRAR 
O QUE BUSCAM.
       NO ENTANTO, NO PENSEIS QUE O QUE BUSCAIS SEJA O IMPORTANTE. AS DOENAS ESTO ENRAIZADAS NOS NOSSOS SENTIMENTOS DE MALDADE, DE DIO, DE RANCOR, A PONTO DE 
JESUS ENSINAR QUE, PARA QUE MELHOREMOS, PRECISARAMOS PERDOAR SEMPRE, ESQUECENDO AS OFENSAS QUE NOS FIZERAM, O QUE  UM QUASE ABSURDO PARA OS ORGULHOSOS REPRESENTANTES 
DE NOSSA RAA, SEMPRE ACOSTUMADOS A ACONSELHAR A VINGANA COMO FORMA DE CUMPRIRMOS A LEI DO "OLHO POR OLHO...".
       COMO  QUE PEDIMOS A DEUS QUE NOS AMPARE SE SOMOS OS PRIMEIROS A LARGAR AO ABANDONO UM IRMO NOSSO? QUALQUER SENSO PRIMITIVO DE JUSTIA QUE TEMOS NOS DIZ 
QUE ESSA MANEIRA DE FAZER AS COISAS EST ERRADA. COMO PEDIR PARA NS SE NOS RECUSAMOS A DIVIDIR OU AJUDAR OS QUE ESTO NA NOSSA DEPENDNCIA?
       ASSIM, IRMOS, NO  PELA CURA DE CORPOS COMO MUITOS VIERAM AQUI PEDIR QUE A MENSAGEM DO REINO DE DEUS CHEGOU AOS HOMENS.  PARA CURARMOS AS NOSSAS VERDADEIRAS 
DOENAS, ESSAS QUE NOS FAZEM ILUDIDOS NA ALMA, NO EGOSMO E ORGULHO QUE NOS APODRECEM POR DENTRO. AS CURAS DO CORPO SO O RESULTADO DAS NOSSAS TRANSFORMAES.
       QUANDO DEU POR TERMINADA A EXORTAO DAQUELA NOITE, A EMPOLGAO DE ALGUNS FEZ COM QUE PALMAS DE ADMIRAO ECLODISSEM, ATESTANDO QUE A MAIORIA SE HAVIA PERMITIDO 
VENCER PELA EMOO E COMPREENDIDO A MENSAGEM.
       TODOS QUERIAM ABRAAR O ORADOR IMPROVISADO, COMO SE ELE FOSSE ALGUM PREDESTINADO A LHES PASSAR A ESPERANA DA VERDADE QUE OS BENEFICIARIA.
       ASSIM, PARA FACILITAR O ACESSO E DEIXAR QUE TODOS O CUMPRIMENTASSEM, ZACARIAS PEDIU QUE FICASSEM EM SEUS LUGARES, QUE TANTO ELE QUANTO JOSU IRIAM UM POR 
UM A ABRA-LOS PESSOALMENTE, J QUE BOA PARTE DOS QUE ALI ESTAVAM, TINHA MUITAS DIFICULDADES DE CAMINHAR.
UM A UM FORAM SENDO VISITADOS E, NO ABRAO QUE LHES ERA OFERECIDO, AS FORAS DIVINAS ERAM ESPARGIDAS SOBRE SEUS CORPOS PARA A SURPRESA DE MUITOS, QUE SE SENTIAM 
INVADIDOS POR UMA ATMOSFERA DE EUFORIA EJOVIALIDADE.
       EM TODOS OS DOENTES, JOSU TOCOU COM SUA MO, SEM NENHUM GESTO DE REPULSA, AS FERIDAS QUE ERAM MOTIVO DE VERGONHA PARA MUITOS.
       MUITAS DORES DESAPARECERAM NO MESMO INSTANTE E A CONVICO DE QUE ERAM PORTADORES DE UMA VERDADE MUITO PROFUNDA E DIFERENTE PASSOU A SE ESPALHAR RAPIDAMENTE.
       TERMINADA A NOITE, RETOMARAM O CAMINHO DA TABERNA NO SEM ANTES GARANTIR A TODOS QUE, NO DIA SEGUINTE, VOLTARIAM ALI PARA CONVERSAREM SOBRE NOVOS ASPECTOS 
DA VERDADE.
       AS DESPEDIDAS FORAM EMOCIONANTES E CALEB SEGUIU-OS PARA A TABERNA, RECONFORTADO POR TER SIDO O PRIMEIRO DENTRE OS ELEITOS DAQUELA HORA EM QUE O REINO DE DEUS 
ERA ANUNCIADO AOS HOMENS ALI NAQUELA CIDADE.
       A FESTA DE PILATOS SEGUIA ENTRE OS CONCHAVOS E AS INSINUAES DE NEGCIOS ESPRIOS, COBIAS MATERIAIS E LICENCIOSIDADES MORAIS.
       ALI ESTAVAM SENDO PLANTADAS MUITAS DAS FERIDAS E ENFERMIDADES PARA O FUTURO DOS PRPRIOS INTERESSADOS.
O DIA SEGUINTE TRARIA MUITAS SURPRESAS PARA TODOS.

             PELA MANH DO DIA SEGUINTE, QUANDO NEM BEM HAVIAM COMEADO A ATIVIDADE NA MODESTA ESTALAGEM SEGUNDO A ROTINA NORMAL, DOIS ENVIADOS DE JESUS FORAM SURPREENDIDOS 
PELO PROPRIETRIO QUE OS PROCURAVA CONFUSO E SURPREENDIDO.
       - ZACARIAS, ESTO FALANDO L FORA QUE AQUI SE ENCONTRAM DOIS UTIVIADOS DE DEUS QUE FAZEM MILAGRES. POR ACASO VOCS RECEBERAM
UM FORASTEIRO QUE EU NO TENHA VISTO CHEGAR?
       - NO, MEU SENHOR - RESPONDEU ZACARIAS - COM OLHAR CURIOSO E DIVERTIDO DIANTE DA APREENSO DO HOMEM POUCO AFEITO S COISAS DIVINAS.
       - MAS QUEM SER QUE SO, POIS L FORA ESTO DIZENDO QUE ELES ESTO POR AQUI...
       - BEM, MEU SENHOR, OS NICOS NOVATOS QUE H POR AQUI SOMOS EU E JOSU. REALMENTE NS ESTAMOS AQUI EM NAZAR CUMPRINDO UMA TAREFA QUE NOS FOI DETERMINADA POR 
JESUS, A FIM DE QUE SE ANUNCIASSE O REINO DE DEUS, MAS TEMOS FEITO ISSO DEPOIS QUE TERMINA O TRABALHO. NO SOMOS ENVIADOS DE DEUS, FAZENDO MILAGRES ESPALHAFATOSOS 
POR A.
       - QUER DIZER, ENTO, QUE AS PESSOAS QUE ESTO L FORA PODEM ESTAR CONFUNDINDO VOCS COM ESSES MILAGREIROS FAJUTOS QUE ANDAM POR A ENGANANDO OS OUTROS?
       VENDO QUE O HOMEM NO ENTENDIA O QUE PODERIA ESTAR ACONTECENDO, ZACARIAS RESPONDEU:
- , TALVEZ PODE SER QUE ESTEJA ACONTECENDO ISSO...
       NO ENTANTO, A ESTAS ALTURAS, O VOZERIO L NA PARTE DA FRENTE ONDE SE LOCALIZAVA A ENTRADA DA ESTALAGEM COMEOU A CRESCER E ISSO FEZ COM QUE OS DOIS, QUE ENTABULAVAM 
ESTA CONVERSAO NA PARTE DOS FUNDOS, PRXIMO AO QUARTINHO, FOSSEM AT L VER O QUE ESTAVA ACONTECENDO.

       QUANDO CHEGARAM, PARA SURPRESA DOS DOIS, O SALO MODESTO ONDE ESTAVAM ACOSTUMADOS A PERMANECER BBADOS, PESSOAS DE M NDOLE, FALADORES E INTRIGUEIROS DE 
TODOS OS TIPOS, ESTAVA QUASE QUE LOTADO DE PESSOAS DAS MAIS DIVERSAS IDADES E APRESENTANDO OS MAIS VARIADOS PROBLEMAS DE SADE.
PARA TODOS OS HOMENS DA ESTALAGEM AQUILO FOI UMA SURPRESA.
MUITOS DELES ESTAVAM AJOELHADOS, REVERENTES E EMOCIONADOS.
       AFINAL, ANTES QUE ZACARIAS E O PROPRIETRIO PARA L SE DIRIGISSEM, JOSU, QUE HAVIA SE ENCARREGADO DE LEVAR CALEB AT O LOCAL ONDE PASSARIA O DIA ESPERANDO 
A CHEGADA DO ENTARDECER, COMO NO DIA ANTERIOR, REGRESSANDO PARA A ESTALAGEM TEVE A SUA ATENO ATRADA PELO NMERO DE PESSOAS QUE ESTAVAM  PORTA, TENTANDO ENTRAR.
       AO SE APROXIMAR E PERGUNTAR DO QUE SE TRATAVA AQUELA AGLOMERAO NA ENTRADA DA ESTALAGEM, FOI IMEDIATAMENTE RECONHECIDO PELAS PESSOAS, QUE COMEARAM A ALGAZARRA:
       -  ELE... ELE CHEGOU... EST AQUI O PROFETA DO MILAGRE... - ESSAS FORAM AS EXPRESSES DE EUFORIA DO POVO QUE ESTAVA L EM BUSCA DELE E DE ZACARIAS.
       NATURALMENTE, JOSU SE VIU CONFUNDIDO PELO ENTUSIASMO DAS PESSOAS, POIS EM MOMENTO ALGUM HAVIA SIDO DITO A ELAS QUE ELES ERAM PROFETAS OU COISA PARECIDA.
       AFINAL, TIRANDO A MELHORA DE CALEB, NENHUMA OUTRA AO MIRACULOSA TINHA OCORRIDO.
       ESTAVAM, APENAS, ATENDENDO OS QUE SOFRIAM E ENCAMINHANDO-OS PARA SUAS CASAS COM O CONFORTO DA ESPERANA NO NOVO REINO, EM NOME DE JESUS.
DEU UM SORRISO AMARELO E COMEOU A ENTRAR, PEDINDO LICENA, COMO SE ESTIVESSE PRONTO A FUGIR PARA O INTERIOR DA ESTALAGEM.
       MAS O POVO QUE PERMITIU A SUA ENTRADA, L NO PEQUENO SALO DA FRENTE, NO DEIXARIA ESPAO PARA QUE ELE DALI SASSE, POIS NO HAVIA COMO PASSAR.
       VELHOS, CRIANAS, MES DESESPERADAS, PESSOAS FERIDENTAS, ENFIM, ALI SE CONGREGAVA UMA PEQUENA MULTIDO QUE QUERIA ENCONTRAR-SE COM OS DOIS PROFETAS DO MILAGRE.
       ESSA FOI A CENA QUE ZACARIAS E SAUL, O DONO DA ESTALAGEM, PRESENCIARAM QUANDO ENTRARAM, ESPREMIDOS, NO MESMO LUGAR ONDE SE ENCONTRAVA JOSU.
       COM A ENTRADA DE ZACARIAS, ENTO, A TURBA SE AGITOU AINDA MAIS, POIS MUITOS DIZIAM:
       - L EST O OUTRO, O MILAGREIRO QUE CUROU CALEB, O VELHO QUE ESTAVA PRONTO PARA SER ENTERRADO, DE TO DOENTE E CORRODO PELO TEMPO... DIZIA UM, ENQUANTO OUTRO 
COMPLETAVA, AFIRMANDO: EU MESMO VI QUANDO ELE NIGUEU OS OLHOS EM ORAO E SAIU DELE ALGUMA COISA QUE CUROU CALEB...
    VENDO QUE A SITUAO PODERIA FICAR DESCONTROLADA, TOMANDO A FRENTE A INICIATIVA DIANTE DE UM SAUL APARVALHADO PELA CIRCUNSTNCIA SOLUTAMENTE IMPREVISTA, ZACARIAS 
FALOU EM VOZ ALTA, PEDINDO SILNCIO:
-        MEUS IRMOS, QUE AS BNOS DE JESUS POSSAM RECAIR SOBRE VOCS. ESTAMOS AQUI EM NOSSO MODESTO DEVER DE TRABALHAR PARA O SERMOS PESADOS AO NOSSO IRMO QUE 
NOS RECEBEU E, POR ISSO, PEO TODOS QUE RESPEITEM ESTE LOCAL QUE PERTENCE A SAUL E QUE DEVE SERTEGIDO DE TODO TUMULTO. EU E JOSU ESTAMOS FELIZES POR V-LOS, MAS 
O ENTENDEMOS ESTA PEREGRINAO ASSIM, TO CEDO, J QUE NOSSO COMPROMISSO PARA COM TODOS FOI O DE VOLTARMOS HOJE  NOITE AO LOCAL DE NOSSOS ENCONTROS E, L, CONTINUARMOS 
NOSSAS CONVERSAS.
       - MAS  MUITA GENTE DOENTE QUE QUER CONHECER VOCS E ESPERAR AT A NOITE  IMPOSSVEL DEPOIS DOS MILAGRES QUE ACONTECERAM - FALOU UM DOS MAIS INFLAMADOS.
       - EU SEI QUE A DOR  MUITO DIFCIL DE SUPORTAR, MAS NO IMAGINO DE QUE MILAGRES VOC EST FALANDO, J QUE NS APENAS ORAMOS E ABRAAMOS A TODOS ANTES DE NOS 
DESPEDIRMOS NA NOITE DE ONTEM.
       TOMANDO A PALAVRA, ESPONTANEAMENTE, UM DELES ATIROU AO SOLO UMA VELHA MULETA IMPROVISADA E DISSE:
       - MEU SENHOR, NO SEI O QUE ACONTECEU NEM ENTENDO OS MECANISMOS DAS COISAS, MAS SEI QUE, DEPOIS QUE VOCS ME ABRAARAM, ONTEM, QUANDO VOLTAVA PARA O BURACO 
ONDE ME ABRIGO, FUI SENTINDO UMA COISA DIFERENTE DENTRO DE MIM E, QUASE QUE SEM PENSAR, PERCEBI QUE MINHA PERNA DIREITA, H MUITOS ANOS IMOBILIZADA E FRACA, ESTAVA 
CAMINHANDO COM A MESMA NATURALIDADE DA OUTRA PERNA, CONFUNDINDO MINHA CABEA, J DE H MUITO ACOSTUMADA A USAR A MULETA EM SEU LUGAR.
       PENSEI QUE ERA ALGUM PROBLEMA DE MINHAS IDIAS, MAS, PARA MINHA SURPRESA, DEIXEI CAIR ESSE APOIO AO SOLO E CONTINUEI DE P. IMPROVISEI PASSOS PEQUENOS E A 
PERNA ME OBEDECEU SEM QUALQUER VACILAO.
       ESTAVA CURADO, MEU SENHOR. CURADO COMO NUNCA PENSEI QUE ESTIVESSE UM DIA, DEPOIS DE TANTOS ANOS.
       QUAL O REMDIO QUE TOMEI? NENHUM ALM DO ABRAO E DA MENSAGEM DE VOCS.
ESTA MULETA A NO CHO  A MINHA TESTEMUNHA.
       VENDO O EFEITO DE SUAS PALAVRAS, OUTRA MULHER, AJOELHADA, LEVANTOU-SE E DISSE, COM EMOO:


       - VEJAM MINHAS PERNAS ENROLADAS NESTAS FAIXAS IMUNDAS. ERAM AS FERIDAS QUE ME MALTRATAVAM H MAIS DE DEZ ANOS. AGORA, VEJAM S ISTO - E AO DIZER, COMEOU 
A RETIRAR AQUELES TRAPOS IMUNDOS E ATIROU-OS POR CIMA DA MULETA.
NO HAVIA NENHUM VESTGIO DAS FERIDAS, RESTANDO, TO SOMENTE, UMA MARCA NA PELE, APONTANDO QUE ALI HAVIA UMA CICATRIZ RECENTE E DE GRANDES PROPORES.
       - QUANDO VOCS TOCARAM NA MINHA FERIDA, ONTEM  NOITE, SENTI UMA IMEDIATA SENSAO DE ALVIO E FRESCOR, MAS NO IMAGINAVA QUE PUDESSE ACONTECER ISSO AQUI. 
FUI PARA MINHA CASINHA E, DURANTE A NOITE, TIVE UM SONHO MARAVILHOSO NO QUAL EU ME ENCONTRAVA COM UM SER LUMINOSO QUE ME ESTENDIA AS MOS E QUE PERGUNTAVA SE EU 
QUERIA FICAR BOA PARA TRATAR DOS OUTROS QUE SOFRIAM. EU RESPONDI QUE SE EU ME CURASSE, UM DIA, IRIA FAZER DE TUDO PARA AJUDAR OS QUE NO TINHAM TIDO A MESMA SORTE 
QUE EU.
ENTO ELE SORRIU E ME BEIJOU A TESTA E EU, NO PRPRIO SONHO, PARECE QUE DORMI.
       ACORDEI NO SEI QUANTO TEMPO DEPOIS E UMA COCEIRA INSUPORTVEL ME ATINGIA AS DUAS PERNAS. COMECEI A ESFREGAR UMA NA OUTRA SEM PERCEBER QUE A DOR QUE EU SENTIA 
AO MAIS SIMPLES TOQUE ME IMPEDIRIA DE FAZER AQUILO QUE ESTAVA FAZENDO AGORA, SEM MESMO PENSAR.
       ASSIM QUE ME DEI CONTA DISSO, AFASTEI AS BANDAGENS  PROCURA DA FERIDA E ENCONTREI S ISSO: PELE NOVA E NENHUM SINAL DAS PURULENTAS SECREES.
DIANTE DE OUTRO TESTEMUNHO, JOSU E ZACARIAS PASSARAM A COMPREENDER QUE, NA NOITE ANTERIOR, CONQUANTO NENHUM DOS OUVINTES TIVESSE SE CURADO DE IMEDIATO, A MAIORIA 
TINHA RECEBIDO UM GRANDE BENEFCIO QUE NEM ELES MESMOS IMAGINAVAM SER POSSVEL.
NATURALMENTE, DEPOIS QUE REGRESSARAM S SUAS CASAS, OS EFEITOS DA AO MAGNTICA SE FIZERAM SENTIR.
       AO MESMO TEMPO, A GRANDE CARAVANA DA ESPERANA COMPOSTA DE ESPRITOS ELEVADOS QUE ACOMPANHAVAM OS EMISSRIOS DE JESUS SE INCUMBIA DE TRATAR OS ENFERMOS, APROVEITANDO-SE 
DO CLIMA DE RENOVAO QUE AS PALAVRAS DOS SEUS ENVIADOS DESPERTAVAM NO INTERIOR DAS CRIATURAS.
REFORADAS COM O RESULTADO OBTIDO DEPOIS DA PREGAO, QUE ERA A DEMONSTRAO DO PODER DE DEUS E DA CAPACIDADE AMOROSA DOS DOIS EMISSRIOS, A MENSAGEM DO NOVO REINO 
SURGIA, AOS SEUS OLHOS, NO MAIS COMO PROMESSAS INTERESSEIRAS OU DE UMA NOVA RELIGIO QUE OS ESCRAVIZARIA AOS SEUS RITUAIS E S SUAS COBRANAS.
       ERA UMA FORMA DE VER A VIDA SEM QUALQUER INTERESSE PESSOAL, MODESTA E DIVORCIADA DE TODAS AS RETRIBUIES HUMANAS, QUE NO PROMETIA MILAGRES NEM FAVORES ESPECIAIS, 
MAS QUE, AOS QUE DESEJASSEM HIICI INTR-LOS, DE BOA VONTADE, A PORTA DO REINO DE DEUS ESTAVA ABERTA.
       E TODOS OS QUE, NA MULTIDO DA NOITE ANTERIOR, FORAM BENEFICIADOS COM A MELHORA OU A CURA, NO FIZERAM OUTRA COISA SENO ALARDE-LA POR TODOS OS CANTOS E 
A TODOS OS ESTROPIADOS DA GRANDE FAMLIA HUMANA QUE OU ESTABELECIA EM NAZAR, INFORMANDO QUE ALI ESTAVAM DOIS PROFETAS QUE FAZIAM MILAGRES.
       NATURALMENTE NO FORA ISSO QUE JOSU E ZACARIAS HAVIAM DITO DURANTE AS SUAS CONVERSAS JUNTO AOS DOENTES.
       NO ENTANTO, QUEM IA SE IMPORTAR COM AS QUESTES SEMNTICAS DE LAO POUCA RELEVNCIA, DIANTE DOS FATOS OBJETIVOS DA CURA?
     PARA O POVO, QUEM CURAVA ALI ERAM ZACARIAS E JOSU. POR ISSO, SIMPLIFICANDO AS COISAS, A MAIORIA IGNORANTE CONSIDERAVA-OS COMO OS PROFETAS MILAGREIROS.
VENDO ISSO DESSE MODO, ZACARIAS VOLTOU A FALAR:
       - GRANDE  O PODER DE DEUS, MEUS IRMOS, QUE COMO PAI SE COONDOEU DE SEUS FILHOS E CUROU SUAS ENFERMIDADES. NO ENTANTO, QUEREMOS QUE SAIBAM QUE QUEM TEM ESSE 
PODER NO SOMOS NS, MISERVEIS CRIATURAS A SERVIO DA CAUSA. QUEM O POSSUI, ALM DO PAI QUE EST NOS CUS,  JESUS, QUE NOS ENVIOU PARA FALARMOS DO REINO DE AMOR 
QUE SE EST IMPLANTANDO NO CORAO DOS HOMENS.
       NO ESPALHEM POR A QUE SOMOS NS OS PROFETAS DO MILAGRE. O NICO PROFETA VIVO QUE EST AQUI NA TERRA, HOJE, PASSOU MUITOS ANOS VIVENDO NESTAS RUELAS, CONVERSANDO 
COM AS PESSOAS QUE NO LHE DAVAM CRDITO E TEVE QUE SAIR DAQUI PARA QUE SUA TAREFA PUDESSE COMEAR.  ESSE O MESSIAS ENVIADO, FILHO DO CARPINTEIRO JOS E DE MARIA, 
SUA ESPOSA.
       A TURBA OUVIA EM SILNCIO, MAS NO FUNDO DE TODOS ELES, O QUE IMPORTAVA  QUE ESTAVAM CURADOS E TRAZIAM OUTROS PARA SEREM IGUALMENTE TRATADOS PELOS DOIS VISITANTES.
       - TODOS NS ESTAMOS FELIZES COM AS MELHORAS, MAS ELAS FORAM PRODUZIDAS POR DEUS E PELA F QUE VOCS MESMOS TIVERAM. NO ENTANTO, COMO ESTA NOSSA IRM DISSE, 
NO BASTA TER A PELE RENOVADA.  PRECISO AJUDAR OS OUTROS, DIVIDINDO O BENEFCIO E O PO COM OS QUE SOFREM, POIS DE OUTRA FORMA, COMO O MESTRE SEMPRE NOS ENSINOU, 
SE VOLTSSEMOS A PECAR, COISA PIOR PODERIA NOS ACONTECER.
       QUANTO AO NOSSO PROGRAMA PARA HOJE, EST CONFIRMADO QUE IREMOS  NOITE AT O MESMO LUGAR E NOS ENCONTRAREMOS L, POIS TODAS AS COISAS TM QUE TER O SEU TEMPO 
E O SEU LOCAL.
       NO TEMOS O DIREITO DE PERTURBAR O SOSSEGO DE SAUL, QUE NOS ACOLHEU COM CARINHO E CONSIDERAO, NEM DE SEU NEGCIO.
       POR ISSO, PEO A TODOS QUE SE RETIREM, QUE MEDITEM DURANTE o RESTO DO DIA NO QUE  QUE DESEJAM DAS PRPRIAS VIDAS, SE BUSCAM UMA CURA DE CORPOS, MAS ESTO 
DISPOSTOS A FAZER O BEM PELOS OUTROS, NA CURA VERDADEIRA DO ESPRITO.
MAIS TARDE NOS ENCONTRAREMOS E CONVERSAREMOS NOVAMENTE.
       VENDO QUE AS PESSOAS NO DESEJAVAM ARREDAR O P DALI, ZACARIAS FOI MAIS INCISIVO:
       - SE NO ACATAREM O NOSSO PEDIDO, NO IREMOS COMO PROMETEMOS E, HOJE MESMO, EU E JOSU PARTIREMOS DAQUI PARA LEVARMOS A PALAVRA DO SENHOR A OUTRAS CIDADES 
QUE TAMBM MERECEM ESCUT-LA E A ACEITARO COM MAIS OBEDINCIA.
       A PALAVRA FIRME DO ENVIADO DE JESUS FEZ O EFEITO NECESSRIO, J QUE AS PESSOAS COMEARAM A SE MOVER, EM DIREO  RUA, NO SEM UMA CERTA IRRESIGNAO, MAS 
ATENDENDO AO PEDIDO DE ZACARIAS, COM A FINALIDADE DE NO PERDEREM A OPORTUNIDADE DE AMBOS ESTAREM,  NOITE, JUNTO DOS ENFERMOS.
       TAL PROCEDIMENTO ACERTADO PERMITIU QUE SAUL TIVESSE A SUA ESTALAGEM REORDENADA E, AO MESMO TEMPO, PROPICIOU QUE O POVO QUE L ESTAVA VISSE COM SEUS PRPRIOS 
OLHOS QUE AS DUAS CRIATURAS QUE HAVIAM SIDO AS PORTADORAS DAS BNOS ERAM VERDADEIRAS E ESTAVAM ALI, PROMETENDO UM NOVO ENCONTRO PARA A NOITE QUE NO TARDARIA.
       ASSIM, MUITOS QUE NO HAVIAM ACREDITADO NA EXISTNCIA DELES, POIS NO OS HAVIAM VISTO NOS DOIS DIAS ANTERIORES, PASSARAM A VER QUE ERA VERDADE E, ASSIM, A 
NOTCIA CORREU MAIS RPIDA DO QUE ANTES, NAS CASINHAS POBRES, NAS LOCAS E TAPERAS INFECTAS, NOS ARRABALDES AFASTADOS.
       COMO A CIDADE ESTAVA INFLADA PELA CHEGADA DE PILATOS E DOS QUE QUERIAM
       V-LO, MUITOS PEREGRINOS DE FORA ALI SE ACHAVAM E, DA MESMA MANEIRA, FORAM INFORMADOS PELO MAIS EFICIENTE JORNAL CIRCULANTE EM QUALQUER CIDADE - A FOFOCA 
- DE QUE ALI ESTAVAM JOSU E ZACARIAS, QUE FAZIAM MILAGRES EM NOME DE DEUS E DE JESUS.
       APROVEITANDO A OPORTUNIDADE, POR J TEREM, INCLUSIVE, OUVIDO FALAR DE JESUS EM OUTRAS LOCALIDADES, MUITOS SE DERAM AO TRABALHO DE VOLTAR AOS SEUS LUGARES 
DE ORIGEM, NAS CERCANIAS DE NAZAR PARA BUSCAR PARENTES, AMIGOS, CONHECIDOS A FIM DE QUE, NAQUELA NOITE ELES PUDESSEM ESTAR ALI E APROVEITAR A PASSAGEM DA LUZ PELA 
REGIO DAS TREVAS.
       AS AUTORIDADES DE NAZAR, NO ENTANTO, ESTAVAM MUITO PREOCUPADAS COM PILATOS PARA DAREM IMPORTNCIA AOS RUMORES QUE J LHES CHEGAVAM AOS OUVIDOS E GASTAVAM 
O SEU TEMPO DISPONVEL EM AGRADOS E NA LISONJA BARATA COM QUE QUERIAM COMPRAR O REINO DO MUNDO PERANTE A AUTORIDADE ROMANA.
ASSIM, DESDE A NOITE ANTERIOR, PILATOS FORA CERCADO POR ESSAS

raposas criadas, acostumadas a negociar a prpria alma, desde que da retirassem algum ganho, que viam no governador o caminho para que se locupletassem em negociatas 
que o povo jamais saberia ou teria certeza.
      Pilatos, por sua vez, sabia da importncia da boa vizinhana com tais indivduos que, assim, dariam prova de submisso a Roma e acatamento s determinaes 
do Imprio.
      Por isso, na noite anterior, quando da recepo oficial ao governador, inmeros personagens importantes e de alma obscurecida pelos interesses rasteiros se 
reuniram no local destinado  cerimnia.
     Os sacerdotes compareceram carregando luxuosa caixa de madeira ornamentada, na qual levavam o pagamento devido a Pilatos pela sua garantia de independncia 
religiosa, permitindo que as raposas seguissem tomando conta do galinheiro e usufruindo tais prticas.
      Era uma modesta quantia, perto daquela que eles auferiam nas prticas religiosas. Mas ainda assim, era considervel montante que era recebido pelos asseclas 
de Pilatos e que a este informavam dos andamentos de seus negcios.
      Alm disso, os fariseus da cidade se aprestavam em lhe oferecer os melhores pratos e os melhores vinhos da regio, conduzindo o governador para o perigoso 
terreno da quase embriagus, na qual sabiam que seria mais fcil obter novas concesses ou favores do governante.
      E quando j estava no ponto e j se tinha comprometido com as negociatas mais srdidas, que inclua a perseguio pessoal de pessoas inocentes cujos bens eram 
cobiados por algum importante lder da raa, de maneira hipcrita e formalista, os judeus mais influentes iam se retirando para deixar somente os seus subalternos 
a fim de que pudessem dar seguimento  recepo, na parte que tanto era apreciada por Pilatos, quando da apresentao das mulheres, algumas jovens, outras trajadas 
sedutoramente, outras preparadas para a sua diverso, como j se explicara anteriormente.
      Tudo isso era feito sutilmente como que se estivessem, to somente, apresentando ao procurador da Judia, os exemplos da beleza pura da raa judia a fim de 
que ele conhecesse melhor os frutos mais bem talhados que aquela regio poderia produzir na rvore da beleza feminina.
      No entanto, todos sabiam que, dali em diante, a festa estava prestes a se aproximar muito dos festins romanos, to ao gosto dos que viviam na metrpole e que 
lhes parecia normal e aprecivel.
      Todavia, para espanto dos organizadores, naquela noite o governador no se deixou seduzir por nenhuma oferta especial.

COM A SUA MANEIRA LABIOSA, PILATOS ADMIROU A TODAS, AGRADECEU-LHES A PRESENA, PRESENTEOU A MUITAS COM OBJETOS DE VALOR E BELEZA E, AO TRMINO DE ALGUMAS HORAS, 
RETIROU-SE PARA SUA MORADIA, PROMETENDO VOLTAR NA NOITE SEGUINTE PARA QUE CONTINUASSEM OS ENCONTROS.
       ESSA FOI UMA ATITUDE INUSITADA NA VIDA DAQUELE HOMEM ACOSTUMADO AOS PROCESSOS SENSUAIS COMO ARENA ONDE COLOCAVA A SUA CAPACIDADE  PROVA E DE ONDE, GERALMENTE, 
SAA COMO VENCEDOR DAS BATALHAS, NO SE IMPORTANDO QUE COISAS OU QUANTAS MULHERES HAVIAM SIDO SACRIFICADAS PARA O SEU PRAZER E SATISFAO.
       NA VERDADE, NENHUMA DAQUELAS MULHERES SE APROXIMAVA DA BELEZA DE LVIA, QUE NO LHE SAA DA CABEA.
       APESAR DE SEREM BELAS CRIATURAS, QUE O TRAJE ESPECIAL E OS RECURSOS DA ESTTICA DA POCA TORNAVAM MAIS ATRAENTES, NENHUMA DELAS APRESENTAVA A MAGIA QUE LVIA 
PRODUZIRA EM SEU NTIMO, NO CONSEGUINDO ESTABELECER QUALQUER MANEIRA DE CONTATO COM ELAS, APESAR DE NO TER DEIXADO DE SE SENTIR O VARO DESTEMIDO DE TODOS OS TEMPOS.
       PARA OS QUE ORGANIZARAM O EVENTO, AQUELE FOI O PRIMEIRO NO QUAL O GOVERNADOR NO SE DEIXOU ENVOLVER FISICAMENTE COM NENHUMA DAS MULHERES QUE LHE FORAM APRESENTADAS, 
O QUE ACABOU GERANDO UMA GRANDE PREOCUPAO EM TODOS ELES POR ACHAREM QUE ISSO SERIA UMA DEMONSTRAO DE DESGOSTO PARA COM OS TIPOS QUE LHE HAVIAM SIDO OFERECIDOS.
       NA REALIDADE, TODOS ALI TINHAM MEDO QUE PILATOS DEIXASSE DE SE ENCANTAR COM A REGIO, POIS ISSO LHES TIRARIA O TRUNFO DE TEREM COMO AGIR SOBRE O GOVERNADOR 
QUE, POR SUA VEZ, SABIA QUE O JOGO ERA ESSE E QUE ELE TAMBM O JOGAVA COM AS CARTAS DO INTERESSE PARA RETIRAR TODAS AS VANTAGENS QUE PUDESSE.
OS SACERDOTES FORAM NOTICIADOS DA CONDUTA DE PILATOS, ASSIM COMO OS HIPCRITAS FARISEUS QUE SE REUNIRAM LOGO PELA MANH PARA DISCUTIREM O ASSUNTO.
TODAVIA, DA NOITE ANTERIOR J HAVIAM COLHIDO MUITAS COISAS.
       OS SACERDOTES OBTIVERAM A RENOVAO DE SUA AUTORIDADE PERANTE O POVO DA MESMA MANEIRA QUE MUITOS DOS INTERESSEIROS SEGUIDORES DOS RITUAIS DA VELHA LEI HAVIAM 
CONSEGUIDO A AUTORIZAO PARA CONFISCAREM PROPRIEDADES, CONSEGUINDO LEVAR A PILATOS AS MOES QUE HAVIAM PREPARADO  SUA MANEIRA PARA PREJUDICAR PESSOAS QUE DESEJAVAM 
EXTERMINAR DE SEU CONVVIO, DESAFETOS PESSOAIS, E OUTRAS SITUAES QUE LHES ERAM INTERESSANTES JUNTO DO GOVERNADOR.
       ASSIM, COMO TERIAM NOVO ENCONTRO NO DIA SEGUINTE, LOGO PELA MANH PUSERAM-SE A CONVERSAR SOBRE A MELHOR MANEIRA DE ENCANTAR O GOVERNADOR, PROPICIANDO-LHE 
MAIS PRAZERES PARA QUE SEU ESPRITO,

VENCIDO PELAS SENSAES, MAIS LHES FOSSE FAVORVEL NAS QUESTES
QUE APRESENTARIAM NO SEGUNDO ENCONTRO MARCADO PARA A NOITE PRXIMA.
       NO  PRECISO DIZER QUE DURANTE O DIA PILATOS BUSCAVA INTEIRAR-SE DAS NEGOCIATAS REALIZADAS PELOS SEUS FIIS AJUDANTES, ATRAVS DAS QUAIS EM ARRECADANDO MAIS 
VALORES, NO PARA O PATRIMNIO DO IMPRIO, MAS PARA SUA PRPRIA CAIXA PESSOAL.
       TAMBM NO  PRECISO MENCIONAR QUE ISSO ERA CONSEGUIDO NA MEDIDA EM QUE OS SEUS AJUDANTES TAMBM USUFRUAM DA INESCRUPULOSA MANEIRA DE GOVERNAR, POIS OBTINHAM 
O PAGAMENTO GENEROSO POR SUA PARTICIPAO, ALM DO FATO DE SE VEREM RECONHECIDOS DENTRE OS MAIS PRXIMOS DO TODO PODEROSO GOVERNADOR DA JUDIA.
       AS CRIATURAS ESTO SEMPRE SUBMISSAS S SUAS AMBIES E, POR ISSO, A CONDUTA QUE ADOTAVAM PERDIA OS CONTORNOS DA LICITUDE PARA SER VISTA COMO POLTICA NECESSRIA 
DIANTE DE UMA REGIO TO DIFCIL E CHEIA DE DESAFIOS.
       COMO ESTAVAM SE BENEFICIANDO E COMO FAZIAM PARTE DO SQUITO OFICIAL, OS QUE SE COLOCAVAM A SERVIO DE UMA CAUSA TO MESQUINHA, ACREDITAVAM QUE ISSO FAZIA 
PARTE DA POLTICA OFICIAL DE ROMA QUE LHES PERMITIA EXTORQUIR, VILIPENDIAR, ENRIQUECER PARA QUE SE MANTIVESSEM FIIS AOS IDEAIS DO IMPRIO, MESMO TO AFASTADOS DOS 
PRAZERES DA CAPITAL.
       COM TAIS JUSTIFICATIVAS, PILATOS IA SE MANTENDO CADA VEZ MAIS CERCADO DE AUXILIARES MANHOSOS, MAS FIIS QUE, QUANTO MAIS ASSIM SE CONDUZISSEM, MAIS SUBIRIAM 
NA VIDA E GANHARIAM RECURSOS QUE LHES GARANTIRIAM, POR SUA VEZ, UMA VELHICE MAIS TRANQILA.
NENHUM DELES TINHA A NOO DE RESPONSABILIDADE PESSOAL DIANTE DO FURTO OU DA CONDUTA QUE TIRAVA DOS OUTROS AQUILO QUE NO ERA DEVIDO.
E VENDO-SE COM TAIS LIBERDADES, MUITOS DELES SE APROVEITAVAM DESSA MQUINA PERVERSA PARA REALIZAREM AS COISAS  SUA MANEIRA, CONSEGUINDO OBTER VANTAGENS PESSOAIS 
QUE PASSAVAM DESCONHECIDAS DE SEUS SUPERIORES, TO S PELO FATO DE FAZEREM PARTE DA CORTE DE PILATOS.
       SE  VERDADE QUE, NAQUELA NOITE O GOVERNADOR NO ACEITOU NENHUMA DAS MULHERES QUE LHE FORAM APRESENTADAS, ISSO NO SIGNIFICOU QUE TODAS FORAM RECONDUZIDAS 
S SUAS CASAS PARA RETOMAREM SUAS VIDAS.
       ALGUMAS DELAS CARAM NAS GRAAS DOS SEUS MAIS CHEGADOS AUXILIARES E, AINDA QUE O CHEFE NO AS TIVESSE REVERENCIADO COM A SUA ATENO MASCULINA, ELES O FARIAM 
COM OS INSTINTOS INFERIORES QUE LHES PREDOMINAVAM NO CARTER.
       ASSIM,  LUZ DO DIA, OS SEUS SERVIDORES FIIS SE INCUMBIAM DE VISITAR NEGOCIANTES ABASTADOS DE NAZAR QUE TINHAM CONTAS A ACERTAR COM O GOVERNADOR E, NA TAREFA 
DE RECOLHEREM AS BOAS-VINDAS, ERAM

INDUZIDOS A PRESENTEAR PILATOS COM BENS OU VALORES QUE PODERIAM LHES COMPRAR A PAZ E A GRATIDO POR MAIS ALGUM TEMPO.
ERA UMA MQUINA DE CORRUPO CUJAS ENGRENAGENS ERAM HOMENS INESCRUPULOSOS E QUE IA SENDO LUBRIFICADA PELO DINHEIRO QUE FAZIA COM QUE AS PEAS SE MOVESSEM MAIS RAPIDAMENTE.
       O COMRCIO DE INTERESSES ERA MUITO GRANDE E TIDO QUASE QUE COMO NORMAL NA ESTRUTURA SOCIAL QUE ELES PRPRIOS HAVIAM CRIADO.
       LONGE DA CAPITAL IMPERIAL, PILATOS SE SENTIA AUTORIZADO A SE COMPORTAR DA MANEIRA COMO MELHOR LHE CABIA.
PERIODICAMENTE REMETIA A TIBRIO AS CORRESPONDNCIAS PROTOCOLARES E RELATRIOS OFICIAIS, NOS QUAIS TUDO ESTAVA CORRENDO BEM, PRESTANDO CONTAS DE VALORES E ARRECADAES, 
DANDO A SABER DAS SITUAES POLTICAS E RELIGIOSAS DAQUELE AMBIENTE SEMPRE CONTURBADO E REBELDE.
       E, NO ENTANTO, SEUS PROCEDIMENTOS VERDADEIROS DRENAVAM DOS COFRES DAS PESSOAS E DO PRPRIO IMPRIO, VALIOSOS RECURSOS QUE IAM SENDO ACUMULADOS EM SEU PRPRIO 
PATRIMNIO, EMPOBRECENDO A TODOS OS DEMAIS E ABRINDO CICATRIZES PROFUNDAS NA ALMA DOS POVOS CONQUISTADOS QUE, DE MANEIRA SOFRIDA IAM SENTINDO AS INVESTIDAS DOS PODEROSOS 
CONQUISTADORES QUE LHES DAVAM POUCA COISA E, AINDA POR CIMA, LHES TIRAVAM MUITO MAIS.
       O GOVERNADOR, NO ENTANTO, ANSIAVA PELO RETORNO DE SEU EMISSRIO JUNTO A PBLIO, DANDO-LHE A CONHECER A SUA CHEGADA A NAZAR, NA ESPERANA DE QUE PUDESSEM 
SE REENCONTRAR O MAIS DEPRESSA POSSVEL.
TAL RESPOSTA TARDAVA A CHEGAR E, ASSIM, A INSATISFAO DE PILATOS CRESCIA E O DISTANCIAVA DE TODOS OS SEUS ANTIGOS INTERESSES.
       O DIA SE ENCAMINHAVA PARA O OCASO E ZACARIAS E JOSU SE DESDOBRAVAM NA ESTALAGEM SOB OS OLHOS VIGILANTES DE SAUL QUE, AGORA, NO SABIA COMO SE COMPORTAR DIANTE 
DAS DUAS QUASE CELEBRIDADES QUE ESTAVAM SOB SEUS CUIDADOS.
       SERIA MELHOR MAND-LOS EMBORA PARA SE EVITAR PROBLEMAS? -PERGUNTAVA-SE ELE, AO MESMO TEMPO EM QUE SUA VEIA DE NEGOCIANTE LHE DIZIA QUE AQUELES DOIS HOMENS 
ERAM UMA MINA DE OURO PARA SEU INTERESSE DE GANHAR DINHEIRO FCIL, POIS ATRAIRIAM MAIS E MAIS CLIENTES AO SEU ESTABELECIMENTO.
       CONFUSO COM TAL EMARANHADO DE IDIAS, NO QUAL ESTAVAM O MEDO DE CONFUSO E O DESEJO DE GANHAR - EGOSMO E AMBIO - SAUL SE MOSTROU DISPOSTO A ACOMPANH-LOS 
NAQUELA NOITE, DESINTERESSADAMENTE, PARA VER O QUE OCORRIA.
NO FUNDO, DESEJAVA CONFIRMAR COM SEUS OLHOS A CAPACIDADE DE ZACARIAS E JOSU PARA QUE MELHOR PLANEJASSE A SUA ESTRATGIA, AO MESMO TEMPO EM QUE SERIA CONHECIDO POR 
TODOS COMO O HOMEM QUE ABRIGAVA

MILAGREIROS E A QUEM DEVERIAM, TODOS OS INTERESSADOS, PROCURAR PARA QUE CHEGASSEM AT ELES.
       ERA A MANEIRA DE TIRAR VANTAGEM DA SITUAO, COMO PENSAVA FAZER TODAS AS VEZES QUE ERA DEFRONTADO POR ALGUM DESAFIO OU NOVIDADE.
    NAQUELA NOITE, FECHOU A ESTALAGEM E, COM ZACARIAS E JOSU, QUE O FIZERAM ACOMPANHAR POR CALEB QUE OS ESPERAVA MAIS  FRENTE, RUMARAM PARA A REUNIO, AO MESMO 
TEMPO EM QUE PILATOS, DEIXANDO A MANSO NOS ARREDORES, VOLTAVA PARA A CIDADE ONDE CONTINUARIA OS SEUS ENCONTROS SOCIAIS COMO J VIMOS ACIMA.
      O CORAO DE TODOS IA APERTADO E ANSIOSO, POIS A CENA DA ESTALAGEM, LOGO PELA MANH DAQUELE DIA, HAVIA SIDO MUITO FORTE PARA QUE NO SE INTERESSASSEM PELOS 
SEUS DESDOBRAMENTOS.
SAUL CARREGAVA CIFRO NOS OLHOS.
       CALEB SEGUIA ORGULHOSO DE ESTAR COM OS DOIS NOVOS AMIGOS E SER O TESTEMUNHO VIVO DA PRIMEIRA CURA ALI REALIZADA.
       ZACARIAS E JOSU SE ENTREOLHAVAM E, SEM PRECISAREM DIZER NADA, RECORRIAM A JESUS PARA QUE NENHUM AMPARO LHES FALTASSE DIANTE DOS DESAFIOS DAQUELA NOITE IMPORTANTE 
PARA TODOS ELES.
       ANTES QUE SE APROXIMASSEM DO LOCAL E QUE FOSSEM VISTOS PELOS ENFERMOS, PARARAM SOB UMA RAMAGEM ESPESSA E PEDIRAM SILNCIO AOS OUTROS DOIS COMPANHEIROS, SOLICITANDO-LHES 
QUE OS ACOMPANHASSEM EM UMA ORAO POR SUAS MISRIAS HUMANAS E PELAS FORAS DO REINO DE DEUS QUE ELES IRIAM ANUNCIAR MAIS UMA VEZ.
       ASSIM, DIANTE DO NOVO DESAFIO, NOVAMENTE A ELEVAO AO PAI, DE ONDE, EFETIVAMENTE, TODAS AS BNOS SE ORIGINAVAM, E A JESUS, QUE ERA TUDO PARA ELES E A QUEM 
SE SUBMETERIAM SEM QUALQUER SENO OU FRAQUEZA.
A ORAO FOI RPIDA, MAS EMOCIONANTE PARA SEUS CORAES.
       CALEB VIBRAVA DE ALEGRIA E SAUL ESTAVA CONFUNDIDO COM OS NOVOS CONCEITOS DE AMOR, FRATERNIDADE, DESPRENDIMENTO QUE ACABARA DE ESCUTAR DO PRPRIO ZACARIAS 
QUE ORARA E A QUEM COMPETIRIA FALAR NAQUELA NOITE AOS OUVINTES ANSIOSOS.

A CHEGADA DOS QUATRO AO LOCAL ONDE SE ENCONTRAVAM TODOS OS QUE OS ESPERAVAM CAUSOU A AGITAO NATURAL QUE SEMPRE OCORRE QUANDO PESSOAS QUE ESTO SENDO MUITO AGUARDADAS 
SE APROXIMAM, AO MESMO TEMPO EM QUE JOSU E ZACARIAS TREMERAM DIANTE DO VOLUME DE PESSOAS QUE ALI SE CONGREGAVA.
       A QUANTIDADE DE PESSOAS PRESENTES HAVIA SE MULTIPLICADO DE TAL MANEIRA QUE J SE TORNAVA DIFCIL DE PASSAR POR ENTRE OS CANDIDATOS AO REINO DOS CUS.
SE NA NOITE ANTERIOR ESTAVAM REUNIDAS CERCA DE CINQENTA CRIATURAS SOFREDORAS, AGORA, O NMERO PASSAVA DE DUZENTAS, SEM SE PODER AQUILATAR QUANTAS ERAM ENFERMAS 
E QUANTAS ERAM SIMPLESMENTE CURIOSAS OU INTERESSADAS NA MENSAGEM DO EVANGELHO.
       ABRIU-SE UM CORREDOR PELO QUAL OS QUATRO HOMENS PUDERAM PASSAR E CHEGAR AT O MEIO DA MULTIDO QUE, SABENDO QUE SE TRATAVA DE UMA REUNIO ONDE TODOS DESEJAVAM 
VER E OUVIR OS VISITANTES, J LHES HAVIAM DESTINADO UM POSTO DE REALCE, EM PEQUENINA ELEVAO QUE OS DEIXAVA ACIMA DA MAIORIA.
       ENTENDENDO QUE AQUELA SERIA UMA NOITE MUITO IMPORTANTE PARA OS DESTINOS DA BOA NOVA NAQUELAS PARAGENS, ZACARIAS APEGOU-SE AINDA MAIS  FIGURA DE JESUS E, 
EM SILENCIOSO PENSAMENTO, ROGOU-LHE A SUA ASSISTNCIA PARA QUE NADA DE MAL VIESSE A OCORRER DURANTE O ENCONTRO NO QUAL CUMPRIAM AS DETERMINAES DO SUBLIME AMIGO.
       ENQUANTO PASSAVAM, AS PESSOAS QUE OS CONHECIAM IAM ESTENDENDO AS MOS PARA TOCAR EM SUAS ROUPAS, PARA ENCOSTAR-SE A SEUS CORPOS, ACREDITANDO QUE DE ALGUMA 
MANEIRA PODERIAM CONTAGIAR-SE COM AS FORAS MILAGROSAS.
       ISSO CONSTRANGIA MUITO OS DOIS TRABALHADORES DO BEM, QUE NO ESTAVAM PREPARADOS PARA ESSA VENERAO IRRACIONAL, TO PRPRIA DO SER

UMANO IGNORANTE E DESESPERADO. TINHAM EM MENTE QUE A REVERNCIA O TODOS DEVERIA SER DIRIGIDA A DEUS E DEPOIS A JESUS, PELO QUE NO , DEVIAM COMO SE COMPORTAR PARA 
CONVENCER AS PESSOAS QUE OS ESTAVAM IDOLATRANDO.
       ESSA SITUAO ESTAVA NO CAMINHO DOS EMISSRIOS DO CRISTO, COMO  DOS TESTEMUNHOS QUE DEVERIAM ENFRENTAR, DEFRONTANDO-SE COM OS PRPRIOS ADVERSRIOS INTERIORES, 
TAIS COMO A VAIDADE, O ORGULHO, A PRESUNO, SEMPRE  ESPREITA PARA DERRUBAR O TRABALHADOR DESPREVENIDO O TRAG-LO NO RODAMOINHO DE SUAS PRPRIAS FRAQUEZAS MORAIS.
    ASSIM, ZACARIAS E JOSU NO ESCAPARIAM DE TAL EXAME DE SINCERIDADE E DEVOTAMENTO, QUE OS CAPACITARIA A OUTRAS TAREFAS NO FUTURO.
       CHEGANDO AO LOCAL DESTINADO PELA INICIATIVA DO POVO  PREGAO DAQUELA NOITE, ZACARIAS PEDIU QUE TODOS SE SENTASSEM DE MANEIRA TRANQILA E QUE PUDESSEM IR 
SE ACOMODANDO PARA QUE FOSSE SERENA A TRANSMISSO DAS IDIAS, PARA QUE OS CONCEITOS DO REINO DE DEUS PUDESSEM CHEGAR A TODOS.
       TO LOGO SE PREPARAVA PARA DAR INCIO AO PROCESSO DE ANUNCIAR A BOA NOVA, ZACARIAS SE VIU SURPREENDIDO POR UM FATO QUE CAUSOU UM INCIO DE TUMULTO ENTRE TODOS 
OS PRESENTES.
       TOMANDO A PALAVRA PARA INTRODUZIR SEU DISCURSO E LEMBRANDO-SE DA VENERAO EQUIVOCADA QUE A TURBA VOTAVA A ELE E A JOSU, O ORADOR INICIOU SUA PREDICA ELEVANDO 
A VOZ PARA INVOCAR A PROTEO DE DEUS E DO AMADO MESTRE JESUS PARA QUE TODOS NAQUELA NOITE PUDESSEM ENCONTRAR O CAMINHO RETO DA VERDADE DO ESPRITO, COMO FORMA DE 
COLOCAR A AMBOS COMO OS NICOS A QUEM SE DEVERIA REVERENCIAR.
       E AO TERMINAR A FRASE, SEM QUE NINGUM ESTIVESSE AGUARDANDO QUALQUER COISA QUE NO FOSSE O INCIO DA PREGAO, ESCUTOU-SE UM GRITO AGUDO, SEGUIDO DE UMA RISADA 
IRNICA, COMO QUE SADA DAS PROFUNDEZAS DA TERRA, ORIUNDA DE UMA CRIATURA CUJO TOM DE VOZ MAIS SE PARECIA AO DE UMA BRUXA.
       - HAH, HAH, HAH, HAH! MALDITO ESSE SEU DEUS E NO DESEJAMOS ESSE INTROMETIDO JESUS POR AQUI, ATRAPALHANDO O NOSSO SOSSEGO. FORA, SEUS MENTIROSOS, SEUS IMPOSTORES. 
ESTAMOS ACOSTUMADOS COM NOSSAS MISRIAS E NO QUEREMOS QUE SUAS FALSAS ESPERANAS VENHAM A NOS TIRAR DESSE SOSSEGO PARA LOGO DEPOIS NOS DEIXAR FRUSTRADOS NO NADA. 
CHEGA DE MENTIRAS E DE CONVERSA FIADA. SE DEUS EXISTISSE J NOS TERIA AJUDADO ANTES E NO SE VALERIA DE GENTINHA ASSIM COMO VOCS...

TODAS ESTAS PALAVRAS PODERIAM SER CONSIDERADAS O DESAFIO DE

ALGUM DOS PRESENTES QUE NO DESEJASSE SENO DESMORALIZ-LOS POR ALGUMA DIVERGNCIA DE IDIAS.
       NO ENTANTO, TAIS AFIRMATIVAS VINHAM DA BOCA DE UMA QUASE CRIANA DE DOZE ANOS QUE, DESDE H MUITO TEMPO, VIVIA EM UM ESTADO DE DESEQUILBRIO QUE AFETAVA A 
HARMONIA DE SUA CASA, A PAZ DE SEUS PARENTES E PRODUZIA MEDO EM QUASE TODOS DA FAMLIA QUE, ASSIM, SE AFASTAVAM MAIS AINDA COMO FORMA DE NO DESEJAREM CONTATO COM 
AQUILO QUE CONSIDERAVAM COISA DO DIABO.
       O JOVEM NUNCA TIVERA TRANQILIDADE E SEMPRE SE MANTINHA AMARRADO PARA QUE NO AGREDISSE OS OUTROS OU FERISSE OS PRPRIOS PAIS.
       ERA MANTIDO COMO UM ANIMAL QUE, DEPENDENDO DOS MOMENTOS, SE APRESENTAVA DCIL, MAS QUE, DE HORA PARA OUTRA, SE TORNAVA VIOLENTO.
       ERA DE CORTAR O CORAO VER AQUELE JOVEM SEM RECURSOS, DEFINHANDO EM UM CORPO MIRRADO POR CAUSA DOS DESEQUILBRIOS CONSTANTES, ATADO POR CORDAS E PRESO A 
UMA ESTACA FINCADA NO CHO, RIDICULARIZADO POR TODOS E VITIMADO POR UMA PERSEGUIO CRUEL DE UMA ENTIDADE ESPIRITUAL MALDOSA QUE DESEJAVA DESTRUIR-LHE A VIDA.
QUANDO ELA SE AFASTAVA DELE, A SUA LUCIDEZ RETORNAVA E O RAPAZ SE DIRIGIA  ME, PERGUNTANDO:
       - ME, POR QUE A SENHORA EST ME AMARRANDO? EU FIZ ALGUMA COISA DE ERRADO? - ERA A INDAGAO DAQUELE MONTINHO DE GENTE, SUPLICANDO PARA QUE NO FOSSE FEITO 
ISSO COM ELE.
       A GENITORA, QUE NO PODIA SOLT-LO SEM PR EM RISCO A SEGURANA DOS DEMAIS, ALI FICAVA AO SEU LADO, CHORANDO DE DOR E ACARICIANDO A SUA CABELEIRA SUJA DE 
TERRA, SEM PODER-LHE EXPLICAR AS COISAS, POIS LOGO A SEGUIR, ERA NOVAMENTE TOMADO PELO TRANSE E SE TRANSFORMAVA EM OUTRA PESSOA.
       NESSES MOMENTOS, A ME ESCUTAVA DA MESMA BOCA, SEM ENTENDER COMO ISSO SERIA POSSVEL OCORRER:
       - SAIA DAQUI, SUA VELHA CHORONA. DEIXE O MONSTRINHO AMARRADO QUE ESTE  O LUGAR DELE. DEIXE QUE ELE FIQUE SEM COMER PORQUE NENHUMA COMIDA BOA MERECE ENTRAR 
NESTA BOCA MEDONHA...
       AFASTAVA-SE A ME, ASSUSTADA, J QUE NO TERIA COMO CONVERSAR COM O FILHO NAQUELAS CONDIES.
       ISSO J DURAVA ALGUNS ANOS E FORA SE AGRAVANDO COM O PASSAR DO TEMPO,  MEDIDA QUE O GAROTO IA CRESCENDO, O QUE CAUSAVA MUITAS ANGSTIAS NO CORAO DA ME, 
J QUE O PAI, DEPOIS DE VER O FILHO NESSE ESTADO, ACUSARA A ESPOSA DE RESPONSVEL PELA VERGONHA DA FAMLIA E SE AFASTARA DO LAR, DEIXANDO-A SOZINHA NA RESPONSABILIDADE 
DE CUIDAR DELE.
RESIGNADA, A ME SE DESDOBRAVA EM PRECES NA SINAGOGA, FAZENDO

OFERENDAS AO DEUS DE SUA TRADIO, QUE LHE PARECIA SURDO OU INDIFERENTE AOS MARTRIOS QUE VINHA ENFRENTANDO.
     
     
       AO REDOR DO GAROTO, QUE ALI ESTAVA ACOMPANHADO DE SUA ME E AMARRADO A UM CONJUNTO DE GALHOS QUE SE PRETENDIA UMA CAMA RSTICA, O POVO ABRIU UMA CLAREIRA 
MOVIDO PELO MEDO E PELO SUSTO.
       E O GAROTO, QUE ERA DE INSPIRAR COMPAIXO, SEGUIA COM A FACE TRANSFORMADA EM ARROGANTE DESAFIADOR, DESEJANDO ESTRAGAR O AMBIENTE E INFUNDIR NAS CRIATURAS 
QUE ESTAVAM AO REDOR O DESCRDITO NA MENSAGEM ELEVADA QUE TODOS IRIAM ESCUTAR.
       O ESPRITO OBSESSOR QUE DOMINAVA A PERSONALIDADE DO PEQUENO RAPAZ NO DESEJAVA SUBMETER-SE A QUALQUER TRANSFORMAO MORAL QUE EXIGISSE SEU AFASTAMENTO E, 
ENTREVENDO QUE ELE SERIA DEFRONTADO COM PRINCPIOS QUE PODERIAM MODIFICAR SEUS PLANOS, MAIS DO QUE DEPRESSA TRATOU DE TOMAR A DIANTEIRA E AGREDIR PARA DESESTRUTURAR 
O EQUILBRIO DO AMBIENTE.
       - HAH, HAH, HAH, MISTIFICADORES E MENTIROSOS, BRUXOS DE OCASIO... FORA DAQUI SEUS LADINOS, ENGANADORES DA CRENDICE INOCENTE - CONTINUAVA A VOCIFERAR A BOCA 
DO JOVEM GAROTO INCONSCIENTE.
       A MULTIDO, ESPANTADA, NO SABIA O QUE FAZER, POIS QUE DE UMA FORMA OU DE OUTRA, ESTAVA OBSERVANDO UMA ACUSAO DIRETA AOS DOIS HOMENS DESCONHECIDOS QUE ESTAVAM 
SENDO AGREDIDOS NA SUA PRESENA.
MUITOS PERGUNTAVAM SE, EFETIVAMENTE, ELES NO PODERIAM SER CHARLATES MESMO, PESSOAS QUE EXPLORAM A BOA F COM ALGUM RECURSO MIRABOLANTE PARA DEPOIS LHES ROUBAR 
COISAS VALIOSAS. AFINAL, COMO PENSAVAM ALGUNS, AGORA QUE OS GRITOS DA ENTIDADE LHES FERIRAM OS OUVIDOS, ESSES ERAM DOIS HOMENS QUE NINGUM CONHECIA DE VERDADE.
E SE FOSSEM MALFEITORES QUE SAEM POR A APLICANDO GOLPES DE CIDADE EM CIDADE?
       ASSIM, O AMBIENTE SE IA DEGENERANDO, SEM QUE ZACARIAS OU JOSU SE AFETASSEM COM ISSO.
MAIS DO QUE QUALQUER COISA, NESSE MOMENTO ZACARIAS SE VIU TOMADO DE UM PODER SOBRE-HUMANO QUE, COM A FORA DE SUA VONTADE PODERIA SUPORTAR O MUNDO SOBRE OS OMBROS 
E, AO MESMO TEMPO, O PODER DE SEU AMOR SERIA CAPAZ DE AGENTAR A PIOR DAS INJUSTIAS SEM PERDER A PAZ INTERIOR E A COMPAIXO PELOS AGRESSORES.
PELA PRIMEIRA VEZ, COMO SEGUIDOR DE JESUS, ZACARIAS PDE ENTENDER O QUE O MESTRE DIZIA QUANDO ACONSELHAVA O AMOR AOS INIMIGOS

COMO FORMA DE AMOR VERDADEIRO, QUE NO DEPENDIA DE NINGUM MAIS a NO SER DO PRPRIO CANDIDATO AO REINO DE DEUS.
       E LEMBRANDO-SE DOS ENSINAMENTOS DO MESTRE, ZACARIAS DEIXOU O LUGAR ONDE ESTAVA E, SERENAMENTE, FOI CAMINHANDO PELA MULTIDO AT O LOCAL ONDE SE ENCONTRAVA 
O RAPAZ OBSEDADO E EM DESCONTROLE.
       O POVO FICARA NUM SUSPENSE COMO SE FOSSE INICIAR UMA CONTENDA ENTRE O MAL E O BEM, PRONTOS PARA TOMAR PARTIDO DAQUELE QUE PARECESSE MAIS FORTE.
       NO ENTANTO, NINGUM ARREDAVA P E, COM EXCEO DE JOSU E CALEB, NINGUM ALI MANTINHA A ORAO COMO FORMA DE DEFESA OU DE AUXLIO AO EQUILBRIO GERAL.
ZACARIAS, SURPREENDIDO CONSIGO MESMO, IDENTIFICARA, MESMO  DISTNCIA, COM UMA VISO AMPLIADA QUE NO LHE ERA COMUM, A PRESENA DE UMA CRIATURA DISFORME E HORRIPILANTE 
QUE, COM A MO NA GARGANTA DO RAPAZ, LHE APERTAVA AS CORDAS VOCAIS COMO SE, ASSIM, PUDESSE OBRIG-LO A FALAR SOB O SEU COMANDO. ALM DISSO, TNUES FIOS ESCUROS CRIAVAM 
AO REDOR DA CABEA DO GAROTO UMA TEIA MAGNTICA QUE SE IMPUNHA AO JOVEM, IMPEDINDO QUE ELE EXERCESSE O PLENO CONTROLE DE SUAS REAES.
       TRATAVA-SE DE ANTIGA PERSEGUIO EM QUE ALGOZES E VTIMAS SE IGUALAVAM NA PERVERSIDADE, EIS QUE TANTO O JOVEM REENCARNADO QUANTO O ESPRITO QUE O JUGULAVA, 
ERAM CULPADOS POR DORES ATROZES E RECPROCAS, ORIUNDAS DE ANTIGAS EXISTNCIAS.
ZACARIAS PERCEBIA, SEM SABER EXPLICAR COMO, QUE SUA VISO SE DILATAVA E QUE, NAQUELE MOMENTO, CONSEGUIRA VER ALM DA CARNE, COMO SE UMA MO LUMINOSA LHE HOUVESSE 
COLOCADO UMA LENTE NOS OLHOS, QUE LHE PERMITISSE DEVASSAR AS PROFUNDEZAS HUMANAS, AO MESMO TEMPO EM QUE UMA VOZ SERENA E IMPERIOSA LHE DIZIA AO CORAO PARA QUE 
FALASSE DIRETAMENTE E SEM MEDO AO JOVEM, POIS TANTO ELE QUANTO A ENTIDADE ERAM MUITO SOFREDORES.
       ASSIM, A SUA APROXIMAO FOI PRODUZINDO UMA REAO DE FUGA NO PRPRIO GAROTO QUE, AMARRADO E SEM PODER MOVER-SE, SE ENCOLHIA O MAIS QUE PODIA, GRITANDO:
       - VAI PARA TRS, DIABO EM FORMA DE GENTE. NO TE QUERO PERTO DE MIM... VOC NO VAI ME TOMAR DA MINHA CARROA... ELE  MEU, ELE  MEU...
       SEM FAZER-LHE CASO E SEM PERDER A CORAGEM E A COMPAIXO QUE, AO CONTRRIO, S IAM AUMENTANDO  MEDIDA QUE ELE SE IA APROXIMANDO, ZACARIAS CHEGOU BEM AO LADO 
DO GAROTO E PERGUNTOU:
- O MENINO EST SOZINHO AQUI?
       IMEDIATAMENTE APRESENTOU-SE A ME, ENVERGONHADA E AFLITA COM O COMPORTAMENTO DO FILHO AMADO, DIZENDO, HUMILDE:

       - DESCULPE, SENHOR, O TUMULTO QUE MEU FILHO PRODUZIU. NO QUERIA ATRApalhar A SUA PREGAO. TROUXE-O DE LONGE, DEPOIS QUE FIQUEI SABENDO QUE UM PODEROSO PROFETA 
ESTAVA CURANDO AS PESSOAS.
       - PROFETA DAS TREVAS, IMPOSTOR MALDITO, FILHO DO DEMNIO - GRITOU O OVEM NOVAMENTE, QUASE EM DESESPERO.
ZACARIAS NO FEZ CASO E, OLHANDO PARA A MULHER, PERGUNTOU:
- QUANTOS MAIS VIERAM COM VOC, MULHER?
- NINGUM, MEU SENHOR.
       - QUER DIZER QUE VOC VEIO ARRASTANDO ESSA CAMA DE GALHOS SOZINHA, AT AQUI, SEM QUE NINGUM A HOUVESSE AJUDADO?
       - SIM, SENHOR - RESPONDEU HUMILDE, ABAIXANDO A CABEA PARA OCULTAR AS LGRIMAS QUE LHE ESCORRIAM DOS OLHOS DE ME ABNEGADA, TRANSFORMADA EM ANIMAL DE CARGA 
PARA LEVAR SEU FILHO AT A FONTE DA ESPERANA.
       EMOCIONADO COM AQUELE GESTO DE TAMANHO DEVOTAMENTO, ZACARIAS OLHOU-A COM VENERAO E TOMOU-LHE AS MOS ENTRE AS SUAS PARA BEIJ-LAS, COMO SE ESTIVESSE OSCULANDO 
AS MOS DE SUA PRPRIA ME.
       DEPOIS DISSO, VOLTOU-SE PARA O JOVEM DESCONTROLADO E LHE DIRIGIU A PALAVRA:
       - MEU IRMO QUERIDO, ESTAMOS AQUI EM MISSO DE PAZ E A PAZ LHE DAMOS COMO A RECEBEMOS DE DEUS E DE JESUS.
       A ESTAS ALTURAS O ESPRITO J NO MAIS FALAVA COMO QUERIA PORQUE A ATMOSFERA DE ALTAS ENERGIAS QUE TINHA ZACARIAS COMO FOCO CENTRAL LHE HAVIA DOMINADO A VONTADE, 
SUBMETENDO-A A UM COMPORTAMENTO DE RESPEITO E TEMOR, J QUE NUNCA ESSE ESPRITO HAVIA SE DEFRONTADO COM TAMANHA FORA E LUMINOSIDADE.
INMERAS ENTIDADES, INVISVEIS PARA A SUA CONDIO DE ATRASO ESPIRITUAL, LHE APLICAVAM ENERGIAS CALMANTES PARA QUE ELE TAMBM ACABASSE ATENDIDO PELO AMOR QUE, NAQUELE 
MOMENTO, ERA A PORTA DO CU NO CORAO DOS HOMENS.
       - POR LONGO TEMPO VOC TEM SIDO ALGOZ DE SEU IRMO E, SEM APRECIARMOS DE QUEM  A CULPA, LHE DIZEMOS QUE SEUS DIAS DE SOFRIMENTO E IGNORNCIA TERMINARAM.
       DE HOJE EM DIANTE, SEU FUTURO EST NAS MOS DE JESUS, QUE SE IMPORTOU COM A SUA FELICIDADE DESDE H MUITO TEMPO, MAS DEIXOU QUE SUA ALMA CONSTRUSSE SEGUNDO 
A PRPRIA VONTADE IGNORANTE E DBIL. AGORA, O SENHOR VEM BUSC-LO PARA A SUA VINHA. PREPARE-SE, MEU IRMO, POIS OS DIAS DE ESCURIDO TERMINARAM PARA VOC.
FALANDO DESSE MODO, ZACARIAS COLOCOU A MO SOBRE A CABEA DO

rapaz E ELEVOU UMA ORAO A DEUS E A JESUS PARA QUE SUAS PALAVRAS FOSSEM CONFIRMADAS, J QUE ELE HOUVERA FALADO COM SEU CORAO E SEM ENTENDER POR QUE HAVIA DITO 
AQUELAS COISAS.
DESEJAVA APENAS QUE OS DOIS SE SEPARASSEM PARA QUE AMBOS PUDESSEM MELHORAR.
       AO CABO DE ALGUNS SEGUNDOS, UMA LUZ FULGURANTE ENVOLVEU O ESPRITO QUE, NUM TIMO, SE VIU DESNUDADO EM SUA MISRIA PESSOAL E VISLUMBROU A FIGURA ANGLICA 
DE UMA ENTIDADE QUE, SEM SER JESUS, ERA UM DOS EMISSRIOS DO AMOR QUE ACOMPANHAVAM A PREGAO DOS SEUS DOIS EMISSRIOS TERRENOS.
       AS MAIS DIVERSAS REAES DE DOR, AFLIO, ANGSTIA AGITAVAM O CORPO DO JOVEM, QUE SE RETORCIA COMO SE SOFRESSE FISICAMENTE, EM UMA CIRURGIA SEM ANESTSICO.
       NO MUNDO ESPIRITUAL AO REDOR, UMA GRANDE EQUIPE DE TRABALHADORES SE APRESTAVA A RECOMPOR O EQUILBRIO ORGNICO DO JOVEM, SUGADO J H MUITOS ANOS POR AQUELA 
PERSONALIDADE ESTRANHA, NUMA VERDADEIRA SIMBIOSE.
       TOMANDO TODOS OS CUIDADOS PARA QUE O AFASTAMENTO DO ESPRITO NO ACABASSE SE CONSTITUINDO EM UM ABALO TO PROFUNDO NO RAPAZ QUE PODERIA PRODUZIR-LHE O PERECIMENTO 
DO CORPO FSICO, OS ESPRITOS SERVIRAM-SE DAS ENERGIAS DE ZACARIAS, JOSU, CALEB E DE TODOS OS PRESENTES QUE AS POSSUSSEM DISPONVEIS, PARA ENVOLVER O RAPAZ EM 
UMA CPSULA DE FORAS VITAIS, AO MESMO TEMPO EM QUE O MESMO FOI FEITO COM O ESPRITO, QUE SE ENTREGAVA  LUMINOSIDADE DOCE QUE O ENVOLVIA, TRANSFORMANDO-SE EM FRGIL 
CRIANA DISFORME, SEM SABER O QUE FAZER DALI PARA DIANTE.
NENHUMA PALAVRA PROFERIU, NENHUM GRUNHIDO ANIMAL, NENHUMA IMPRECAO VIOLENTA.
       NO ENTANTO, TO IMENSA FORA A PRESENA DO MUNDO INVISVEL E TO FORTES FORAM AS FORAS ENVOLVIDAS, QUE A LUMINOSIDADE QUE ABRAAVA AQUELAS CRIATURAS PASSOU 
A RESPLANDECER AOS OLHARES DOS PRESENTES QUE, SEM ENTENDEREM DE ONDE VINHA, TAMBM PODIAM IDENTIFICAR UMA LUZ DIFERENTE QUE EMANAVA DE ZACARIAS E ENVOLVIA A ME 
E O FILHO.
       UM SILNCIO SEM PRECEDENTES SE FEZ DURANTE TODO ESTE PROCESSO E AS PESSOAS MAIS CTICAS COMEAVAM A PERCEBER QUE ESTAVAM DIANTE DE UMA FORA DESCONHECIDA 
E QUE NO TINHAM COMO DUVIDAR DO QUE SEUS OLHOS VIAM.
PASSADOS ALGUNS MINUTOS, ZACARIAS DISSE A UM HOMEM JOVEM QUE ESTAVA PRXIMO, COM O DESEJO DE VER COM SEUS PRPRIOS OLHOS CURIOSOS.
- JARED, AUXILIE NOSSA IRM A DESPRENDER O FILHO DESSAS AMARRAS.

       O JOVEM LEVOU UM SUSTO E QUASE SAIU CORRENDO PARA O OUTRO LADO, POIS ELE NO ERA CONHECIDO DE NINGUM ALI. HAVIA CHEGADO NAQUELE DIA COMO CARAVANEIRO QUE 
PRETENDIA VER PILATOS E QUE ESCUTARA A NOTCIA DAS CURAS E RESOLVERA CONFERIR POR SUA PRPRIA CONTA.
- VAMOS, JARED, AJUDE AQUI - REPETIU ZACARIAS, SERENAMENTE.
       VENDO QUE A COISA ERA COM ELE PRPRIO, ADIANTOU-SE ADMIRADO E ESTUPEFATO, AMPARANDO A LIBERTAO DO RAPAZ, PARA O ESPANTO DE TODA A MULTIDO.
       - O SENHOR TEM CERTEZA DE QUE MEU FILHO NO VAI FERIR ESTA GENTE AQUI? - PERGUNTOU A ME, AFLITA E TEMEROSA.
       - FILHA, DEUS NOS PEDE CONFIANA E F E JESUS NOS DISSE SEMPRE QUE, QUANDO NOSSA F FOR DO TAMANHO DE UM GRO DE MOSTARDA, MOVEREMOS AT AS MONTANHAS  NOSSA 
VOLTA - RESPONDEU DOCEMENTE O EMISSRIO DO CRISTO.
       - ME, ME, ME AJUDE, NO ME AMARRE MAIS, EU NO FIZ NADA, ME PERDOE, ME, ME PERDOE... - ERAM AS SPLICAS DO GAROTO QUE, AGORA, SE VIA LIVRE DAS CORDAS E 
DAS AMARRAS QUE O SEGURAVAM  DISTNCIA DOS OUTROS.
       VENDO-LHE A RECUPERAO DA SADE MENTAL, A MULHER AJOELHOU-SE JUNTO AO LEITO DE SEU FILHO, EM PRANTO CONVULSIVO, E O ABRAAVA NUMA CENA EMOCIONANTE PARA TODOS 
OS QUE ESTAVAM ALI, DIZENDO:
       - EU TE AMO, MEU FILHO, EU TE AMO MUITO. PERDOA TUA ME POR TER QUE TE MANTER ASSIM AT HOJE. LOUVADO SEJA DEUS QUE OUVIU NOSSAS PRECES. FILHO QUERIDO, NS 
SEREMOS FELIZES DAQUI PARA A FRENTE... - E AS LGRIMAS ESCORRIAM E LAVAVAM O ROSTO DO RAPAZ QUE, IGUALMENTE, CHORAVA DE SOLUAR.
       TOMADA DE GRATIDO PROFUNDA, A ME, RENOVADA PELO AMOR, PROCUROU BEIJAR AS MOS DE ZACARIAS, QUE NO O PERMITIU, RECUSANDO ENTREG-LAS AOS SEUS LBIOS, AFASTANDO-AS.
ENTO A MULHER, DESEJANDO AGRADECER-LHE COM O MAIS PROFUNDO SENTIMENTO DE VENERAO, ATIROU-SE-LHE AOS PS, QUE ENVOLVEU COM SEUS BRAOS E BEIJOU-OS ENTERNECIDAMENTE, 
SEM SEQUER SE IMPORTAR ESTAREM ENVOLVIDOS PELA POEIRA DO CAMINHO RUDE E PELA POBREZA DAS SURRADAS SANDLIAS.
       AQUELA CENA ERA IMENSAMENTE MAIS EMOCIONANTE PARA TODOS DO QUE QUALQUER OUTRA JAMAIS VIVIDA POR QUAISQUER DOS QUE ALI SE ACHAVAM.
       ZACARIAS ABAIXOU-SE E COLOCOU AS MOS SOBRE A FRONTE DA ME QUE O VENERAVA E LHE DISSE, COM CARINHO:
       - MULHER, JESUS SALVOU TEU FILHO. GUARDA TUA GRATIDO SINCERA PARA
       - D-LA AO NOSSO DIVINO MESTRE, O NICO QUE A MERECE. SOU APENAS TEU

IRMO QUE TE VEIO TRAZER O PRESENTE QUE JESUS MANDOU AO TEU CORAO DE ME ABNEGADA. ERGUE-TE DO SOLO COM TEU FILHO E SEGUE ADIANTE NA VIDA, PARA QUE TUA EXISTNCIA 
SEJA O TESTEMUNHO DO AMOR QUE RECEBESTE NESTA HORA.
AJUDADA POR ZACARIAS, A MULHER ERGUEU-SE JUNTAMENTE COM O FILHO QUE, ASSERENADO, SE MANTINHA GRUDADO  ME COMO SE DELA TIVESSE SE AFASTADO POR LONGOS ANOS, CHEIO 
DE SAUDADE E DESEJO DE CARINHO.
       O POVO, AGORA, ESTAVA PETRIFICADO COM TUDO AQUILO QUE HAVIA VISTO COM SEUS PRPRIOS OLHOS.
NINGUM OUSAVA ABRIR A BOCA PARA FALAR QUALQUER COISA.
       CADA PASSO DE ZACARIAS ERA ACOMPANHADO POR TODOS OS OLHARES E, ASSIM, COM ESSA ATMOSFERA RECOMPOSTA PELA FORA DO AMOR E DA F EM DEUS, ZACARIAS RETOMOU O 
POSTO QUE LHE HOUVERA SIDO PREPARADO PARA FALAR A TODOS OS QUE ESTAVAM ALI.
       - PROTEJA-NOS DEUS E JESUS PARA QUE, NESTA NOITE, POSSAMOS ENTENDER DE UMA VEZ PARA SEMPRE OS CAMINHOS DA VERDADE E DO AMOR...
       AGORA, NENHUMA PERTURBAO OUSOU ERGUER A VOZ PARA PROFLIGAR CONTRA A INVOCAO SUBLIME QUE ZACARIAS FAZIA NAQUELE MOMENTO EM QUE O REINO DE DEUS VOLTAVA 
A SER REVELADO S PESSOAS POR PALAVRAS, DEPOIS DE TER SIDO APRESENTADO A TODOS NA FORMA DE AO PODEROSA E FRATERNA.
       AGORA, J QUASE NO HAVIA MAIS CTICOS NO MEIO DOS QUE ESCUTARIAM A MENSAGEM.
       A AO DO AMOR FORA O PODEROSO ARGUMENTO QUE TOCARA O MAIS PROFUNDO DOS ESPRITOS E, MESMO DOS MAIS IGNORANTES E DUVIDOSOS, UMA INCAPACIDADE DE EXPLICAR OS 
FATOS PRESENCIADOS OS DESARMAVA, IMPEDINDO QUE SEUS PRECONCEITOS PREJUDICASSEM A AO DA BOA NOVA JUNTO AOS CORAES QUE SOFRIAM.
NAQUELA NOITE A LUMINOSIDADE DE ZACARIAS FOI VISTA POR MUITOS QUE PERCEBIAM ESTAR ELE ENVOLVIDO EM UMA FORMA DE BRILHO POUCO COMUM E QUE MUITOS ATRIBUAM A ALGUM 
PROBLEMA NA PRPRIA VISO, ENQUANTO OUTROS VIAM ALI UM FENMENO ESPIRITUAL A REPRESENTAR O AVAL DE DEUS SOBRE AQUELA ALMA BENEMERENTE.
       ENTRETANTO, ZACARIAS FALOU EXCLUSIVAMENTE DE JESUS, REFERINDO-SE AOS INMEROS MILAGRES QUE ELE E JOSU TINHAM PRESENCIADO QUANDO DE SUA CAMINHADA PELAS TRILHAS 
QUE O MESTRE BUSCAVA.
       RELATANDO COM RIQUEZA DE DETALHES TODOS OS FEITOS E PASSAGENS, ENSINAMENTOS E CONSELHOS, O PBLICO NO SE CANSAVA DE ESCUTAR-LHE A PALAVRA DOCE E INSPIRADA.
APROVEITANDO-SE DE TAL ENCANTAMENTO, RARO NAS TURBAS SEMPRE

ZACARIAS PEDIU A JOSU QUE CONTASSE O CASO DAQUELA MULHER QUE QUASE FORA PISOTEADA PELA MULTIDO, MAS QUE, PELA FORA DE UMA ORAO, FEZ COM QUE JESUS REGRESSASSE 
E A ATENDESSE.
       JOSU, ENTENDENDO O DESEJO DO AMIGO DE TIRAR DE CIMA DE SUA PESSOA A ATENO EXCLUSIVA, ABRIU SEU CORAO E FALOU, IGUALMENTE INSPIRADO, DAS GRANDEZAS DO 
REINO QUE JESUS ANUNCIAVA AOS CORAES AFLITOS, DANDO O MESMO TESTEMUNHO DO AMIGO COM A MESMA ISENO E RECONHECIMENTO DE QUE ERA ELE, JESUS, O MESSIAS TO ESPERADO, 
QUE VIRIA LIBERTAR AS PESSOAS DAS SUAS MAZELAS MORAIS E DE SUAS AMARRAS MESQUINHAS.
       A LEMBRANA FOI MUITO OPORTUNA PARA RECONDUZIR AS ATENES DO POVO PARA A FIGURA DO CRISTO QUE, NO DIZER DE SEUS DOIS EMISSRIOS, ERA O FOCO DE TODAS AS BNOS.
       E O POVO IMAGINAVA, NO SEU RACIOCNIO DIRETO E PRTICO QUE, SE DOIS HOMENS SIMPLES DO POVO ERAM CAPAZES DE PRODUZIR TAIS PRODGIOS COMO AQUELES VISTOS POR 
TODOS OS PRESENTES, QUE DIZER DO PODER QUE JESUS, QUE OS HAVIA ENVIADO, DEVERIA POSSUIR PARA ALTERAR O CURSO DE TODAS AS COISAS.
       TERMINADA A MENSAGEM DA NOITE, ORGANIZOU-SE UMA LONGA FILA PARA OS ABRAOS DURANTE OS QUAIS, SEGUNDO HAVIA SIDO ESPALHADO PELOS BENEFICIADOS DA NOITE ANTERIOR, 
AS CURAS PODERIAM OCORRER.
FOI ENTO QUE ZACARIAS PDE SENTIR A APROXIMAO DAQUELA QUE HAVIA SIDO A GENITORA DE SEU MESTRE AMADO, NA FIGURA HUMILDE E INESQUECVEL DE MARIA, MULHER DE SEMBLANTE 
DOCE E DIFERENTE DENTRE TODAS AS QUE ALI SE AGLOMERAVAM. ANTE SUA PRESENA, ALGUNS QUE A SEGUIAM INFORMARAM AO ENVIADO DO CRISTO SER ELA A SUA ME.
       SEM ESTAR PREPARADO PARA AQUELE ENCONTRO, O OLHAR DE ZACARIAS ENCONTROU, NO BRILHO DO OLHAR DE MARIA, O ENCANTAMENTO E A GRATIDO QUE S CONSEGUIU TRADUZIR 
POR UM RESPEITOSO BEIJO QUE LHE DEPOSITOU NAS MOS SUAVES E PELAS LGRIMAS DE EMOO QUE LHE VIERAM AOS OLHOS, ESPONTNEAS.
       SEM DIZER QUALQUER PALAVRA COM OS LBIOS, MARIA AFAGOU-LHE OS CABELOS EM FORMA DE BNO E AGRADECIMENTO, E SEGUIU ADIANTE, DANDO OPORTUNIDADE PARA OS QUE 
VINHAM ATRS.
E A LONGA AGLOMERAO FOI SENDO DISSIPADA DEPOIS QUE AS PESSOAS RECEBIAM O ABRAO DE ZACARIAS OU JOSU, QUE ABRIRAM DUAS FRENTES PARA QUE TODOS PUDESSEM SER ATENDIDOS 
MAIS RAPIDAMENTE E ABENOADOS PELO GESTO FRATERNO DO ABRAO AMIGO, NO QUAL AS FORAS DO CU SE MESCLAVAM S FORAS DA TERRA, PARA A RECUPERAO DAS ESPERANAS NO 
CORAO DOS AFLITOS.
CALEB ESTAVA EXULTANTE PORQUE ERA QUEM ORGANIZAVA A FILA E

ENCAMINHAVA PARA UM E PARA OUTRO OS DOENTES, COM O CARINHO QUE NUNCA HAVIA TIDO POR NINGUM, MAS QUE, AGORA, FAZIA PARTE DE SEU PRPRIO SER.
SAUL, QUE A TUDO PRESENCIARA, ESTAVA IMPRESSIONADO E DIMINUDO EM SUA POSIO MESQUINHA E INTERESSEIRA, VENDO QUE TIVERA SOB SEU TETO DOIS ENVIADOS PODEROSOS DE 
DEUS E NO SOUBERA VER-LHES A PRESENA PORQUE TINHA APENAS DESEJOS MATERIAIS.
       NESSE MOMENTO, PENSOU NA DESDITA DE SUA VIDA, NAS SITUAES DOLOROSAS QUE CRIOU E NAS DORES QUE SABIA EXISTIREM EM PESSOAS QUE AMAVA, MAS A QUEM NO ATENDIA 
PORQUE NO DESEJAVA TER QUE GASTAR DINHEIRO COM ELAS.
SUA CONSCINCIA VISLUMBRAVA, AGORA, A QUANTIDADE DOS BBADOS QUE MANTINHAM SUA ESTALAGEM CHEIA DE CLIENTES, OS QUAIS EXPLORAVA E DOS QUAIS SE APROVEITAVA, ACREDITANDO-SE 
ESPERTO O SUFICIENTE PARA EMPURRAR OS OUTROS PARA O BURACO E, ANTES QUE CASSEM, ROUBASSE-LHES OS POUCOS RECURSOS, COMO SE LHES ESTIVESSE FAZENDO O FAVOR DE LHES 
ALIVIAR A QUEDA, LIVRANDO-OS DE UM PESO NOCIVO.
       SUA CONDUTA ERA CONFRONTADA, DENTRO DE SUA CONSCINCIA, COM A MENSAGEM QUE ACABARA DE ESCUTAR E COM AQUELE PODER QUE TUDO SABIA, TUDO CONHECIA E TUDO ERA 
CAPAZ DE PROVER, PELO SIMPLES ATO DA ORAO E DA F.
       QUE SERIA DELE? RECORDOU-SE DE CLOFAS, PRESO AO LEITO EM RECANTO DISTANTE DE NAZAR, DO QUAL SE AFASTARA DESDE QUE A TERRVEL DOENA LHE FERIRA A PELE, TRADUZINDO-SE 
NA PESTE QUE TODOS TEMIAM.
CLOFAS ESTAVA ATIRADO  MISRIA E CARCOMIDO PELAS FERIDAS.
       QUANTAS VEZES PESSOAS AMIGAS O PROCURAVAM NA ESTALAGEM PARA ROGAR-LHE A BNO DE ENVIAR ALIMENTO PARA QUE CLOFAS NO MORRESSE  MINGUA E DELE HAVIAM OBTIDO 
A NEGATIVA FRIA E MENTIROSA DE QUE NO CONHECIA NENHUM CLOFAS E QUE FOSSEM PEDIR AJUDA NA SINAGOGA, QUE ERA O LUGAR PARA ESTAS COISAS.
SAUL NO SE SENTIA EM PAZ, AGORA.
       TINHA VERGONHA DE SUA CONDUTA E A PRESENA DAQUELES DOIS HOMENS EM SUA ESTALAGEM AINDA MAIS O ENVERGONHAVA, POIS OS ESTAVA EXPLORANDO PARA GANHAR DINHEIRO.
       SUA CABEA GIRAVA SEM PARAR QUANDO, TERMINADO O PROCESSO DE TRATAMENTO DOS DIVERSOS ENFERMOS, CALEB AVISOU QUE PRECISAVAM IR EMBORA.
       FOI S NESSE MOMENTO QUE SAUL DESCOBRIU QUE OS DOIS AMIGOS QUE ELE PENSAVA DORMIREM NO PEQUENO QUARTO INFECTO DOS FUNDOS DA ESTALAGEM, NA VERDADE DEIXAVAM 
QUE O VELHINHO ALI SE ABRIGASSE E PREFERIAM DORMIR AO RELENTO, SOB O MANTO DAS ESTRELAS NOTURNAS PARA QUE O ANCIO REPOUSASSE PROTEGIDO.

       MAIS E MAIS VERGONHA SE INSTALAVA NO ESPRITO DE SAUL QUE, J MUITAS VEZES TINHA POSTO PARA CORRER O VELHO CALEB NOS TEMPOS EM QUE ELE ANDAVA POR A, CRIANDO 
CASO COM TODOS.
       QUANDO CHEGARAM  ESTALAGEM, QUE J ESTAVA FECHADA PARA AS PESSOAS, SAUL SENTOU-SE EM MESA RSTICA DA SALA DA FRENTE E CONVIDOU OS AMIGOS A COMER ALGUMA COISA.
NISSO, JOSU LHE RESPONDEU:
       - MAS, MEU SENHOR, NOSSO TRATO DE TRABALHO NO NOS D O DIREITO DE QUALQUER ALIMENTO NOTURNO... - FALOU COM SINCERIDADE E HUMILDADE.
       NESSE MOMENTO, SAUL COMEOU A CHORAR DE ARREPENDIMENTO E VERGONHA, VENDO A SUA MISRIA PESSOAL ATRAVS DA GRANDEZA E HUMILDADE DAQUELES HOMENS TO POBRES 
E TO SIMPLES, QUE FAZIAM O BEM SEM SE ACHAREM MERECEDORES DE QUALQUER TIPO DE RETRIBUIO.
       - EU LHES PEO, - DISSE SAUL, SOLUANDO - QUE FAAM COMIGO O MESMO MILAGRE QUE FIZERAM COM AQUELE RAPAZ. ELE SAIU TRANSFORMADO DAS AMARRAS QUE O PRENDIAM 
 TERRA. EU DESEJO SAIR TRANSFORMADO DAS AMARRAS QUE ME PRENDEM  TERRA TAMBM. PERMITAM-ME SERVIR-LHES A COMIDA QUE TENHO E QUE SER ALIMENTO PARA MINHA ALMA PECADORA 
E VIL, TRANSFORMANDO-A SEGUNDO OS CONCEITOS QUE APRENDI COM ESSE JESUS QUE VOCS REPRESENTAM.
       VENDO-LHE A SINCERIDADE DA TRANSFORMAO NATURAL, OS DOIS AMIGOS O ABRAARAM, NO QUE FORAM SEGUIDOS POR CALEB, QUE SEMPRE TIVERA RAIVA DE SAUL PELAS HUMILHAES 
DELE RECEBIDAS EM OUTROS TEMPOS E, ASSIM, NAQUELA NOITE, DEPOIS DE TEREM SIDO SERVIDOS COM UMA REFEIO SIMPLES E FRESCA, OS QUATRO SEPARARAM-SE PARA O REPOUSO NECESSRIO.
       NO ENTANTO, NESSE MOMENTO, SAUL, RENOVADO POR UMA LUZ INTERIOR MUITO PROFUNDA, DISSE QUE AS ACOMODAES SERIAM MODIFICADAS.
       LEVOU ZACARIAS E JOSU, AGORA TRATADOS COMO SEUS AMIGOS, PARA UM QUARTO MELHOR DENTRO DA ESTALAGEM. TOMOU CALEB PELAS MOS, CONDUZINDO O POBRE VELHO EMOCIONADO 
PARA O SEU PRPRIO QUARTO DE DORMIR, QUE NESSA NOITE SERIA USADO PELO ANCIO, QUE NO SABIA O QUE DIZER.
   -        MAS E VOC, MEU IRMO SAUL - FALARAM OS TRS - ONDE VAI DORMIR? OLHANDO PARA SI MESMO, SAUL RESPONDEU SORRINDO, ENVERGONHADO:
       - MEU ESPRITO DORMIA MUITO MAL, QUANDO MEU CORPO ESTAVA DORMINDO MUITO BEM.
AGORA, QUERO DORMIR MUITO BEM, DORMINDO O CORPO MUITO MAL.
       VOU ME AJEITAR NOS BANCOS L DO REFEITRIO PORQUE MEU ESPRITO PRECISA APRENDER A SER HUMILDE E A SERVIR POR AMOR OS PRPRIOS AMIGOS. NO SE PREOCUPEM. ESTA 
SER A MELHOR NOITE DE MINHA VIDA.

       EMOCIONADOS TODOS, DESPEDIRAM-SE, PROMETENDO A RETOMADA DA CONVERSAO NO DIA SEGUINTE, QUANDO NOVOS HORIZONTES SURGIRIAM NAS EMOES DE TODOS OS HABITANTES 
DAQUELA PEQUENA COMUNIDADE, GRAAS AO DESEJO DE AMAR DE APENAS DOIS HOMENS SINCEROS E DEVOTADOS, ALIADOS AO PODER SUPERIOR QUE TUDO DIRIGE E COMANDA EM NOSSAS VIDAS.



ISSO  O QUE A SABEDORIA POPULAR QUIS DIZER COM A FRASE ANTIGA:
"O POUCO, COM DEUS,  MUITO...".
 A NS MESMOS QUE A SABEDORIA DO DITADO SE REFERE.
       O POUCO QUE SOMOS, SE O SOMOS SOB A INSPIRAO DE DEUS E O AMOR DE JESUS, SE AMPLIA A TAIS HORIZONTES QUE NO NOS PARECERIA POSSVEL, JAMAIS, T-LO ATINGIDO 
SENO PELA GRANDEZA DAQUELES QUE TUDO DIRIGEM E COMANDAM.
       APRENDAMOS ISSO, IRMOS QUERIDOS, E TODOS ENTENDEREMOS QUE NO SOMOS NADA POR NOSSA ARROGNCIA, MAS PODEREMOS SER MUITA COISA, PELA HUMILDADE DE CONHECERMOS 
NOSSA MISRIA E PERMITIRMOS QUE A RIQUEZA DE DEUS SE MANIFESTE EM NS E POR NOSSO INTERMDIO.O DIA RAIOU COMO SE UMA NOVA ERA DE ESPERANAS INVADISSE O CORAO 
DE SAUL, QUE POUCO HAVIA DORMIDO NAQUELA NOITE, LEMBRANDO-SE DE TUDO O QUE ESCUTARA E TESTEMUNHARA.
       A SUA CONSCINCIA ESTAVA SE DESPRENDENDO DA FASE DE ADORMECIMENTO EM QUE PERMITIRA CAIR POR LONGOS ANOS E, AGORA, PRETENDIA FAZER MAIS DO QUE VINHA REALIZANDO 
EM SUA VIDA INTIL DE SE MANTER COM A EXPLORAO DOS VCIOS DOS DEMAIS.
       ISSO PORQUE SUA ESTALAGEM, APESAR DE ABRIGAR ALGUNS VIAJANTES MAIS POBRES, TINHA COMO PONTO PRINCIPAL A VENDA DE BEBIDAS, FUNCIONANDO TAMBM COMO PONTO DE 
ENCONTRO DE PESSOAS DESOCUPADAS OU DE M VIDA, ONDE SE COLOCAVAM  VONTADE PARA PLANEJAR CONDUTAS IMORAIS OU ILCITAS DE ONDE PODERIAM RETIRAR ALGUM GANHO.
       SAUL NUNCA SE OPUSERA A ESSE COMPORTAMENTO, QUE ELE CONHECIA PORQUE PENSAVA NO DEVER SE METER EM ASSUNTOS QUE NO LHE INTERESSAVAM. SEU NEGCIO ERA O PAGAMENTO, 
AO FINAL, PELA BEBIDA CONSUMIDA.
       AGORA, ENTENDIA QUE SUA VIDA NO PODIA SER A MESMA, NEM SEU NEGCIO PODERIA CONTINUAR DAQUELA FORMA.
NAQUELA MADRUGADA, QUANDO OS OUTROS TRS SE LEVANTARAM PRONTOS PARA O TRABALHO AFANOSO DO NOVO DIA, ENCONTRARAM A MESA DO CAF PREPARADA, SAUL ESPERANDO POR ELES 
E AS PORTAS DA ESTALAGEM FECHADAS, O QUE NO ERA MUITO NORMAL.
       - BOM DIA, MEUS IRMOS - DISSE SAUL, FELIZ POR PODER CHAM-LOS MAIS UMA VEZ POR ESSE QUALIFICATIVO QUE, AGORA, GANHAVA OUTRO SIGNIFICATIVO EM SUA COMPREENSO.
       - BOM DIA, SAUL, - FALARAM, CADA UM  SUA MANEIRA - MAS VOC SE ESQUECEU DE ABRIR A ESTALAGEM HOJE, HOMEM? - PERGUNTOU JOSU, SORRINDO.

       - NO  ISSO NO, JOSU. VENHAM, SENTEM-SE COMIGO PARA O NOSSO DESJEJUM E EU VOU EXPLICANDO.
       ASSIM QUE TOMARAM O LUGAR, SAUL PASSOU A RELATAR-LHES O QUANTO HAVIA COMPREENDIDO ACERCA DAS COISAS DA VIDA E DE SEUS PRPRIOS PROBLEMAS, O QUE LHE CAUSOU 
UM QUESTIONAMENTO MUITO GRANDE SOBRE COMO PROCEDER PARA COM OS SEMELHANTES.
       POR ISSO, HAVIA DELIBERADO QUE, NAQUELE DIA PERMANECERIA FECHADO PARA OS QUE VIESSEM BUSCAR BEBIDAS E S ABRIRIA NA HORA DO ALMOO PARA OS QUE VIESSEM SE 
ALIMENTAR E PARA OS POUCOS HSPEDES QUE HAVIAM ESCOLHIDO A SUA ESTALAGEM COMO REFGIO PARA DORMIR.
COMO PILATOS ESTIVESSE NA CIDADE, O SEU ESTABELECIMENTO HAVIA RECEBIDO UM NMERO MAIOR DE PEREGRINOS, O QUE LHE AUMENTAVA O TRABALHO, MAS QUE NO ERAM AQUELES QUE 
SE DEDICAVAM  BEBIDA O DIA INTEIRO.
       OS HSPEDES, TO LOGO CLAREAVA O DIA, IAM EM DIREO  CIDADE PARA LEVAR ADIANTE OS PLANOS DE SE ENCONTRAREM COM O GOVERNADOR OU CONSEGUIR ALGUMA VANTAGEM 
DE SUA ESTADIA EM NAZAR.
       - ASSIM, AGORA PELA MANH, VOU CUIDAR DE PREPARAR AS COISAS QUE DEVERO SER OFERECIDAS NO HORRIO DO ALMOO E, DEPOIS DELE, GOSTARIA DE PERGUNTAR-LHES SE 
SERIA POSSVEL IRMOS A UM LUGAR ONDE EST UMA PESSOA MUITO NECESSITADA QUE NO PODE CAMINHAR PARA VIR AO ENCONTRO DE VOCS.
       - CLARO, SAUL - RESPONDEU ZACARIAS. NS ESTAREMOS AQUI LIVRES PARA O ATENDIMENTO QUE SE FIZER NECESSRIO E GOSTARAMOS QUE MAIS E MAIS PESSOAS PUDESSEM RECEBER 
O REINO DE DEUS NO CORAO. DE QUEM SE TRATA?
       ALGO CONSTRANGIDO COM O CASO EM QUESTO, SAUL RESPONDEU QUE ERA UMA PESSOA CONHECIDA, QUE ESTAVA DISTANTE DA PARTE URBANA DA CIDADE.
       - ALGUMAS PESSOAS O AJUDAM COM ALIMENTO E EU MESMO J ESTIVE FAZENDO ALGUMA COISA PARA QUE ELE NO MORRESSE.
       - SER UMA ALEGRIA ESTARMOS COM ESSE NOVO IRMO PARA ORARMOS JUNTOS, COLOCANDO NAS MOS DE DEUS E DE JESUS QUALQUER BNO QUE LHE POSSA SER ENTREGUE - FALOU 
JOSU.
       VIA-SE, NITIDAMENTE, QUE SAUL SE ESFORAVA MUITO PARA FALAR SOBRE AQUELE CASO, COMO SE ESTIVESSE SOFRENDO PARA COLOCAR A VERDADE PARA FORA.
NO ENTANTO, RESPEITANDO SUA DIFICULDADE EMOCIONAL, NENHUM DOS SEUS AMIGOS OUSOU PEDIR MAIORES EXPLICAES.
       TODAVIA, DIANTE DA POSTURA GENEROSA DOS IRMOS QUE SE PREDISPUNHAM A IR AT O LOCAL ONDE SE ENCONTRAVA O ENFERMO, SAUL NO TEVE COMO SE CONTER E, DE MANEIRA 
MUITO ABERTA E SINCERA, DESABOU EM PRANTOS DIANTE DOS TRS.ERA O CHORO DA VERGONHA DE SI PRPRIO.
-        ESSE HOMEM QUE VOCS ACEITARAM VISITAR ... UM... LEPROSO... FALOU ELE, SOLUANDO. VOCS VO L, ASSIM MESMO?
       - ORA, SAUL, SE VOC NOS LEVAR AT ELE, NS IREMOS LEVAR-LHE JESUS QUE, POR SINAL, JAMAIS DEIXOU DE ATENDER LEPROSOS, PROSTITUTAS, FERIDENTOS
RESPONDEU-LHE ZACARIAS, EMOCIONADO COM AS LGRIMAS DAQUELE HOMEM ABATIDO.
       - EU TENHO MUITA VERGONHA DE MIM MESMO, AGORA, MEUS IRMOS. EU NO SABIA O QUANTO ESTAVA ERRANDO AO FAZER CERTAS COISAS. AGORA QUE A LUZ DOS SEUS ENSINAMENTOS 
ME TROUXERAM ESSE JESUS MARAVILHOSO E AMIGO, ESPERO QUE EM SUAS LIES EXISTA ALGO QUE ME CONCEDA O PERDO AOS MEUS GESTOS DE MESQUINHARIA E EGOSMO, POIS NO SOU 
DIGNO DE QUALQUER CONDESCENDNCIA.
       - NO DIGA ISSO, SAUL - FALOU CALEB, INTROMETENDO-SE NO ASSUNTO E FALANDO COM O CARINHO DE UM AV. VOC  UM HOMEM BOM, QUE NO SABIA COMO FAZER A BONDADE 
E ESTAVA ACOSTUMADO COM AS NOSSAS VELHAS LEIS E TRADIES. SE ASSIM NO FOSSE, SEU ESPRITO NO TERIA ENTENDIDO TANTO AS PALAVRAS DE JESUS EM TO POUCO TEMPO.
       - SIM, CALEB, AS SUAS PALAVRAS SO GENEROSAS E FRATERNAS, MAS APESAR DELAS EU NO POSSO FUGIR DE MIM MESMO. ESTOU EXPURGANDO MINHAS CULPAS E VERGONHAS AT 
MESMO PARA COM VOC QUE, MUITAS VEZES, EXPULSEI DAQUI SOB XINGAMENTOS E SAFANES, LEMBRA-SE?
       - CLARO, POIS EU VINHA AQUI FAZER ARRUAA, ATRAPALHAR SEUS NEGCIOS COM MINHA CONVERSA DE BBADO CHORAMINGO. ISSO  O QUE EU MERECIA - FALOU O VELHINHO, 
SORRIDENTE, PARA CONFORTAR O NOVO AMIGO.
       - NO ACREDITO QUE ALGUM MEREA SER HUMILHADO, SER EXPULSO, SER AFASTADO DO MUNDO E QUE QUEM O FAA POSSA SER JUSTIFICADO. PODE SER CONSIDERADO UM IGNORANTE 
E, POR ISSO, MERECER MENOR PENALIDADE. MAS SE  VERDADE TUDO AQUILO QUE JESUS TEM FALADO COMO ME PARECE QUE O , MEU COMPORTAMENTO JAMAIS ESTEVE  ALTURA DA MENSAGEM 
DA BONDADE QUE EU PUDE APRENDER COM VOCS.
       VOLTANDO-SE PARA OS OUTROS DOIS E, COM O CORAO MUITO DOLORIDO POR TUDO O QUE J HAVIA DITO E PELO QUE AINDA PRECISAVA DIZER, CONTINUOU, EMOCIONADO:
       - ESSE HOMEM TINHA SADE E FREQENTAVA MINHA TABERNA. S VEZES, ME AJUDAVA E EU DAVA ALIMENTO E MORADIA PARA ELE. UM BELO DIA, ARRUMOU SUAS MALAS E FOI PARA 
OUTRA CIDADE, DIZENDO QUE PRECISAVA DE NOVAS EMOES. PROCUREI DIZER-LHE QUE FICASSE POR AQUI, MAS ELE NO ME OUVIU.
PARTIU E FIQUEI UM BOM TEMPO SEM RECEBER NOTCIAS SUAS.Passados alguns poucos anos, eis que retorna a Nazar e, agora, vem acompanhado de bela dama com quem havia 
se casado no perodo em que estivera longe daqui. No sei se se casou ou apenas se uniram. Apenas sei que passaram a viver juntos em uma modesta casinha daqui de 
Nazar e me pareciam felizes como todos os que se casam. Ocorre que Clofas - como  o seu nome - depois de alguns meses, se viu doente e impedido de trabalhar por 
fortes dores no corpo. Sua mulher tentou ajud-lo, j que parecia gostar muito dele, mas no resistiu quando descobriu, com o passar do tempo, que se tratava da 
lepra. Amedrontada, fugiu para encontrar abrigo junto de uma casa que recebia mulheres para encontros libertinos, j que no tinha como ganhar a vida de outra maneira. 
Antes disso, no entanto, veio at aqui me pedir que ajudasse a Clofas e a ela prpria, o que me recusei a fazer depois de ter me informado de sua histria de desgraa 
e enfermidade. Imaginava que, tendo partilhado da companhia de um pestoso por tanto tempo, a mulher igualmente era uma delas e, assim, recusei ajud-los e lhes pedi 
que se esquecessem de minha pessoa.
      Nova chuva de lgrimas atestava a tempestade que lhe ia n'alma, nas ondas de vergonha e arrependimento por tudo o que j havia feito.
Recuperando o flego e acalmando-se um pouco, Saul prosseguiu:
      - Depois que a mulher se foi, mulher esta que nunca me inspirou confiana e que nunca nos contou a sua vida anterior  unio com Clofas, fui tomado por uma 
sensao de dor ntima porque me coloquei no lugar dele e me senti com o dever de fazer alguma coisa. No poderia receb-lo aqui por causa dos meus interesses materiais, 
que sempre me escravizaram, como entendo agora. Ento, falei com pessoas conhecidas, entreguei-lhes valores que possua em minhas economias e consegui que ele fosse 
transferido para uma localidade fora de Nazar, isolada o suficiente para que ficasse sossegado e sozinho.
No comeo mandava comida e alguma roupa, mas nunca tive coragem de chegar perto para conversar com ele.
Depois, o tempo foi passando, fui me envolvendo novamente com as coisas que me interessavam e deixei de me preocupar com a sua situao. Eventualmente vinha algum 
at aqui pedir ajuda, mas como a minha conscincia j se havia desculpado a si mesma, em virtude dos poucos gastos que tivera em comprar-lhe a choupana onde foi 
instalado e das vezes que lhe havia mandado alimento, passei a dizer que no conhecia nenhum Clofas e que as pessoas deviam ir pedir ajuda na sinagoga.
      O tempo passou e ningum mais apareceu para pedir. No entanto, graas a um vizinho que vem  taberna recebo notcias de suas tragdias, que escuto como se 
nada mais tivesse a fazer...A esta altura, os trs homens que o escutavam se achavam igualmente sensibilizados pelo drama de conscincia de Saul, o qual queriam 
aliviar para que ele se sentisse confortado.
     Assim, Caleb procurou fazer com que Saul visse os atos generosos que procurou estender ao enfermo, ainda que no tivesse tido a caridade de acolh-lo e  mulher 
em sua casa.
      - Veja, Saul - disse Caleb - voc at que fez muito por ele. Afinal, a maioria das pessoas que conheo nada teria realizado e, o que  pior, teria enxotado 
qualquer pessoa que viesse buscar auxlio ou rogar por um leproso. Voc no, meu irmo. Seu corao bondoso aceitou ajudar o amigo, gastou seu dinheiro com ele e 
mandou a comida por um tempo. Isso j  bondade em seu corao, a mesma bondade que me colocou em seu leito pessoal e que estendeu o quarto amigo para Zacarias e 
Josu. E veja que ns somos pessoas estranhas e desconhecidas em sua vida.
      - , Caleb, eis o problema que hoje me fere. Com trs desconhecidos, eu aprendi a ser generoso e dar minha cama. No entanto, Clofas  meu irmo de sangue, 
meus amigos. Condenei  misria material meu irmo, filho do mesmo pai e da mesma me. Vejam como sou mais miservel do que ele - foi o que conseguiu dizer antes 
que o descontroe da emoo o impedisse de falar em uma exploso de dor e amargura soluos e lgrimas, que nenhum deles ousou interromper, j que ali es!ava nascendo 
um novo homem, um homem para a nova era de Amor.
      Zacarias levantou-se e foi buscar um pouco de gua para acalmar o amigo no doloroso transe por que estava passando, dando o testemunho da prpria misria ntima, 
comprovando que sua converso era sincera e autntica.
      Sentou-se ao lado do amigo e, ainda que o mesmo estivesse debruada sobre a rstica mesa de madeira, encobrindo o rosto no meio dos braos, pediu a Josu que 
elevasse uma orao pedindo pelo amigo. Josu fechou os olhos e falou com sinceridade:
      - Deus, nosso Pai, Jesus nosso Mestre, aqui estamos lavando nossas almas enegrecidas na gua lmpida de vosso afeto. Como nascer para o vosso reino se no 
sofrermos com a revelao de nossas mazelas morais? Assim somos todos, Senhor, vtimas de nossas fraquezas que, defrontados pela generosa oferta do vosso Reino, 
no desejamos entrar nele fantasiados com mentirosas concepes e no desejamos furtar dele qualquer beneplcito que no tenhamos dignidade para receber.
      O vosso Reino, Pai querido, pede novos sditos. Mas os que temos encontrado, como ns mesmos, so apenas degredados do erro, daqueda moral e das fraquezas 
que nos envergonham. Deixai que nos lavemos, purificando nossos espritos no trabalho de Amor ao semelhante, de perdo das ofensas, de reconstruo de nossas vidas 
atravs da reedificao das vidas alheias.
Aqui, Jesus, nosso irmo Saul teve a coragem de abrir seu corao aos estranhos em quem confiou seus tesouros mais ocultos. Ns tambm temos nossas vergonhas bem 
guardadas, que no tivemos o valor de revel-las aos desconhecidos, como Saul fez para conosco. Por isso, Mestre,  um valoroso irmo que merece mais do que ns 
mesmos e, assim, te rogamos que teu olhar compassivo, que sempre nos olhou o que somos por dentro, com as nossas mentiras, fraquezas e defeitos, sem nos julgar ou 
condenar, possa voltar-se para Saul neste momento em que o batismo da verdade cobra o preo para estabelecer-se em nossas almas.
Ajuda-o, Senhor, para que se perdoe e para que tenha foras de seguir adiante, corrigindo o mal atravs do bem que puder fazer.
Vibraes radiosas encheram o ambiente pobre da estalagem e, como se o Cu tivesse se transferido para aquele lugar, outrora abrigo de bbados e criaturas viciosas, 
um leve perfume envolveu-os, sem que qualquer explicao ou origem conhecida pudesse ser encontrada para a sua ocorrncia.
Sabiam, no fundo, que se tratava de uma ao generosa do maravilhoso amor, como ocorria muitas vezes, nas proximidades do Mestre, em suas pregaes.
Aproveitando-se do estado de esprito aberto e sincero de Saul, entidades luminosas dele se acercavam para abrir-lhe de vez o corao a fim de que no deixasse perder 
a sublime oportunidade da elevao de sua alma.
              Enquanto isso ocorria, das mos de Zacarias, uma energia forte e suave ao mesmo tempo emanava sobr
              a mente e o corao de Saul que, aos poucos, ia se sentindo envolvido em uma nova atmosfera, distanciada da autopunio, preparada para novas lutas 
e cheia da convico de que o novo homem que surgia dar-lhe-ia muitas alegrias e oportunidades para reparar o mal que pertencia ao passado.
              Sobre a gua, medicamentos calmantes e fortificantes que os homens no conhecem ainda nos dias atuais, foram despejados para que seu corpo se estruturasse 
em nova dinmica e que as clulas fossem padronizadas por outro carter energtico, graas ao clima de verdadeiro arrependimento que surgira no recndito de seu 
esprito.
No se tratava de uma cura fsica.No entanto, era um procedimento teraputico para a alma doente, que precisava fechar feridas abertas para que, cicatrizadas, permitissem 
no enfermo do esprito retomar a caminhada sem fraquezas ou desnimos.
Depois de alguns minutos de silncio, Zacarias tocou o ombro de Saul, que se havia acalmado, e ofereceu-lhe a cuia de gua, que foi adquirida e lhe transmitiu um 
bem-estar nunca antes sentido.
           Agora, Saul sentia sono e, por isso, foi encaminhado para descansar, enquanto que os trs amigos trabalhariam preparando a alimentao que seria entregue 
aos que, no almoo, viessem buscar o que comer.L fora, no mundo das misrias materiais e morais, a noite anterior tinha produzido maravilhas tais, que uma grande 
onda de esperana tomou conta de Nazar.
No se falava de outro assunto. Depois de terem se despedido de Zacarias e Josu, naquela noite inesquecvel, a cena se repetia. Pessoas doentes acordavam sadias, 
paralticos se levantavam, feridas estavam fechadas, cicatrizadas inexplicavelmente. Desequilibrados haviam recuperado a lucidez e a alegria de viver.
Essa notcia percorreu todas as casas e chegou a todos os lugares, ricos ou pobres da cidade, algumas vezes descrita com veracidade e, outras vezes, aumentada pela 
capacidade de fantasiar que as pessoas possuem quando vo contar alguma coisa interessante.
A sinagoga e os fariseus no deixaram de ser cientificados.
              Os asseclas de Pilatos, da mesma maneira, passaram a perceber a ruidosa manifestao do povo nas ruas que, beneficiado pela generosidade daqueles forasteiros, 
falava deles com mais reverncia do que de qualquer autoridade romana ou judaica.
Os sacerdotes e os mais importantes lderes da sinagoga local se interessaram em conhecer os que estavam produzindo tais primores e milagres, pois acreditavam tratar-se 
de embusteiros e encantadores de mentes despreparadas.
              No queriam aprender nada. Somente conhecer de onde vinha aquilo para que pudessem dar um jeito de acabar com aquela fantasia libertadora, graas  
qual o Reino de Deus estava chegando para os miserveis, excluindo os mais importantes representantes da raa eleita.Isso era muito para os espritos mesquinhos 
e orgulhosos. Serem preteridos e verem o benefcio chegar a criaturas feridentas e andrajosas era uma ofensa muito grande que no poderia ficar sem punio.
              Alm disso, falar da chegada do Messias, dizer que o Reino de Deus estava chegando, se aproximava da blasfmia, punvel com dolorosas chibatadas, em 
muitos casos.
Assim, os fariseus se prepararam para que, na noite que se aproximava, pudessem presenciar o teor das pregaes, disfarando-se alguns, mandando espies outros, 
tudo isso feito sem qualquer alarde para que no espantassem os pregadores.
              No entanto, da mesma maneira que os sacerdotes estavam se alvoroando, o povo sofrido e esquecido por eles em suas dores annimas, igualmente se movimentava 
para que, na noite seguinte, mais e mais pessoas pudessem ouvir a mensagem.
              Algumas criaturas mais curiosas chegaram a ir at a estalagem, no perodo da tarde, onde sabiam que os dois estavam hospedados. No entanto, o aviso 
de que ela estaria fechada, conforme Saul havia fixado, alm de afastar os bbados, tambm desestimulou os curiosos que, com razo, entendiam ou imaginavam que todos 
tinham se ausentado, inclusive o prprio dono, j que no era comum que o avarento Saul fechasse seu negcio por qualquer coisa.
Naquele dia, depois que o almoo fora servido aos que haviam ido buscar o alimento, os trs amigos, acompanhados de um Saul j melhorado e mais leve na alma, deixaram 
a taberna, tomando o rumo da periferia da pequena cidade, no encalo da choupana de Clofas, aonde chegaram depois de uma longa caminhada.
              A casinha era um pequeno abrigo, muito pobre e sem recursos mais amplos do que o de uma tapera.
              Ningum estava por perto e, assim, Saul foi entrando devagar pelo terreno, levando consigo os seus novos amigos.
Bateu  porta tosca e escutou um gemido fraco:
- Quem... ....? Quem.... es..t a....?
              - Sou eu, seu irmo Saul - falou com emoo e ansiedade na voz. Posso entrar?
              - A porta est encostada e a casa  sua, meu irmo - foi o que disse a voz rouquenha.
              Abriu-se a passagem e os homens penetraram naquele ambiente envolvido pelo mau cheiro de carne apodrecida.
A misria imperava e a esperana parecia ter esquecido aquele lugar. Clofas, apesar de mais jovem do que Saul, tinha se mantido vivo ate aquele dia to somente 
devido ao seu vigor fsico que se ia consumindo lentamente.
              No havia alimento em nenhum lugar. J fazia trs dias que ele tinha comido pela ltima vez, graas  caridade de alguns vizinhos que lhe atiravam 
coisas pela janela, sem se aproximarem dele.
             Ainda que caminhasse, no tinha nimo para sair da casinha e expor-se  viso do povo, que fugiria certamente de sua aparncia desagradvel.
              Pelos traos que lhe restavam, podia-se entrever a beleza de um rapaz jovem que ia envelhecendo e se acabando, graas  ao da enfermidade.
              Clofas sentiu-se emocionado e envergonhado por estar naquela situao, vendo o irmo, ainda mais acompanhado de tantos outros desconhecidos.
              Ao mesmo tempo, um sentimento de medo se apossou do enfermo que, sem entender o motivo da to inesperada visita, logo falou:
              - Meu irmo, este  meu ltimo refgio, onde me protejo da noite e do olhar de medo das pessoas. No deverei demorar muito para morrer. Eu sei que 
voc comprou esta casinha para mim e, por isso, no tenho o direito de lhe pedir mais nada, alm do que voc j me ofereceu. No entanto, s lhe peo que tenha um 
pouco de pacincia e espere que a morte me liberte destas algemas, pois eu no terei para onde ir se voc vender este terreninho para pessoas que vo querer ocup-lo 
sem se importarem comigo. Por favor, tenha s um pouco de pacincia. Eu rezo todos os dias para que Deus me leve com ele, e o liberte de tanta vergonha, meu irmo... 
- falava com dificuldade o doente.
Percebendo o medo do enfermo, acreditando que os visitantes poderiam ser compradores que viessem ver o terreno, o que o deixava aflito com razo, j que essa no 
lhe seria uma conduta estranha, pelos modos atravs dos quais Saul estava acostumado a agir, antes de se converter. Para Saul, essa suspeita lhe apontava para os 
muitos danos que a sua conduta antiga devia ter causado a muita gente que o temia e dele se afastava para no ser sua vtima.
Tentando aclarar as coisas, Zacarias falou, amistoso:
              - No, Clofas, Saul no vai vender esta casa. Muito ao contrrio. Trouxe-nos aqui para que o conhecssemos e conversssemos com voc.
              - Puxa vida, ento Saul est mais louco ainda do que se quisesse vender esta casinha - falou o doente, mais surpreso do que antes.
- No, Clofas.  que Saul hoje  outro homem. Est renovadoe arrependido de tudo o que deixou de fazer por voc. E para que pudesse i provar isso, pediu que vissemos 
aqui para conhec-lo e para falarmos de Jesus ao seu corao.
              Sem ter como se opor, j que nunca recebia visitas, Clofas aceitou a companhia dos trs e buscou maneiras de coloc-los o mais confortvel possvel.
              E ali, por longo tempo, Zacarias, Josu, Caleb e o prprio Saul desfiaram o seu rosrio de esperanas ao corao doce e resignado de Clofas que, ao 
longo da conversao foi-se entregando ao caminho da esperana, como algum que encontra uma luz no meio da noite.
              Clofas bebia as palavras que lhe caam na alma com a fora dos raios da aurora que se projetassem sobre ele.
              Passou a ter desejo de conhecer aquele homem bondoso que curava os leprosos e, se isso fosse feito para com ele, seguir-lhe-ia os passos por onde andasse.
              E entre as notcias do novo reino e o conhecimento dos inmeros milagres que estavam sendo feitos ali mesmo em Nazar, Clofas pediu que os emissrios 
do Senhor orassem por ele ali mesmo, a fim de que pudesse melhorar. Desejaria muito abraar o irmo Saul sem estar doente, de reencontrar sua vida e seguir adiante, 
no aprendizado do Bem que, agora, estava descobrindo graas ao sofrimento.
              Reconhecia-se devedor da vida, havia se conduzido mal em inmeras ocasies das quais se envergonhava. Todavia, desejava recuperar-se e lutar para que 
sua existncia pudesse terminar, um dia, dando-lhe a sensao da conscincia pacificada.
              E assim, naquele casebre, envolvidos pelo Amor dos dois enviados de Jesus, as oraes se elevaram aos cus para o benefcio de Clofas que, encantado 
com aquela porta luminosa, deixou-se envolver pelo halo de luz e esperana, sentindo-se revigorar inexplicavelmente. A gua disponvel fora magnetizada por Josu 
e dividida em duas partes. Uma seria ingerida e a outra seria colocada na forma de compressas sobre as piores feridas do seu corpo.
              Terminado o encontro, Zacarias comunicou que seria necessrio cuidar do enfermo naquela noite, trocando os panos molhados at que o dia clareasse.
              Ele e Josu poderiam fazer isso sem problemas. No entanto, tinham assumido o compromisso de estarem em Nazar junto dos outros doentes para a propagao 
da mensagem de Jesus.
Nesse panorama, Caleb lhe disse, para surpresa de todos:
- Eu fao questo de ficar aqui.Mas eu sou o irmo que deveria estar ao lado de Clofas -rnspondeu Saul, desejando fazer algo por ele, por primeira vez na vida com 
Amor sincero.
              - Mas voc precisa voltar para a estalagem e acompanhar nossos dois irmos at o local da reunio da noite. No se preocupe, Saul, voc ter muitas 
oportunidades de dar testemunho de sua renovao ao mano querido, o que j comeou hoje, com a sua preocupao em ampar-lo. Eu  que ainda no fiz bem a ningum. 
Quero comear aqui, hoje, por favor.
              E havia tanta sinceridade na voz do velhinho, que todos aceitaram as suas rogativas.
              Providenciaram mais gua, um pouco de comida nas redondezas, compradas por Saul com suas moedas que, agora, eram entregues sem dor no corao e, depois 
das despedidas, partiram para a cidade, pois a tarde j caa e era necessrio preparar-se para a noite que chegava. Na hora combinada, naquele dia, dirigiram-se 
os trs para o local das reunies que, pelos sucedidos nas noites anteriores, se encontrava repleto.
Seria a quarta noite de prdicas pblicas.
              Os que haviam testemunhado os primeiros fulgores da mensagem libertadora, somados aos que iam chegando atrados pelas novas realizaes ditas miraculosas, 
agregados aos curiosos que desejavam estar a par das novidades e apurar a veracidade dos boatos, encorpados pela multido de sofredores e enfermos agoniados, todos 
se aglomeravam no local, uma vez que os que foram at a estalagem para buscar-lhes a companhia ou os conselhos, naquele dia, encontraram-na fechada.
              Alm desses, como j foi esclarecido, alguns fariseus, trajados de maneira singela, ocultos por mantos discretos com os quais se confundiam com o povilu 
e alguns espies dos sacerdotes, l se apresentavam no anonimato com a inteno de colher maiores informaes e, se fosse o caso, estabelecer a confuso no meio 
da multido para denegrir o contedo da mensagem.
              Afinal, aquele Jesus de quem esses homens estavam falando era conhecido da maioria dos fariseus e sacerdotes da cidade, eis que fora criado nas tortuosas 
vielas de Nazar e, certa vez, h no muito tempo, ele prprio estivera na sinagoga da cidade, proclamando-se o enviado de Deus, quando fora escorraado dali, tendo 
os seus seguidores se envolvido em muitas tertlias verbais com os cticos e os bem aquinhoados judeus, que se sentiam prejudicados por uma filosofia absurda que 
equiparava escravos a senhores, dava igualdade aos ricos e pobres, aos cultos e ignorantes.Os judeus primavam pelo estabelecimento de privilgios de casta que procuravam 
manter e ampliar e, por isso, tal compreenso das coisas representava uma ofensa ao que eles possuam de mais sagrado na considerao das relaes para com o Deus 
de suas crenas, sempre parcial e faccioso.
              Assim, as atitudes generosas que atraam os mais humildes no oram consideradas na avaliao do mrito de tal revelao.
             Ali estavam os miserveis com a misria que a prpria conduta mesquinha dos seus pares havia criado e mantinha isolada na dor e sem esperana. E quando 
algum tratava de lhes infundir novo nimo, de curar-lhe as feridas, de propiciar-lhes a possibilidade de acreditarem em um Deus consolador e amigo, os vigilantes 
da tragdia, preservadores da desgraa desejavam impedir que isso se desse, nem que se valessem, para tanto, de condutas ilcitas ou covardes e mentirosas.
              O esprito rigorista, que sempre mata a essncia das coisas, estava a postos para ensombrar a luz com os argumentos da escurido.
              Assim so os homens medocres de todos os tempos. Apegam-se a tradies religiosas ou sociais nas quais encontram a justificativa para os prprios 
privilgios e, quando alguma coisa ameace o seu posto e os seus tesouros, invocam uma imensa quantidade de tolices, com fundamento nessas tradies e costumes produzidos 
pela inrcia dos erros repetidos que a ignorncia sempre favorece, para defenderem a ferro e fogo a manuteno de seus postos e vantagens.
              No entanto, to grande era o povo que se reunia naquele local que os prprios fariseus e os que se achavam ali ocultados ficaram surpreendidos com 
a concentrao de pessoas.
              Haviam estado to ocupados com os interesses mundanos junto de Pilatos, que no se deram conta dos avanos feitos pela mensagem do Reino.
              Agora, aquilo que poderia ter sido facilmente destrudo nos primeiros momentos, ganhava uma publicidade que no era observada nem na sinagoga tradicional 
nos dias de sbado, quando se dava a principal reunio dos judeus, nos seus atos ritualsticos da f cega.
              Isso porque os fariseus reservavam poucos lugares para o povo miservel, os quais nunca eram muito bem-vindos na casa do Senhor por causa de seu mau 
cheiro e da interminvel lamria de seus males.
Ainda que no lhes fosse proibida a entrada, os prprios doentes se sentiam mal recebidos pela maneira como eram tratados pelos mais importantes de sua raa que 
ali se congregavam com suas famlias.Ali, na praa, no era assim.
              A natureza os amparava a todos, igualmente, e a mensagem do Reino de Deus caa no corao das criaturas como a fonte da esperana que amparava nas 
lutas, sem discriminar os menores em favor dos maiores, como faziam os judeus daquela cidade.
              Entre ansiosos e agradecidos, emocionados e curiosos, interessados e desconfiados, a turba se preparava para ouvir a palavra de Josu a quem competia, 
naquela noite, falar do Reino da Verdade.
               Postado no mesmo stio mais elevado da noite anterior e pedindo a todos que pudessem se sentar para melhor escut-lo, Josu tomou a palavra e saudou 
a todos, em nome de Deus e de Jesus, o que se tornara uma maneira padro em suas prdicas, para que ningum imaginasse que estavam ali por eles prprios, seno que 
eram, apenas, enviados de Deus e que falavam das maravilhas do Seu reino conforme Jesus os havia ensinado.
              - Vares de Israel, so chegadas as derradeiras horas em que o mundo ser abalado nas suas estruturas mentirosas e falveis.
Temos produzido a ns mesmos, na usura de nossos sentimentos, na vaidade de nossos espritos, este cortejo de feridas e dores que no podemos acreditar tenham sido 
criadas por Deus, que nos ama acima de todos os nossos defeitos.
Olhando para nossas ruas, encontramos o atestado de nossa indiferena na figura das mes sem alimento para seus filhos, homens sem trabalho digno, prostitutas e 
mulheres desiludidas no afeto, abandonadas sob o fardo da prole infantil.
              Do triste testemunho do que somos estas crianas esqulidas e sem vio que correm atrs dos mais bem vestidos a suplicar-lhes o bolo ou a ateno.
              Da mesma maneira que a mostarda  produzida por uma rvore especfica, que as tmaras nascem nas tamareiras, que os figos so encontrados nas figueiras, 
se olharmos para os frutos da desgraa que esto pendurados em nossos olhos, veremos a natureza da rvore que os tem produzido em abundncia.
Se percebermos quanta infelicidade ronda o interior dos lares, na insatisfao, no desentendimento familiar, na carncia de afeto sincero poderemos, igualmente, 
observar o gosto azedo da fruta que temos engendrado com o contedo de nossos conceitos.
              Quando a misria de muitos se levanta ao lado da ventura material de to poucos, tal discrepncia aponta para o erro de nossas filosofias, tm procurado 
nos fazer inimigos uns dos outros e adversrios cintos e mesquinhos.
              A todos os que escutam as mensagens da lei pergunto: - onde esto os lenos que secam lgrimas, as gotas de blsamo que tratam  dores, a esperana 
para os esquecidos do mundo?
           Todos sabemos onde est a sinagoga de nossas santas tradies , no entanto, no sabemos onde est o amor que nos trataria as chagas.
             A falncia de nossas estruturas no  algo que precise de processos de apurao. As provas esto expostas aos nossos olhos, aqui mesmo neste local. 
E a sentena natural  a de que tem sido intil a manuteno das mesmas estruturas, pois elas nos afastam uns dos outros como inimigos ou, o que  pior, como falsos 
amigos.
           Por isso, entre os interesses de casta e da moeda, nos perdemos uns dos outros acreditando que Deus  isto o que dele temos feito.
             A vocs que esto aqui, exibindo as chagas  luz do mundo, se a porta dos homens lhes parece trancada, a porta do cu est aberta.
              A vocs que esto aqui, ocultos da verdade para espreitarem na escurido de suas intenes mesquinhas o momento adequado para atacarem como lobos miserveis, 
digo que j basta de vtimas.
              Aqui no estamos para combat-los, pois temos amor por todos vocs. Estamos, apenas, falando de uma nova ordem que se est instalando para que todos 
os homens possam ser integrantes do banquete das bnos que Jesus nos fornece, como embaixador da Verdade, enviado de Deus em nosso caminho de erros.
              A palavra de Josu era um estrondo nos ouvidos de todos. Quantos ali presentes desejaram falar sobre tudo isso e tiveram medo de pronunciar as mais 
brandas advertncias por temerem pela prpria vida.
Quantos se deixavam levar por sonhos nos quais, um dia, tais verdades poderiam ser reveladas aos ouvidos de todos para o escrnio dos poderosos e dos indiferentes 
dirigentes da comunidade.
              No entanto, isso era estilete no peito das autoridades religiosas ali representadas por esses elementos ocultos, fariseus ou enviados dos sacerdotes, 
que eram obrigados a ouvir calados, a fim de que no fossem identificados no meio do povo, pois, nesse caso, estariam correndo perigo tal o volume de pessoas ali 
presentes.
              A prudncia fazia com que a coragem se ocultasse nas dobras modestas de tnicas rotas com que se trajavam e que engolissem aqueles conceitos que, mais 
do que opinies, eram verdades.
Eles mesmos podiam ver isso nas reaes dos que escutavamas exortaes de Josu. O povo vibrava de euforia, em apoio s suas idias, ainda que elas no tivessem 
o objetivo subversivo.
              O orador estava, apenas, revelando os contrastes existentes, frul< > dos defeitos intrnsecos daquele tipo de estrutura social, para que, depois, pudesse 
revelar o reino de Deus aos coraes amargurados.
No entanto, Josu no o fazia por si mesmo.
              Naquele momento, como que ligado por fios dourados de energia, o enviado do Senhor se achava inspirado pela figura majestosa e modesta do Mestre distante 
que, conhecendo a dureza das pessoas de Nazar, desejava falar-lhes de maneira a que pudessem escutar a mensagem do seu Evangelho, ainda quando as mesmas criaturas 
no o tivessem recebido pessoalmente.
              Por isso, ligava-se ao esprito de Josu que, no verbo incisivo da Verdade que desperta, falava de modo a assustar-se a si prprio, eis que nunca imaginara 
proferir tais conceitos de modo direto.
No entanto, a mensagem continuava para que todos escutassem.
              - De nada adiantar se ocultarem em vestes miserveis, pois a fora da Verdade os descobrir onde estiverem e desnudar as suas intenes pecaminosas 
e vis. Aqui estamos  vista de todos. A mensagem do Reino de Deus no se oculta na escurido ou no anonimato para melhor planejar um meio de atingir a integridade 
dos que a escutam.
              Apresenta-se como cordeiro no meio dos lobos, como pomba no meio das serpentes para que lobos e serpentes igualmente possam compreender-lhe a doura 
e se encaminharem para o bom caminho.
              Estamos aqui para dizer-lhes a todos, filhos de Nazar, que a nova era est fundada, na qual h espao para os seus sonhos se transformarem em realidade, 
para as suas alegrias serem mais do que fugazes momentos que so levados como o p na ventania.
              O reino de Amor  aquele que se oferece aos aflitos e desesperados.
              A sua mensagem  a do perdo das ofensas, da compreenso mtua, da fraterna conduta e do servio no bem de todos. A sua luta  contra os defeitos que 
existem em nossos coraes, contra os inimigos escondidos nas tnicas rotas de nossos vcios, contra o interesse pessoal nas coisas de Deus, contra a misria e o 
medo.
              Os que se deixarem tocar pelo verbo divino podero sentir a fortaleza interior nas horas do testemunho. No  um reino que venha com aparncias exteriores, 
com faustos, com poderes mundanos, todos estes, responsveis pelas nossas misrias como acabamos de afirmar.O Reino de Deus se apresenta com simplicidade aos coraes, 
medindo a capacidade de Amar, de ajudar os que sofrem e de trabalhar para que a nova estrutura de nossas vidas possa produzir o bem ao maior nmero de pessoas.
           Muitos vieram aqui em busca de curas fsicas. E eu lhe afirmo que o Reino de Deus no se preocupa com corpos que morrem, mas com o esprito que sobrevive 
sempre. No imaginem que estamos num movimento de renovao de carnes. Estamos em plena vigncia da era do esprito, onde as coisas da alma valem muito mais do que 
as aparncias do corpo. No mais de ritos mentirosos, de rezas interminveis e insinceras, de condutas aparentemente virtuosas com as quais dilapidamos o patrimnio 
dos aflitos.
            As nossas preocupaes devem ser com as doenas de nosso ntimo, estas muito mais difceis de combater e que nos pedem a isciplina da vigilncia diria.
              Queremos a almofada, mas oferecemos pedras aos demais. Desejamos remdios que curem nossas doenas, mas, aos outros, oferecemos muletas ou catres para 
que sigam nas suas misrias e enfermidades.
Desejamos o privilgio do Reino de Deus, mas oferecemos a lapidao aos fracos que caram no erro.
              Tudo isto demonstra a deficincia do que somos ao mesmo tempo em que mostra como estamos equivocados no que diz respeito  natureza de Deus.
              Acreditamo-lo irascvel, intolerante, quase mau na observncia rigorosa de mesquinhos rituais. E, no entanto, eu lhes afirmo que Ele  como o mais 
amoroso dentre os amorosos pais de famlia. A todos conhece, a todos ajuda e a ningum despreza. Todos podem senti-lo pessoalmente, todos podem receber dele as benesses 
de seus cuidados, pois mesmo quando estamos repousando, o Criador segue trabalhando.
Onde est o seu reino? - perguntam muitos.
No corao das criaturas - responde Jesus.
Onde esto seus exrcitos? - querem saber os iludidos cultores do poder e da supremacia humanas.
Esto nos que trabalham pelo bem do prximo.
Quais so as armas de seus soldados?
Os gestos sinceros de amor ao semelhante.
Qual  o prmio pela vitria?

A paz na conscincia e o Amor no corao.
              Estes so os requisitos para sermos admitidos nas suas fileiras Quando nossos espritos se dispuserem a beber dessa fonte divina, nossos males cessaro, 
nossos corpos sararo, nossas almas estaro curadas de seus males.
              Por agora, o Reino de Amor cura as pessoas para que possam ver as maravilhas que as esperam.
              Dia vir em que as prprias pessoas faro esse milagre por si mesmas, j que todas possuem a fora criadora em seus coraes.
              Que haja paz em todas as almas e que, mesmo para aqueles que aqui, hoje, esto ocultos por medo da Verdade, posso afirmar que o Reino de Deus os aguarda 
tambm e que a Verdade no se ocultou deles.
              Com essas palavras de f e de coragem, Josu deu por terminada a preleo da noite, como se doce hipnotismo o tivesse envolvido e guiado as argumentaes 
e a fluncia assustadora das palavras.
              A faz-lo, encontrou o olhar luminoso de Zacarias que o recebeu com um abrao de amizade e admirao sincera, prontos para as realizaes fraternas 
junto dos que sofriam.
              Saul estava igualmente embevecido com tais conceitos, tanto mais agora que entendia com clareza as necessrias hipocrisias humanas por ter participado 
delas por tanto tempo.
Os que os ouviam, extasiados e igualmente seduzidos pelo poder magntico do orador, se encontravam ou abertos para o novo reino ou confundidos em suas idias pequenas 
acerca das antigas tradies, cuja conduta para com o povo, no resta dvida, eram exatamente aquela que Josu havia desnudado ali, perante todos.
              Os que se pensavam incgnitos observadores, viram-se surpreendidos pela revelao indireta de sua presena, sem coragem para responder a tais referncias, 
para que no se fizessem conhecer nos seus desejos clandestinos e para que no atestassem a superioridade das percepes dos que, ali, representavam a nova filosofia 
de viver.
              Afim de evitarem maiores problemas, fariseus e espies, em sua maioria, se dispersaram rapidamente, enquanto que alguns poucos tiveram a coragem de 
permanecer para observarem o que viria depois.
              Assim, puderam constatar, estes que continuaram, a fileira dos desesperados que os dois amigos, secundados por Saul, que organizava

duas longas filas, atendiam com desvelo e carinho, no importando a sua doena.
          Ali estavam leprosos, desequilibrados, loucos, feridentos, velhos ticos, crianas corrodas pelos vermes, que os dois amigos abraavam ii abenoavam em 
nome de Jesus.
                Naquela noite, por causa da presena das autoridades tmcondidas, parece que o Mundo Invisvel esmerou-se ainda mais na realizao de prodgios, pois 
que inmeros aleijados abandonaram suas muletas na frente dos olhos emocionados dos seus familiares e dos desconhecidos que se iam convencendo da superioridade das 
exortaes evanglicas.
            Alguns, vitimados por doenas cruis e de longa data se viram, qualmente, aliviados, cegos recobraram a viso ao toque das mos de ambos os emissrios. 
No entanto, a fila era longa e no havia tempo para exaltaes indevidas  personalidade dos dois trabalhadores. Era necessrio dar lugar ao prximo doente ou desesperado.
              E por mais de duas horas os dois homens se puseram a atender os aflitos, para os quais, conforme eles mesmos sempre diziam, o Reino de Deus havia chegado.
              Mais de um dos fariseus que ficaram ali foi tocado verdadeiramente pelas realizaes daqueles homens humildes e pela mensagem de esperana.
              Os que se ausentaram levavam consigo a idia de se vingarem de tais perigosos subversores da ordem e dos costumes.
              Os mais arraigados aos compromissos materiais se amedrontavam diante de tais conceitos universalistas, o que os fazia tremer ante a simples idia de 
se fraternizarem com a malta dos malcheirosos e maltrapilhos.
              Quando todos foram atendidos e o local se esvaziou, um desses fariseus se apresentou a Josu e Zacarias, revelando-se na sua condio de oculto observador.
              - Senhores - disse Jochabad - a sua filosofia me encantou a ponto de me apresentar a vocs confessando a minha condio de fariseu oculto no meio do 
povo, j que tinha errada idia a respeito das suas intenes. Agora vejo que se trata de uma mensagem libertadora e que, ainda que conflite com nossos velhos conceitos, 
tem a finalidade de renovar nossos costumes e melhorar nossas vidas.
              A surpresa de tal revelao acabou por confirmar aquilo a que o discurso de Josu havia feito indireta referncia.

              Ambos acolheram Jochabad com simpatia e louvaram a Deus sua compreenso.
No entanto, Jochabad continuou, preocupado:
              - E se me arrisquei a ficar aqui at o final, no  s porque; simpatizo com os conceitos que foram colocados nesta noite.  porque temo pela sua segurana 
a partir de agora. Conheo os fariseus e os sacerdotes que sabem, com muita habilidade, tramar acidentes fortuitos, ocorrncias casuais que destruam os seus adversrios 
sem que o sangue lhes tinja as mos.
              Por isso, neste momento, os outros de minha casta, que se foram, devem estar programando alguma dessas casualidades para que elas venham a ferir o 
seu trabalho.
              Da, se no se ofenderem com a minha intromisso, gostaria de convid-los a que passassem a noite em minha casa, aproveitando este momento de escurido 
em que estamos durante o qual os prprios fariseus esto se organizando para atacar  sua maneira.
Ouvindo-lhe o alvitre, Zacarias ponderou:
              - Mas ser isso necessrio? Afinal, no encontramos nenhum deles a no ser o senhor, que nos est alertando. Ser que se incomodaro com o que estamos 
fazendo?
Tomando a palavra, Saul respondeu:
              - Eu conheo bem essa raa perigosa e matreira. Eles bem que podero estar fazendo isso sim. E como disse nosso amigo, havia outros por aqui que se 
foram. Por isso, creio que  melhor que nos abriguemos em outro local, se isso puder ser feito.
              Aliviado em sua ansiedade de proteger os dois homens pelo apoio de Saul, Jochabad acrescentou:
              - Mesmo contra o seu Mestre foi tramada a sua morte quando esteve entre ns h no muito tempo!...
Os judeus no o aceitam pelos mesmos motivos que temem a sua verdade aqui proferida a todos os cantos. E Jesus, quando aqui esteve, permaneceu apenas na sinagoga, 
sem ter realizado feitos de vulto no meio do povo.
Seus discpulos foram afrontados pelos mais arrogantes cultores da lei e era de admirar a maldade dos prprios sacerdotes planejando a maneira de punir os arrogantes, 
como eles chamavam os seguidores de Jesus.
              Mas, se aceitarem minha oferta, devem ir rpido para que no sejam surpreendidos no meio do caminho.

Minha casa fica em ruela e possui duas entradas, pois fica numa ruina.
            A principal est na rua da sinagoga e  facilmente identificada por uma grande estrela desenhada no umbral principal.
          Na sua lateral, bem ao fundo, h pequeno porto que d passagem para a rea interna onde encontraro um ptio arborizado no qual estarei sperando para 
lev-los at seus aposentos.
            Peo que tomem rumo diferente do meu, pois podemos estar tendo observados.
             Assim, Saul, encaminhe-os pelo contorno do horto, que  um caminho mais sinuoso e que acaba passando nas proximidades desse porto discreto e, quando 
estiverem por ali, empurrem a porta que ela :>star destrancada e passem rpido.
            Identificando o local de sua residncia com facilidade, Saul se mostrou familiarizado com o caminho e com o local para onde deveriam seguir e, usando 
de sua antiga astcia, agora a servio do bem, tomou os atalhos mais inesperados, seguindo por caminhos pouco freqentados, conduzindo Zacarias e Josu at que chegaram 
ao local combinado e puderam ser encaminhados por Jochabad ao interior de seus modestos, mas confortveis aposentos, onde fora colocado alimento simples, mas abundante, 
para que pudessem matar a fome que os deveria estar castigando, quela hora da noite.
E enquanto a noite caa sobre Nazar, cumprindo os mais tristes vaticnios de Jochabad, misterioso incndio irrompeu na modesta estalagem de Saul, onde os adversrios 
da verdade imaginavam que estavam instalados os pregadores, levando ao desespero os que ali dormiam que, aflitos e surpreendidos pelas chamas, abandonavam para trs 
todos os seus pertences e corriam para a rua com os trajes de dormir, enquanto o fogo ia consumindo as dependncias da estalagem sem que ningum soubesse explicar 
como houvera comeado.
              No dia seguinte, ao acordarem depois de sono profundo, receberam a notcia de que algo muito srio havia acontecido aquela noite.
              E para surpresa de todos e dor mais aguda de Saul, foram informados de que s havia cinzas e paredes derrubadas naquilo que havia sido a taberna onde 
estavam instalados.
              Procurando consolar o amigo, Zacarias e Josu se acercaram dele, num abrao fraterno pelo qual apresentavam as desculpas por tal transtorno em sua 
vida pessoal.
              Emocionado com o gesto de carinho e de desculpas, Saul lhes respondeu:

- Se  preciso entrar no reino de Deus, que seja com a renncia ao reino da Terra. Se essa fogueira pudesse ter queimado ao meno:. parte de meus erros, eu j a teria 
acendido muito antes com minhas prprias mos. Mas se apraz a Deus que isso acontea, que o Senhor saiba que. aceito a perda como quem se liberta do peso de seus 
equvocos. Na verdade, eu tinha uma estalagem, mas era solitrio.
              Graas a Jesus, agora, eu no tenho mais a taberna, mas tenho amigos a quem amo com sinceridade e de quem recebi a luz da nova vida para minha alma.
Do que mais eu preciso?
E a renncia de Saul era digna de emocionar os coraes.
               Enquanto o povo todo corria a ver a fumaa se elevar dos restos das instalaes incendiadas, os trs homens agradeceram a Jochabad a proteo daquele 
dia, aceitaram-lhe o convite para voltarem a se abrigar ali por mais algum tempo e saram antes que a manh estivesse alta, para voltarem a casa de Clofas, onde 
os aguardava Caleb e o leproso sob seus cuidados.
      
      
      
               Em Nazar, os fariseus exultavam com o ocorrido, eis que julgavam ter acabado com os seus adversrios no incndio, apesar de no terem sido encontrados 
corpos queimados.
              Poderiam ter sido transformados em cinzas, poderiam ter fugido do incndio e deixado a cidade, poderiam ter entendido a mensagem de que no eram bem-vindos, 
poderiam ter sido expulsos pelo dono do negcio, por terem sido considerados os que vieram lhe amaldioar o progresso material.
              Muita coisa poderia ter ocorrido com eles, pensavam os fariseus e sacerdotes, imaginando que estariam livres de suas presenas.
A estas alturas, Pilatos j houvera sido informado por eles e por seus informantes pessoais que Nazar estava naquele clima de alvoroo, com os profetas milagreiros 
falando de Jesus e curando em seu nome, com os fariseus revoltados com estas coisas, com o incndio inexplicado, mas presumivelmente criminoso, o que lhe dava muito 
a pensar e a se preocupar.
Os fariseus, no dia seguinte, procuraram envolver Pilatos no problema religioso que estavam tendo, falando que o pregador afrontara as tradies de sua f e que 
se lhe fosse permitido, poderia desencadear

              Uma revolta contra Herodes, oTetrarca da Galilia, o que poria em risco ali mesmo o domnio imperial.
Naturalmente que Pilatos no se deixou levar por esse quadro . Limitando-se a dizer que ainda no via problemas que precisasse solucionar com a priso dos acusados. 
No entanto, uma vez que estavam ali falando em nome de Jesus, Pilatos iria convoc-los a que explicassem suas idias pessoalmente a ele prprio, como forma de avaliar 
o seu perigo pessoalmente.
              Deste modo, no dia seguinte que amanheceu com os restos carbonizados da estalagem de Saul, foi expedida uma ordem de conduo dos dois pregadores e 
seus mais prximos colaboradores at a sua presena, no como criminosos detidos, mas como pessoas a norem interrogadas pela autoridade maior dos romanos no governo 
daquela provncia.
             S que os soldados do governador no sabiam aonde buscar os procurados, j que a estalagem estava consumida e no havia indcio do paradeiro dos mesmos.
             As patrulhas passaram por todos os locais provveis pedindo Informaes, mas ningum sabia aonde tinham ido.
              Em realidade, ningum sabia onde ficava a casinha de Clofas, onde todos estavam reunidos para agradecer a Jesus a cura maravilhosa do leproso que 
ali morava, sob os auspcios de Caleb, ocorrida durante a noite de viglias e oraes.

                        to logo chegaram ao local onde os dois amigos haviam ficado no dia anterior, os trs homens foram surpreendidos pelas novidades generosas 
que, mais uma vez, tambm ali haviam se manifestado.
O enfermo havia se recuperado quase que miraculosamente.
              Sua epiderme apresentava sinais de rpida regenerao e o seu estado geral se encaminhava para a plena capacitao para a vida normal.
No  necessrio dizer da emoo de Clofas e de Saul quando puderam se reencontrar na manh do novo dia.
              Um havia perdido praticamente tudo que houvera construdo em sua vida, depois do incndio criminoso, enquanto que o outro estava recuperando tudo o 
que havia perdido desde que se apresentara enfermo, o que lhe havia custado a vida, a paz, a harmonia do pensamento e o equilbrio do afeto.
      
      
              Assim, leitor querido, possa voc compreender o que Jesus sempre afirmara quando convidava os homens para se submeterem ao seu jugo.
              Asseverava que tal elo que ele oferece ao candidato ao reino de Deus  muito mais leve e o fardo mais suave do que quaisquer outros que o mundo possa 
dar a qualquer um dos vivos na carne.
              Diante de nossos olhos, temos dois irmos encarnados. Saul, aliado s convenes humanas, vivendo de acordo com suas exigncias e hipocrisias. Homem 
cheio de defeitos e que,  vista das convenincias sociais era considerado criatura normal, dentro dos padres esperados dos que caminham sob as algemas do mundo.
Clofas, seu irmo, da mesma maneira se havia deixado levar

pelas aventuras da vida, unindo-se a mulher que julgava ser a efetiva companheira de sua jornada, realizando ao seu lado tudo quanto fosse necessrio para que estivessem 
diante do futuro promissor, nas exigncias de progresso. No entanto, vitimado pela dor fsica, maneira de reerguimento do esprito endividado na Terra, quedou-se 
abandonado, no mais completo isolamento.
             Ambos receberam do mundo o jugo e o fardo que buscavam junto as criaturas.
             Saul, despojado de sua estalagem por um incndio criminoso, e clofas, atirado  margem da vida por uma criminosa indiferena.
              E todos estes crimes foram cometidos por pessoas que apresentavam argumentos justos para realiz-los.
              Os judeus temendo a nova ordem filosfica que se instaurava com aquela pregao de igualdade e amor aos sofredores, tentavam proteger-se aniquilando 
os seus divulgadores.
             A esposa, o irmo e os demais conhecidos de Clofas temiam a enfermidade que se instaurara nele, sem aviso, afugentando-os pelo temor de contrarem 
a peste e perderem a sade e a considerao dos outros.
O primeiro era o temor da reforma dos costumes. O segundo era o temor da doena.
              Esse  o jugo do mundo, que oferece o que os homens medocres possuem para dar quando ameaados: agresso ou isolamento.
No entanto, diante de dores que os prprios homens produzem, se levanta o jugo que Jesus oferece s criaturas:
              Saul recupera-se da culpa em abraando o irmo que havia abandonado por medo de sua doena, enquanto que Clofas obtm a cura para a enfermidade, que 
o devolve  vida normal, para o prosseguimento de suas lutas atravs de outros princpios de vida.
              Ao contato com as coisas do mundo: sofrimento, remorso, abandono e crime.
              Ao contato com as foras do Amor Divino: regenerao, cura, reerguimento, perdo e novos ideais a serem concretizados.
Por isso Jesus era to claro ao dizer a todos ns:
              "Vinde a mim, todos vs que sofreis e que estais sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vs e aprendei de mim que sou manso e humilde 
de corao e encontrareis o repouso de vossas almas; porque meu jugo  suave e meu fardo  leve". (Mt. 9, 28 a 30)
Assim, diante de problemas que estiverem  sua frente, observe

o que eles tm a ensinar e entenda que, muitas vezes, desejar o mundo deles  escolher o jugo e o fardo que o mundo oferece.
A gravidez inesperada ou indesejada que pode fazer pensar em abortar; o problema financeiro que pode aconselhar a desonestidade; a enfermidade sem cura aparente 
que pode sugerir o suicdio ou a eutansia; a dor emocional que pode apontar para o revide cruel como soluo; a injustia recebida que pode solicitar a revolta 
imediata e agressiva - tudo isto  interpretao equivocada que redundar em mais sofrimento, pois representa as solues covardes que a mundanidade, muitas vezes, 
aconselha.
No entanto, no se deixe levar pelo canto das sereias, pois ningum consegue fugir aos problemas de que necessita para o crescimento e pagamento de seus dbitos.
Aceite o jugo suave que Jesus oferece.
              Criar a criana no desejada, com amor, poder estar sendo o gesto que lhe garantir todas as venturas do futuro e, muitas vezes, o porto seguro e 
o ombro amigo na solido da velhice.
              Suportar os reveses financeiros possibilitar o reencontro com a humildade, que ensina sobre a necessidade de aceitar qualquer tipo de trabalho a fim 
de reconstruir a vida de compromissos.
A enfermidade dolorosa representa desafio que ensina a valorizar a vida e a companhia de pessoas que no valorizvamos e com quem nem nos importvamos, tornando 
o enfermo mais sensvel e melhorando as virtudes de bondade que j existem em seu esprito, fazendo com que reavalie os caminhos que trilhou em toda a sua vida para 
reajust-los.
A compreenso das fugas e traies afetivas, suportando-lhes a dor sem tratar de expandi-las atravs de gestos to inferiores quanto os que lhe foram desferidos, 
permitir meditar melhor sobre os prprios erros da emoo, a maneira pela qual voc mesmo encarou as realidades do afeto, a indiferena para com as necessidades 
do outro, o modo de ser distante e descompromissado com que a unio era considerada, a rotina que se deixou transformar em monotonia, j que nunca h apenas um culpado 
para tais situaes.
              A injustia, aceita dentro da resignao que compreende que a revolta no est nas leis com que Deus construiu o Universo, permitir perceber o quanto 
so dolorosas para os demais as posturas arrogantes, indiferentes, prprias do descaso com que ns mesmos, muitas vezes, tratamos os outros. Sentir-se injustiado 
na vida, ainda que se esteja tentando coibir ou corrigir tal situao atravs dos meios legais, significa amadurecer a considerao pessoal pelos problemas alheios, 
os mesmos que no escutvamos adequadamente quando tnhamos seus casos sob as nossas vistas profissionais, os mesmos que ficavam

porando horas na fila para serem mal atendidos por nossa indiferena pessoal, os mesmos que encontravam em ns a parede que se supunha  realizao de seus anseios 
por simples capricho de no focarmos o carimbo em uma folha de papel por causa do final do espediente burocrtico.
             Assim, prezado leitor, em todos os momentos difceis da vida, permita que o jugo leve o ensine com sabedoria a corrigir-se, de tal maneira que isso 
 o convite a uma nova oportunidade, a uma chance do acertar, depois que se aprende a lio com humildade e resignao, fora e coragem.
              No procure o caminho da fuga, que parece fcil, pois o peso que o mundo lhe reservar no ser pequeno nas conseqncias advindas do seus atos impensados.
              Herana de tais comportamentos esto sob as nossas vistas, na figura de enfermidades crnicas e cruis, deformidades orgnicas, frustraes e perturbaes 
mentais e afetivas, obsesses e crises sem explicao coerente nos manuais dos estudiosos.
              Como Saul, aceite o revs e encontre os motivos que enriqueam sua alma, como ele encontrou os novos amigos que lhe seriam, da por diante, o tesouro 
maior, ao lado de Jesus e de seu irmo.
              Como Clofas, submeta-se com Amor aos testes da vida, sem revolta e sem blasfmias porque, no momento em que tiver aprendido tudo o que aquela lio 
lhe oferecer, voc j estar preparado para super-la e, ento, ela passar naturalmente.A emoo dos dois irmos que se reaproximavam era indescritvel. Saul pedia 
perdo por tudo o que havia feito ou deixado de fazer.
              Clofas lhe agradecia ter trazido Zacarias e Josu at ali, tendo feito por ele a nica coisa que lhe trouxe o amparo definitivo e transformava o perdo 
das ofensas em agradecimento sincero, esquecendo qualquer conduta mesquinha de Saul.
              Saul convertia a culpa e o arrependimento em arrebatamento de alegria por se ver socorrendo seu desditoso mano, perdoando-se a si prprio da sua mesquinha 
conduta anterior.
              E to logo se recuperaram da emoo, os dois se voltaram para Zacarias e Josu, a quem buscaram em lgrimas de gratido e felicidade que h muito tempo 
no vertiam de seus olhos secos ou cansados de chorar de dor e sofrimento.Ajoelharam-se diante dos dois servidores do Bem e desejaram submeter-se a eles, de corpo 
e alma.
               Falando pelos dois, Josu procurou esquivar-se de tal reverncia e, para demonstrar que ambos nada lhes deviam, os dois enviados do Mestre, seguidos 
por Caleb, ajoelharam-se igualmente na pequena tapera, acrescentando:
- Ofereamos o fruto desta hora ao Pai que nos ama e a Jesus que nos entrega esse Amor, dando-nos a oportunidade de corrigir nossos erros pelos caminhos da bondade 
- falou Josu.
              Todos ns somos espritos defeituosos e se h alguma virtude que nos merea a reverncia de nossa genuflexo, esta est em Jesus, unicamente.
              Assim, que o Senhor receba a gratido de nossos coraes e a fidelidade de nossas vidas, para sempre. Assim seja.
              E todos, igualmente, repetiram essa expresso de compromisso com aquilo que a prece lhes havia gravado na alma sincera.
Levantaram-se e se abraaram.
              Nas redondezas, Saul conseguiu adquirir algumas roupas para o irmo, j que sempre que saa de sua casa, o ex-comerciante levava consigo uma bolsa 
com o grosso de seu dinheiro, o que lhe permitira estar ali sem muitas dificuldades para as emergncias do dia-a-dia, j que, com essa medida, salvara seus recursos 
do fogo.
              To logo as coisas se acertaram, Josu e Zacarias comearam a ponderar a necessidade de deixarem Nazar, diante dos acontecimentos dos ltimos dias.
              Haviam considerado que muito ali j se havia plantado e que outras comunidades poderiam ser visitadas ao longo do caminho de regresso at Cafarnaum, 
onde entregariam ao Mestre o relato de seus dias de pregao.
              Tanto Saul e Caleb, quanto Clofas no possuam mais nada na vida e, por isso, ansiavam seguir com Zacarias e Josu ao encontro do Cristo, pelos caminhos 
do mundo.
E os dois mensageiros no viam essa idia com maus olhos.
Apenas ponderavam da necessidade de estabelecerem uma comunidade pequena nas cercanias da cidade, onde os novos adeptos da ordem se reunissem para se ajudarem mutuamente 
e para falarem de Jesus e de seus ensinos.
              Assim, considerando a idade avanada de Caleb, os quatro homens aventaram a possibilidade de que ele ali permanecesse paraq fosse o ponto de referncia 
dos adeptos da nova ordem, espalhando benefcios aos que sofriam.
             Caleb, que desejava seguir o grupo, mas sabia de suas limitadas foras fsicas para to longa jornada, viu-se seduzido pela perspectiva que, ali em 
Nazar, estar colocado como um representante avanado da lloa Nova. Contudo, ponderou:
             - Sim, eu entendo que a velhice me impede os grandes desafios que meu corao gostaria de afrontar. Todavia, at hoje sempre fui um honem miservel, 
sem nada nesta Terra de Deus e continuarei sendo,
eis nada possuo de meu que possa oferecer como abrigo e refgio, um qualquer recurso que me permita amparar os outros a no ser a minha vontade firme e o meu carinho.
Isso tambm era verdade,  vista de todos.
             Assim, sem esperar que o silncio casse por completo na improvisada planificao dos destinos que todos ali realizavam, Saul tomou a palavra e disse, 
quase feliz, para encantamento de todos os que o ouviam:
             - E esta choupana, Caleb,  muito pobre para os seus sonhos a fim de que voc possa morar nela? Que tal tornar-se o seu novo proprietrio?
Ningum ali tinha pensado nisso.
Era verdade que Saul a possua como dono e, j que no pretendia continuar mais em Nazar, poderia deix-la para quem quisesse.
Surpreendido por tal oferenda, Caleb refugou:
-        Ora, homem, isso  um palcio para minhas necessidades. No ntanto, nem isso eu posso comprar, j que nada possuo, como falei.
              - Pois ento, de hoje em diante, voc  o novo proprietrio -confirmou Saul rindo-se da expresso aparvalhada do velhinho emocionado. Voc ser o seu 
dono e aqui se acender o candeeiro da esperana. O seu nico compromisso  acolher os que Jesus mandar, com o seu carinho e a vontade de obedecer a Deus. O terreno 
 grande. D para plantar, para construir mais outras casinhas de tal maneira que, se quiser trabalho, ele no lhe faltar. Vou deixar papis com voc que atestaro 
ser o novo proprietrio, para que possa apresentar perante qualquer autoridade legal. E, com isso, voc me ajuda a liberar-me de pesos que no mais desejo possuir 
nesta localidade.
              Todos os quatro homens se admiravam da maneira espontnea e sincera com que Saul se manifestava naquele momento e aplaudiram a sua iniciativa.
Lembrando-se das necessidades de Caleb, acrescentou:E lhe deixarei algum recurso em dinheiro para que possa ajud lo
 a comear a obra do Senhor por estas bandas. No  muita coisa, mas  muito mais do que voc tem agora, nas dobras de suas roupas falou sorridente e amistoso.
              Assim acertaram os homens que iriam deixar as coisas quando Clofas se lembrou de pedir algo que era justo fosse atendido:
              - Irmos, agora que estamos combinando partir daqui para a continuidade da jornada, me ocorre que do mesmo modo que Saul me trouxe as bnos desta 
hora, eu desejaria lev-la at uma pessoa a quem muito devo e que no gostaria de deixar sem ajuda antes de partir.
               verdade que ela me abandonou, que me esqueceu na doena, que nunca mais procurou se aproximar de mim. No entanto, mesmo agora, que entrego minha 
vida a Jesus e no pretendo mais restabelecer qualquer vnculo afetivo ntimo com ela, no poderia deixar de tentar entregar  sua alma a mensagem libertadora que 
me salvou a vida.
              Precisaria da ajuda de vocs para levar  minha companheira a fonte da esperana, do mesmo modo que ela brotou aqui, ontem, para sempre.
Zacarias, Josu, no tenho direito de pedir nada, mas ouso erguer a minha palavra para pedir por uma irm necessitada.
Ajudem-me a tentar resgat-la da misria moral na qual se meteu.
              Ela se encontra em uma casa de mulheres perdidas, no muito longe daqui, afastada da cidade, pois em Nazar as aparncias prevalecem, ainda que a prostituio 
campeie na escurido dos seus becos quando a noite cai ou quando o governador ou nosso rei Herodes passam por aqui.
              Escutando-lhe a sinceridade do pedido e uma vez que a sua rogativa se dirigia para a recuperao de uma alma que estava chafurdando na lama dos sentimentos 
frustrados, Zacarias e Josu aceitaram dirigir-se ao local onde a mulher estava.
              Tomaram o caminho, deixando Caleb na casinha, dando os primeiros ajustes e arrumaes, depois de tanto tempo sem cuidados mais especficos.
              Depois de uma caminhada no muito longa, chegaram prximos de uma casa mal conservada, onde se abrigavam criaturas desvalidas da sorte que se dedicavam 
s facilidades do corpo para homens que desejassem emoes fceis dos sentidos, sem o compromisso do afeto verdadeiro.
              A presena de homens por ali no era de assustar, motivo pelo qual ningum se preocupou quando os quatro se aproximaram, batendo  porta.Uma mulher 
mal arrumada e com ares de vulgaridade veio atender, imitando no seu linguajar igualmente vulgar, o que  que desejavam ilustres homens naquela casa de mulheres. 
              Clofas tomou a palavra e disse:
- Gostaria de saber se minha mulher est a.
- E quem  voc, meu rapaz?
- Eu sou Clofas, que morava no caminho das trs pedras.
             - Voc  o pestoso? - gritou a mulher, apavorada, querendo fugir. fora, pestoso maldito! Como  que voc vem aqui atrs de Joana... voc devia ficar 
l no seu buraco e morrer logo....
           Seus gritos desesperados fizeram com que outras mulheres se aproximassem para ver o que estava acontecendo, ouvindo as ltimas palavras da apavorada prostituta 
que se afastava dali como quem foge do diabo:
             - Aquele maldito leproso, marido da Joana, est a na porta chamando por ela...Ela que v l falar com ele, pois eu no fico aqui dentro enquanto ele 
estiver por perto...
             Todas as mulheres tiveram quase que o mesmo comportamento. I foram rpido chamar Joana que, sem qualquer delicadeza, se aproximou da porta da frente, 
como que a desejar acabar rpido com aquela entrevista.
              Era uma mulher modificada pelo tempo e pela atividade que lhe produzia os estragos naturais na beleza que se esvai no curso dos anos de desgastes.
              No entanto, em seu rosto, Clofas ainda conseguia vislumbrar a figura da mulher amada de outrora.
             - Fale logo, traste intil - gritou Joana, l de dentro, colocando s a cabea para fora da porta.
- Mas seu nome no  Joana - falou Clofas.
             -  esse o meu nome por aqui, pois no queria que os outros me conhecessem pelo meu nome antigo por sua causa, seu maldito pestoso.
              E  medida que ia falando, Joana comeou a reparar melhor em seu marido, vendo-lhe os traos renovados, a disposio melhorada e a sade refeita.
              Isso foi fazendo com que ela sasse um pouco mais para a luz exterior, a fim de encontrar-se de frente com ele.
             - , mas voc est diferente, no parece aquele que estava s portas da morte - falou a mulher agora mais perto.Sim, Judite, por isso estou aqui, eu 
fui salvo da morte por um milagre e estou lhe trazendo os que fizeram isso comigo. Estes so OS meus amigos, Zacarias, Josu e meu irmo Saul.
              Diante daqueles nomes, proferidos com naturalidade, Joana empalideceu visivelmente.
              Na verdade, Zacarias tambm estava um pouco aparvalhado, porque conhecia aquele tom de voz, aquele rosto por detrs das rugas e desgastes.
              Sim, ali estava Judite, a esposa que o abandonara por uma aventura com um homem mais jovem do que ele.
              E Zacarias seguia dando voltas na cabea com as idias que se iam juntando.
              Se Joana era Judite, a sua ex-mulher, Clofas deveria ser o homem que lhe havia destrudo o lar anos antes, levando-lhe a esposa, obrigando-o a fugir 
da vergonha que passou a sentir na pequena aldeia onde vivia e a mudar-se para Emas.
- Maldio, maldio - gritou Joana, atirando-se ao solo.
              Sem entender o que estava acontecendo, Saul, Josu e Clofas comearam a se admirar daquele comportamento aloucado da mulher.
              - Maldio dos infernos. Eu devia imaginar que esse dia ia chegar na minha vida. Eu, que at ontem no tinha nenhum marido, agora estou aqui, com dois 
de uma vez.
              E suas palavras eram entrecortadas por acessos de fria nos quais procurava arrancar os cabelos, em um torvelinho de lgrimas que no se sabia serem 
de emoo, de arrependimento ou de contrariedade.
No entanto, s Zacarias entendia o que se estava passando.
Sabendo que estava diante de um momento crucial em sua vida, no qual ele deveria curar velhas chagas abertas no peito, ainda que fosse o instrumento da cura de muitos 
irmos que encontraram Jesus por suas mos, sentiu que, se em outras horas podia pedir ajuda a Jesus para os irmos de jornada, chegara ali, para ele, o prprio 
testemunho.
Voltaram-lhe  mente as palavras de Jesus, no dia em que foram enviados para Nazar, vaticinando tais ocorrncias:
              - "Em vossos espritos afinizados entrevejo as bnos do verdadeiro afeto, pelo que vos designo um como o amigo inseparvel do outro. Por onde andardes, 
no vos esqueais: estais preparados para regressardes vitoriosos. No entanto, vos advirto que no ser sem lutas profundas que havereis de regressar at mim, com 
o fruto doce de muitas dores saneadas, mas com o dever de fecharem muitas feridas dentro do prprio corao atravs do perdo e do esquecimento. Voltareis at mim 
e apreciarei o vosso sucesso contando cicatrizes na vossa alma. Estarei sempre a sustentar-vos. Seguireis para Nazar a espalhar a mensagem do Reino de Amor para 
todos, sem exceo".
             Chegara o momento de tratar das prprias feridas, dando o testemunho do poder do Amor diante da mulher traidora e do homem que se
             imiscura em seu relacionamento, acabando com a sua harmoniosa vida afetiva.
           Pensando nas palavras de Jesus, que lhe prometiam apoio e ustentao, Zacarias tomou a dianteira, abaixou-se ao solo e, com oxcedvel tom de carinho na 
voz, dirigiu-se a ela:
              - Judite, minha irm, que a paz de Jesus esteja em seu corao angustiado.
              - Afaste-se de mim, fantasma do passado, que me procura para me punir. J no lhe basta meu estado de lixo humano? - gritava ela, descontrolada.
             Vendo a reao de Zacarias e conhecendo-lhe os detalhes da vida ntima, Josu compreendeu do que estava se tratando aquele momento doloroso.
              Olhou para Clofas, que no entendia o que se passava, e para Saul, mais aturdido ainda e fez sinal para que silenciassem e esperassem.
              - Querida Judite, no a procuro como o credor do passado, mas como o devedor do seu afeto, para lhe dizer que nada tenho contra voc a no ser o perdo 
que lhe devo pedir pelos meus modos rudes do ontem perdido no tempo.
              Graas a tudo o que me aconteceu, pude encontrar o caminho do Amor que Jesus semeou em minha vida e asseguro-lhe, dentro dele h bastante afeto e carinho 
para todos.
              Ouvindo-lhe as palavras doces, a mulher acalmou-se um pouco e respondeu:
              - Mas eu o tra, homem de Deus. Como  que voc est aqui para me pedir desculpas? Tra voc com esse que era belo, mas que depois virou leproso. Lembra 
de minhas idas ao mercado? L encontrei o jovem provocante que me encantou e me completou os desejos de mulher sonhadora.
Fui feliz com ele e acreditava que a felicidade era para sempre, quando o meu crime comeou a ser cobrado pela Justia de Deus. Ele caiu doente e o medo me atingiu 
o corao. Fugi e, sem ter para onde ir, acabei aqui, dependendo da migalha dos que me usam para viver.
              Nesse momento, Clofas comeou a entender a histria toda e uma sensao de imensa vergonha lhe tomou o ntimo. Ele sabia que a mulher era casada, 
mas no lhe conhecia o marido verdadeiro.
               Encontrando-se com ela nas cercanias do mercado para onde ela se dirigia ocasionalmente, no pequeno vilarejo onde viviam Zacarias e Judite, no muito 
longe de Emas, Clofas tramou a fuga e a desero dos deveres familiares, sem que tivesse tido o desejo de lhe conhecer o marido, envolvido que estava pelos planos 
de felicidade para os dois.
Era a felicidade deles, construda sobre a infelicidade de algum.
              Assim, uma onda avassaladora se abateu sobre Clofas, que no sabia como se comportar agora, diante daquele que se agigantava ainda mais diante de 
seus olhos, por ter sido o veculo de sua cura.
Zacarias, num relance, compreendeu o sentimento de Clofas a seu respeito. Olhou para ele e sorriu como um amigo verdadeiro que desculpa sem mgoas.
Ergueu a mulher do cho, dizendo-lhe sem laivo de personalismo:
- Judite, o Reino de Deus chegou para todos ns. Viemos convid-la para entrar nele, pois Clofas, seu marido de outrora, depois que foi curado pela interveno 
de Jesus, se preocupou com voc e nos pediu que vissemos at aqui para lhe falar dessa nova era em nossas vidas.
              No a buscamos como homens que lhe disputam o carinho. Falo por mim que a quero como minha irm e a quem libero de todo e qualquer compromisso comigo, 
mesmo o do remorso ou da culpa que no acho devam pesar em seu corao. Escute nossas palavras e aceite nossa mo amiga para que a sua vida possa recuperar o vio 
e seu ser consiga reerguer-se para Deus.
              O Senhor nos ensinou que h mais alegria no cu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que se confirmam em sua justia.
              Assim, minha irm, a convidamos a seguir a estrada bela da Boa Nova que nos permite superar os equvocos da jornada sem abandonarmos a luta. S que, 
agora, com outras armas. Nossas armas no so mais nosso dinheiro, nossa beleza, nossos corpos. So concentradas em nossos coraes sinceros e amigos.
              No condenamos seu estilo de viver. No entanto, reconhecemos que ele no  seno a maneira que voc escolheu para se punir pelos erros de que se acusa. 
E Jesus nos mandou aqui, os seus dois esposos de ontem para lhe dizer que no a acusamos de nada, minha irm. Ns exultamos e agradecemos ao Senhor nos ter deixado 
encontr-la a tempo de lhe falarmos do reino de Amor que pede para nascer em seu corao valoroso e justo. A expresso de Zacarias era to generosa e verdadeira 
que no havia, ali, quem no chorasse o pranto mais sentido de emoo e arrependimento.
              Eram os adversrios que se reencontravam para os reajustes e
               acordos necessrios, a fim de que a nova caminhada comeasse em solo firme e seguro da conscincia apaziguada.
             Judite chorava baixinho, o choro das crianas sem defesa ou justificativa.
              Zacarias, o pranto da alegria pela verdadeira capacidade de perdoar e esquecer as ofensas.
              Josu, o da admirao pelo esforo sobre-humano do amigo de jornada.
Clofas, o do arrependimento e da vergonha.
E Saul, o pranto da gratido por ser testemunha de tamanha beleza.
              - Mas eu sou uma perdida e no tenho para onde ir. Esse reino de Deus no  para as prostitutas e para as malditas mulheres traidoras como eu.
              - No diga isso, Judite. Por acaso a luz do Sol deixou de nos iluminar, apesar de sermos todos pecadores como somos?
H sempre oportunidade de recomear.
              At hoje voc aceitou o jugo do mundo, que  sempre mesquinho e pesado para nossas quedas.
              Hoje Jesus lhe oferece o jugo do seu amor, leve e suave para todo o recomeo.
              E o que ele lhe pede, Judite? Que se transforme em irm de todos, ajudando a todos, amparando os cados, velando os enfermos, dando comida aos famintos.
              No lhe faltaro apoio e foras se voc aceitar o reino da Bondade dentro do corao.
Jesus no v a mulher que caiu. V a que  capaz de se levantar e transformar-se em estrela do cu.
E se voc aceitar esse convite, garanto-lhe que no vai mais morar
aqui.
              E vendo-lhe a surpresa estampada nos olhos e lbios mudos, Zacarias continuou:
              - Hoje mesmo foi fundada aqui a comunidade da bondade, em uma casinha onde um velhinho est disposto a fazer isso que lhe pedimos.

              Seja a sua primeira companhia, Judite. Ajudem-se para que o reino de Deus possa implantar-se para sempre em nossos coraes atravs de seus exemplos.
               Eu conheci de perto as suas virtudes de mulher, o mesmo acontecendo com Clofas, que aqui est, nos ouvindo as confisses da alma.
Aceite o novo caminho, minha irm querida.
              Judite parecia titubear. Sentia o carinho de Zacarias, no qual acreditava pela maneira com que ele lhe falava.
              No entanto, no sabia como se comportar com relao a Clofas, que nada tinha dito depois que todos os fatos tinham sido revelados. 
              Sabendo dessa situao delicada e animado pela citao direta que lhe fizera Zacarias, o segundo marido abandonado se aproximou da ex-mulher e, tomando-lhe 
as mos entre as suas, lhe disse:
- Judite, veja as cicatrizes de minhas feridas. Todos somos assim, criaturas enfermas que saram para poderem caminhar adiante. Aquele que  a maior vtima nossa, 
pelos caminhos da Verdade e do Amor nos trouxe a salvao e o perdo.
              No pense que eu desejo outra coisa em relao a voc. Quero que me perdoe pelo desatino que a induzi a cometer, quando estava sossegada em seu canto, 
l onde morvamos. Agora, peo-lhe que atenda o pedido de Zacarias porque nunca houve nem haver nada mais nobre e verdadeiro sobre a Terra do que os ensinamentos 
de que Jesus  portador e que nos fez chegar ao corao. Eu seguirei com Zacarias ao encontro do Mestre, mas lhe fao o mesmo pedido que esse benfeitor lhe enviou 
agora: aceite o recomeo, Judite. A felicidade lhe seguir o caminho e lhe abrandar as dores. Depois de algum tempo ningum mais ir se lembrar da mulher que caiu, 
mas ningum se esquecer da mulher que ajudou os cados a se erguerem.
No  mais um tribunal e uma cadeia para nossos erros.
 o hospital, a escola e a nova obra para que acertemos.
Vamos, querida, poucas vezes na vida uma mulher teve dois maridos que se encontrassem diante dela para dizerem a mesma coisa e desejarem a mesma felicidade ao seu 
corao.
Judite sentia que uma chuva suave e refrescante lhe invadia a
alma.
               Estava afogueada pela fuga ao dever desde o abandono de Zacarias, anos antes.
Nada lhe propiciava a paz interior. Tinha medo de voltar e ser acusada justamente pelo ato de traio e, ao mesmo tempo, acusava-:; por t-lo perpetrado contra um 
homem que sempre lhe fora bom e ompassivo, ainda que no lhe atendesse plenamente nos anseios do loto feminino.
             Agora, no entanto, a palavra doce, o perdo sincero, a mensagem de esperana, a amizade espontnea que ambos lhe ofereciam era para ela o refrigrio 
que lhe faltava, dando-lhe uma nova vida como que se perdoando de seus erros mais cruis que a conscincia no tem como esconder nos prazeres efmeros da carne ou 
das riquezas materiais.
              Uma sensao de felicidade mesmo invadiu-lhe o corao e, envolvida pela pliade de espritos luminosos que acompanhavam aquela cena tocante em que 
coraes davam prova do poder do Evangelho, inclusive com o apoio sereno e emocionado do Divino Amigo que para l se houvera trasladado em esprito, Judite ergueu 
a fronte para o alto e disse com sinceridade:
              - Eu o aceito, Jesus, eu o aceito como meu Mestre e minha salvao tambm, porque eu estava perdida e voc me encontrou. D-me foras para recomear 
e sade para seguir adiante.
              No Mundo Invisvel, um coro angelical enviava a Deus cnticos de venturosa alegria, pois mais uma ovelha tresmalhada havia sido resgatada pela fora 
do amor e da renncia.
              E Judite, como que desejando mudar radicalmente sua vida, falou aos seus novos irmos de jornada:
              - Meus irmos, arrastem-me daqui para onde desejam. No quero voltar ao interior nem para apanhar minhas coisas. Se eu tiver foras em mim mesma, prometo 
a esse Jesus que voltarei aqui para falar dele a todas estas minhas irms que me acolheram da maneira como podiam. Irei me fortalecer para poder ter algo para oferecer-lhes 
e deixo-lhes meu compromisso de voltar aqui para que elas possam receber as mesmas bnos que eu. No entanto, agora, levem-me com vocs para a nova vida que quero 
viver.
              E, assim, naquele dia, uma nova Judite retornava ao mundo dos devotados servidores da bondade, na companhia de Caleb que a recebera com efuso de alegria 
e a quem Judite acolhera como um velho pai amoroso a quem estenderia seus cuidados filiais.
              Dera, o Amor, significativa prova do seu poder para todos os que ali testemunharam as necessidades de transformao moral verdadeira.
              E, assim, todos estavam mais felizes e prximos da ventura espiritual que liberta os homens do jugo dos homens, para submet-los, unicamente, ao jugo 
de Jesus, embaixador do Pai no reino humano.
Conforme haviam planejado, os quatro homens retomaram o trajeto que os levaria de regresso a Cafamaum, tendo deixado Caleb e Judite na choupana que lhes serviria 
de base para o incio de novas tarefas junto aos miserveis de Nazar.
              Caminhavam naturalmente pela estrada das trs pedras que os conduziria novamente  cidade por onde passariam a fim de voltarem ao destino pretendido, 
sem terem idia de que, por ordem de Pilatos, soldados romanos estavam procurando por eles a fim de serem interrogados pelo governador.
Como sabiam, no entanto, que no poderiam mais realizar pregaes na cidade e que, se fossem vistos pelas pessoas mais pobres, seriam reconhecidos facilmente, os 
quatro deliberaram esperar que a penumbra da noite lhes servisse de manto protetor, ao mesmo tempo que andariam por lugares onde no houvesse concentrao de populares, 
buscando as ruas mais distantes do centro onde se realizaram as prdicas anteriores.
              E, assim foi feito, aproveitando para as conversaes fraternas que o momento pedia aos coraes.
              Afinal, Clofas conhecia, agora, a verdade sobre os fatos que ele havia contribudo para concretizar. Descobrira em Zacarias no apenas aquele que 
lhe revelou a verdade sobre Jesus, mas aquele que fora a vtima de sua aventura tresloucada e, o que lhe causava mais admirao, continuava tratando-o com considerao 
e apreo.
              Saul seguia calado, impregnado pela atmosfera de encantamento que seus pensamentos tinham ainda certa dificuldade de compreender plenamente, mas que 
seus sentimentos aceitavam com facilidade, dada a superioridade e a beleza dos exemplos que recebera de Josu e Zacarias. Estes dois, serenos e em paz absoluta, 
seguiam agradecidos a Deus e a Jesus as experincias daqueles dias, nos quais tantas criaturas agradeceram-lhes aas exortaes e receberam o po espiritual que penetraria 
sempre em suas almas a fim de que nunca mais tivessem fome.
             Sentindo a posio constrangedora a que Clofas se vira atirado por efeito das ltimas revelaes, Zacarias dirigiu-se a ele de modo a romper as ltimas 
barreiras da vergonha em sua alma.
           - Meu querido irmo, no se amofine por to pouca coisa. Para mim voc  e sempre ser o enfermo que a compaixo de Deus e o amor de Jesus resgatou da 
dor para a luz da esperana.
Cabisbaixo e envergonhado pela referncia direta, Clofas )spondeu, titubeante:
Mas  que os atos errados me pertencem e me envergonham, porque pude descobrir o quanto de sofrimento e infelicidade eles produziram na pessoa a quem mais respeito, 
depois de Deus e Jesus, nesta Terra - Zacarias.
                   Tudo o que acontece, meu amigo, tem sua razo de ser. Jesus nos ensinou que at mesmo os cabelos em nossa cabea esto contados pelo Pai e que 
no cai uma folha da rvore sem a sua autorizao. Assim, Clofas, de tudo o que nos parece mal e que, efetivamente  obra de nossa ignorncia a produzir o sofrimento 
em algum, Deus retira aquilo que nos ajude a melhorar e o bem que seja possvel.
O fogo destruiu a estalagem de Saul porque algum maldoso fariseu desejava nos assustar ou nos matar.
              No entanto, graas a isso, Saul se sentiu livre para ir ao encontro de Jesus. Imagine se isso no tivesse acontecido, quantos problemas o nosso irmo 
teria que resolver at que se sentisse exonerado de compromissos para seguir ao encontro da verdade.
O pai de Josu e seus irmos no comungavam das suas crenas no Messias e, por isso, expulsaram-no de casa. Ato que  prprio da ignorncia arrogante to comum nas 
nossas famlias, esse gesto abriu a Josu as portas do mundo e o impulsionou em direo ao Mestre amado, sem deixar amarras para trs. Se assim no tivesse ocorrido, 
quantos sofrimentos e pesos de conscincia Josu teria que suportar para dar alguns passos na direo da verdade, tendo que retornar rpido  companhia dos seus 
pela gratido e afeto que lhes dedicasse.
              Do mesmo modo, Clofas, graas ao abandono de Judite, a vida para mim assumiu o gosto amargo da solido que modifica a maneira pela qual ns interpretamos 
as coisas.
Antes, a minha sapataria me consumia em trabalhos para o sustento da jovem companheira, acreditando que meu mundo seriaapenas a oficina e a casa. Depois que ela 
partiu e no o teria feito se
 voc no lhe tivesse estendido o brao acolhedor e meu mundo  ampliou e eu, em busca de motivao para viver, acabei encontrando na mensagem do Mestre a quem passei 
a me devotar modestamente at os dias atuais.
              Assim, foi fcil deixar a oficina fechada, a casa sem ningum o partir ao encontro do meu destino. Se Judite l estivesse, ser que eu teria escolhido 
isso? Alm do mais, se tudo isso no tivesse ocorrido, quem nos garante que tanto voc como ela teriam descoberto a verdade que hoje conhecem e aceitam?
              Quando nossas vidas esto envolvidas pelo conforto e pelo manto da falta de problemas, nossos espritos se entorpecem e se acomodam nos pedestais materiais 
onde se colocaram, temendo perd-los.  preciso que uma fora poderosa nos retire desse sono secular e nos atire diante da verdade dolorosa para que, fustigados 
pela dor e pela insatisfao, nos acerquemos novamente da estrada e retomemos a marcha ascencional de nosso crescimento.
              Da, se entendemos estas coisas, o fariseu que mandou queimar a tenda de Saul, os familiares que expulsaram Josu, e voc, que protagonizou a ruptura 
de um relacionamento acabaram, mesmo sem o desejar, colaborando para que ns todos descobrssemos o caminho reto do Amor e da Verdade.
              Naturalmente, o erro pesa na conscincia daquele que o produz, pois  sempre uma desarmonia que tem o seu preo dentro de quem o pratica.
              No entanto, quando entendemos os motivos de Deus, nossas almas percebem que, mesmo sobre as runas fumegantes, Ele  capaz de erguer monumentos de 
beleza.
Assim, Clofas, digo-o por mim mesmo, no o considero seno como um irmo querido que a adversidade afetiva permitiu que me ajudasse a acordar a fim de que Deus 
edificasse em mim o seu pedestal e me transformasse para sempre.
Aceite a minha amizade sem qualquer receio, pois, no fundo de minha compreenso, vejo-o como meu benfeitor, como aquele graas a quem eu deixei de ser o velho Zacarias 
mesquinho e acomodado, para me tornar o homem renovado, pequenino, mas incomodado com a prpria imperfeio, lutando contra ela.
               Deixemos para trs os erros do passado e sigamos em direo a Jesus como verdadeiros amigos de alma. Voc aceita assim?
              Tamanha era a sinceridade e a profundidade dos conceitos de Zacarias, buscando interpretar com generosidade e correo fraterna os atos de Clofas, 
que este no se sentiu com outra opo seno a de  com um sorriso e aceitar a mo que Zacarias lhe estendia como sinal de confirmao de seus laos espirituais.
           Um abrao fraterno e emocionado selou o compromisso de ambos, com o testemunho igualmente emocionado dos outros dois companheiros.
             Assim, as condies do anoitecer chegavam aos horizontes de Nazar e os conviidavam a seguir conforme o planejado.
Saul conhecia bem a cidade e no lhe fora difcil escolher ruas runs adequadas, pois l no local das pregaes, conforme haviam imaginado, uma grande concentrao 
de curiosos e desesperados da Orte se mantinha impaciente, esperando a chegada da hora na qual, iislumeiramente, os dois emissrios de Jesus chegariam para falar 
ao povo.
              L tambm estavam guardas e truculentos homens pagos pelos fariseus a fim de produzirem tumulto e criarem balbrdia no seio dos infelizes, como tentativa 
de desmoralizar os pregadores, alm de outros igualmente pagos clandestinamente, para levantarem falso testemunho sobre dores e misrias que teriam lhes ocorrido 
depois que ouviram os conceitos dos emissrios do bem.
              Os judeus desejavam, eles mesmos, prender os dois perigosos indivduos e entreg-los a Pilatos com alguma acusao estrondosa, para que deixassem de 
ser apenas depoentes perante o governador e passassem a ser rus perante a autoridade.
              Todavia, naquela noite, Pilatos no fora  cidade, tendo optado permanecer em sua residncia nos arredores de Nazar, local onde trabalhava nos seus 
planos e despachava os assuntos de interesse do governo.
Os fariseus, naquela noite, haviam dado uma trgua ao procurador da Judia, j que tinham o interesse desviado para os perigosos divulgadores de conceitos subversivos 
da ordem por eles estatuda e defendida: a ordem do egosmo e da tradio de misrias e castas, graas  qual se mantinham como eram, por geraes e geraes.
Assim, no havia nenhum abutre farisaico na residncia de Pilatos quando um pequeno grupo de soldados ali chegou, conduzindo os quatro homens que, mesmo seguindo 
por ruas silenciosas, haviam sido encontrados pela escolta na sada da cidade, quando foram convocados a seguir os militares at o destino que os esperava.
              Surpreendidos pela convocao dos soldados, os quatro tremeram diante do testemunho que se lhes esperava dar agora, diante da autoridade romana na 
provncia.
              No tiveram tempo de falar uns com os outros, pois os soldados no lhes deram chance ou privacidade para qualquer ajuste.

              Apenas houve o suficiente para que Zacarias pedisse aos outros trs que orassem muito e no se alterassem em nenhuma situao, pois Jesus havia prometido 
estar com eles em todos os momentos. I esse era o principal de todos.
              J era noite adiantada quando Pilatos recebeu a notcia da chegada dos homens e colocou-os dentro de seu gabinete para ouvi-los.
              Em realidade, o governador no tinha nada contra eles. Havia sido, apenas, pressionado pelos fariseus, que ele tambm no tolerava, para que tomasse 
alguma providncia, ainda que no houvessem acusado os homens de qualquer delito.
              J desejando mais a cama do que o escritrio, Pilatos dirigiu-se aos homens, de maneira informal, sem perder, no entanto, a arrogante superioridade 
que imprimia em sua voz o timbre dos poderosos e indiferentes.
              - Quer dizer que vocs esto por a, falando ao povo? - disse o governador sem definir se perguntava ou se afirmava, j que no sabia por onde comear.
              O silncio dos quatro foi a resposta que deu a entender a Pilatos o medo que os invadia naquele momento.
              - Vamos, senhores, no escutaram minha pergunta? No tm qualquer coisa para dizer?
               Nesse momento, Zacarias, fosse por ser o mais velho dentre eles, fosse por possuir mais profundas noes da lngua latina na qual Pilatos se expressava 
naquele momento, assumindo uma postura de sublime humildade, dirigiu-se ao governador, dizendo:
              - Nobre representante de Tibrio, somos miserveis caminhantes que aqui estivemos para ajudar alguns doentes, tratar de algumas feridas e falar de 
esperana aos que sofriam. Por ventura isso  algum delito contra o Imprio Romano?
              Surpreendido com a afirmativa serena e com a pergunta, Pilatos redargiu:
              - No lhes disse que estavam cometendo algum delito nem que Roma os est prendendo sem motivo. Apenas estou apurando alguns fatos que os fariseus de 
Nazar me trouxeram ao conhecimento e que me cabe averiguar para que no me veja como um prevaricador em minhas funes pblicas.
- Do que nos acusam eles? - perguntou Zacarias.
              Na verdade, nem Pilatos compreendera muito bem as acusaes. Os prprios fariseus no as haviam especificado.
Sem saber como esclarecer as acusaes, o governador disse,
direto:

           - Falam que vocs esto perturbando a ordem com pregaes de uma religio diferente.
           - Na verdade, meu senhor, estamos apenas fazendo o bem aos que sofrem e falando de Deus e de Jesus. Aqui esto duas testemunhas
vivas dos efeitos da bondade de Deus. Este  Clofas, atirado pelos fariseus e sacerdotes em uma miservel tapera da estrada das trs pedras, sem qualquer ajuda 
para que no fosse mandado para o vale Bos imundos, pois era vitima da peste. Buscai agora, meu senhor, algum ninai da odiosa lepra em sua pele...
            O olhar de Pilatos dirigiu-se para Clofas, quase que duvidando 'a afirmativa de Zacarias. Por isso, o mencionado ex-leproso levantou os tecidos com 
os quais se cobria para mostrar-lhe as cicatrizes das feridas curadas pelo seu corpo havia menos de 48 horas.
A viso de tal quadro impressionou Pilatos.
              Aproveitando a possibilidade de esclarecer o governador e, envolvido por uma atmosfera de imensa energia espiritual que se derramava sobre os quatro 
e sobre aquele que exercia a autoridade na regio, diretamente influenciado por Jesus, que ali se encontrava presente no meio deles, em esprito, Zacarias apresentou 
o outro amigo:
      -        E este aqui, meu senhor,  Saul, o dono da estalagem de Nazar, que foi destruda por um misterioso incndio nesta noite passada e que, por sua natureza, 
no se originou de causas naturais. O pobre companheiro foi punido em seus bens pessoais por mandatrios dos fariseus que desejavam nos assustar ou matar, j que 
sabiam que nos hospedvamos ali, em sua acolhedora estalagem.
              Podeis estar perguntando como temos certeza de que se tratou de um incndio criminoso.
              Isso nos foi revelado por um outro fariseu que se sentiu tocado pelas palavras de esperana que escutara naquele dia, horas antes de acontecer o fato 
destruidor.
              Assim, quando nos preparvamos para voltar  estalagem, naquela noite, fomos alertados por um fariseu desconhecido que nos esperou at o final das 
tarefas para nos informar de tal planejamento e nos levou para sua casa a fim de que l dormssemos at o dia seguinte.
              Foi isso o que fizemos e, graas a ele, no estamos mortos, corrodos pelas chamas.
              No entanto, Saul, que poderia invocar o seu direito de proprietrio e acusar os de sua prpria raa perante o governador romano valendo-se do testemunho 
de outro fariseu, preferiu aceitar a perda e perdoar aos agressores, sem criar perante o procurador romano mais uma demanda que lhe consumiria a paz e lhe tiraria 
um pouco do tempo de descanso, sempre to escasso na vida dos homens de Estado.
              
Eis a, meu senhor, algumas das conseqncias da mensagem que espalhamos. Melhoria das enfermidades, resignao perante as adversidades, amor aos que sofrem.
              
              Isso ser crime? Se o for, aqui nos confessamos criminoso, perante a alta autoridade da provncia e aceitamos a priso ou os castigos que merecermos 
de vossas mos.
              Mas se a lei romana, superior a todas as outras legislaes na Terra, tanto que as tm sob o seu domnio e orientao, no vislumbrai crime em seus 
cdigos de direito, estamos serenos diante da correta apurao de vossa conscincia, que saber nos dar o destino que Roma garante aos inocentes de culpa.
Afigura de Zacarias, desassombrada e humilde, contrastava com a de Pilatos, arrogante e confundido.
              - E qual  a base da pregao de vocs? Filia-se a algum novo deus, fere os ditames da lei que os fariseus defendem?
              - Nosso senhor Jesus - que, talvez, um dia vossa autoridade possa vir a conhecer pessoalmente para entender-lhe melhor os ensinos - nos afirma que 
ele no veio  Terra para infringir a lei, mas para dar-lhe cumprimento.
Quando provocado por fariseus, que desejavam conhecer-lhe a postura diante do dever de pagar tributo a Roma - que, alis, os prprios fariseus abominam em sua usura 
sem fim - Jesus pediu uma moeda ao que perguntava e lhe indagou: De quem  esta figura estampada na moeda? E a resposta apontou para Csar. Ento, Jesus lhe respondeu: 
Dai a Csar o que  de Csar, e a Deus o que  de Deus, o que produziu um desgosto muito grande nos fariseus que ali estavam e que desejavam obter dele a pregao 
subversiva para acus-lo de infrator dos deveres fixados pelo governo imperial.
              A mensagem da Boa Nova se estende ao mundo interior de cada pessoa, buscando respeitar nas criaturas as suas escolhas, mas tentando mostrar-lhes que 
a infelicidade  fruto do egosmo e que se mais criaturas fossem generosas umas com as outras, menos tragdias existiriam sobre a Terra.
              Por isso, nada h na predica que Jesus tem realizado, que possa considerar-se perigoso  ordem pblica, que Roma sabe manter como seus mtodos o aconselham.
              Ao referir-se ao Reino de Deus, fala claramente que no  um reino que venha a competir com os reinos dos homens sobre a Terra, mas que se trata de 
um reino a nascer no corao das pessoas, no qual elas sero mais dceis, menos orgulhosas, mais puras e pacficas.
       
      Quando defrontado por qualquer ofensa, ensina-nos o perdo sem sentimento, de tal maneira que  o mais poderoso meio de se produzir uma convivncia entre os 
povos ocupados e os dirigentes estrangeiros que  os dominam e os dirigem.
             Os fariseus, ao contrrio, esto sempre por a, pendurados nos poderosos, mas tramando e conspirando contra eles.
             No nos  possvel, ento, vislumbrar, nos princpios que Jesus nos ensina, qualquer perigo para o poder constitudo. Ao contrrio, Jesus 
       veio aos cados para que se levantem com coragem, no contra o Imprio, para que se ergam perante si prprios e carreguem suas cruzes sem esmorecimento, pois 
Deus sustentar a todos em suas lutas.
              Se seu poder amoroso  capaz de curar, a todos ensina, todavia, como no carem enfermos, dizendo-lhes que devem seguir suas vidas, mas no devem pecar 
novamente, pois isso produz mais enfermidades.
           Enfim, meu senhor, fala ao corao e ao entendimento de cada pessoa, para que cada pessoa mude por si mesmo e melhore seu corao, onde, afinal, se h 
de instalar o reino de Deus.
Em resumo, essas so as lies que temos aprendido.
              Altamente impressionado com os conceitos sumamente elevados, ouvidos da boca de um quase andarilho, o governador recebia, ali, as primeiras noes 
do reino de Deus pregado por Jesus. Envolvido pela atmosfera amorosa que os espritos produziam  sua volta, Pilatos sentiu uma vibrao que jamais havia sentido, 
desde os velhos tempos de Roma, o que lhe causou agradvel impresso.
              Sem desejar quebrar tal ambiente e, com a finalidade de encerrar a entrevista que j lhe havia dado suficientes elementos de compreenso, diante das 
tolas e infundadas acusaes dos fariseus, Pilatos atenuou o tom da voz, abrandando-lhe a altivez e indagou:
- E quanto custa tudo isso aos que seguem tal profeta?
              Acostumado a negociar com a f dos fariseus e suas prticas religiosas sempre permeadas por doaes exigidas, cobranas baseadas nas escrituras, preos 
para oraes e cerimnias, Pilatos imaginava que ali tambm deveria haver algum tipo de valor a ser pago.
- O Reino de Deus  de graa, meu senhor.
              Nenhum interesse nos move e no desejamos nem aceitamos qualquer amparo ou pedimos qualquer dinheiro para realizar o que realizamos. Jesus caminha 
sem levar bolsa, sem ter duas tnicas, sem pedir qualquer contribuio.
              Cura sem cobrar, esclarece sem dar preo, salva sem exigir nada de ningum. Aceita o que lhe do de comer e dorme onde lhe oferecem um leito amigo. 
No possui uma pedra para deitar a cabea.

              Este  o ncleo da mensagem de Amor. Fazer pelos outros sem nenhum interesse para si mesmo. Essa  a pureza que o Reino de Deus exige dentro dos coraes 
humanos.
Tocado em seu ponto fraco, Pilatos sentiu-se confundido com aquelas referncias, eis que a sua conscincia o acusava de coisas indigna; e de um apego extremo s 
riquezas.
Assim, imaginou que a beleza daqueles princpios se tratasse apenas de mais uma das to decantadas filosofias de que a Grcia era senhora em produzir todos os dias 
e acabou pensando, de maneira prtica, como os romanos de todos os tempos, dizendo para si mesmo que, apesar de belo, aquilo no era para ele.
Somos todos assim, quando as mudanas surgem diante de ns.
              Deixamos o raciocnio perturbar-se com as convenincias de nossos desejos e vcios para que no tenhamos que abdicar de nossas vaidades e caprichos.
              E mesmo reconhecendo a superioridade dos ensinamentos evanglicos, muitos seres procuram evitar escut-los a fim de no terem que agir em consonncia 
com os seus princpios.
              Por isso, Pilatos se encantara com a profundidade filosfica dos conceitos, mas no aceitaria, jamais, vestir-se de maneira simples como Zacarias e 
aceitar o jugo suave e o fardo leve. Estava acostumado ao fardo pesado de homem do mundo e ao jugo sufocante das algemas que o prendiam s coisas terrenas, ao poder 
ilusrio, s riquezas volteis e perigosas, s sedues da carne.
              Naquele momento, Pilatos se sentira diminudo diante daqueles homens humildes, pois lhes admirava o tamanho da f que ele no compreendia. Todavia, 
seu raciocnio de governador romano importante o fez voltar  tradio de seus ancestrais e dizer para si mesmo que aquela era a sua crena, a que houvera aprendido 
dos seus pais e que no lhe cabia ficar se deixando seduzir por princpios estrangeiros. Afinal, era romano e no judeu.
              Estes raciocnios so muito comuns em muitos dos seres humanos que, diante de princpios elevados que pedem modificao de comportamentos e pensamentos, 
preferem apegar-se a antigas crenas conformistas e mornas, que lhes permitem continuar do mesmo jeito sempre, desde que se submetam s exigncias da ritualstica 
ou da contribuio financeira.
No fundo,  um estelionato recproco, onde ambos se enganam
por que possam seguir sendo sempre do mesmo modo, com o discurso que desejam ser diferentes.
             Igrejas cobiam o dinheiro e o poder, pregando o desprendimento e a humildade.
             Fiis desejam a absolvio para entrarem no cu, vivendo de maneira extremamente mundana e presos  terra. Por isso, entregam parte de suas riquezas 
e comparecem a cultos para que, ainda que no o comportem de acordo com aquilo que escutam, recebam a absolvio o pensem que tm o cu garantido.
No era diferente com Pilatos, naquele momento.
Isso lhe pesaria tambm na conscincia.
Todavia, a semente estava lanada no seu corao.
      
              Depois de um rpido exame de todos os elementos e envolvido pela aura de serenidade que lhe havia produzido aquele colquio, o governador pontificou:
              - No vejo perigo algum em suas prdicas. Alis, elas so de tal modo belas, que eu prprio me sinto tocado por muitos de seus conceitos, ainda que 
no me possa furtar ao peso de meus ancestrais, na f nos deuses de meu povo.
Por isso, no irei det-los aqui, por mais tempo. Agradeo os esclarecimentos que me foram dados e ofereo-lhes a hospedagem para a noite que se aproxima, bem como 
algumas provises para a sua, viagem de regresso, se  verdade o que me foi informado, ou seja, que esto de partida para outras regies.
Meditarei em tais conceitos e procurarei avali-los dentro de mim mesmo. Pena que os deveres oficiais de um governador no lhe permitem fazer o que deseja, mas, 
antes, o escravizam a obrigaes de Estado...
Ouvindo-lhe as palavras favorveis, Zacarias rematou:
              - O homem  sempre ajudado por Deus para romper, um dia, as correntes que o prendem, meu senhor, de maneira que chegar o momento em que sentireis 
a possibilidade de ser livre para sempre ou manter-vos escravizado, como dizeis, e eu acredito que assim o seja. Ns confirmamos perante vossa autoridade a nossa 
partida de Nazar, a fim de que no venha a ocorrer mais algum tumulto que nos aponte como responsveis e, se no vos causar qualquer prejuzo e desde que venha 
como uma oferenda de vosso generoso corao, ns aceitaremos algumas frutas secas e alguns pes para que o caminho possa ser trilhado sem tantas dificuldades, agradecendo-vos 
a oferta da estadia,

que no podemos aceitar, pois pretendemos seguir caminho o mais rpido possvel.
Sorrindo-lhes de modo franco e dando por encerrada a reunio, Pilatos ordenou que os seus empregados providenciassem as necessrias provises aos quatro homens, 
despedindo-se deles a encaminhando-se para seus aposentos ntimos.
              L chegando, procurou manter-se em ligao com as emoes daquela hora, to diferentes de tudo o que havia visto at ali, em sua vida pessoal, cheia 
de experincias.
              Envolvido pelo ambiente, lembrou-se do imperador Tibrio, com seus achaques e dores, e imaginou logo lhe relatar as ocorrncias daquele dia ao mesmo 
tempo em que o colocaria a par, atravs de um relatrio, das possibilidades curativas daquele Jesus que ele desconhecia e que, somente por boatos, havia tido notcias 
at ento.
              Ao mesmo tempo, pensava na vantagem que conseguiria para si mesmo se conseguisse levar at o imperador a soluo para seus problemas e enfermidades 
crnicas. Quanto no lhe poderia render a gratido de Tibrio.
              Era o velho homem prtico, tentando tirar proveito das vantagens que os novos conceitos lhe produziam.
              Tomou a pena e redigiu pessoalmente longo relatrio falando sobre esse Jesus que Tibrio j conhecia, sem imaginar que Pblio Lentulus tinha como misso 
secreta fornecer ao imperador os informes que ele desejava tambm.
              Enquanto isso, os quatro homens deixaram as dependncias de descanso de Pilatos como aqueles que saem da arena das feras sem nenhum arranho.
              Mais do que depressa, partiram para longe da cidade, aproveitando a claridade da Lua naquela noite, para que nenhuma recada do governador ou presso 
dos fariseus viesse a aprision-los novamente.
              Caminhavam com uma profunda alegria, como se o dever mais elevado que lhes fora outorgado pelas foras do bem tivesse sido cumprido dentro dos objetivos 
superiores.
              Uma sensao de felicidade infantil fazia com que os quatro homens sassem cantando hosanas pelo caminho, abraados e eufricos, como sendo os primeiros 
seres vivos que haviam levado a mensagem da Boa Nova ao corao do poderoso Imprio romano, pessoalmente.
              Caminharam por longas horas at que o cansao aconselhou que parassem para dormir, o que fizeram depois de terem comido algo das provises que o governador 
lhes havia concedido.
             Naquela noite, os quatro, de joelhos, agradeciam a Deus e a Jesus por tudo o que haviam recebido para que pudessem dar testemunho da verdade nos caminhos 
por onde passaram.
             E a alegria se misturava com aquela que era sentida pela equipe ii invisvel de espritos luminosos que lhes havia acompanhado a trajetria, amparando-lhes 
as fraquezas, aclarando-lhes o raciocnio, ajudando-os nus argumentos, protegendo-os das armadilhas, fazendo-os defrontar-Me com os desafios pessoais na superao 
de seus prprios equvocos, (infim, cumprindo tudo aquilo que Jesus havia dito que ocorreria quando os havia enviado como ovelhas ao covil dos lobos.
Que isso nos sirva sempre de estmulo para as nossas lutas.
              Por piores que possam parecer ou mais impossveis se nos afigurem as realizaes, lembremo-nos de que Deus dirige tudo e sabe abrir as portas para 
aqueles que Nele confiam e a Ele entregam os frutos de toda a sementeira.
              Aos arrogantes, as frustraes do fracasso, pois o que faziam, faziam-no por si mesmos e para a exaltao de sua vaidade.
              Aos humildes, a alegria do dever cumprido, pois estavam a servio do mais generoso de todos os senhores, Dele recebendo a gratido da coragem e da 
fidelidade demonstrada na execuo da obra.
              Por isso, o prprio Jesus no se cansava de afirmar ser apenas um embaixador de Deus e que maior era Aquele que o havia enviado do que ele prprio, 
simples filho que cumpre a vontade do Pai Eterno.
              Aprendamos com isso a fazermos a parte que nos toca sem imaginarmos ser muito difcil ou impossvel atingir objetivos mais elevados.
              Coloquemos os tijolos na construo seguindo as instrues dos arquitetos, sem nos preocuparmos em saber qual ser a altura da obra.
              Quando ela tocar as nuvens, admiremo-nos e alegremo-nos por termos sido aqueles que ajudaram a edific-la.
              Certa feita, perguntaram a trs pedreiros de uma construo o que eles estavam fazendo:
O primeiro respondeu: Eu corto pedras para ganhar o po.
              O segundo disse: Eu estou erguendo estas paredes, pois  meu trabalho.
              Mas o terceiro, orgulhoso e sorrindo, respondeu: Eu estou construindo uma catedral.
Os trs eram pedreiros e estavam fazendo a mesma coisa, no mesmo lugar.
                Conquanto os quatro homens seguiam seu caminho de regresso a Cafarnaum, onde buscariam a figura doce do Messias amoroso, pelo caminho iam pregando 
a Boa Nova nos vilarejos existentes, retendo-se aqui ou ali, de maneira a que tambm nesses pequenos aglomerados humanos se fizesse presente a mensagem do Cristo.
              Enquanto passava o tempo em companhia de Zacarias e Josu, Saul e seu irmo Clofas iam aprendendo e se aprofundando nas lies que, aos seus espritos, 
nunca perdiam a beleza e o encantamento.
              Ao mesmo tempo, puderam presenciar muitas outras curas, o que acabava produzindo um tal impacto no seio daquele povo sofrido, que a estadia de todos 
na localidade no podia alargar-se muito, em face de todas as dificuldades que passariam a enfrentar, diante do desejo e da necessidade das pessoas, alm da natural 
curiosidade que tal realizao levantava nos coraes imaturos.
              Aqui ou ali surgia algum fariseu mais arraigado  lei mosaica que se manifestava em oposio aos ideais pregados pelos mensageiros do evangelho.
No entanto, confrontado com a turba esfomeada de esperana, a maioria se ocultava a fim de no se expor perante a insatisfao do povo, que atribua sua dor e sua 
desdita, em grande parte, s injustias e abusos cometidos pelos judeus que, ligados s questes religiosas, dirigiam o povo tanto nas pequenas localidades quanto 
nas grandes.
              O governo imperial impunha a ordem e cobrava tributo. Todavia, Roma mantivera na Palestina a realeza local, sendo certo que os tetrarcas tinham o poder 
relativo sobre as questes de sua jurisdio, notadamente no carter religioso dos costumes, no que Roma no se imiscua, ao menos diretamente.
Todavia, o pobre e sempre esquecido povo era o que sempre
URLA, FOSSE O PESO DOS TRIBUTOS COBRADOS PELOS ESTRANGEIROS, FOSSE A INDIFERENA COM QUE SUAS NECESSIDADES ERAM ATENDIDAS PELOS SEUS PRPRIOS REPRESENTANTES.
E DAS DIVERSAS FACES QUE COMPUNHAM A ESTRUTURA SOCIAL, A DOS FITRISEUS E A DOS SADUCEUS ERAM AS MAIS BEM AQUINHOADAS, EM FACE DO CONTROLE DAS COISAS RELIGIOSAS, 
J QUE OS PRIMEIROS ERAM OS QUE IIOMINAVAM AS SINAGOGAS E OS SEGUNDOS CUIDAVAM DO TEMPLO EM JERUSALM.
        POR ISSO DESENVOLVERAM A CASUSTICA, PARA SE MANTEREM SEMPRE NA VANTAGEM E NO DOMNIO DAS QUESTES COLETIVAS, IMPONDO SEUS PONTOS DE VISTA E COBRANDO SEMPRE 
PELOS SEUS PALPITES, COMO SE ESTIVESSEM, APENAS, SEGUINDO OS ESCRITOS SAGRADOS.
        E O POVO MISERVEL, APESAR DE CRDULO, J ESTAVA CHEIO DE SUAS NEGOCIATAS.
        ASSIM, AS PALAVRAS DOS EMISSRIOS DE JESUS CAAM EM UM TERRENO FRTIL E TOTALMENTE PREPARADO PELA DOR PARA A SEMENTEIRA TORNAR-SE VIOSA LAVOURA.
        DE CADA LOCALIDADE POR ONDE PASSAVAM, SEMPRE ALGUM SE DISPUNHA A SEGUI-LOS A FIM DE CONHECER JESUS PESSOALMENTE. NO QUE TODOS DESEJASSEM TORNAR-SE SEUS 
DISCPULOS, MAS QUERIAM, POR TODA A LEI, VER COM SEUS OLHOS AQUELE EM NOME DE QUEM OS FORASTEIROS ATENDIAM AOS SOFREDORES; COM UM SIMPLES TOQUE OU UMA SIMPLES PALAVRA, 
CURAVAM OU EXPULSAVAM O DEMNIO-COMO AS PESSOAS IGNORANTES INTERPRETAVAM OS PROCESSOS DE DESOBSESSO, COM O AFASTAMENTO DE ESPRITOS SOFREDORES QUE ATUAVAM SOBRE 
ENCARNADOS.
        DE VILAREJO EM VILAREJO, UM PEQUENO SQUITO IA SE FORMANDO AO REDOR DOS DOIS HOMENS, QUE SE SURPREENDIAM COM O EFEITO DE SUAS PALAVRAS E AES.
        E COMO IA CRESCENDO A NECESSIDADE DE ESCLARECIMENTO, SAUL E CLOFAS IAM COMEANDO A FALAR DO REINO DE DEUS, DENTRO DAQUILO QUE TINHAM APRENDIDO DE ZACARIAS 
E JOSU POR MUITO OUVIREM SUAS PRDICAS, QUANDO ESTES ESTAVAM OCUPADOS EM ATENDER OUTRAS NECESSIDADES.
        ASSIM, OS DOIS NOVIS TRABALHADORES DO BEM SE INICIARAM NO MISTER DE SEREM PONTES LUMINOSAS QUE LEVASSEM JESUS AOS QUE VIVIAM NA ESCURIDO DA IGNORNCIA.
        ENQUANTO ISSO OCORRIA COM OS QUATRO TRABALHADORES, EM CAFARNAUM A SITUAO DOS LENTULUS, COMO J FOI DESCRITO, HAVIA SE AGRAVADO COM O DESAPARECIMENTO DO 
FILHO MAIS NOVO DO CASAL, O PEQUENO MARCUS.
        DESSA OCORRNCIA MISTERIOSA, SE VALEU SULPCIO TARQUINIUS PARA TENTAR ENVENENAR O ESPRITO DO SENADOR PBLIO CONTRA A ESPOSA, ATENDENDO AOS ALVITRES DE SUA 
COBIADA FLVIA, INFORMANDO-O DE QUE, HAVIA NO
muito tempo, um caso muito semelhante ocorrera na Judia, motivado, como se descobriu depois, por envolvimento amoroso ilcito entro o governador que antecedera 
Pilatos e a esposa romana de um patrlolfl que se preparava para regressar a Roma. Como no conseguira impedir que os mesmos se ausentassem, tratou o importante administrador 
de seqestrar-lhes o filho a fim de impedir o regresso da famlia  capital, levando a acreditar na cumplicidade da mulher amada.
              Naturalmente, sem citar diretamente o caso atual, as palavras do lictor caam como uma luva na situao em que se encontrava o senador, num paralelismo 
imediato, o que produziu em Pblio uma reao igualmente turbulenta, j que sua personalidade altiva e firme se recusava a imaginar que sua esposa estivesse envolvida 
em tal delito. No entanto, volviam-lhe  mente as palavras incriminatrias de Flvia, nas insinuaes da prevaricao de Lvia em relao a Pilatos.
              Ao mesmo tempo, a mente confundida e atordoada do senador ligava pontos e condutas como se estivesse encontrando motivos para reconhecer um fundo de 
verdade ou a possibilidade de tais insinuaes maldosas e viperinas possurem algum fundamento.
              No entanto, nenhuma concluso que tivesse sobre o carter da esposa iria desnudar ali perante o subalterno.
              Depois de controlar-se herculeamente, Pblio se manifestou agradecido ao enviado do governador, mas dispensou-lhe o servio pessoal, alegando que no 
poderia mais confiar nele em face dos conceitos que houvera expendido em relao s virtudes de sua esposa.
              No desejava prejudicar a honra pessoal de Sulpcio e, por isso, esclareceria ao governador os motivos polticos necessrios a tal cometimento, notadamente 
aquele que o impedia de voltar a Roma brevemente, como pretendia fazer, o que o levava a dispensar o lictor de seu servio pessoal por no lhe desejar monopolizar 
os deveres nem embaraar as funes em outras reas de tarefa a servio do governador.
Sulpcio se viu amargamente surpreendido por tal deciso, que recebeu como uma demonstrao de desafeto ante seu zelo pessoal para com a reputao do senador a quem 
estava servindo.
               Irritado, mas contido, deixou o servio de Pblio e rumou para Jerusalm onde se radicavam as suas obrigaes primeiras e onde estavam, tambm, os 
interesses imediatos de seu corao, na figura da atraente e volvel mulher desejada, o piv de muitas das intrigas, Flvia.
              To logo se viu a ss, Pblio redigiu a mensagem ao governador informando do desaparecimento inexplicvel do filho, da modificao brusca dos planos 
de regressar prontamente a Roma, da necessidade de dispensar os servios de Sulpcio sem revelar, efetivamente, o verdadeiro motivo de tal dispensa para que no 
lhe produzisse qualquer
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   prejuzo  sua carreira pblica, como lictor e homem de confiana de Pilatos.
             Enviou um emissrio diretamente ao governador que sabia estar, naqueles  dias, estacionado em Nazar, colocando-o a par da situao.
          Uma vez notificado de que tais fatos estavam ocorrendo com o alto e direto representante do Imprio na provncia e, felicitado de que tal possibilidade 
poderia ser usada como escusa para aproximar-se da famlia Lentulus, imediatamente Pilatos adotou todas as medidas necessrias  substituio do lictor dispensado 
junto  famlia patrcia e deliberou ele mesmo, em pessoa, comparecer perante o senador em Cafarnaum, a fim de inteirar-se completamente dos fatos e demonstrar seu 
interesse pessoal na soluo do problema doloroso.
           Ao mesmo tempo em que daria mostras de sua mais ampla isposio em auxiliar na soluo do desaparecimento do filho de to importante autoridade romana 
em sua jurisdio, poderia avaliar como estaria a disposio do senador quanto  sua administrao e, se tivesse sorte, igualmente, poderia vislumbrar a figura da 
mulher desejada que, naturalmente, l tambm estaria, aflita e desditosa com a perda do pequeno filho.
              Atendendo s prerrogativas de Pblio, em face das altas funes que lhe foram atribudas por Tibrio, podendo contar, inclusive, com o comando autnomo 
de uma unidade militar a qual o senador dispensara cordialmente quando de sua estada em Jerusalm para submeter-se, confiantemente,  proteo do governador, Pilatos 
enviou uma guarnio de soldados para a cidade a fim de dar incio a uma busca minuciosa e detalhada, interrogar pessoas, coletar indcios, estabelecer procedimentos 
apuratrios e punir se fosse necessrio.
              Tal conduta produziu em Pblio uma reao favorvel por demonstrar-lhe considerao e apreo pela sua dor pessoal, o que era algo confortante ao romano, 
isolado na longnqua Palestina daqueles tempos.
              Uma vez notificada da prxima chegada do governador, Lvia se deu conta de que aquela seria uma outra situao difcil para ser enfrentada pessoalmente, 
notadamente depois da cena do jardim na qual Pilatos se deixara levar pelo seu arrebatamento.
              E se era verdade que sua ajuda naquele momento seria muito til, como o fio de esperana que se ligava  necessidade de reencontrar o filho desaparecido, 
tambm representava desafio  sua capacidade de recusar-lhe qualquer demonstrao de apreo que viesse a ser interpretada de outra maneira.
              Assim, to logo ficou sabendo da prxima chegada do governador, procurou o marido e lhe confidenciou:

              - Pblio, no acho desprezvel o cuidado do governador pau com a nossa causa e espero que sua iniciativa e suas diligncias possam ser decisivas para 
que consigamos encontrar nosso filho. No entanto, no me sinto disposta a estar diante desse homem que no me agrada e que exigir de mim uma postura de anfitri 
que minha debilidade, diante da perda de Marcus, no me permitir demonstrar. Assim, gostaria que voc o recebesse e escusasse minha ausncia com o argumento, de 
resto verdadeiro e justo, de meu abatimento ante os fatos acontecidos. No desejo ter que me conduzir em minha casa como se estivesse encenando uma pea social no 
teatro da vida das convenincias e protocolos oficiais.
              Surpreso com aquele comportamento inusitado de Lvia, Pblio ainda tentou test-la, argumentando:
              - Mas voc no acha que a conduta da esposa de um senador deve estar acima de nossos achaques pessoais, por mais dolorosos que possam ser?
              - Sim, meu querido, compreendo o seu zelo, mas no desejo que meu estado pessoal de me desfigurada venha a ser objeto de admirao de um homem que 
no priva de nossa intimidade nem de minha fraterna simpatia. Assim, espero me dispense dos deveres legais e protocolares que sempre desempenhei a contento at hoje, 
a fim de que a dor do corao de me possa prevalecer sobre os argumentos da convenincia exterior.
              Reconhecendo o peso de sua ponderao, Pblio assentiu secamente que se ausentasse da entrevista com Pilatos, no sem sentir uma nesga de alegria interior 
por identificar nessa conduta firme da esposa um indcio que desmentiria as insinuaes torpes de todos quantos desejavam destruir-lhe a felicidade conjugal.
Assim, quando da chegada do governador, foi ele recebido com cordialidade apenas por Pblio, que apresentou as escusas pela ausncia da esposa, recolhida  dor da 
me despojada de seu tesouro afetivo mais sagrado, o que, no ntimo, frustrou uma das expectativas de Pilatos, que gostaria de aproveitar aquele momento para diminuir 
a ansiedade pelo reencontro com Lvia.
              A estada do governador na regio, no entanto, foi breve e apenas para marcar perante Pblio a sua solidariedade e a adoo de todas as medidas de busca 
necessrias  soluo do caso.
              A conduta do procurador da Judia lhe serviu como uma carga nova de foras, perante a dificuldade que representava para um romano procurar uma criana 
pequena em um local desconhecido e distante dos recursos da metrpole.

O comportamento de Lvia lhe havia tranqilizado um pouco os sofrimentos e as suspeitas, j que dera mostras firmes de no se estar disposta a se entrevistar com 
o governador, nem mesmo exercer os deveres que lhe eram esperados pela condio de esposa de senador.
             Todavia, se por um lado esses pensamentos lhe atenuavam as preocupaes, a fragilidade de suas emoes sempre deixava entrever as dvida como uma nuvem 
negra no horizonte de seu afeto.
              E se ela estivesse agindo assim justamente para no levantar suspeitas? Se no desejasse encontrar o governador apenas para no o trair em algum olhar 
menos formal e mais ntimo?
             Afinal, ele no podia deixar de perceber que o prprio governador se ocupara de inform-los de sua estadia em Nazar, no muito longe dali. Ser que 
isso no indicava alguma senha secreta entre dois coraes que se buscavam?
              Do mesmo modo, o desaparecimento do filho coincidira com a presena do governador na regio dos fatos e, logo a seguir, a sua chegada a Cafarnaum para 
a mencionada visita.
              Tudo isso fazia com que o pensamento daquele homem do mundo, que escolhera o jugo sufocante e o fardo pesado, se visse embaralhado entre o desejo de 
acreditar no amor da esposa e o peso de insinuaes e algumas evidncias que poderiam ser interpretadas de muitas maneiras mas que, na viso do homem imaturo, serviriam 
apenas para atestar a infidelidade.
E longe de procurar a esposa para uma conversao sincera e esclarecedora, Pblio se recolhia em seu mutismo, pois imaginava que, se levasse at ela alguma indagao 
direta sobre sua conduta, desencadearia reaes que poderiam ser verdadeiras ou mentirosas.
              Se ela estivesse sendo falsa a ponto de trair-lhe a confiana, facilmente poderia usar de tal falsidade para negar os fatos e se sentir ultrajada pela 
desconfiana do marido. E, afinal, ele no teria provas de sua conduta culpvel para defront-la.
Se ela no tivesse sido infiel, sua revelao demonstraria o grau de sua insegurana afetiva, o que redundaria em uma demonstrao de fraqueza que seu orgulho jamais 
daria a quem quer que fosse, sem falar que a esposa poderia, com justia, considerar-se igualmente ultrajada em sua honra e passar a trat-lo com o desprezo que 
ele, certamente, mereceria.
              Assim, o senador no se deixava qualquer sada para solucionar o impasse atravs da verdade, revelando  mulher os fatos e correndo o risco de se ver 
desnudado em sua ntima insegurana.

     Por no pretender abdicar de seu safus de personalidade seguia diante dos desafios do Estado e de suas funes pblicas, Pblio se via  vtima de sua altivez 
no mbito pessoal de seu afeto, ainda imaturo para as coisas do corao, conquanto fiel e sincero em todos os momentos.
              Por isso, preferiu fugir ao contato mais estreito com a esposa em quem no podia acreditar cegamente e da qual no desejava duvidar sem motivo grave 
e verdadeiro.
              Esse afastamento produziu um esfriamento no afeto do casal, que Lvia no via com bons olhos, mas aceitava, acreditando tratar-se de preocupaes decorrentes 
do desaparecimento do filho.
              No havia outro motivo que ela soubesse que lhe pudesse modificar tanto o modo de ser dentro de casa.
O distanciamento e a frieza s poderiam ter essa causa.
              No imaginava ela que sua inocncia estava sendo fustigada pela maldade alheia e pela coincidncia de fatos que, analisados por uma mente maliciosa 
ou por uma mente invigilante, facilmente poderiam levar  concluso de sua infidelidade.
              Vendo o estado de sua senhora, que com o passar dos dias se ia entristecendo ainda mais, agora no s por causa da falta de Marcus como tambm por 
causa do afastamento do marido, a serva Ana se acercou dela e lhe falou sobre as belezas da pregao de Jesus aos aflitos.
              Sim, Jesus, o profeta que lhe havia curado a filha Flvia e que continuava pelas redondezas, realizando os prodgios que s a sua bondade era capaz 
de efetivar.
A lembrana de Ana foi como se um sereno suave lhe umedecesse a face seca que nem mesmo as lgrimas conseguiam molhar.
              - Sim, senhora, Jesus estar aqui prximo, no lago, para as pregaes no prximo sbado. Se for do seu desejo, poderemos nos hospedar na casinha pobre 
de meus parentes pescadores em Cafarnaum, de onde iremos para escutar-lhe as palavras.
              - Ana, a sua lembrana me enche de alegria, j que eu mesma desejava procurar o profeta para agradecer-lhe a cura de Flvia antes que voltssemos a 
Roma e, por isso, agora que a dor regressa a nosso ntimo, poderia busc-lo como fonte de consolao e esperana, no para que intercedesse com seu poder pelo nosso 
filho desaparecido, mas para que nos desse o alimento de que voc tanto comenta e que conforta os coraes combalidos. Esteja certa de que eu irei com voc.
              - Mas, senhora, e o seu esposo? Permitir ele que nos ausentemos?

Bem, minha querida Ana, procurarei falar com Pblio pedindo autorizao. Mas ainda que ele no me receba, no me abaterei diamte de sua posio distante. Irei mesmo 
sem o seu consentimento. Eu usarei vestes simples, como as que so usadas pelas pessoas desta vila e irei com voc at a casa de seus parentes para que, dali, possamos 
encontrar a figura do profeta, ouvindo-lhe as exortaes como alimento do corao aflito. Meu isolamento destes tempos pede conforto espiritual que, penso, s me 
ser possvel encontrar nesse Messias que todos veneram e que  to bondoso para com os que sofrem.
E assim foi feito.
              Pblio escusara-se em conceder uma entrevista pessoal  esposa que lhe sondava o esprito para conseguir falar-lhe sobre seu desejo. Sua postura taciturna 
e irritada sempre no lhe inspirava a coragem para submeter-lhe a splica que, sabia ela, seria denegada naquelas horas de azedume do marido.
          Assim, comunicou ao servo de confiana que administrava a casa sua sada na companhia de Ana a fim de que o marido fosse, posteriormente, avisado de sua 
ausncia e, naquele sbado previsto, dirigiu-se at a cidade onde, alm de conhecer a simplicidade dos parentes da serva querida, iria receber as bnos do Mestre 
dos Mestres, o que lhe seria inesquecvel momento de deslumbramento espiritual.
          Junto do patriarca da famlia de Ana, o velho Simeo, que viera da Samaria para ver Jesus, Lvia se mantinha mesclada s mulheres do povo, sem nenhum atavio 
que lhe revelasse a cndio de esposa do senador romano. O acolhimento do povo simples e dos parentes da escrava tinham encantado o corao doce e faminto de Lvia, 
que se deixou enlevar pelo carinho espontneo daquela gente humilde, que se sentia subidamente honrada em receb-la na sua modesta vivenda, de onde partiram para 
o encontro com o Mestre, no lago, ao findar do dia.
Ali raiaria uma nova aurora para o esprito de todos, inclusive para o de Lvia que, embevecida com os conceitos da Boa Nova e com o magnetismo superior, desatava 
de seu esprito inmeras amarras que a mantinham cativa nos convencionalismos mentirosos de todos os tempos.
Ali estava diante da verdade mais profunda e pura que encontrara em toda a sua vida.
              Ao final da pregao, ajudado pelos discpulos, Jesus dividiu poucos pes para o povo que o escutara e a parte que coube a Lvia lhe produziu uma transformao 
que jamais imaginara, um dia, poder sentir dentro de si.
Era apenas po pobre, mas trazia uma tal carga magntica que 
mais parecia manjar celeste que penetrava por todos os escaninhos do corpo e da alma, infundindo uma paz serena e confiante, capaz de suportar todas as misrias 
do mundo sem desistir de lutar e sem se entregar ao desespero.
              Depois de ter pregado e alimentado a multido de velhos, mes, pobres e crianas esqulidas, o Mestre deteve-se a conversar com algumas mulheres que 
o procuravam, no que foram imitadas por Simeo e Lvia, ao seu lado.
O colquio que tiveram, chegada a sua vez de se encontrarem, marcou todo o caminho daquela romana que se assumia na condio de alma rutilante no caminho do sacrifcio.
Ao falar-lhe, Jesus fez meno s dores ocultas que feriam seu corao e marcou para o futuro o momento em que aceitaria, igualmente, a negao de si prpria em 
face do novo reino que nascia em seu esprito naquele momento.
As emoes eram indescritveis para todos. Mesmo para Simeo, que escutara do Mestre as palavras de exortao para a luta at o momento do sacrifcio, o contato 
com Jesus infundia uma energia poderosa e sem paralelo na Terra.
              A hora de voltar, todavia, havia soado e Lvia, acompanhada de Ana, regressou ao lar, j passada a hora costumeira de se recolherem.
              Seus espritos vinham pelo caminho como que flutuando de emoo, como se tivessem bebido de um elixir misterioso e inigualvel, que modificava o mais 
profundo dos sentimentos, abrandando as dores, dando coragem ao esprito e serenidade diante de todos os problemas da vida.
              Afinal, isso seria muito bom diante da tempestade que aguardava por Lvia dentro de casa.
To logo deram entrada na residncia senhorial, Pblio aguardava a mulher entre irritado e desconfiado.
              E em sua violncia descontrolada, dirigiu-se  esposa com irritao e agressividade verbal nunca vista por Lvia em sua boca.
Tal reao se tornara ainda mais forte em face da constatao de que a mulher houvera se ausentado usando vestes que ocultavam a sua condio de patrcia, como se 
desejasse se livrar de testemunhas indesejveis.
Sem perder o estado de alma que lhe visitava o corao, Lvia esperou que o marido lhe permitisse falar e explicou-lhe tudo, desde a dificuldade de lhe solicitar 
a permisso para sair naquele dia, at o
Momento do encontro com Jesus e o motivo de seu disfarce, justamente para proteger me, de quaisquer comentrios incorretos e indignos de sua posio.
             Nada, no entanto, seria capaz de atenuar o esprito vulcnico que tomava conta de seu marido naquela hora, a lastimar a maldita idia de que tinha  
realizado aquela viagem que estava se tornando uma tragdia em sua vida.
             Lvia lhe ouvia as reprimendas e, sabendo como era a personalidade do esposo, calara-se, at que o marido a deixou a ss, indo em direo ao seu escritrio, 
no sem antes demonstrar a sua Irritao com a clssica, rude e estrondosa batida de porta.
             Ali ficara a mulher, entre aflita por seu marido e elevada em face de tudo o que recebera naquela noite.
             A lembrana de Jesus lhe dominava o horizonte ntimo e uma sensao de alvio lhe percorreu o corpo todo, como se estivesse vendo o  Mestre enlaando-a 
e lhe falando ao corao aflito para que tivesse confiana, pois nunca lhe faltaria a sua misericrdia, fosse para aquela hora de amargura domstica, fosse para 
os momentos mais duros de sua jornada que ainda estavam por vir.
              E asserenada, Lvia deixou que lgrimas molhassem o rosto, agora confiante em Deus e em Jesus para sempre.

                        Depois da visita a Cafarnaum, frustrado por no ter encontrado Lvia, como desejava, Pilatos regressou a Nazar, de onde seguiria para Jerusalm 
novamente, da a alguns dias.
Todavia, na sua condio de homem de Estado, as ameaas polticas que se materializavam com a presena de Pblio em seu territrio, agora por mais tempo do que aquele 
que havia previsto, passaram a incomod-lo sobremaneira.
              Especialmente diante da perspectiva de que, em busca do filho perdido, o senador se veria forado a palmilhar a regio e isso poderia expor de maneira 
mais perigosa os mtodos administrativos corrompidos pela longa durao de seu governo.
O regresso a Jerusalm, dias depois, foi imerso num vu de preocupaes e receios os quais Pilatos tentava afastar com as lembranas dos bons ofcios que havia despendido 
a favor da busca do pequeno desaparecido, o que deveria, por certo, levantar a seu benefcio a boa considerao do pai desesperado.
              No entanto, a ansiedade e a conscincia pesada pelos inmeros desmandos administrativos tinham o seu peso nas preocupaes do governador.
              No havia esquecido a paixo que Lvia lhe inspirava e a distncia que se lhe interpunha entre seu corao e o objeto de sua cobia.
              No entanto, no podia agir como se estivesse desejando uma das mulheres comuns daquela regio, eis que se tratava da esposa de seu potencial e perigoso 
adversrio.
              J havia se comportado de maneira arrojada mesmo para um homem de seu posto com relao  esposa de outro importante romano na provncia. No desejaria 
abusar da sorte e correr o risco de pr tudo a perder com atitudes arrebatadoras que o comprometessem perante os olhos argutos de seus observadores.

     Assim, tratou de se envolver nos negcios de Estado, divertindo com as conquistas que no representassem riscos maiores.
       Entre elas, estava Flvia que, na sua leviandade, no via a hora de recuperar as vantagens na preferncia do governador, seu cunhado.
Essa mulher era o prottipo da vbora em forma feminina, eis que deixara levar pelos conceitos de sua poca, que colocavam a beleza nino o pedestal poderoso, graas 
ao qual tudo se conseguiria, preoculpando-se das ilicitudes com a alegao de que os homens so movidos por desejos e que tais fragilidades no so de responsabilidade 
de quem detm a coisa que todos cobiam.
              Era um raciocnio comum naquela poca tanto quanto o  hoje, na simplificao dos conceitos e no esquecimento dos princpios morais que deveriam auxiliar 
as pessoas a vencerem suas fraquezas.
      
              Tanto Pilatos quanto Flvia representavam com exatido o perfil que boa parte da humanidade tem cultuado at os dias atuais.
              De um lado, administrador que se corrompe para obter vantagens pessoais e se manter no comando valendo-se de uma rede de apaniguados amigos do poder 
que, igualmente, se corrompem para dele retirarem as vantagens particulares, acobertando-se reciprocamente, protegendo-se at o fim, com a conscincia de que se 
uma das engrenagens dessa mquina srdida se romper, todo o mecanismo est arruinado e corre riscos.
De outro, a pessoa que se corrompe para conseguir a posio de realce diante das demais, usando dos recursos estticos de que dispe para convert-los em armas de 
tentao, sem se preocupar com os resultados de suas investidas, desde que deles consiga retirar vantagens pessoais para us-las no momento adequado. Comercializando 
com as emoes frgeis que as fraquezas humanas permitem se instalem no interior dos indivduos, as criaturas que se comportam com tal primitivismo so perigosas 
fontes de discrdia social, deixando atrs de si um rastro de lgrimas, frustraes afetivas e compromissos crmicos para muitas encarnaes futuras.
              Assim, leitor querido, no h posio de vantagem social ou pessoal que no tenha o seu custo na responsabilidade espiritual com que deve ser exercida.
              Se lhe cabe comandar alguma coisa, de uma casa a um pas, no se esquea de que voc est sendo convocado a erguer os demais com exemplos de correo 
e de abnegao virtuosa e que, em caso de defraudar tal mandato divino do qual voc , apenas, o modesto executor, inmeras aflies visitaro o seu caminho e o 
abismo de remorsos e
dores se abrir para que nele voc mergulhe. Vises de mos desesperadas carregando filhos esqulidos surgiro diante de seus olhos que, em vo, tentaro se fechar 
para fugir de horripilante panorama Vozes lamentosas de doentes sem leito hospitalar, gritando de dor nas ruas onde morreram  mingua de atendimento por causa do 
sangramento dos recursos pblicos para os bolsos particulares, na forma de comisses, de propinas, de juros, de "consultorias", sero o esplio atormentado daqueles 
que se beneficiaram dos recursos furtados ao povo e que fizeram falta aos que sofriam. A vantagem material que representaram em alguns momentos de gozo passageiro 
nada significar diante da dor moral que o indivduo ter de enfrentar por longo perodo, no futuro.
              No se trata, contudo, de punio divina arbitrria e injusta. Trata-se da colheita dos frutos amargos de uma sementeira viciosa, que sempre d ao 
lavrador a lio necessria a fim de que aprenda como no valeu a pena agir em desrespeito aos irmos de humanidade.
Todo o tipo de explorao de fraqueza humana produz, no caminho daquele que se beneficia com ela, a estrada esburacada, lodacenta e escura que o ensinar a refazer 
o seu estilo de viver.
              Explorar o vcio, a fraqueza sexual, a fragilidade da ignorncia, a falta de cultura e de conscincia na escolha, a misria material ou moral, a f 
ou a crendice amedrontando-a com vaticnios infernais, a carncia afetiva, enfim, qualquer postura de inferioridade de algum significa traio do dever de amparar 
o mais fraco, ajudar o cado, elevar o necessitado de ajuda, o que representar doloroso resgate no futuro, j que ningum foge da verdade diante das Leis do Universo.
              Da mesma maneira que  culpvel por tais excessos, o administrador que vilipendia a moeda dos cofres pblicos para seus fins pessoais ou de seu grupo 
de apoio na manuteno de sua tradio poltica; da mesma forma que infringem os cnones divinos aqueles que se transformam em indstria de seduo fsica, atirando 
encantamentos ou exibindo corpos e formas aos olhares cpidos e imaturos para o autodomnio; infringem ainda mais profundamente tais padres do Universo os que se 
valem das pregaes da Verdade do Reino de Deus para convert-las em indstria arrecadatria de dinheiro, aproveitando-se das necessidades pessoais e transformando 
os momentos de elevao espiritual em shows que exibem vulgarmente a tragdia pessoal, transformando-a em propaganda do negcio.
O inferno dos pagos reservava a esses comerciantes da verdade divina o pior dentre todos os sofrimentos. E, se  verdade que na viso do mundo espiritual no se 
pode mais falar em inferno, no sentido fsico da expresso, com seres votados eternamente ao mal a fustigarem os maldosos, prevalece para os comerciantes da f a 
dura responsabilidade
de sofrer as conseqncias de seus atos, seja do plpito, do altar, do pmlatrio ou do palco.
             Depois de terem ameaado a credulidade ingnua com o fogo do Inferno para melhor embolsarem vultosas quantias ou de terem pedido provas de amor a Deus 
atravs do montante de cheques e de valores, constrangendo os ouvintes a se desfazerem de coisas mediante a promessa de reembolso futuro com outras coisas, os profetas 
mundanos, traficantes de mercadorias que enriquecem suas vidas  custa de tal comportamento absolutamente divorciado dos Evangelhos, sero profundamente surpreendidos 
pelo que os espera na vida esprita. Cortejos de crentes enganados por seus argumentos estaro diante deles, requerendo o cumprimento de suas promessas ou a devoluo 
de seu dinheiro, eis que o negcio no se concretizou na forma prometida. Habitantes da escurido se levantaro para perseguir os falsos profetas que fizeram a sua 
jornada atravs dos interesses pessoais, das negociatas escusas, transformando templos em balco de transaes esprias.
Essa traio ao postulado de Amor ao Prximo com desprendimento representar para o seu agente uma das mais cruis sentenas, eis que outros tipos de maus exemplos, 
como os governantes corruptos ou os viciosos e fracos estavam, muitas vezes, apartados das mensagens edificantes da Boa Nova. No entanto, aos sacerdotes de todos 
os credos que se valeram dela para obteno dos bens da Terra, nenhuma justificativa se levantar para defend-los no momento do acerto de contas.
              Por isso, para todos ns, vale a pena pensarmos, de vez em quando, que chegar a hora de abandonarmos tudo sobre a Terra e partirmos para o reino da 
Verdade, onde nada fica escondido e onde o mais remoto e secreto sentimento acaba aflorado  vista de todos.
              E se uma secreta angstia o visita ao contato de tal pensamento nesta pgina e neste momento, pense em refazer as coisas enquanto  possvel.
              Ajuste o decote de sua roupa, modifique a importncia de seus msculos, retifique os objetivos de seus investimentos, atenue a importncia de sua aparncia, 
corrija os equvocos de sua administrao, devolva o que no lhe pertence, repare os prejuzos enquanto  tempo. Abdique de ser pedra de tropeo na f e na vida 
de seus semelhantes, pois se no o fizer, no restar compensao suficiente em suas lembranas terrenas para lhe atenuar as aflies espirituais que o aguardam.
              A Boa Nova vem resgatar do mal da ignorncia as criaturas que podem trilhar o caminho da verdade, desde que tenham a coragem de
tomar a iniciativa correta, aproveitando a vida para dela extrarem ensinamentos e crescimento para seus espritos.
      
              Por isso, Flvia e Pilatos representavam a velha ordem das convenincias frvolas e egosticas que at os dias de hoje insistem em se enraizar nos 
coraes.
               Regressando a Jerusalm, como j explicamos, Pilatos voltou ao encontro de seu mundo de misrias douradas, colocando-se novamente sob a influncia 
dessa mulher de baixos instintos, esprito leviano e irreverente, ao mesmo tempo em que se reencontrou com Sulpcio, o seu homem de confiana que lhe servia de ajudante 
inquo, que sabia de suas tramias e trapaas e que se valia da sombra do poder para tambm se beneficiar  sua maneira.
              Todos eles seguiam atrelados ao jugo do mundo, acreditando que esse era o mais importante de todos os caminhos.
              Por essa poca, findava o ano de 32 e o inverno j cobrava o seu tributo, diminuindo as atividades gerais e aconselhando o recolhimento aos seguros 
abrigos para que a sobrevivncia estivesse garantida em face das fragilidades sociais ali vigentes.
              Enquanto isso, ao norte, o Reino de Deus seguia produzindo a sua sementeira, com os discpulos que haviam sido espalhados para a difuso da Boa Nova 
retornando ao tugrio do Senhor, levando consigo a rede repleta de feitos e de almas para ser apresentada diante do Divino Amigo.
Naturalmente que durante a misso conferida aos setenta, Jesus no interrompera a sua atividade, junto aos doze mais prximos seguidores, aproveitando-se das condies 
de pescadores para que se valesse do barco a fim de mais estender suas sementes.
              Isso tambm era conveniente ao Mestre em face do avolumado nmero de desesperados e curiosos que o buscavam em uma localidade.
              Se com os seu enviados ocorria tal fenmeno, ou seja, a multido, depois dos primeiros feitos e das primeiras prdicas, se multiplicava geometricamente, 
tornando quase impossvel a manuteno deles nos stios especficos por longos dias, a figura majesttica de Jesus, com maior razo, infundia mais venerao e interesse.
              Assim, a existncia da barca de Simo e do vasto lago de Genesar permitia ao Mestre deixar um lado e dirigir-se ao outro sem que a multido pudesse 
acompanh-lo. Ao chegar no outro lado, l estava uma comunidade virgem e pronta para ser trabalhada, sem os problemas decorrentes do avolumado nmero de pessoas 
a exigir-lhe favores ou interromper-lhe a revelao do novo Reino.
           Os deslocamentos por terra, sempre mais demorados e difceis,  estimulavam os simpatizantes a viajarem ao redor do lago, at porque ali no revelava aos 
que ficaram para onde estava se dirigindo.
           *Acompanhado por seus discpulos, homens experientes na navegao e na pesca, Jesus deliberava passar de um lado a outro do lago no aglomerado aquoso, 
sendo certo que, em inmeras ocasies pregou a Boa Nova do interior da embarcao ao povo das margens.
             A grande maioria dos enviados do Cristo para a pregao da mensagem de Deus aos sofredores teve tal sucesso que, ao ingressarem, junto deles pequenina 
comitiva os acompanhava, como ocorrera com Zacarias e Josu, que trouxeram Clofas e Saul para junto da comunidade apostlica.
             Assim, ao final de tal perodo, ainda no ano de 32, j havia uma pequena multido de seguidores e adoradores do Cristo que, mesclados entre homens e 
mulheres representavam o cortejo dos novos semeadores que vinham buscar as sementes no armazm das bnos.
              Ali estavam muitos dos que foram curados, dos que tiveram espritos obsessores afastados, o que lhes propiciou recuperar o equilbrio emocional e mental, 
dos que diziam ter encontrado a verdade nas exortaes morais, cheias de esperanas e belezas.
              E com isso, ainda que Jesus tivesse tambm caminhado com os seus doze amigos por muitas localidades fazendo a tarefa que o Pai lhe houvera confiado, 
a julgar pelo volume das necessidades e pelas angstias populares, em breve se tornaria extremamente difcil que Jesus exercesse o seu ministrio, fosse pelo aglomerado 
de curiosos e devotos, fosse pelos zelos ciumentos que os fariseus e os demais membros das castas dominantes vinham sentindo diante de tal popularidade.
               medida que crescia o movimento da Boa Nova, crescia o nmero dos seus antagonizadores, todos eles de caso pensado e inteno medida para impedirem 
o avano da Verdade que os derrubaria de seus postos miserveis.
              Por isso, com a chegada dos setenta, trazendo muitos outros consigo, Jesus se vira rodeado de uma grande comitiva a qual deveria alimentar e municiar 
com as sementes do armazm divino enquanto tivesse tempo suficiente para faz-lo, preparando-os para as novas lutas que surgiriam em breve no caminho de todos.
              A reunio dos emissrios,  medida que iam chegando, produzia imenso jbilo na famlia apostlica, que se ufanava por saber quantos paralticos ocohaviam 
abandonado seus cajados, quantos cegos haviam recuperado a vista, quantos "demnios", - na verdade, espritos ignorantes que influenciam as criaturas -, haviam desistido 
de tal perseguio e se afastado, liberando os perseguidos.

        ERA UMA REUNIO DE SOLDADOS VITORIOSOS NO BEM, EXULTANTES polo REGRESSO DIANTE DA GRANDE SEARA QUE PDE SER SEMEADA. E MUITOS TRAZIAm AS PROVAS VIVAS DOS 
FEITOS DA BOA NOVA NA PESSOA DOS QUE ou ACOMPANHAVAM ESPONTANEAMENTE AT A PRESENA DE JESUS, QUE O:, RECEBEU COM AMOROSO ACENTO DE GRATIDO E ALEGRIA.
ASSIM, COM A CHEGADA DE ZACARIAS E JOSU NO FOI DIFERENTE.
        TO LOGO PUDERAM AVISTAR-SE COM JESUS, FOI COM JUSTO INTERESSE QUE O DIVINO AMIGO OUVIU-LHES A NARRATIVA DOS FEITOS, SOBRETUDO PORQUE VINHAM DA CIDADE ONDE 
SE RADICAVA A FAMLIA CARNAL DO MESTRE.
        - ASSIM, MEU SENHOR - DIZIA JOSU, COM ENTUSIASMO - AO FALARMOS DO REINO DE DEUS E DO TEU NOME, AS PESSOAS SE CURAVAM, OS CORAES SE ABRIAM E MUITOS, EMOCIONADOS, 
ABRAAVAM OS ENSINAMENTOS.E AJUDANDO-OS NA DESCRIO VIVA, ZACARIAS REMATAVA:
        - TUDO O QUE NOS PROMETESTE, EFETIVAMENTE ACONTECEU E SE NO FOSSE TO ESTRONDOSO O  QUE AS PESSOAS SE INTEIRAVAM DOS PRODGIOS QUE A TUA MENSAGEM PRODUZIA, 
COMO FORMIGAS SAINDO DE BURACOS, A MULTIDO SE ACHEGAVA DE TAL MANEIRA QUE, NO SEGUNDO OU TERCEIRO DIA J NO HAVIA MAIS CONDIES MNIMAS DE SE LEVAR A PALAVRA 
COM A PAZ NECESSRIA. EMISSRIOS DOS GOVERNANTES LOCAIS, ESPIES DOS FARISEUS, SACERDOTES INESCRUPULOSOS J TRAMAVAM A NOSSA DERROCADA, ATRAVS DE PERSEGUIES OCULTAS 
COM AS QUAIS PENSAVAM CONSEGUIR NOS DESTRUIR.
        NO ENTANTO, SEMPRE CONTVAMOS COM A AJUDA DE ALGUM, MESMO FARISEU SIMPATIZANTE, QUE NOS LIVRAVA DAS ARMADILHAS DOS LOBOS.
        OUVINDO-O COM UM BRILHO ESPECIAL NO OLHAR, JESUS SORRIA EM SILNCIO.
        SEU SEMBLANTE COMO QUE DEMONSTRAVA ESTAR A PAR DE TODAS AQUELAS COISAS, MAS QUE PARTILHAVA DAS ALEGRIAS E DA ALVORADA DA BOA NOVA NO CORAO DOS SEUS AMIGOS, 
EMPOLGADOS COM O SUCESSO INICIAL.
        E COMO QUEM DESEJASSE QUE TODOS AO REDOR FOSSEM INFORMADOS SOBRE A AMPLITUDE DA SEMENTEIRA, JESUS PERGUNTOU, DANDO MOSTRAS DE SUA CAPACIDADE DE TUDO CONHECER:
        - E, ZACARIAS, MESMO PERANTE O GOVERNADOR FOI PREGADA A MENSAGEM DO REINO?
        SURPREENDIDO PELA INDAGAO QUE DEMONSTRAVA TER JESUS A CINCIA DE QUE HAVIAM ESTADO DIANTE DO MAIS ALTO REPRESENTANTE DO IMPRIO TERRENO NAQUELA REGIO, 
ZACARIAS, EMOCIONADO, REVELOU PARA ESPANTO DE TODOS:
        - SENHOR, TUA SABEDORIA BEM IDENTIFICA OS DETALHES QUE NOSSA CEGUEIRA QUASE DEIXA PASSAR, ANTE A ALEGRIA DE REVER-TE.

             Sim, Mestre, pensvamos que iramos ser presos ou que algo ruim e grave nos fosse acontecer. No entanto, estivemos diante de Pilatos o que nos fez falar 
das belezas do Reino que tem sido pregado por toda a
             Galilia. Pilatos ouviu com ateno e demonstrou interesse nos conceitos levados, de tal maneira que lamentou no poder renunciar aos compromissos de 
seu cargo nem aos deuses de seus pais para abraar to formosa doutrina estrangeira, o que seria, para ele, um risco e um desprestgio. Ainda assim, ouviu-nos respeitoso 
e nos libertou, ofereceu-nos hospedagem e forneceu-nos alimento para a viagem, impedindo que  os fariseus miserveis conseguissem nos prejudicar conforme era o desejo 
imediato deles.
             Ouvindo a afirmativa daquela hora, os demais seguidores do mestre exprimiram a sua euforia entre palmas e expresses que louvavam a bondade de Deus 
e a superioridade de Jesus entre os mais poderosos humanos.
E pressentindo a necessidade de aproveitar a oportunidade para ensinar a todos que os frutos de qualquer sementeira pertencem ao dono das sementes, Jesus os adverte:
              - "Eis que vos dei o poder para pisar serpentes, escorpies e todo o poder do inimigo. Contudo, no vos alegreis porque os espritos vos esto sujeitos, 
mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos cus".
              Com tais palavras os seus seguidores entenderam que no era de euforia de vitria que se deviam orgulhar e ufanar.
              Afinal, tudo isso representava a exaltao da personalidade mesquinha sempre em constante competio umas com as outras, o que produzia conflitos sem 
fim entre as pessoas.
              O desejo de supremacia sempre produziu mais guerras do que qualquer ambio material, j que ele est arraigado no ntimo de cada pessoa, a produzir 
conflitos de grande ou pequena monta em todos os lugares, nas diversas guerras particulares que as pessoas travam entre si por questes de opinio, de prevalncia 
de pontos de vista, de imposio de autoridade.
              Assim, cumpria combater a idia da superioridade mesquinha de homens sobre homens, para to s enaltecer a grandeza de Deus, que os havia convocado 
para a tarefa por neles confiar e depositar o crdito que os havia mantido vigilantes e protegidos na jornada difcil que encetaram.
              Era a viso superior que falava da alegria por terem sido eleitos e levado a bom termo a obra de Deus. No mais a arrogncia humana que se colocava 
por cima dos que no pensavam como eles, dando mostras de poder para curar, expulsar demnios ou coisas do tipo.

              A interpretao do Cristo trazia-os para a viso mais ampla do que a guerra no seria travada com os semelhantes, mas, ao contrrio, dependeria de 
cada um julgar-se preparado para tirar de dentro de si mesmo esses laivos de personalismo que at os dias atuais ainda contaminam as mentes e os coraes nas constantes 
disputas por superioridade em todos os setores da vida.
Jesus falava com clareza que a felicidade das pessoas no est na sua capacidade de superar os demais, convencendo-os com poderes argumentativos ou com efeitos sobrenaturais. 
Estava em se considerarem felizes porque Deus lhes havia confiado alguma coisa, escrevendo-lhes o nome nos cus, como maneira de lhes dizer que a recompensa no 
estar nunca no reino transitrio onde as alegrias so fugazes e as vitrias to precrias.
              Ter o nome escrito no cu  a maior alegria e  a maior premiao que algum pode ter por estar a servio do Bem. Nenhuma outra lhe  suficiente e 
nenhuma outra lhe basta. Quando os verdadeiros cristos no estiverem mais  cata de postos de direo, nem de colocaes que lhes realcem ao personalismo, nem de 
reconhecimento que lhes exalte o nome com respeito e acatamento nos meios de comunicao; quando os simpatizantes de todas as religies crists em geral, e do espiritismo-cristo, 
em particular, deixarem de ser cultores do intelectualismo que faz crescer a musculatura da vaidade cultural em detrimento da essncia da Boa Nova e assumirem o 
trabalho annimo e desprendido que lhes garanta apenas a insero de seus nomes nos livros celestes como bons e devotados trabalhadores, a ento tero compreendido 
a mensagem do Evangelho e podero ser colocados em tarefas mais importantes do que a de dirigentes de casas de caridade formal, de administradores de cestas de alimentos 
e de espalhadores de bens, mais preocupados com nmeros e quantidades do que com a qualidade de afeto com que fazem as coisas.
              Enquanto isso no  compreendido por muitos dos que tentam se alistar nas linhas do conhecimento espiritual buscando nelas o alimento para a prpria 
vaidade, vai a Boa Nova claudicando na mo de criaturas que dizem ter boa vontade, mas que a exercitam apenas em proveito de si mesmas e de suas ambies pessoais 
de mando e de supremacia no burgo ou no feudo onde se acham inseridos e que pensam comandar ou dirigir.
Espritas, escutai Jesus dizendo aos seus seguidores:
"Alegrai-vos por terdes os seus nomes escritos nos cus".
E, modestamente, parafraseando-lhe o conselho, acrescentamos:
               Alegrai-vos de que somente Deus, nos cus, conhea as vossas virtudes no anonimato de vossos exemplos e renncias pessoais nas lutas da vida na Terra.
No cu estar a nica recompensa que vale a pena.
               Iniciado o ano de 33, estava se tornando cada vez mais concorrida a participao na vida pblica de Jesus, uma vez que a chegada de muitos homens 
e mulheres que abdicavam de suas misrias pessoais para se juntarem ao squito que buscava o consolo e o aprendizado ampliara significativamente o nmero dos seus 
seguidores prximos.
              A multido continuava a ser a que o buscava para receber as migalhas da verdade, atravs de coisas ou vantagens, geralmente na melhora fsica ou no 
reequilbrio do esprito.
Sempre vida por algum lance espetaculoso, a grande chusma de curiosos misturava-se aos necessitados e isso fazia crescer o volume dos que se comprimiam para ver 
e ouvir Jesus.
              Dessa maneira, muitas vezes o Mestre deixava uma regio demandando outros lugares mais afastados, para onde ele sabia que a maioria no poderia segui-lo, 
ao mesmo tempo em que poderia levar a mais pessoas a sua palavra de f e esperana no Reino Divino.
              Em sua tarefa, aceitava a companhia dos doze que o seguiam quase sempre todos juntos e a de muitos dos setenta e a de mais alguns que se haviam agregado 
ao colgio apostolar.
Tinham eles, ainda, a funo de seguir adiante para avisarem da chegada do Messias e prepararem pousada ao Senhor a fim de que as bases para a tarefa estivessem 
arranjadas quando da chegada dos mesmos quela comunidade.
              Estando, assim, em uma dessas visitas  regio um pouco mais afastada do lago, certa noite, em que os seus seguidores j se haviam recolhido depois 
de um longo dia de caminhadas e constante vigilncia para protegerem o Mestre dos caprichos da turba que dele se acercava,

Zacarias estava acordado, pensativo, sentado ao relento e fitando no firmamento o faiscar das estrelas, como a imaginar o que seria do futuro.
              Naquela noite, nas conversas coletivas, Jesus havia alertado a todos, mais uma vez, para a notcia de sua partida da Terra.
              Falara com uma emoo diferente, referindo-se s atrocidades, de que seria vtima e que deveria dar testemunho de tudo aquilo que estava ensinando 
aos homens para que pudessem acreditar que tudo era verdade.
              Os discpulos, naturalmente, rechaavam tais referncias, sempre afirmando que isso no ocorreria e que eles o defenderiam, ao que observavam que Jesus 
se calava e sorria um sorriso triste como a lhes dizer que os fatos provariam o contrrio.
              No entanto, no corao de Zacarias os dizeres de Jesus produziam um aperto e uma angstia que, naquela noite, lhe haviam tirado o sono.
Como ser que todos ficariam se tudo aquilo que o Mestre estava afirmando ocorresse mesmo?
              Se o Reino de Deus se visse privado de seu principal propagador, vencido pelos adversrios da verdade to pouco tempo depois de ter iniciado a sua 
implantao entre os homens, como poderia ele prevalecer sobre a maldade?
              Se a treva tinha tanto poder, como as pessoas poderiam acreditar no poder do Bem que se via destrudo to precocemente?
              Ele prprio no se sentia capacitado para fazer algo to grandioso como o Cristo o realizava e sabia que nenhum dos seus seguidores, sozinhos ou agrupados, 
teria tal condio, o que impossibilitaria todo o progresso da mensagem, condenada ao desaparecimento sem o alicerce sobre o qual se levantava.
              Todas estas cogitaes incomodavam o sentimento de Zacarias, que no tivera a coragem de falar delas diretamente a Jesus.
              Desde que voltara de Nazar, o Mestre se dirigira vrias vezes a ele para conversar e ensinar, mas Zacarias, em momento algum, tomou isso como uma 
intimidade que ele pudesse explorar para invadir a atmosfera do Senhor e incomod-lo com suas indagaes ou questionamentos, coisa que os doze tinham facilidade 
em fazer, pela maior proximidade que guardavam com Jesus.
              No entanto, naquela noite se sentira muito tocado pelos vaticnios amargurosos que o Mestre mencionara e no conseguira deixar de pensar nisso tudo.
Isso porque ele sabia, por experincia prpria, que Jesus nunca mentia ou falava sem motivo.

             Tudo o que dissera, se convertia em fato e em verdade plena na vida dos que o cercavam ou o escutavam. Muitas advertncias, ele as dava de forma indireta 
ou velada, de tal maneira que o ouvinte podia no compreender, no exato momento, o alcance de suas palavras, mas to logo as experincias chegavam no caminho da 
pessoa, imediatamente ela se lembrava daquilo que Jesus havia falado, alertando-a sobre os riscos e aconselhando condutas diferentes, dentro do padro do Reino do 
Deus que ele viera inaugurar.
              E a solido do ambiente, o silncio e o isolamento garantiam a Zacarias o necessrio conforto para que pudesse pensar sem ter que dividir suas preocupaes 
e emoes com ningum.
              Sentindo-se livre desse modo, Zacarias se deixou levar pela emoo e as lgrimas vieram-lhe aos olhos, lembrando-se de tudo o que havia enfrentado 
em sua vida antes e depois daquele encontro to importante em Jerusalm, anos antes.
Encontrar Jesus foi o maior horizonte para seu esprito. Lembrou-se de como era antes, como homem do mundo. Seus sofrimentos, suas misrias, sua frustrao afetiva 
com o abandono, a solido e a revolta contra a esposa e o traidor que a seduzira, o modo como se comportava com os seus fregueses, sempre em busca de dinheiro ou 
de ganho, lembrou-se de Absalo.
Depois, voltou sua mente para o que ele era hoje, um pobre homem, sem nada mais do que outrora ele julgava importante em face do mundo. Agora era apenas um seguidor 
de Jesus, mas a felicidade que possua agora no se podia comparar com aquela que pensava que tinha antes.
              Perdera todas as coisas materiais para conquistar a serenidade e a paz ntima. Quando possua os bens transitrios, vivia atarantado em aument-los 
ou em no perd-los, desconfiado e inquieto.
              Recordou-se de Judite e do encontro na porta da casa velha que lhe servia de moradia e que era compartilhada por irms que decaram do respeito a si 
prprias. O encontro no qual tudo se revelara, na presena do sedutor de outrora que se havia transformando em irmo de caminhada por fora do verdadeiro amor que, 
naquela hora, pedira dele, Zacarias, o testemunho da verdade.
Jesus falara naquela noite que, se todas as coisas amargas no lhe acontecessem, o Reino de Deus no seria digno de f no corao das pessoas. Ele deveria padecer 
para ensinar a verdade.
Zacarias havia sentido que isso era a mais pura realidade.
              Sentira isso na carne, tendo que enfrentar as pessoas que o feriram e ver-lhes a condio frgil de seres humanos inquietos, ao mesmo

tempo em que teve que dar testemunho pessoal de tudo aquilo qim suas palavras pregavam.
              No bastara ser o veculo da cura fsica ao leproso abandonado, Clofas. Era necessrio descobrir nele o insensato homem que lhe causara a dor moral 
do abandono e ser capaz de continuar a am-lo, no mais em nome de Jesus, mas em nome prprio.
Quando lhe impusera as mos na tapera onde vivia, fizera-o em nome de Deus e do Cristo.
              Mas quando descobriu de quem ele, efetivamente, se tratava, precisara adotar a postura que as palavras do Cristo tanto repetiam, e perdoar-lhe em seu 
nome pessoal.
              Ter conseguido fazer isso lhe deu uma tal fortaleza moral que o fazia sentir-se imbatvel. Passara pela sua prova pessoal a qual, graas  sabedoria 
do que havia compreendido, pudera levar a bom termo, resgatando as duas almas equivocadas - Clofas e Judite - para o trabalho da reconstruo de suas vidas atravs 
do servio no Reino da Verdade.
              - Que Reino estranho era esse? No era feito de prncipes ou reis de tradio nobre.Comeou com um carpinteiro, que escolheu pescadores e homens do 
povo, praticamente analfabetos todos, e depois aceitou como sditos os miserveis, esfarrapados, aleijados, doentes, leprosos, feridentos, prostitutas, publicanos, 
tudo aquilo que um reino humano desperdiaria por considerar escria. A coroa eram as estrelas, o manto imperial, a beleza do cu. O cetro eram os braos e mos 
que atendiam os cados e o trono era o altar do corao, oculto no peito, mas que vibrava no olhar e nas palavras. E os ajudantes do rei eram os miserveis que se 
regeneravam, no  custa de cadeias e castigos, mas, justamente, quando venciam as cadeias do dio e do erro e deixavam de se castigar com o remorso e a culpa, transformando-os 
em pedido de perdo vivo atravs do trabalho em favor dos outros e, ao mesmo tempo, perdoando sempre os que houvessem errado. Estranho reino esse, feito de fracos 
e vencidos no conceito do mundo, mas onde Deus encontrava os adeptos fiis e trabalhadores valorosos para as obras do seu Reino - pensava Zacarias.
              Todos estes pensamentos fervilhavam em seus neurnios de tal modo que Zacarias no percebeu que algum se aproximava.
              Era Jesus que, sozinho, viera ao seu encontro naquela noite estrelada e fresca.
              - Teus pensamentos, meu filho, nunca devem vislumbrar as coisas pelo vu da escurido.
Assustado com a intromisso em seus devaneios, Zacarias

Inventou-se rapidamente, como que a demonstrar seu respeito pelo seu mestre venerado.
- Senta-te, meu amigo. Vamos conversar um pouco sobre o
futuro.
              Dizendo isso, Zacarias voltou a sentar-se onde estava e Jesus fez o mesmo, pondo-se, acomodado, ao seu lado.
              - Se observares bem, Zacarias, somente envolvidas pela escurido  que brilham as estrelas. Eu venho, em nome de meu Pai, acender as estrelas que esto 
no corao de meus amigos, no para que se apaguem ao sabor da primeira brisa. Fao-o para que, como as que esto no cu desta noite, brilhem e encantem a escurido, 
servindo (le inspirao aos pensamentos de amor, de roteiro aos que precisam seguir os seus caminhos a fim de que no se percam. Quando a tempestade ataca as paisagens, 
parece que elas se afugentam. No entanto, acima das nuvens elas velam, pacientes, esperando a tormenta caprichosa passar a fim de que voltem a se mostrar com o seu 
brilho fiel e perseverante.
              Sem as dificuldades que nos cercam, nenhum de ns poderia tornar-se uma delas, pois o destino da estrela  brilhar por causa da escurido. Sem a treva 
da noite elas no se divisam.
              Desse modo, filho,  preciso que a treva envolva a estrela que Meu Pai enviou ao mundo para que os que se prendem  escurido possam ver-lhe a luz 
faiscante na hora da maior noite. Nessa ocasio, desejaro tornar-se uma estrela tambm. Afinal, de escurido todos so professores nesta vida. Falta-lhes, no entanto, 
o desejo de se iluminarem e somente esse contraste forte poder lhes mostrar que a noite pode cobrir com o seu manto todas as coisas, mas  incapaz de aplacar a 
menor das estrelinhas do cu, que continua brilhando vencedora sobre a treva mais compacta.
              No te amofines, Zacarias, por tudo aquilo que est para acontecer, pois tudo isto j foi preparado por Meu Pai h muitos e muitos sculos. Agora chegou 
a hora da libertao dos erros. Ser rduo o trabalho, mas doce a vitria.
              Ouvindo-lhe a palavra inspirada com a qual Jesus pretendia ensin-lo a ser diferente na anlise das coisas, Zacarias se sentiu encorajado a comentar:
              - Mas por que  necessrio o sofrimento de um ser to puro para que os homens acordem para a verdade, Senhor?
              - A natureza no salta pelas etapas que lhe cumpre obedecer. Sempre que desejamos melhorar as coisas, impe-se que nos aproximemos do erro e suportemos 
a sua companhia, sem a qual nunca

o corrigiremos. H pessoas que pensam que belos discursos podem alterar as almas. Pem-se a falar de belas idias com belas palavra:, como se pregassem do alto de 
uma colina aos miserveis do vale. Este:, o escutam, mas no o seguem. Esto cansados e feridos demais para subir a montanha. Alm disso, esse pregador  um desconhecido 
a quem no admiram nem respeitam. Como pode um mdico tratar de doenas se nunca viu um doente? Por mais que tenha conhecimentos tericos, nunca ter credibilidade 
nem acertar os diagnsticos a no ser quando se aproximar do enfermo malcheiroso e examinar-lhe as feridas.
              Assim, Zacarias, quando pretendemos ser instrumentos do Bem, precisamos nos valer das armas do Bem e descer ao vale da maldade.
              Os maldosos esto armados com as armas que julgam ser as que mais lhes garantem a proteo. At que acreditem no forasteiro, que vem como um invasor 
de sua tranqilidade miservel, tentaro proteger-se, atacando-o com suas armas.
              Se o pregador do bem no for to bom como pensa, afastar-se- do desafio, desistindo de ajud-los.
              E se o pregador no se valer do escudo da bondade que est pregando e, colocando-o de lado, defender-se com as mesmas armas agressivas dos que o aoitam, 
igualmente deixar de merecer o crdito em tudo aquilo que est falando, pois seus ouvintes identificaro nele um igual, sem nenhuma coisa diferente a mostrar-lhes.
Assim, os que descem ao vale, mais do que de palavras, devem estar revestidos de fortaleza moral, perseverana, pacincia, confiana em Deus e absoluta renncia 
e abnegao para aceitar os golpes e agir por padres que os enfermos da ignorncia desconhecem. S assim dar provas de que est portando um poder novo e maior 
do que aquele que os demais pensam ser o nico que existe.
Ensinar sem viver  oferecer rosas s areias do deserto.
              Suportar as agresses com uma outra maneira de ser, ensinar aos que vivem nas trevas que a luz  mais poderosa do que qualquer outra coisa.
Sabendo brilhar em vez de se tornar opaca, quanto mais treva a envolver, mais luz se destacar para confundir os trevosos e ensinar-lhes um novo caminho que eles 
no conhecem, ainda.
              E, mesmo que com cicatrizes profundas e ferimentos dolorosos, a tarefa daquele que aceita descer ao vale com a perseverana de educar pelo exemplo 
ir ser recompensada pela grande quantidade de criaturas que deixaro as trevas e aceitaro o reino da luminosidade, acompanhando o devotado servidor que aceitou 
ser machucado para que os outros despertassem.

E se o pregador se retirasse ante as primeiras pedradas?
No seria digno da tarefa para a qual foi enviado.
             Assim  com tudo na vida, Zacarias. Quem faz o bem e no sofre por isso, est longe de ser bom realmente. Quem sofre fazendo o bem a persevera, sem 
desistir, sem se abater, sem desanimar e sem ter miva dos que o agridem ou que no o compreendem ou ajudam, este sim,  digno de ser reconhecido como a estrela que 
brilha, o emissrio de Meu Pai, o agente do Amor.
              Os que se pensam bons, mas no possuem cicatrizes da luta, so ainda os pregadores do alto da montanha.
              Falta descer ao vale das misrias humanas e sofrer com a sua companhia para ajudara melhor-las e para aperfeioarem, como prprio testemunho, a bondade 
que pensam, inocentemente, j estar desenvolvida dentro de si prprios.
Tudo isso aconteceu convosco quando estivestes em Nazar.
              - Sim, meu senhor. Tudo isso ocorreu comigo pessoalmente e reconheo a exatido de teus ensinamentos.
              - Por isso, Zacarias, guarda a coragem de seguir como s, pelos caminhos luminosos e verdadeiros, aceitando a companhia dos maus e perseverando com 
teus exemplos para dom-los com o teu carinho. E se me permites estender as tuas tarefas, tenho algo pessoal a pedir-te.
Tocado em seu mais ntimo sentimento, Zacarias empertigou-se e asseverou ser o escravo por opo, que acata os pedidos de seu senhor como ordens, ainda que venham 
envolvidos no veludo da delicadeza de uma solicitao.
              - Daqui a no muito tempo, a noite fechada ir envolver a estrela que Meu Pai enviou para brilhar nos caminhos dos homens. E sobre alguns deles vai 
pairar a responsabilidade de minha condenao injusta, atendendo s presses que a ignorncia far para atingir os seus objetivos.
              No entanto, o Reino de Deus  para todos, principalmente para os que se perdem nos erros de governo e nas responsabilidades na condio de criaturas. 
Assim, como foste o primeiro a te aproximares do governador na noite em que fez brilhar o primeiro raio de luz aos seus olhos imaturos, quero pedir-te que, seja 
como for e o que acontecer comigo por culpa da fraqueza desse nosso irmo em crescimento, no o abandones. Quando eu no estiver mais fisicamente entre vs, estarei 
buscando as ovelhas perdidas que meu Pai me confiou e gostaria que fosses o instrumento do pastor, procurando resgatar essas

CRIATURAS QUE SE PERDERAM NOS DESMANDOS E NO DESCUMPRIMENTO do DEVER.
        NO PRIMEIRO MOMENTO, PARECERO VITORIOSOS. NO ENTANTO, no TARDAR PARA QUE O PESO DA CULPA LHES FUSTIGUE A ALMA E PARA QUE a PERDA DE TODOS OS PRIVILGIOS 
OS REDUZA  MISERVEL CONDIO do DESDITOSOS SEMELHANTES, POUCO DIFERENTES DOS LEPROSOS QUE NOS PROCURAM A AJUDA, PELOS SCULOS DO FUTURO.
        DENTRE TODOS ESTES, PEO A TUA AJUDA PARA QUE ESTE, EM PARTICULAR, SEJA ACOMPANHADO PELO TEU CARINHO, PARA ONDE FOR, ONDE ESTIVER, A FIM DE QUE, NO MOMENTO 
ADEQUADO, VOLTES A FALAR-LHE DO REINO DE DEUS QUE NO O ESQUECEU NEM EXCLUIU.
        LEMBRA-TE, NO ENTANTO, DE ESPERAR A MELHOR HORA. SEGUE-O DE LONGE E ESTEJAS A POSTOS, POIS NA OCASIO ADEQUADA TE SER REVELADO COMO AGIR EM FAVOR DE SUA 
RECUPERAO. EU ESTAREI CONTIGO COMO SEMPRE ESTIVE. POSSO CONTAR COM TEU AUXLIO?
        ALGO CONFUNDIDO E, AO MESMO TEMPO, DESEJANDO ESCLARECER AS COISAS QUE ESTAVA IMAGINANDO SEM ENTENDER BEM, ZACARIAS PERGUNTOU RETICENTE:
- SENHOR, TE REFERISTE AO GOVERNADOR PILATOS?
        - NO, ZACARIAS, ESTOU ME REFERINDO AO NOSSO IRMO PILATOS, QUE , APENAS, O QUE SOBRAR DELE DEPOIS DE TUDO O QUE VAI OCORRER. ELE PRECISAR MUITO DE TI 
E, PELA IMPRESSO QUE J PRODUZISTE EM SUA ALMA, SER MAIS FCIL QUE TE RECEBA NA HORA AMARGUROSA QUE O ESPERA E QUE SER O MOMENTO UREO DE SUA TRANSFORMAO. NADA 
DO QUE ELE FIZER OU DEIXAR DE FAZER DEVER INTERFERIR NO TEU AMOR POR ESSE NOSSO AMIGO. TUA TAREFA CONSISTIR EM CONSOL-LO A FIM DE QUE ELE ESTEJA SEMEADO DE BOAS 
SEMENTES. A ETERNIDADE SE INCUMBIR DE FAZ-LAS GERMINAREM. NO ESPERES POR RESULTADOS IMEDIATOS. MESMO QUE ELE TE REPUDIE, QUE NO TE ESCUTE, QUE NO DESEJE TUA 
COMPANHIA, PERSISTE SEMPRE. ESTEJAS PRXIMO, SOLICITO E SORRIDENTE. DIA CHEGAR EM QUE O PODEROSO GOVERNADOR NO TER NINGUM MAIS AO SEU LADO A NO SER A TI MESMO.
        DESEJANDO CORRESPONDER AO PEDIDO DE JESUS COM O MAIS NOBRE DE SUA ALMA, ZACARIAS RESPONDEU, SINCERO:
        - SENHOR, TEU PEDIDO  A MINHA VONTADE. SE TEU CORAO V EM MIM QUALIDADES QUE EU NO CONSIGO, POR MIM MESMO, ENCONTRAR, EU AS COLOCAREI INTEGRALMENTE A 
SERVIO DESSA TAREFA, NA QUAL VEREI A TUA SOLICITUDE E O TEU AMOR ANTES DE QUALQUER COISA. ATENDEREI ESSE IRMO COM TODAS AS FORAS DO MEU SER E SEGUIREI SEUS PASSOS 
POR ONDE FOR NECESSRIO A FIM DE SUSTENT-LO COM A ESPERANA DO REINO DE DEUS E DE TEU CORAO AFETUOSO.

FELIZ POR AQUELE COLQUIO TO SIGNIFICATIVO NAQUELA HORA DE NTENDIMENTO QUE SE ESTENDERIA PELOS SCULOS VINDOUROS, JESUS COLOCOU SUA MO SOBRE A FRONTE DE ZACARIAS 
E ELEVOU O OLHAR AO FIRMAMENTO, OROU A PEDIR QUE AS ESTRELAS DO CU PASSASSEM A EMPRESTAR O SEU BRILHO QUELE COMPANHEIRO QUE ACEITARA IR AO SACRIFCIO PARA LEVAR 
A ESPERANA AO ADVERSRIO DA VERDADE.
        NO INTERIOR DE ZACARIAS, PARECE QUE UMA DAS ESTRELAS DO CU, NAQUELA NOITE, VEIO HABITAR, ILUMINANDO-LHE PARA SEMPRE O CORAO.
        DEPOIS DE ALGUM TEMPO, JESUS ERGUEU ZACARIAS E O CONDUZIU AO LOCAL DO REPOUSO, A FIM DE QUE, NO SILNCIO DO SONO, PUDESSE O SEU NOVO EMISSRIO ENCONTRAR 
O DESCANSO NECESSRIO E A PREPARAO PARA AS TAREFAS QUE LHE CONSUMIRIAM BOA PARTE DOS DIAS DO FUTURO NAQUELA EXISTNCIA E, NAS VINDOURAS, TODAS AS PREOCUPAES 
EM MANTER-SE FIEL AO MANDATO QUE LHE FORA OUTORGADO POR JESUS.
        ESTA FORA A NICA VEZ QUE O MESSIAS LHE HOUVERA FALADO ASSIM, NA SOLIDO DO ENTENDIMENTO E, IGUALMENTE, SERIA A LTIMA ENTREVISTA PESSOAL COM A SUA SABEDORIA.
        A PARTIR DE ENTO, CONVERSARIAM APENAS COM OS OLHARES, EIS QUE UMA MISTERIOSA CAPACIDADE DE SENTIR JESUS NO SEU INTERIOR LHE FORA CONFERIDA POR AQUELE GESTO 
DE BNO DURANTE O QUAL O MESTRE INVOCARA A PROTEO A ZACARIAS NAQUELA NOITE.
        NO SE FALARIAM MAIS POR PALAVRAS, MAS EM TODOS OS MOMENTOS QUE JESUS LHE MIRAVA COM OS OLHOS LCIDOS, ZACARIAS SABIA O QUE O MESTRE ESTAVA DESEJANDO DELE.
        JOSU CONTINUAVA SEU AMIGO CHEGADO, O MESMO ACONTECENDO COM SAUL E CLOFAS QUE, APROXIMADOS DE JESUS, GANHAVAM VIDA NOVA, E TANTOS EXEMPLOS DE ABNEGAO 
E RENNCIA OFERECERAM QUE, POR SEUS PRPRIOS MRITOS, CONQUISTARAM O RESPEITO E A GRATIDO DOS MAIS ANTIGOS SERVIDORES E DISCPULOS DO MESTRE.
        ESTAVAM SEMPRE JUNTOS E SEMPRE QUE POSSVEL SE AJUDAVAM E AUMENTAVAM O NMERO DOS SIMPATIZANTES E AMIGOS NO GRUPO DOS SEGUIDORES PELO MUITO QUE SERVIAM AOS 
SOFRIDOS.
        ALGUNS DISCPULOS MAIS PRXIMOS DO CRISTO SE DEMONSTRAVAM SEMPRE RUDES NA DEFESA DA INTEGRIDADE E DO SOSSEGO DO SENHOR. TODAVIA, OS QUATRO AMIGOS PROVIDENCIAVAM 
SEMPRE UMA MANEIRA DE ACOLHER OS QUE SE LHES ACERCAVAM, CONSOLANDO-OS, CONVERSANDO E ESCUTANDO AS SUAS MISRIAS, MESMO QUANDO JESUS ESTAVA AUSENTE, PERCORRENDO OUTRAS 
PARAGENS.
        MUITAS VEZES, JOSU FALAVA DAS VERDADES QUE APRENDERA DE JESUS AO POVO QUE SE REUNIA ESPERANDO A CHEGADA DO SENHOR, PARA AS PREGAES DIRIAS. NO ENTANTO, 
 MEDIDA QUE O TEMPO PASSAVA, MAIS E
mais o Mestre se ia entristecendo, como se um vu de amarguras lhe toldasse o olhar. Estava mais calado e pensativo nas longas noites em que passava em oraes solitrias, 
nico horrio em que tinha tranqilidade para conversar com o Pai sem ser importunado pelas pessoas e pelos seus prprios seguidores.
              Seus avisos se multiplicavam e os discpulos no os gostavam de escutar, pois estavam se entusiasmando com o sucesso e a publicidade de todo aquele 
movimento.
              Alguns, inclusive, passaram a imaginar que ele seria, efetivamente, o libertador do povo como um revolucionrio armado a subverter a ordem estabelecida. 
Judas era destes que imaginavam estar a servio de uma revoluo mais militar do que moral e, assim, tramava nos bastidores uma ampliao do movimento, fazendo contatos 
com outros descontentes do povo, espalhando clandestinamente a notcia de que o dia da liberdade havia chegado.
Aproximava-se a comemorao da pscoa judaica e o desejo de Jesus em passar essa data na capital do povo, para onde acorriam todos os que podiam viajar, fazendo 
ferver as suas ruas, era um dos mais fortes indcios de que, no fundo, Jesus estava indo para l a fim de dar o incio  revoluo.
              Pensavam os partidrios de tal idia, viciados pelos equvocos morais, que Jesus houvera comeado o apostolado da maneira como o fez a fim de arrumar 
mais e mais adeptos no seio do povo, espalhando benefcios e curas para que mais e mais criaturas pudessem conhecer o seu poder e se aliar  causa.
              Por isso, raciocinava Judas, que melhor momento do que a pscoa para comear o movimento?
              Ali em Jerusalm estaro milhares de pessoas que tinham sido atendidas por ele, curadas por suas mos, que lhe haviam ouvido as palavras e se encantado 
com a promessa de um novo reino.
              L seria o melhor local para que o movimento tivesse incio e, assim, valendo-se de seus amigos mais chegados, espalhou a notcia, sorrateiramente, 
para que ningum soubesse a sua origem, de que naquele perodo seria iniciada a modificao das coisas. Que se preparassem com recursos armados para eventual luta 
contra o invasor romano.
              No momento adequado a ordem seria dada e todos deveriam estar preparados para enfrentar o inimigo romano em muito menor nmero e encastelado nas muralhas 
da cidade.
              No seria difcil derrubar o invasor e, sobre ele, vencido, estabelecer uma nova ordem onde a tradio de Abrao ocupasse o

ou devido lugar, conforme Javh houvera prometido um dia, nos remotos ovos descritos pela tradio religiosa.
             Assim estavam as coisas preparadas, no clima da revoluo no proclamada, mas insinuada, quando a pscoa do ano 33 chegou.
              Por motivos de segurana pblica, Pilatos houvera regressado a Jerusalm para ali estar nesse perodo turbulento das festas religiosas to propcias 
ao desejo de liberdade do povo judeu. Afinal, era na pscoa que se comemorava a conquista da liberdade quando o povo estava cativo no Egito distante.
              Mais e mais soldados foram trazidos para a cidade e, ainda assim, eram muito poucos diante do contingente da massa humana que para l acorria nessa 
semana de oraes, oferendas, sacrifcios e intrigas religiosas e polticas.
              Convencido de que ali seria um local muito favorvel para encontrar notcias do filho desaparecido, Pblio e sua famlia deixaram Cafarnaum e regressaram 
 capital, agora para uma confortvel moradia que Pblio havia comprado para ali permanecer longe da influncia nociva dos seus parentes, entre os quais da perversa 
Flvia, que se preparava para seguir com seus planos de levar a infelicidade quela que pensava ser a sua concorrente nas preferncias de Pilatos.
              Deste modo, tudo estava preparado para os decisivos atos que a tragdia humana conhece como a maior de suas quedas, o mais tenebroso gesto de violncia 
e de trevas, mas de onde os homens ofereceram o negro ambiente para que a Luz da Verdade se imortalizasse em seu brilho rutilante no horizonte das criaturas.
                Aquela seria uma semana decisiva na vida de todos os integrantes desta histria e, de resto, no destino de toda a humanidade.
              A chegada do Mestre a Jerusalm fora precedida por uma longa jornada na qual inumerveis seguidores o acompanharam at a capital religiosa e poltica 
da nao, passando por povoados e vilarejos onde eram recebidos pela alegria dos moradores, j conhecedores da fama e da bondade do Cristo.
              Adensando-se a caravana dos que lhe faziam companhia, a passagem do Mestre por Betnia, pequeno povoado nas cercanias de Jerusalm, fora algo extremamente 
impactante, notadamente porque ali, na companhia dos amigos to queridos, Marta e Maria, que pranteavam a morte de Lzaro, para surpresa de todos, Jesus contrariaria 
a evidncia afirmando que Lzaro no havia morrido, mas que estava dormindo. Dito isso, dirigiu-se at a porta do tmulo de onde, atendendo ao seu chamamento doce 
e firme, o prprio Lzaro - que todos acreditavam ter morrido j h alguns dias e cujo corpo fsico j apresentava sinais de necrose - levantou-se, enfaixado e atontado, 
aparecendo  porta para espanto de todos.
Tal feito fora, na verdade, a concretizao material de um poder que muitos tinham escutado ser real, mas que ainda lhes parecia fruto do entusiasmo popular, sempre 
a aumentar as coisas  medida que as notcias se vo espalhando.
No entanto, ali no havia dvidas sobre essa capacidade.
Os discpulos diretos se maravilharam com a maneira de Jesus demonstrar o seu poder, diante do povo que o seguia, e Judas, crendo que isso fazia parte da estratgia 
do Senhor, fez, mais do que depressa, correr a notcia de que o libertador, o verdadeiro Rei dos Judeus estava

chegando, aproveitando-se da alcunha que o povo miservel e sofrido usava para se referir  figura imponente e humilde do Cristo.
              Distando poucos quilmetros de Jerusalm, facilmente se propagou a notcia do milagre ocorrido em Betnia e, desse modo, a afirmativa de que o motim 
libertador se aproximava inflou de esperanas a alma rebelde de muitos dos judeus que, sedentos de liberdade, mais se deixaram inflamar pela perspectiva da revolta 
prestes a iniciar-se.
              Do mesmo modo, a fama de Jesus causava preocupaes na alma dos sacerdotes e fariseus, que temiam a sua doutrina porque ela lhes impunha uma modificao 
radical na maneira de viver e de retirar vantagens pessoais do exerccio do sacerdcio e no controle das sinagogas, coisas nas quais o interesse pessoal dos judeus 
influentes se mesclava com as coisas sagradas, o que sempre fora odioso e continua a ser at os dias atuais, quando muitos religiosos se valem do profissionalismo 
da f como fonte de renda pessoal e de ganhos financeiros.
              Assim, Jesus j no podia caminhar livre e despreocupadamente no meio dos judeus porque muitos j tramavam contra a sua vida e buscavam um meio de 
prend-lo naqueles dias que se aproximavam e que correspondiam  pscoa do povo.
              A entrada do Messias em Jerusalm fora coroada de xitos retumbantes, uma vez que, cercado por seus discpulos e por um grande grupo de seguidores, 
foram acolhidos por outra multido eufrica e exultante com a perspectiva de estar ali presenciando a chegada do libertador da raa do domnio estrangeiro.
              As pessoas buscavam improvisar-lhe um tapete para homenage-lo, atirando ao solo folhas verdes arrancadas das rvores, procurando mescl-las com ptalas 
de flores silvestres, colocando tambm seus prprios mantos e vestes no caminho por onde passaria a comitiva.
              Este movimento no passou despercebido dos importantes representantes judeus que, mais do que depressa, foram informados da calorosa recepo que aquele 
profeta do povo estava recebendo  entrada da cidade.
              Todavia, ao contrrio do que o povilu estava lhe demonstrando na euforia de sua recepo, como a apoi-lo em caso de revolta armada ou rebelio declarada 
contra os poderes constitudos, Jesus entra em Jerusalm demonstrando exatamente outro tipo de disposio.
Tanto que, em vez de entrar andando como sempre o fizera pelos caminhos ou, ainda, valendo-se de um fogoso cavalo como todos os guerreiros hericos, protagonizando 
a figura do libertador, o Mestre se

vale de um burrico emprestado para, montado nele, ingressar na poderosa cidade.
              Assim, o festim triunfal que o povo lhe preparava era confrontado pela mensagem silenciosa de Jesus, que o repelia com o comportamento humilde e desajeitado 
que era representado pela sua montaria singela e digna de provocar risos na alma dos menos empolgados.
              No entanto, os exaltados no quiseram entender a mensagem da humildade e do desapego s convenes e expectativas do mundo judeu que Jesus estava demonstrando 
com aquele comportamento.
              Depois das festas do dia, dirigiu-se cercado pelo povo at o Templo onde, aps ali permanecer alguns minutos caminhando por entre a multido, retirou-se 
para dormir em casa de Maria, Marta e Lzaro, na cidade de Betnia.
              A notcia de sua chegada espalhou-se por Jerusalm, eis que nela se congregavam muitos judeus de todas as cidades e vilarejos que Jesus houvera percorrido 
em seus trs anos de tarefas missionrias e que j o conheciam pessoalmente ou tinham tido contato com sua doutrina e seus feitos.
A ansiedade e a expectativa aumentaram com a sua chegada  cidade naqueles dias to especiais para todos.
              Em casa de Pblio, igualmente, chegou a notcia alvissareira atravs da serva de Lvia, a fiel e simples Ana, que colocara a sua senhora a par da novidade 
e dela recebera a autorizao para ir ouvir-lhe a mensagem naqueles dias, permanecendo junto ao velho tio Simeo que viera de sua vivenda na Samaria at Jerusalm, 
acompanhando a comitiva apostlica.
              O ambiente interno de sua casa no sofrer alteraes importantes, sentindo Lvia o distanciamento imposto, inexplicavelmente, pelo esposo e guardando 
para si as apreenses que a sabedoria feminina aprendeu a administrar e suportar com o estoicismo que a transformara no esteio de qualquer famlia.
              Pilatos estava envolvido pelas questes administrativas e pelos perigos que, nessa poca, brotavam de todos os lados, notadamente porque era o representante 
estrangeiro de maior prestgio. Se algum movimento de libertao ou revolta se iniciasse ali em Jerusalm, tal ocasio reunia todos os elementos propcios para que 
o sucesso lhe estivesse garantido, em face do imenso volume de peregrinos reunidos para as festas religiosas de sua tradio, o que punha em risco a capacidade de 
defesa at mesmo da cidadela fortificada na qual se sediava a supremacia militar romana na regio.
As medidas de defesa e conteno de nimos dos prprios judeus,

sempre divididos em faces e grupos hostis entre si mesmos, tomavam jrande parte do tempo e da energia dos soldados.
              Inmeras patrulhas percorriam as ruas principais e os becos em Jerusalm nesse perodo, procurando, de modo ostensivo, intimidar os mais exaltados 
e aconselh-los a uma conduta pacfica que tivesse na exortao religiosa o seu cunho principal.
Colocando a soldadesca na rua, restava-lhe um grupo reduzido de militares de prontido para ser usado em caso de tumulto generalizado. Todavia, Pilatos tinha noo 
clara de que, mesmo possuindo armamentos mais potentes do que o que era acessvel ao povo judeu, o volume de combatentes dos dois lados dava ntida e larga vantagem 
aos judeus que, se o desejassem, poderiam facilmente iniciar uma conspirao que acabariam por vencer em face de possurem concentrados ali mais homens do que a 
guarnio militar que ele comandava.
Nos primeiros anos de sua governana, solicitara reforos da provncia vizinha - a Sria - pois temia que o povo se valesse de sua inexperincia no governo da Judia 
para tentar destruir-lhe a reputao e golpe-lo no incio de sua trajetria administrativa.
              Depois, no entanto, quando as pessoas passaram a conhecer o seu carter rude e a sua maneira impetuosa de se conduzir, a sua capacidade de aterrorizar 
pela violncia e os seus modos licenciosos e permissivos, os lderes judeus passaram a relacionar-se com ele de outra maneira, no mais produzindo no esprito do 
governador o temor inicial que o aconselhara a solicitar reforos de fora.
Tanto que, nesta pscoa, a stima de seu governo, no havia solicitado qualquer colaborao especial para a manuteno da ordem local.
At mesmo porque, a medida poderia ser interpretada pelos seus superiores romanos como uma demonstrao de fraqueza pessoal e incapacidade de manter-se com o contingente 
que lhe era oferecido e tido como suficiente para aquela provncia.
              Desse modo, Jerusalm estava patrulhada pelos soldados de que dispunha o governador, mantendo pequena reserva, como j se disse, para situaes mais 
graves.
              Seu palcio administrativo estava sempre na mira dos potenciais revoltosos e, assim, ali se encontravam vrios soldados de prontido e preparados para 
reprimir os mais violentos e agressivos.
A presena de Jesus, aliada ao boato que Judas houvera feito circular de que se tratava do momento da liberdade do povo, a esperana de muitos sofredores, a euforia 
com os feitos do Mestre, o grito de revolta preso na garganta de muitos dos judeus que no suportavam a

convivncia com os romanos em sua terra, tudo isso se combinava para que os desdobramentos dos fatos se precipitassem.
              Nos dias que se seguiram, Jesus apresentava-se na cidade sempre cercado pelos seus seguidores e demonstrava toda a sua indignao com as condutas venais 
dos sacerdotes. Virar mesas de dinheiro que se haviam erguido no recinto do Templo de Jerusalm nas quais os peregrinos tinham que trocar as suas moedas regionais 
pelas que tinham curso regular para a compra de animais e objetos sagrados que, logo a seguir, seriam oferecidos em holocausto de sua f, no altar dos sacrifcios.
              Ao mesmo tempo, os prprios sacerdotes que eram, terica e eticamente, impedidos de comercializar pela sua condio especial, mantinham, junto dos 
cambistas, pessoas que faziam as vezes de seus testas de ferro, vendendo os animais que lhes pertenciam e arrecadando dinheiro para eles, ao preo de pequena comisso, 
maneira de burlar a proibio de serem, os sacerdotes, exploradores da f dos seus irmos de raa.
              Eles no vendiam pessoalmente-como proibia a lei, alis, muito correta nesse sentido, j que no permitia que aquele que desejou seguir o caminho do 
sacerdcio se movimentasse nos dois caminhos ao mesmo tempo: o que levava a Deus e o que chafurdava nas negociatas dos homens.
              Ento, para burlarem tais restries, valiam-se de secretos representantes que, vendendo animais dos quais pareciam donos, mas, na verdade, estavam 
comercializando o patrimnio pessoal dos prncipes do Templo, que desejavam ganhar mais e mais vendendo os animais que criavam para o povo lev-los ao sacrifcio, 
como a tradio mandava.
Essa conduta vergonhosa era conhecida pela maioria das pessoas, que mais no faziam do que comentar entre si o absurdo e a hipocrisia daqueles sacerdotes os quais, 
ao invs de darem o exemplo, costumavam censurar o povo por suas pequenas quedas morais nos sermes que faziam nas sinagogas.
              A conduta de Jesus, desse modo, foi uma demonstrao muito clara de seu desejo de limpar da vilania dos homens a Casa do Pai, como se referiu ao mencionar 
o local sagrado da f dos seus irmos judeus.
              Quando tal notcia correu pela cidade, os que j estavam pensando na revolta mais se animaram com a idia, imaginando que no tardaria o momento em 
que alguma palavra ou ordem direta desencadearia o motim to aguardado.
Jesus estava dando mostras de sua independncia sobre os

poderes humanos, no temendo as conseqncias e se valendo de sua autoridade moral e da liderana sobre muitos dos que o seguiram para mostrar que a verdade no 
pode ser suplantada pelo erro para sempre.
              Isso atingia as feridas morais mais bem disfaradas que os fariseus e saduceus procuravam ocultar com seus mantos suntuosos, suas posturas ritualsticas 
vazias e seus comentrios sobre a lei, cheios de casusmos e mentiras.
              E a receptividade do povo s verdades que Jesus procurava ensinar-lhes, ora com a palavra doce, ora com as curas estupendas, ora com a conduta firme 
contra os mercadores da f ia diretamente na fonte das preocupaes dos lderes religiosos judeus que, sem terem como lhe negar as acusaes verdadeiras de que eram 
objeto, passaram a desejar, ardentemente, livrar-se da fonte das verdades amargas que contra eles eram desferidas, matando-a.
              Todavia, apesar da conduta firme de Jesus, os dias iam se passando sem que o Mestre tivesse qualquer comportamento no sentido de deflagrar o movimento 
como se estava pensando que o faria, naquela oportunidade.
              E o tempo era um fator precioso nessa luta j que, passada a comemorao daquela semana, todos os peregrinos regressariam s suas cidades e Jerusalm 
se esvaziaria.
              A pequena vantagem que eles tinham - que era a vantagem numrica - deixaria de existir e, por isso, cada dia que passava era um dia que se perdia e 
que, com o encerramento das festividades, encerraria tambm o sonho de liberdade e poder que grande parte dos judeus sonhava em obter, entre eles o prprio Judas.
              Sabendo disso, Judas era o que mais se sentia comprometido com os rebeldes que ele alimentara com as expectativas do movimento, acostumado que estava 
s prticas do comrcio nas trocas, nas estratgias, na influncia sobre o desejo das pessoas, uma vez tratar-se, ele prprio, de comerciante antes de ser convocado 
para integrar a caravana apostlica.
Sua reputao estava em jogo, ao mesmo tempo em que o movimento que ele abastecera de esperanas, agora, se voltava contra ele, cobrando-lhe o momento em que seria 
desferido o golpe inicial contra os invasores.
              Alguns dos prprios fariseus estavam dispostos a aguardar os acontecimentos porque desejavam tirar proveito desse clima de antagonismos e, quem sabe, 
o movimento que Jesus liderava pudesse fazer-lhes o favor que eles mesmos no haviam tido a coragem de realizar, lutando abertamente contra os romanos poderosos.

              Assim, dentre os prprios lderes religiosos judeus, surgiam correntes conflitantes, uma, que pedia o imediato aprisionamento daquele homem perigoso 
para suas tradies e outra, que desejava dar mais tempo a esse grupo rebelde que poderia estar abrindo o espao para a liberdade poltica que eles tanto desejavam. 
Depois de iniciado o movimento libertador, como os boatos diziam  boca pequena, vencendo a dureza dos romanos com o vigor dos judeus jovens, os sacerdotes e fariseus 
se levantariam igualmente e, assumindo a liderana do movimento, agora sem os perigos da exposio prematura, afastariam Jesus e o matariam para no perderem o espao 
poltico desejado.
              Essas duas correntes internas dividiam os judeus importantes, que ficavam na discusso sobre qual a melhor estratgia a seguir.
              Levado pelas presses dos correligionrios revoltosos, que viam o tempo passar perigosamente para a sua causa, os inmeros lderes judeus que acreditaram 
nas promessas de Judas colocaram-no em uma encruzilhada decisiva.
              Era Jesus quem deveria liderar o movimento e, ao mesmo tempo, ele no o fazia nem dava mostras de que o faria, efetivamente.
              Limitava-se a pregar o Reino de Deus, a curar e a andar com os discpulos pela cidade e arredores, pregando o amor e a caridade.
              Judas afirmava que isso era apenas uma estratgia sbia para conseguir mais simpatizantes para a causa. No entanto, Judas mentia e suas palavras no 
expressavam seno a sua idia pessoal de poder e liberdade, impedido que estava pela sua ignorncia de vislumbrar outro Reino que no fosse o da matria e outro 
Poder que no fosse o das armas.
              Por isso, agoniava-se o discpulo vendo a inrcia de Jesus, ao mesmo tempo em que se apercebia da disposio para a luta existente em muitos que queriam 
fazer daquela pscoa a data da liberdade do povo, como ocorrera no Egito longnquo.
              Precisava tomar alguma iniciativa, antes que fosse tarde demais e antes que algum outro exaltado assumisse a liderana do movimento, o que tiraria 
de Jesus o privilgio e, dos seus seguidores, as vantagens de estarem ao seu lado, podendo compartilhar o poder advindo da conquista, depois da vitria sobre os 
romanos.
J se haviam passado mais de quatro dias desde que Jesus chegara a Jerusalm naquele domingo triunfal e nada tinha acontecido.
Se Jesus no tomava a iniciativa, talvez o fosse porque no estava percebendo o tamanho da aceitao popular - imaginava Judas, na sua ingenuidade ignorante.

              Ao mesmo tempo, sabendo que os fariseus e saduceus no eram pessoas bem aceitas pelos judeus mais simples, em face de sua iiipocrisia e de suas maneiras 
arrogantes, Judas concebeu o plano de dar incio  rebelio por sua prpria conta, pois imaginava que, assim o fazendo, as circunstncias produziriam o resto naturalmente.
              Sabendo que os fariseus mais exaltados tramavam contra Jesus, Judas acerta com eles revelar onde se encontrava, para ser preso.
              Imaginava que, com a notcia da sua priso por parte dos fariseus e sacerdotes judeus, isso levantaria a ira da plebe contra eles tambm, o que faria 
com que a revolta se iniciasse para pedir a libertao de Jesus, como o heri do povo humilde.
              Da, conseguida a libertao, facilmente se teria congregado  volta do Senhor a expectativa unnime que lhe mostraria possuir a liderana absoluta 
e, se lhe estava faltando at ento, no lhe faltaria a partir da a vontade de liderar o movimento contra os invasores e libertar o povo.
Apenas uma palavra sua bastaria para que isso se desse.
              Seu plano parecia perfeito, graas ao qual as nsias libertrias se veriam colocadas em risco com a priso do Mestre pelos prprios judeus, o que ocasionaria 
uma reao dos adeptos secretos do movimento, forando-os a sair publicamente, a pedir pela libertao de seu lder e, unidos  sua causa, demonstrariam a Jesus 
a sua importncia.
              Alm disso, tais fatos no levantariam suspeitas junto aos romanos, que achariam que se estava tratando, apenas, de mais uma das tricas dos prprios 
judeus, nas suas divergncias internas to comuns na raa rebelde, que se caracterizava pela polmica e pelas disputas.
Assim, os romanos no teriam motivos para se alarmar diante de tais ocorrncias que, logo mais, haveriam de voltar-se contra eles mesmos, afastando-os do poder sobre 
a terra prometida.
Nas conversaes com os fariseus e sacerdotes da corrente que propugnava pela priso de Jesus, obteve a garantia verbal de que no pretendiam tirar-lhe a vida, mas, 
apenas, det-lo para que no produzisse mais estragos  reputao dos religiosos durante a pscoa. To logo esta terminasse, coloc-lo-iam em liberdade, depois de 
avaliarem no mais alto tribunal da raa as alegaes contidas em sua pregao.
              Essa garantia lhe pareceu suficientemente sincera para que no temesse em entregar Jesus aos fariseus maldosos e matreiros, nem aos sacerdotes astutos 
e mesquinhos.
E como que desejando parecer que estavam procurando dar

mostras de sua verdadeira boa vontade, ao mesmo tempo em que demonstravam gratido a Judas por esse auxlio importante, entregaram o famoso saco de moedas - pequena 
fortuna que demonstrava a confiana recproca naquele trato. Ao mesmo tempo, o esprito cpido de Judas, acostumado a trocas e negcios, lobrigou uma boa quantia 
que poderia ser usada no financiamento da prpria revolta, caso as coisas assim o exigissem.
              Para lhe dar a sensao de que tal montante estava sendo entregue como garantia da palavra empenhada, os sacerdotes e Judas haviam acertado que tais 
valores ser-lhes-iam devolvidos depois que tudo ocorresse conforme tinham combinado.
              Isso deixou Judas ainda mais confiante do sucesso de sua estratgia.
              Facilitaria a priso injusta de Jesus pelos fariseus e sacerdotes odiados pelo povo simples e isso desencadearia todo o restante, segundo suas idias.
              Assim, combinaram a senha e o momento seria definido pelo prprio apstolo, que iria dar as informaes necessrias  localizao do Messias para a 
sua priso.
              Feito isso, Judas regressou  companhia do Senhor, exultante e preparado para as coisas que iriam advir.
Conversou em sigilo com Pedro, que no ignorava de todo as expectativas populares para aqueles dias, mas com seu temperamento de pescador, ainda que rude em muitos 
momentos, desencorajava Judas de se meter nesses assuntos.
              A sua palavra no revelava a negociata que havia feito com os inimigos, mas, sim, a emergncia da situao, trazendo a Pedro a advertncia de que no 
deveria andar desarmado, pois a qualquer momento, os inimigos poderiam prender Jesus ou, a qualquer momento, a revolta explodiria.
              Judas queria criar a idia de que Jesus fora arrebatado injustamente, depois de ter sido defendido pelos seus e de, ainda assim, os judeus mesquinhos 
e covardes terem-no levado preso sem justificativa ou acusao.
              Pedro, sem entender o ntimo desejo de Judas, mas reconhecendo que o clima em Jerusalm era propcio para alguma emboscada ou algum gesto de agresso 
contra Jesus, aceitou levar consigo, naquele dia, um artefato de defesa com o qual pretendia defender o Mestre contra os agressores.
Chegado o momento, depois da emocionante ceia final na qual
Jesus se despede de seus seguidores mais ntimos e deixa para a posteridade o exemplo do verdadeiro Amor e da verdadeira Amizade, j no Monte das Oliveiras, para 
onde se dirigira com seus discpulos mais prximos, a figura de Judas se aproxima conduzindo um grupo de homens mandados pelos fariseus e sacerdotes, que j se haviam 
organizado para que as coisas tivessem outro destino que no aquele que Judas tinha imaginado.
              Identificado pelo seguidor no meio dos seus amigos de aflio, notabilizou-se na tradio apostlica a cena do beijo da traio com o qual Judas apontaria 
aquele que deveria ser preso.
              Em realidade, no corao de Judas, apesar de sua condio inferiorizada e cega, sua conduta no era a do traidor, mas sim daquele que d condies 
para que o movimento libertador se iniciasse. Para si mesmo era um quase heri ainda no compreendido, mas que, em breve, seria como tal reconhecido pela sua coragem. 
Alm disso, houvera conseguido dos sacerdotes, com quem se entendera, todas as garantias necessrias  proteo de Jesus que, mais tarde, seria devolvido  liberdade, 
sem danos para a sua integridade fsica.
              Estava imaginando dirigir um jogo no qual j possua todas as cartas marcadas pela sua inteligncia astuciosa e, aquele, seria o gesto inicial de toda 
a grande epopia do povo, herico e lutador, conforme a tradio lhe enaltecia tais virtudes de carter.
              Faltava o estopim inicial, esse que Judas estava acendendo e que acabaria com a escravido imposta pelo invasor romano.
              Jesus  preso e, na tentativa de proteger-lhe de tal agresso, Pedro, lembrando-se das advertncias ouvidas do prprio Judas, tenta defender o Mestre 
agredindo o servo dos sacerdotes, de nome Malco, cortando-lhe a orelha com a espada.
              No gesto de benevolncia e fraternidade que caracterizavam a sua doutrina, Jesus repreende Pedro e toca a orelha do agressor, curando-a, na advertncia 
que deixa para todos ns que o que nos ferir para sempre sero os nossos gestos de agresso aos outros.
               Receberemos sempre de acordo com o que dermos. Seremos julgados na medida com que julgamos. Se ferimos pela espada, pela espada seremos feridos.
              Amarrado como um reles bandido, Jesus  conduzido  casa do Sumo Sacerdote onde se mantm vigiado por servidores do Templo at o amanhecer, sendo ironizado 
e agredido pelos que o deveriam guardar, mas que, na sua arrogncia e falsa superioridade, se valiam da fragilidade daquele homem inocente para zombarem de sua aparente 
condio de inferioridade.

              Enquanto isso, Judas se pe a espalhar a notcia da priso do Cristo no Monte das Oliveiras, acreditando que essa novidade poderia impor-se por si 
mesma, dando incio ao levante popular.
Ao mesmo tempo, uma outra notcia com a qual ele prprio no contava, feriu os ouvidos dos populares, ou seja, a de que o prprio discpulo havia entregado o Mestre 
aos inimigos.
              Vendo-se surpreendido pelas interpretaes equivocadas de seu gesto, Judas se viu forado a revelar parte de seu plano, indicando que a priso seria 
o sinal adequado para que a rebelio pudesse comear.
              Todavia, a sua conduta dera mostras de que ele no era digno de confiana e sua palavra poderia no ser verdadeira. Afinal, havia entregado o lder 
do movimento, aquele que Judas mesmo dizia ser o mais importante membro e que deveria ser defendido ferreamente e seguido cegamente.
Como  que o prprio discpulo agia dessa maneira infiel?
              E Judas, vendo as coisas se complicarem para seu lado, revelou os detalhes da conversao com os sacerdotes, na qual haviam confessado o desejo de 
mant-lo afastado do povo apenas para se preservarem at o final da pscoa, mas que o devolveriam.
              E os seus interlocutores, igualmente astutos e maliciosos ao extremo, fizeram ver a Judas que isso era um absurdo, que os sacerdotes eram raposas velhacas 
e que, quando punham suas mos sobre a presa, nada mais a retirava dali.
Judas dizia que no seria assim, pois eles lhe haviam dado garantias de que cumpririam a palavra empenhada.
              - Que garantias convincentes poderiam ter oferecido, Judas, para que voc se sentisse assim confiante? - perguntaram-lhe os lderes mais prximos, 
em conversao secreta e exaltada.
              - Ora, eis aqui a bolsa de moedas que me deram em penhor da palavra - revelou o apstolo ingnuo, tentando se fazer acreditar e mostrar a realidade 
de suas palavras.
              - Dinheiro? - gritaram os mais exaltados. Dinheiro em troca do nosso lder? Voc traiu o movimento por uma bolsa de dinheiro?
              As coisas estavam tomando um rumo que saa do controle de Judas e, agora, a revelao das moedas que, a princpio lhe haviam sido dadas como garantia 
da palavra dos sacerdotes e que deveriam ser devolvidas ao final do perodo pascal, se transformaram em um vil motivo para entregar o Mestre, tornando Judas ainda 
mais odioso e indigno de qualquer crdito.
Esse comportamento arrefeceu os nimos mais eloqentes e a
NOTCIA DA BOLSA DE MOEDAS GANHOU O CONHECIMENTO DOS DEMAIS, NO POR SE APRESENTAR COMO GARANTIA, MAS POR SER APENAS O PREO PAGO POR JUDAS, NA INTERPRETAO SIMPLISTA 
DAS PESSOAS QUE SABEM VER O MAL E A MALCIA EM TODOS OS GESTOS E COMPORTAMENTOS.
        A HISTRIA DE JUDAS NO CONVENCIA A NINGUM E, AMEDRONTADOS DE QUE SUA ASTCIA OS ESTIVESSE CONDUZINDO A UM POO SEM SADA, ACAUTELARAM-SE DE QUALQUER DEMONSTRAO 
DE INDIGNAO.
OS OUTROS DISCPULOS ESTAVAM ATERRADOS COM O QUE SUCEDERA.
        NENHUM DELES SE DISPUNHA A AGIR DE ACORDO COM OS DITAMES QUE HAVIAM APRENDIDO COM O MESTRE.
        CHORAVAM AS MULHERES, REVOLTAVAM-SE CONTRA JUDAS ALGUNS, ORAVAM A DEUS OUTROS, SEGUIAM  DISTNCIA AS OCORRNCIAS NO PALCIO DOS SACERDOTES, PARA ONDE JESUS 
FORA LEVADO NAQUELA NOITE.
        NOTADAMENTE PEDRO SEGUIA DE LONGE AS OCORRNCIAS, COLOCANDO-SE NAS PROXIMIDADES DA CASA DO SUMO SACERDOTE A FIM DE OBTER NOTCIAS SOBRE O SEU PROCESSO E 
SUA PRISO.
        POR EFEITO DESSA PROXIMIDADE, SURGE-LHE O AMARGOSO MOMENTO EM QUE ELE SE V IDENTIFICADO COMO SEGUIDOR DO PRESO E, AMEDRONTADO, NEGA CONHEC-LO POR VRIAS 
VEZES, AT QUE, ANUNCIANDO A CHEGADA DA ALVORADA, SEUS OUVIDOS ESCUTAM O GALO CANTAR E SEUS PENSAMENTOS SE RECORDAM DA ADVERTNCIA DE JESUS, DIZENDO-LHE, NA VSPERA, 
QUE ANTES QUE O GALO CANTASSE, ELE PRPRIO, PEDRO, O NEGARIA JESUS POR TRS VEZES.
CHOROU O APSTOLO DE VERGONHA E ISSO O ABATEU SOBREMANEIRA.
        NO ENTANTO, TO LOGO A NOTCIA DA PRISO CORREU AS CASAS, NO DIA SEGUINTE, O POVO SIMPLES, QUE SE ENCANTARA COM AS SUAS PALAVRAS E ATOS, SAIU  RUA  CATA 
DE INFORMAES.
        NO SABIAM QUAL O DELITO E, POR ISSO, NINGUM IMAGINAVA QUE ALGUMA COISA SRIA HAVIA OCORRIDO.
        DO MESMO MODO, A NOTCIA SE ESPALHARA SOBRE O GESTO DE JUDAS, ALM DE TRAIDOR DO SEU AMIGO, VENDEDOR DO MESMO AO PREO DE MOEDAS DE PRATA, COM AS QUAIS PAGARIA 
SUAS DVIDAS PESSOAIS, SEGUNDO A CALNIA QUE, AGORA, SE ESPALHAVA POR SI MESMA.
        J ERA A MALEDICNCIA CRIANDO ESTRIAS PARA TORNAR MAIS PRFIDA A VERDADE E ENCANTAR COM A MESQUINHEZ O IMAGINRIO TRGICO DAS MENTES NECESSITADAS DE EMOES 
TANTO QUANTO O ESTMAGO DE ALIMENTOS.
        NOS ALBORES DA MANH, O CORAO DOS AFLITOS E ANNIMOS SEGUIDORES DE JESUS PASSOU A SE MOVIMENTAR A FIM DE ADVOGAR A SUA LIBERTAO JUNTO S AUTORIDADES.
ENQUANTO JESUS ERA CONDUZIDO AO SINDRIO PARA O INTERROGATRIO
sumrio que j tinha como finalidade dar legalidade a uma condenao previamente acertada, os humildes e gratos indivduos visitavam pessoas influentes para solicitar-lhes 
a simpatia para a causa da Boa Nova.
E com Pblio isso no foi diferente.
              Tanto atravs de Ana, que procurou Lvia, aflita e angustiada, para falar da priso de Jesus, quanto atravs de inmeras visitas que buscavam Pblio, 
como autoridade romana que poderia influir no seu destino, a morada confortvel dos Lentulus foi sacudida por inmeras visitas.
Todas eram recebidas pelo senador em seu gabinete de trabalho e ora eram compostas por pessoas simples que advogavam a proteo do Mestre ante as hordas virulentas 
dos fariseus e saduceus, ora compostas por judeus influentes que vinham pedir a sua ajuda para manter afastado do povo aquele perigoso e blasfemo judeu, levantando-se 
inclusive como ameaa ao prprio poderio romano na regio.
Tendo sido condenado pelos de sua raa, que desejavam validar com uma aparncia de julgamento aquela condenao prvia que j tinham acertado, no desejavam, contudo, 
atrair para si a ira dos mais humildes que depositavam no profeta todas as suas esperanas.
              Assim, deliberaram envolver os romanos na delicada situao, para que o peso de sua condenao  morte fosse imputado ao invasor, ningum melhor para 
arcar com a culpa de tal tragdia, apontado como adversrio estrangeiro, o que livraria os sacerdotes de qualquer responsabilidade perante os seguidores judeus.
              Desejando criar tal circunstncia que os inocentaria da culpa da morte injusta, os fariseus enviaram Jesus a Pilatos.
              Este, sem ter qualquer coisa contra o condenado, no via nenhum motivo para deliberar no assunto.
              Entretanto, sempre claudicante nas questes cruciais, Pilatos se via pressionado nos bastidores pela influncia nefasta dos sacerdotes mais ntimos 
de sua casa, que o abasteciam com recursos escusos, que sabiam ter influncias atravs das falhas de seu carter, que se deixara prender nas garras dos lobos astutos.
              No desejava ser injusto, mas no se via livre para adotar uma conduta moral que, nele, nunca tivera o peso necessrio para justificar seus atos com 
exclusividade.
              Alm do mais, estava sob a investigao silenciosa de Pblio que, ali em Jerusalm, seria dos primeiros a conhecer as suas decises e report-las  
sede do Imprio.
Desse modo, guardando o prisioneiro na cela de seu palcio
pessoal, o governador solicita a presena de romanos e patrcios de sua estrita confiana, entre os quais, envia especial e reverente convocao ao senador Pblio, 
para comparecer imediatamente  sua presena.
              Tendo sido convocado ao palcio de Pilatos, Pblio, apesar de no se sentir  vontade na companhia daquele administrador inquo e homem de baixos padres 
de conduta, conforme ele prprio, Pblio, j tinha constatado em alguns casos que vinha apurando, alm das suspeitas que haviam sido lanadas sobre sua conduta moral 
acerca da prpria esposa Lvia, colocou as questes importantes daquela hora delicada e urgente - como mencionava a comunicao do governador -acima de suas cismas 
e desconfianas pessoais, imbuindo-se do mais elevado esprito pblico para assumir suas funes legais conforme o determinava as suas atribuies oficiais.
              Lvia no conseguiu falar a ss com o marido, solicitando que intercedesse por Jesus, conforme lhe solicitara Ana e a sua prpria conscincia.
              Pblio sara e se deslocara ao palcio onde Pilatos o aguardava com ansiedade, na tentativa de se livrar do dever solitrio de decidir e, ao mesmo 
tempo, demonstrar ao senador que dominava a situao, procurando fazer justia segundo os conceitos romanos das cortes de magistrados que vigiam no Imprio.
              Pblio saiu, carregado pelos seus escravos, em direo  entrevista difcil daquela hora, e Lvia quedou-se aturdida, sem saber como agir, ante a ausncia 
do marido.
Ana se havia ausentado para acompanhar os fatos mais de perto e a esposa do senador recorreu  orao para que as coisas se acertassem sem qualquer prejuzo para 
aquele que lhe houvera salvado a filha leprosa e modificado o destino e a vida.
No palcio de Pilatos, a situao pedia cuidados.
Ao chegar ao local, Pblio se viu surpreendido pela quantidade de pessoas, populares de todos os tipos, que se aglomeravam  porta e  frente pedindo providncias 
punitivas para Jesus.
Admirado pelo modo volvel das massas, o senador adentrou no salo onde se reuniam os romanos mais influentes e o crculo ntimo do governador, tendo sido recebido 
com deferncia e considerao.
              Naturalmente, por sua condio de enviado de Tibrio e representante do Senado Romano na provncia, sua participao naquele processo de julgamento 
seria decisiva para a soluo do impasse criado pelos sacerdotes.
              A viso de Pilatos era a de um romano em terras estrangeiras, buscando sempre no interferir nos assuntos prprios do povo dirigido por ele. No entanto, 
foram os judeus, astutos e matreiros, aqueles que lhe haviam suscitado esse espinhoso caso, levando-lhe o condenado at sua apreciao e, com isso, fazendo recair 
sobre a autoridade romana a avaliao sobre a culpabilidade daquele homem.
              Alm disso, frgil para as questes de fundo e de consistncia religiosas, o governador estava acostumado a se limitar s contendas polticas e a mediar 
os interesses em conflito entre os prprios judeus, amolecido em seu tirocnio por um longo perodo em que se mesclaram seus interesses pessoais com os dos mais 
influentes representantes da raa dominada, impedindo-lhe uma conduta absolutamente livre de tendncias ou de firme determinao.
              Estava acostumado a medir quem  que iria sair prejudicado com suas escolhas e, no em face do direito e da justia, mas em face dos que poderiam produzir 
menos danos  sua condio e interesse, voltava o peso de suas sentenas contra aqueles que menos riscos lhe
representavam, acolhendo sempre as causas dos mais poderosos e mantendo, desse modo, suas boas relaes com aqueles que procurariam sustent-lo, tambm, na sua condio 
sossegada e vantajosa.
Nesse dia, entretanto, havia conflitos de muitos interesses em
jogo.
              De um lado, sua condio de romano lhe dizia que havia que obedecer a um processo, por meio de uma acusao e apurao legtimas.
Por outro, os judeus no lhe apresentaram nenhum argumento para que,  luz do direito romano e mesmo dos princpios universais se pudesse avaliar a culpabilidade 
de algum.
              No entanto, sacerdotes e fariseus, cmplices de seus delitos e aliados de suas conquistas, se lhe dirigiam para solicitar a condenao do criminoso, 
sem maior rigor ou demora, eis que ele representava ameaa s posies de todos, fazendo ver ao governador, de maneira sutil e pouco respeitosa, que se sentiam autorizados 
a pedir-lho em face dos inmeros negcios mantidos por ambas as partes, sempre aliadas na conquista de seus interesses.
              Era a referncia ao comprometimento moral do procurador da Judia com os que, agora, vinham solicitar-lhe a contrapartida nesse jogo mesquinho, onde 
os interesses de grupos ou de pessoas se colocam sempre acima da verdade e da justia.
Ao lado desse quadro que no se poderia revelar com nitidez aos olhos dos demais, surgia a figura de Jesus, cuja vida reta j lhe chegara ao conhecimento e cuja 
doutrina, ainda que de forma reduzida, lhe houvera sido explicada em Nazar pelo grupo de discpulos que lhe falara h no muito tempo.
              Naquela ocasio, recordara-se, os princpios de amor, caridade, verdade e fraternidade humana haviam-no impressionado sobremaneira e, se no fosse 
a sua condio pessoal e os seus compromissos com as posturas e interesses, se sentiria tentado a se aprofundar naquele caminho que parecia generoso e belo.
              Notara a alegria interior daqueles homens simples, quase miserveis, que o haviam esclarecido sobre algumas dvidas que atormentavam os fariseus de 
Nazar, naturalmente feridos em seus interesses pessoais.
              No vislumbrava, desse modo, qualquer culpa ou responsabilidade subversiva na doutrina daquele nazareno humilde.
Tivera o cuidado de ir conhecer pessoalmente o ru, na verdade, a vtima das intrigas humanas e se espantara com o seu estado de

misria fsica, apesar de muito se impressionar com a nobreza de sua postura e a serenidade triste de seu olhar.
              Com a presena do senador em Jerusalm, surgia um outro fator complicador no cenrio de Pilatos. Afinal, como autoridade mais poderosa do que ele prprio, 
Pblio deveria ser consultado para poder opinar e, ao mesmo tempo, avaliar a conduta do governador naquele caso rumoroso, o que daria a medida de seu modo de agir 
na direo dos negcios da provncia.
              No podia, deste modo, demonstrar qualquer fragilidade pessoal ou qualquer cumplicidade para com os fariseus ou judeus influentes, eis que isso denunciaria 
a sua incapacidade e autonomia administrativa, condenando-o  vista do governo imperial e produziria a sua derrocada poltica.
Por isso, via-se cercado de fatores adversos que iam desde o interesse mesquinho dos seus aliados na ilicitude, passando por seu conceito pessoal sobre a inocncia 
do ru, pela avaliao do senador que l estava como o olhar de Tibrio sobre ele, terminando com a presso popular s portas de seu palcio para que desse fim quele 
julgamento, com a condenao sumria de Jesus.
              Alm de tudo isso, naquela noite, a sua esposa, a nobre Cludia, havia tido um sonho proftico, no qual vozes poderosas diziam-lhe para que o marido 
no se envolvesse naquele caso, julgando o inocente e, antes que tudo tivesse acontecido, levou ao conhecimento do marido o aviso recebido a fim de prepar-lo para 
as ocorrncias que, de fato, mais tarde vieram a suceder.
              Vendo-lhe a vontade de no se misturar no assunto, com a qual concordava tambm, ocorreu a Pblio remeter Jesus ao julgamento de Herodes Antipas.
              Naquele perodo de festas religiosas, o rei Herodes estava em seu palcio de Jerusalm. Para a compreenso do leitor, este Herodes era filho do outro 
Herodes, conhecido como o Grande, o mesmo que reinava na Judia quando Jesus nasceu e que, segundo conta a tradio, mandou matar todos os primognitos at dois 
anos como forma de exterminar o anunciado rei que nascia naquela regio de Belm.
Com a morte de Herodes, o Grande, seus vastos domnios foram divididos pelos seus filhos, cabendo a cada um deles a quarta parte do reino principal, da a denominao 
de tetrarquia e a qualificao de Herodes Antipas como o tetrarca da Galilia e da Peria, partes do reino que lhe couberam quando da diviso, com a morte do pai.
              Assim, sendo o rei a quem Jesus deveria se submeter em face de ter nascido na regio da Galilia, caberia ao rei avaliar o seu sdito, o

QUE SERIA MUITO OPORTUNO, UMA VEZ QUE RETIRARIA DOS OMBROS ROMANOS O PROBLEMA E A ESPINHOSA QUESTO DA CONDENAO.
        AGRADECIDO POR ESSE ALVITRE, QUE FOI ACOLHIDO POR TODOS OS QUE ESTAVAM NESSE IMPROVISADO CONGRESSO ROMANO, FOI O RU LEVADO  PRESENA DE HERODES, QUE O 
RECEBEU DE MANEIRA MESQUINHA E IRNICA.
        NO HAVENDO CRIME DO QUAL ERA ACUSADO, OS FARISEUS E SACERDOTES LANARAM-LHE A CULPA POR SE CONSIDERAR REI DOS JUDEUS, O QUE VIRIA A SER UMA ACUSAO QUE 
COLOCARIA JESUS CONTRA HERODES E PILATOS, J QUE AMBOS ERAM AS MXIMAS AUTORIDADES LEGAIS NA PROVNCIA.
        DIANTE DESSE REI MUNDANO E VOLVEL, O MESMO QUE HOUVERA CRIADO CONDIES PARA A MORTE DE SEU MEIO-IRMO, HERODES FILIPE, MANDANDO-O PARA A GUERRA A FIM DE 
TOMAR-LHE A MULHER, HERODADES; ESSE SOBERANO QUE, SEDUZIDO PELA DANA VOLUPTUOSA DE SALOM, A FILHA DE SUA MULHER, MANDOU DEGOLAR JOO BATISTA, QUE SE ENCONTRAVA 
PRESO POR TER CENSURADO A CONDUTA DO REI EM SE CASANDO COM A PRPRIA CUNHADA DEPOIS DA MISTERIOSA MORTE DO MARIDO; ENFIM, ESSE HOMEM DE BAIXO PADRO MORAL, QUE A 
CIRCUNSTNCIA DA VIDA HOUVERA LEVADO  CONDIO DE REI DE OUTROS HOMENS, JESUS FOI APRESENTADO SOB A ACUSAO DE SE CONSIDERAR REI DOS JUDEUS.
        DIANTE DESSE HOMEM INDIGNO, CALOU-SE JESUS, COMO NICA FORMA DE MANIFESTAR A SUA INDIGNAO.
        SEU ESTADO MISERVEL ERA A ANTTESE DE QUALQUER POSTURA SOBERANA INDICADORA DE NOBREZA TERRENA.
        SEU SILNCIO VEEMENTE, ANTE AS PERGUNTAS DO PRPRIO REI, CRIARAM O ALVOROO ENTRE OS SACERDOTES QUE ACOMPANHAVAM A CENA, PRODUZINDO AINDA MAIS INDIGNAO 
A SUA POSTURA HUMILDE, MAS FIRME.
        ASSIM, RIDICULARIZANDO A SUA PESSOA E A ALEGAO DE QUE SERIA REI DOS JUDEUS, HERODES MANDOU VESTIR-LHE UM MANTO BRANCO LUXUOSO, QUE ERA SINAL DE NOBREZA 
 POCA, COLOCANDO EM SUAS MOS UMA CANA POBRE COMO CETRO E FAZENDO CINGIR-LHE A CABEA COM A FAMOSA COROA QUE TODO O SOBERANO DEVERIA OSTENTAR, S QUE FEITA DE 
ESPINHOS PONTUDOS E VENENOSOS, QUE FOI INTRODUZIDA AO REDOR DE SUA CABEA, RASGANDO-LHE A PELE E DEIXANDO ESCORRER O SANGUE PELO SEU ROSTO E CABELOS.
        DEPOIS DE T-LO HUMILHADO, REMETEU-O A PILATOS POR SUGESTO DOS PRPRIOS SACERDOTES QUE ACOMPANHAVAM A CENA E DESEJAVAM, A QUALQUER CUSTO, ENVOLVER O PODER 
ROMANO NA CONDENAO DAQUELE QUE, COMO OS JUDEUS NO PODIAM NEGAR, TINHA MUITA POPULARIDADE.
        PILATOS RECEBEU, COM SURPRESA, O PRISIONEIRO, AGORA MAIS DEBILITADO DO QUE ANTES.
         PORTA, A MASSA HUMANA, ALIMENTADA PELOS FARISEUS E SACERDOTES INTERESSADOS NA MORTE DO JUSTO E QUE, ATRAVS DE SEUS REPRESENTANTES,
OCULTOS NO MEIO DO POVO, INSUFLAVAM A MALTA, INCLUSIVE COM A DISTRIBUIO DE MOEDAS A FIM DE OBTER MAIS PBLICO PARA A GRITARIA, PRESSIONAVA O GOVERNADOR, DESEJANDO 
O SANGUE DAQUELE HOMEM HUMILDE.
        - MALDITOS SEJAM ESTES JUDEUS MISERVEIS - ESBRAVEJOU PILATOS, NOVAMENTE SUBMETIDO  NECESSIDADE DE DECIDIR A DELICADA QUESTO. NO VEJO DELITO ALGUM NESTE 
HOMEM QUE S TEM FEITO AJUDAR ESTA GENTE, AMPARANDO OS QUE CHORAM, CURANDO DOENAS, DANDO ESPERANAS. AT ONDE VAI A MALDADE HUMANA...
        VENDO-LHE O ESPRITO ALTERADO PELA CONTINGNCIA DAQUELA HORA, PBLIO E OS DEMAIS SE CALARAM A FIM DE NO ATRAPALHAR A SUA DELIBERAO.
        - SENADOR, SOLICITEI-LHE A PRESENA A FIM DE QUE, TENDO ESTADO MAIS TEMPO NAS CERCANIAS DA GALILIA, TALVEZ TENHA TIDO ALGUM CONTATO COM ESTE POBRE HOMEM 
OU SAIBA DE ALGUMA COISA QUE NOS PERMITA DELIBERAR DENTRO DOS PADRES DE JUSTIA QUE NOSSO IMPRIO BUSCA IMPOR AOS POVOS BRBAROS QUE DOMINAMOS - FALOU O GOVERNADOR 
TENTANDO ACALMAR-SE DA ONDA DE CLERA QUE O AVASSALAVA.
        CONVOCADO A MANIFESTAR-SE, PBLIO SE ADIANTA E, OCULTANDO OS MOTIVOS PESSOAIS QUE O LEVARAM A ENCONTRARSE COM JESUS, QUANDO SE SENTIRA QUASE QUE FORADO 
A PROSTRAR-SE DIANTE DELE, TAL O PODER MAGNTICO QUE O DOMINARA, RELATOU COM SINCERIDADE AS IMPRESSES QUE COLHEU NAQUELES DIAS.
        - SIM, GOVERNADOR, ESTIVE NA REGIO E CONHECI O PROFETA PESSOALMENTE, PODENDO AFIRMAR QUE JAMAIS OUVI DE SEUS LBIOS OU ESCUTEI DA BOCA DE ALGUM TIVESSE 
ELE PREGADO A SUBVERSO AOS COSTUMES, A REBELDIA CONTRA ROMA OU ALGUMA CONDUTA QUE VILIPENDIASSE NOSSOS VALORES MAIS ELEVADOS. AO CONTRRIO, SEMPRE PAUTOU SUA VIDA 
PELA CORREO, PELO AMOR AOS MISERVEIS, PELA COMPAIXO PELOS SOFRIDOS, CURANDO A MUITOS SEM NADA PEDIR E SEM NADA ESPERAR DE NINGUM. DE UMA POBREZA QUE IMPRESSIONA 
E POSSUI UMA SABEDORIA QUE NS MESMOS, ROMANOS DE ESTIRPE, NO CONSEGUIMOS APRECIAR COM RAPIDEZ. DA MESMA MANEIRA, NO VEJO CULPA NESSE HOMEM.
        A OPINIO DE PBLIO ERA AINDA MAIS DOLOROSA PARA PILATOS, POIS SE O SENADOR LHE REVELASSE QUALQUER DESLIZE DAQUELE RU, FACILMENTE SE LIVRARIA DELE MANDANDO 
ENTREG-LO  TURBA INSANA. NO ENTANTO, O REPRESENTANTE DE TIBRIO FALAVA DA INOCNCIA DO RU, O QUE TORNAVA AINDA MAIS COMPLICADAS AS COISAS.
        - SENHOR, A PLEBE EST REVOLTADA E PEDE A DECISO, DESEJANDO INVADIR O PALCIO SE TARDAR QUALQUER DELIBERAO - ALERTOU UM CENTURIO QUE ENTRAVA NA SALA, 
VINDO DO EXTERIOR.
        - MAS QUE ABSURDO - GRITOU PILATOS FURIBUNDO - COMO  QUE ESTE POVO VIVE  MANEIRA DOS ANIMAIS, SEM RESPEITO PELA LEI, PELOS DIREITOS.
IMPORTANTE RESSALTAR QUE, NESSA ALTURA DOS ACONTECIMENTOS,
nenhum dos homens de Estado que ali se reuniam tinha a menor idia da possibilidade de os fatos se desdobrarem at chegar  morte do prisioneiro.
              A presso externa continuava aumentando com a influncia oculta dos sacerdotes e fariseus influentes e, diante da turba, Pilatos se recordara das limitadas 
foras que estavam  disposio naquele perodo. No poderia garantir-se contra a plebe tresloucada com o punhado de soldados que lhe estavam submetidos nesse momento 
e, deste modo, no poderia dar-se ao luxo de expor a vida dos prprios romanos a quem deveria proteger com a sua prpria.
              O seu ajudante militar que o viera avisar sobre o estado do povo, ento, lhe sugeriu a pena dos aoites para que a sanha sanguinria do povo fosse 
aplacada, eis que tal sentimento popular, muitas vezes se v contentado com uma flagelao pblica, atenuando-lhe a violncia instintiva.
              Reconhecendo-lhe razo nesse desiderato, eis que Pilatos sabia por experincia que os judeus eram criaturas temperamentais ao extremo e que uma punio 
pblica poderia aplacar-lhe o desejo de matar Jesus, foi autorizado o flagcio do Mestre.
              No entanto, tal medida apenas produziu o efeito de alvoroar a multido, pois que estava ela dominada pelos cordes invisveis dos fariseus e sacerdotes 
que, sabendo que aquilo era um artifcio de Pilatos para poupar a vida de Jesus, mais moedas fizeram correr nas mos da plebe que se avolumava  porta do palcio 
e que, a estas alturas, j estava percebendo que, quanto mais demonstrassem revolta, mais moedas lhes chegariam s mos. No importava se havia lei ou se havia culpa. 
Bastava acompanhar os gritos dos mais exaltados - os agentes dos fariseus e sacerdotes plantados no meio do povo - e eram recompensados ali mesmo, de maneira que 
a competio por melhor desempenho fazia com que os participantes daquele triste quadro mais e mais demonstrassem sua violncia e sua insanidade.
Por isso, de nada adiantou a tentativa de se evitar a morte.
              - Senhor, os flagelos terminaram, mas a plebe est mais e mais irritada, pedindo a condenao  morte desse homem.
- E ele, nada diz, no reage, no se defende?
              - Senhor, eu nunca vi um prisioneiro to resignado como este. Sofre tudo calado e no demonstra a mnima irritao ou contrariedade. Falou-me em um 
momento de breve serenidade, que se desejasse, poderia pedir ao seu Pai e ele enviaria legies de anjos que fulminariam a cidade e as criaturas. Todavia, deveria 
enfrentar o que estava deliberado para ele a fim de se cumprirem os desejos Daquele que o enviara.

              L fora, o povo gritava, uivava, espumava irado, levantando suspeitas contra a integridade de Pilatos, dizendo-se partidrio do prprio ru.
              Algum se lembrou de que naquele perodo de festas era costume oferecer-se  compaixo pblica a liberdade de um preso, como demonstrao da condescendncia 
do governante.
               Isso aliviou um pouco o peso sobre a conscincia de Pilatos, eis que se recordara encontrar-se detido um perigoso e violento malfeitor, aterrorizador 
de muitos lares humildes com seus modos violentos, havendo abusado sexualmente de mulheres inocentes, roubado moradias e ferido pessoas de maneira dura e indiferente.
              Barrabs era um dos mais procurados meliantes daquele perodo em Jerusalm, eis que suas maneiras grosseiras e sua fora fsica tornavam-no uma ameaa 
constante  tranqilidade dos seus moradores.
               Inmeras vezes os sacerdotes haviam procurado por Pilatos a fim de solicitar-lhe o apoio para a priso desse bandido, pedindo o seu empenho para que 
a paz no seio da famlia judaica de Jerusalm fosse restabelecida.
              Assim, o governador sabia que a multido teria muito receio de se ver novamente nas mos desse criminoso e, no lhes restaria outra opo lgica seno 
a de escolher dar a liberdade a Jesus ao invs de libertar Barrabs.
              E para sua estarrecedora surpresa, ao ser colocada ao povo a possibilidade de se libertar um dentre os prisioneiros, a unanimidade bulhenta passou 
a advogar a libertao do bandido e a condenao do Justo.
Isso era demais para Pilatos.
              Havia como que um hipnotismo coletivo que embotava o raciocnio dos mais hbeis estrategistas, como se uma inexorvel fora conduzisse todas as coisas 
para aquele desfecho trgico. Em nenhum momento, os dois homens, governantes romanos, se lembraram do desejo de Tibrio em receber maiores informaes de Jesus a 
fim de entregar-se ao Mestre para ver sanadas suas dores.
Voltou-se para o interior e solicitou a opinio do senador que, fundamente impressionado, tambm se vira aturdido com a lgica da plebe ensandecida.
              - Reconheo, governador, que tudo se tentou no sentido de evitar-se a morte do ru. Nossos cdigos no se coadunam com conduta dessa natureza, que 
mata sumariamente, sem processos avaliatrios nem defesa que garanta o direito de ser julgado com imparcialidade.
Por mim mesmo, se me coubesse tomar alguma atitude na

condio de governador deste aglomerado de brbaros, me sentiria tentado a dispers-los  pata de cavalo, conforme nossas tcnicas romanas de lidar com o povo.
              No entanto, no me assiste o direito de invadir a seara de decises que cabe ao governo nomeado por Roma e que conhece os meandros de todas as questes 
aqui concentradas. Por isso, me abstenho de opinar, no sem antes reconhecer que, por sua parte, tudo se tentou para modificar o destino desse homem que me parece 
inocente de qualquer culpa.
A opinio de Pblio lhe cara como um gole de gua fria na garganta seca e fumegante.
              Naquele momento, as presses de todos os lados s faziam com que sua personalidade e seu carter frouxo acabassem por ceder aos golpes da insnia.
              Por isso, a nica dificuldade que sentia era a de explicar-se diante de Pblio, j que ali no se estava garantindo ao ru nenhum de seus direitos 
mais singelos, o que poderia ser interpretado como fraqueza de comando.
Agora, reconhecido como tendo feito o que estava ao seu alcance em favor do condenado, ou acreditando que j havia feito o que podia por ele,  vista dos circundantes, 
adotou a postura pblica de lavar as mos, como se estivesse se livrando das responsabilidades e a atirando sobre as almas que gritavam estentricas:
- Crucificai-o! Crucificai-o! Crucificai-o!
              Estava selado o destino do Mestre, solitrio, abandonado pelos homens que o seguiam, perseguido pelos outros que o temiam, abandonado pelo rei humano 
que poderia defend-lo, ignorado pelos poderes polticos que poderiam garantir-lhe a defesa da vida e da integridade, mas que se vergavam aos interesses insanos 
que trovejavam naquilo que parecia o desejo da maioria.
              Devolvido aos sacerdotes e fariseus que advogavam aquele desfecho, iniciou-se a trgica caminhada at o local onde se executaria a sentena.

- Senhora, Senhora, Jesus est a caminho da crucificao! -exclamava aflita a jovem Ana aos ouvidos atnitos de Lvia que, assustada, se impressionava com a rpida 
execuo, absolutamente sumria, daquele a quem tanto ela devia.
Atendendo ao apelo de sua serva e ao de seu prprio corao,
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APESAR DE NO CONTAR COM A AUTORIZAO DO MARIDO QUE SE AUSENTARA LOGO PELA MANH, LVIA DELIBEROU IR AT O GOVERNADOR SOLICITAR A SUA PROTEO AO INOCENTE QUE ESTAVA 
SENDO LEVADO PARA A MORTE.
        VESTIU-SE COMO UMA SIMPLES MULHER GALILIA PARA NO COMPROMETER O MARIDO COM A SUA IDENTIFICAO OSTENSIVA E DIRIGIU-SE, APRESSADA, AT O PALCIO.
        CHEGANDO  PORTA, FOI RECONHECIDA POR SULPCIO, O LICTOR ASTUCIOSO QUE IMAGINAVA QUE A MULHER MANTINHA UM CASO AMOROSO COM O SEU SENHOR.
        NO O CONVENCEU O PEDIDO QUE LVIA LHE FAZIA PARA FALAR AO GOVERNADOR PRIVADAMENTE, A FIM DE SOLICITAR A SUA INTERCESSO POR JESUS.
        - QUE JESUS, QUE NADA. ESSA A EST MESMO  DESEJANDO CAIR NOS BRAOS DO GOVERNADOR, VALENDO-SE DE UMA BOA DESCULPA PARA VIR AT AQUI, ISSO SIM - PENSOU 
O SERVIDOR FIEL DE PILATOS.
        NO ENTANTO, SENDO CMPLICE DE PILATOS EM TODAS AS SUAS ESCAPADAS E LICENCIOSIDADES, AO MESMO TEMPO EM QUE SABIA DO INTERESSE DESTE POR AQUELA MULHER, COM 
QUEM IMAGINAVA J POSSUIR UM ENVOLVIMENTO FSICO, SULPCIO ENCAMINHOU LVIA AOS APOSENTOS NTIMOS DO GOVERNADOR, NOS QUAIS ELE SE PERMITIA A LICENCIOSIDADE COSTUMEIRA, 
LONGE DAS VISTAS DOS OUTROS, NA DISCRIO HIPCRITA COM QUE MUITOS PODEROSOS PROCURAM MANTER AS APARNCIAS EXTERNAS PARA PODEREM CONTINUAR A VIVER SUAS DEVASSIDES 
NTIMAS.
        O LOCAL ERA, DO PONTO DE VISTA VIBRATRIO, REPUGNANTE AO ESPRITO DESPREVENIDO, COMO O DE LVIA.
        ELA SABIA DAS INTENES DE PILATOS A SEU RESPEITO, MAS A PREMNCIA DO MOMENTO E A ELEVAO DOS MOTIVOS QUE SE LHE APRESENTAVAM, JUSTIFICAVA EXPOR-SE PARA 
PEDIR A COMPLACNCIA DO LOBO PARA COM O CORDEIRO.
        INFORMADO POR SEU AJUDANTE E CMPLICE, PILATOS PEDE LICENA AOS SEUS CONVIDADOS E SE AFASTA NA DIREO DAQUELE TUGRIO DE BAIXEZA, A CAMINHO DA MULHER TO 
DESEJADA.
        NO ENTANTO, QUANDO DA CHEGADA DE LVIA AO PALCIO, OLHOS VENENOSOS IGUALMENTE IDENTIFICARAM O SEU PERFIL DE NOBREZA NAS VESTES SIMPLES DE GALILIA.
        AO SER CONDUZIDA POR SULPCIO, FLVIA, QUE L ESTAVA, PDE DIVISAR A FIGURA DA ESPOSA DE PBLIO NAQUELE LOCAL QUE ELA PRPRIA FREQENTAVA COM ASSIDUIDADE, 
O QUE A FERIU PROFUNDAMENTE NOS CIMES FEMININOS, DELIBERANDO, ASSIM, COLOCAR O SENADOR DIANTE DA PROVA DO CRIME MORAL QUE ELA HOUVERA DENUNCIADO TEMPOS ATRS.
        TO LOGO PILATOS RETIROU-SE PARA O COLQUIO PRIVADO, FLVIA PROCUROU PBLIO E REVELOU-LHE A PRESENA DE LVIA NA ALCOVA DO GOVERNADOR, COM
a expresso indignada de quem se revolta pela prtica da prevaricao na casa e com a presena da esposa de seu cunhado, sua prpria irm Cludia.
              Isso foi uma bomba na mente de Pblio, j aquecida pelas decises daqueles momentos anteriores.
              Demonstrando sua descrena, Flvia se ofereceu para lev-lo at o local, no interior da vivenda luxuosa, o que no foi aceito por Pblio, fiel cultor 
da tradio de discrio e de no invaso do lar alheio.
               Ento, Flvia puxou-lhe o brao e o conduziu  janela que permitia observar a sada dos referidos aposentos, de onde, afirmou ela, a esposa do senador 
sairia a qualquer momento.
              L dentro, Lvia se via perigosamente envolvida pela astcia sedutora do homem decidido a conquist-la e no lhe foi suficiente expor-lhe o motivo 
de sua ida at ali. Jesus pedia amparo atravs de sua palavra sofrida e ansiosa.
              Pilatos escutou-a embevecido por sua beleza, ainda mais realada pelos trajes modestos de que se valia naquela hora.
              J no podia fazer mais nada por Jesus, conforme explicou a Lvia, mas ousadamente, revelou-se em seu mpeto de homem, quase desequilibrado pelas vibraes 
do ambiente, tomando as mos de Lvia entre as suas e pedindo-lhe que aceitasse o seu afeto apaixonado.
              Repelindo a sua investida covarde e arrogante, Lvia buscou foras em seu mais vasto reservatrio de f e austeridade para cham-lo  realidade de 
sua condio, como homem que devia respeito a ela por ser esposa de um enviado de Tibrio, ao mesmo tempo em que deveria respeit-la igualmente por dever de cavalheirismo 
de acordo com a tradio dos prprios romanos.
              A recusa de Lvia era uma forte resistncia e a sua condio de importncia representava um outro forte argumento para que Pilatos levasse em conta 
na hora de perder todo o controle.
              Refazendo-se de sua postura aviltante na presena daquela mulher que se opunha determinadamente  concretizao de seus mais baixos instintos - o que 
no estava acostumado a encontrar no comportamento feminino que o rodeava - o governador procurou retomar o controle da situao, como quem  pego cometendo algum 
deslize e tenta arrumar uma desculpa para justificar-se.
Vendo-lhe a misria moral e a fraqueza de carter, Lvia deixou o ambiente entorpecedor daquela alcova e, aturdida pelo esforo que fizera, buscara a sada dali, 
sem saber que o olhar do marido, do alto, fitava-a, admirado e condenador.
              Aquela cena de sua mulher saindo dos escritrios privados do governador para onde fora sem a sua autorizao e, ainda mais, vestindo-se de maneira 
a disfarar a sua posio, como que a se ocultar para cometer melhor o deslize, produziu o efeito custico mais doloroso em sua alma que qualquer outra coisa houvera 
at ali realizado.
              Flvia, exultante, se via vingada daquilo que considerava arrogncia da oponente, que tentava subtrair-lhe o amante diante de suas prprias vistas.
              Desconcertado e confuso, Pblio retornou  sala principal, desculpou-se com os presentes e, alegando compromissos pessoais, retornou ao lar onde se 
isolou para as deliberaes tristes daquela hora em que a imaturidade, o cime cego, a maledicncia e a invigilncia se haviam combinado para amargar os destinos 
daquelas pessoas.
              Lvia chegara em casa antes do marido, enquanto Ana e Simeo, que a esperavam na rua, se dirigiram para o Glgota para testemunhar os ltimos lances 
daquela tragdia.
              Escutara-lhe a entrada estrepitosa e o seu encerramento no gabinete de trabalho, onde permanecera por longas horas.
              Por sua vez, buscara a janela de seu quarto de onde podia ver, ao longe, as cruzes contra o cu e as pessoas que se acercavam da rea da crucificao. 
Erguera a prece emocionada, pedindo ao Pai por aquele que lhe modificara o destino para sempre.
              Naquele dia, novamente, o destino modificaria seu curso e, sem entender o motivo verdadeiro, recebera do marido a condenao a uma vida de afastamento 
definitivo dentro do lar, perdendo a ascendncia sobre a filha, que ficaria sob a tutela direta e exclusiva do pai, sendo aceita na casa quase que na mesma condio 
de simples serva.
A ira de Pblio se manifestava na sentena cruel e, como a de Jesus, sem qualquer direito de defesa por parte daquela que, segundo os seus olhos maliciosos e ingnuos, 
efetivamente o tinha trado no que ele possua de mais sagrado.
      
              Por outro lado, Judas se vira trado em todos os seus desejos e anseios humanos.
              Acreditando estar dando incio a um processo de libertao poltica, seu ato infiel desejava produzir o comeo do movimento libertrio, atravs de 
um risco calculado que no levou em conta a astcia dos judeus que o usaram para atingir seus objetivos.
Nunca desejara que aquilo acontecesse a Jesus, pelo que se
deixara convencer de que o Mestre seria libertado pelo anseio popular de t-lo  frente da revoluo, forando os prprios sacerdotes a garantir-lhe a vida.
              No entanto, nada disso acontecera e,  vista de todos e dele prprio, tornara-se o vilo maior dessa histria, onde se apresentaram os elementos mais 
vis, to ao gosto da sanha popularesca.
              No conseguiu avistar-se com os sacerdotes com quem havia negociado a entrega de Jesus para reclamar que os mesmos no estavam cumprindo a sua parte 
no acerto que haviam combinado.
              Quando o conseguiu, Jesus j estava sendo levado para a crucificao e, ironicamente, escutou que a culpa da pena capital deveria ser atribuda ao 
governo romano, eis que eles haviam tentado evitar que a morte ocorresse, conforme haviam combinado.
              Mentira da mais grosseira, que Judas sabia estar sendo dita como se fosse a mais absoluta realidade.
              Tomado de vergonha e vendo-se culpado pelos seus atos nocivos que, na sua viso, haviam frustrado todo o desejo de liberdade que a figura de Jesus 
representava, o apstolo, cado moralmente, atirou as moedas no templo, como se estivesse devolvendo a parte que lhe cabia naquele trato e acusando os saduceus e 
fariseus de terem trado os anseios da raa e a prpria palavra e, depois, acreditando ser essa a nica e pior punio para a sua vergonha pessoal, pendurou-se numa 
rvore, tirando a prpria vida.

Ao p da cruz, amontoam-se os curiosos, ao lado de piedosas mulheres, crianas e velhos que presenciam a agonia de Jesus.
              A maioria de seus seguidores se ausenta nestas horas tristes, amedrontados com os fatos e temendo a reao das pessoas que confiavam neles, por causa 
da traio de Judas.
              Tendo partido de um dos integrantes mais chegados do colgio apostolar, os outros discpulos temiam que o dio do pblico se voltasse contra os demais 
como forma de vingarem neles o ultraje recebido pelo Mestre.
               Isso mantinha a maioria dos que eram vistos ao lado de Jesus  distncia de seu testemunho doloroso.
Josu e Zacarias, bem como alguns outros homens que estavam circundando Jesus nos ltimos tempos, no tinham a popularidade dos doze apstolos e, por isso, se mesclavam 
na multido sem o problema de serem eventualmente reconhecidos como seguidores do Messias.
Assim, Zacarias pde acompanhar ao lado do amigo os momentos mais dolorosos de sua vida, testemunhando a resignao e a coragem de que se revestia o Mestre na hora 
do testemunho final.
A turba amotinada se tinha afastado, em busca de mais moedas que lhe haviam sido prometidas pelos sacerdotes para depois de consumada a crucificao.
              Ficaram apenas os sinceros devotos, os seguidores humildes, os que se haviam beneficiado de sua bondade e eram gratos.
Os curiosos tambm se mantinham a postos, deixando-se tocar por aquele exemplo de altivez silenciosa e frgil que, em momento algum blasfemava como era to comum 
ocorrer nas horas de dificuldade.
              Zacarias se conectava magneticamente com Jesus e, diante dos fatos daquelas horas que haviam antecipado aquele trgico desfecho, entendera o que o 
Mestre houvera querido dizer quando lhe pediu acudisse o governador, no importava o que ele viesse a realizar.
              Na viso dos seguidores de Jesus, o governador fora o responsvel pela condenao, j que nada fizera para defender a sua inocncia e, alm disso, 
os sacerdotes trataram de espalhar a sua responsabilidade na condenao do Mestre.
A figura de Pilatos passou a ser vista com desprezo por todos os que eram adeptos da Boa Nova, a quem culpavam tanto quanto s autoridades do templo pelo massacre 
do Enviado de Deus.
              Esse era o ambiente que predominava nos espritos da gente simples e desvalida que, agora, se vira privada da nica porta efetiva de esperana que 
lhe estava aberta.
              Zacarias sentia a palavra de Jesus a vibrar-lhe em seu interior mesmo quando o Mestre agonizava na cruz.
              Bastava se deixar levar pela indignao dirigida a Pilatos que uma voz secreta e ntima lhe repetia as palavras daquele encontro solitrio:
- No abandoneis o nosso irmo Pilatos...
              O corao apertado de Zacarias lutava agora contra o rancor por aquele homem mesquinho e covarde, que nada fizera alm de lavar, simbolicamente, as 
mos absolvendo-se daquela culpa.
              No entanto, Zacarias havia prometido a Jesus e no poderia deixar de cumprir a promessa.
              Precisava fazer alguma coisa para que os fatos lhe garantissem oportunidade de manter-se em Jerusalm e seguir Pilatos por onde ele caminhasse.
Assim, to logo Jesus foi considerado morto, sepultado e
   uardadas as oraes costumeiras, j em pleno domingo, Zacarias, acompanhado por Clofas - que se tornara quase que um servo seu, pela gratido e respeito com 
que o considerava depois de tudo o de que fora perdoado pelo velho discpulo - tomaram o rumo de Emas, a cidade na qual o sapateiro ainda possua alguns bens, incluindo 
a casa que ficara fechada, e trataria de vender tudo para arrumar recursos a fim de cumprir o prometido a Jesus, j que, agora, com o falecimento do foco luminoso 
que os mantinha unidos, nenhum dos apstolos sabia o que seria do movimento iniciado por Jesus.
Era verdade que o mestre havia prometido que voltaria da morte no terceiro dia, mas naquele momento, as dvidas eram muito maiores do que as crenas na sua promessa 
efetiva.
              Por isso, antes que a tarde do domingo chegasse, eis que encontramos os dois amigos seguindo para a localidade de Emas, no muito distante de Jerusalm, 
na qual providenciariam o necessrio para o cumprimento da tarefa prometida por Zacarias.
              A caminhada era triste e os coraes estavam abatidos pelo que haviam presenciado h pouco tempo em Jerusalm. Algumas expresses de lamento, monosslabos 
de angstia, lgrimas silenciosas, passos pesados marcavam a jornada at que um viajante desconhecido se lhes interpe na caminhada e segue com eles, procurando 
conversar quando os dois desejavam o silncio.
              - O que  o que os preocupa e que vocs esto tratando de conversar durante a caminhada? - perguntou o peregrino que se ajuntava a eles, vindo tambm 
de Jerusalm.
Surpreendidos com tal indagao, interromperam ambos a jornada para se voltarem ao companheiro recm-chegado, perguntando-lhe, admirados:
              - Pois que vens de Jerusalm, como ns, e s o nico que ignoras o que l se passou nestes dias?
- Mas o que se passou? - voltou a perguntar o andarilho.
              - Ora, meu irmo, a priso de Jesus, a sua crucificao, por culpa de nossas autoridades com a conivncia do governador romano. E ns espervamos que 
ele fosse aquele redentor de Israel, o prometido libertador de nosso povo. Mas agora, est morto e tudo est acabado. Ele prometeu que voltaria ao terceiro dia, 
mas no h nos nossos coraes o menor espao para qualquer esperana - falou Clofas ao viajante.
Acompanhando-lhes o passo, agora cadenciados pela conversao com aquele estrangeiro, dele escutaram todas as menes das escrituras  ocorrncia que vinham de testemunhar 
em Jerusalm,
mostrando que o enviado teria de enfrentar todas estas coisas para demonstrar aos homens a sua grandeza e a sua capacidade de superar todos os obstculos mais cruis 
que existissem.
              A conversao se tornara bela, com os inmeros exemplos que faziam com que Zacarias e Clofas se indagassem de onde havia sado aquele homem to esperto 
em coisas divinas, pois nunca o haviam visto acompanhando Jesus pelos caminhos.
              Chegados  cidade de Emas, convidaram o homem a permanecer com eles, abrigados na modesta casinha de Zacarias, que abria suas portas pela primeira 
vez depois de muitos meses.
              Providenciou-se pequeno repasto, improvisando-se a ceia com a proviso pobre que os dois amigos haviam guardado para o alimento durante a caminhada.
              Diante de seus olhos que pareciam despertar para uma realidade inexplicvel, ambos viram o viajante tomar o po pobre e dividi-lo dando um pedao para 
cada um deles e, ato contnuo, os dois seguidores identificaram que ali estava o prprio Mestre.
              E to logo se deram conta de que aquele que lhes falara durante a viagem no era outro a no ser o prprio Celeste Amigo, eis que a viso do mesmo 
se desvanece e ambos se vem sozinhos na pequena sala de refeies, assustados e confundidos.
              - Voc no sentiu que nossos coraes se ardiam e inflamavam diante das argumentaes desse misterioso acompanhante? - perguntou Zacarias eufrico.
              - Sim, Zacarias, eu tambm me admirei de seus modos e de suas lies, que me fizeram pensar tratar-se de algum sbio que ns no conhecssemos.
- Mas era Jesus, Clofas. E ns no o conhecemos a no ser
agora.
              - Que mistrio e que maravilha termos estado com aquele que h poucos dias fora trucidado por nossa ignorncia. Ele havia mesmo prometido voltar no 
terceiro dia. E  hoje.
              E empolgados com o cumprimento da promessa de Jesus e com a sua sobrevivncia, da exata maneira como ele prprio havia prometido, fizeram a viagem 
de volta a Jerusalm para que pudessem relatar aos outros irmos os fatos ocorridos com eles.
              L seriam surpreendidos tambm por relatos similares e pela devoluo da esperana aos seus coraes.

                         Pouco tempo depois da crucificao, Pblio, abatido e desiludido com o rumo que sua vida tomara naquelas paragens e se sentindo trado nos 
seus mais sagrados sentimentos, regressou com sua famlia para a cidade de Cafarnaum, desejando afastar-se daquela Jerusalm que lhe pesava na alma como se ela fosse 
o centro de vboras malditas a envenenar-lhe o destino.
              To logo regressara  cidade  beira do lago, tratou de escrever ao amigo Flamnio, em Roma, relatando-lhe todos os fatos ocorridos na regio naqueles 
dias, solicitando que os fizesse chegar at o conhecimento de Tibrio e, porque tambm sentisse a averso natural pela maledicncia de Flvia, que lhe produzira 
a mais triste ruptura de sua vida, entre outros motivos, solicitou ao amigo os prstimos para remover seu tio Slvio juntamente com sua mulher para Roma, a fim de 
livrar-se de sua presena nefasta para a sua paz ntima.
              Do mesmo modo, indignado com a figura que Pilatos representara no drama do Calvrio, piorada pela condio de conquistador inescrupuloso, segundo supunha 
o senador, acreditando na traio da esposa, ampliada pelas inmeras ocorrncias irregulares nos processos administrativos de que j havia se inteirado, prometeu 
ao amigo que iria aprofundar-se na pesquisa dos tais desmandos a fim de informar com maior riqueza de detalhes ao prprio Senado e ao imperador para que as medidas 
cabveis pudessem ser adotadas para coibir tal prtica, indigna de todos os cdigos legais civilizados.
Lvia e Ana se apegavam mais ainda, uma  outra, pois  senhora nenhuma outra companhia restara.
              No ms seguinte ao seu regresso a Cafarnaum, o senador convocou a esposa para um colquio privado, informando-lhe que se ausentaria em viagem pela 
provncia a fim de dar cumprimento ao processo de averiguao dos desmandos de Pilatos e que esperava
dela a conduta correta, apesar dos erros anteriormente cometidos, notadamente a proteo  filha Flvia que, temporariamente deixava sob seus cuidados.
              Em uma semana partiria e ficaria ausente por um perodo longo, durante o qual, alm de aliviar as preocupaes dando ocupao  mente, tambm aproveitaria 
para procurar o filho em outras regies, ao mesmo tempo em que catalogaria os equvocos de Pilatos na administrao pblica.
              Nenhuma palavra permitiu que Lvia pronunciasse, fosse de aceitao ou de justificativa ante suas acusaes diretas e sua postura de superioridade 
e invulnerabilidade.
              Fechado em sua carapaa protetora, Pblio se afastara totalmente da mulher, a quem s era capaz de manter ao seu lado em face de sua condio de me 
de seus filhos, rompidos todos os outros laos mais ntimos que os uniram no passado.
              A partida de Pblio fora comunicada a Herodes, que ordenara a sua recepo em Tiberades, na margem do grande lago, com todas as pompas e cerimnias 
oficiais.
              Tratando de se instalar na localidade, depois de receber as homenagens formais do rei da Galilia, fez conhecer ao povo da regio que, como legado 
do Imperador, ali estava pronto para ouvir as necessidades dos sditos do Imprio, ainda que estivessem na condio de provncia autnoma, com governo prprio.
              Conhecendo melhor as necessidades do povo, Roma poderia auxiliar mais a administrao local na soluo de seus problemas.
              Esta alegao fora adotada por Pblio, que no desejava levantar contra si as suspeitas e a ira de Pilatos, o que fatalmente abriria uma guerra perigosa 
para a prpria estabilidade poltica da provncia.
No entanto, com essa possibilidade de ouvir as pessoas, estaria prximo dos fatos, conversando com os interessados e escutando-lhes, sigilosamente, as queixas sobre 
os problemas mais graves que ali pudessem existir.
              A ttica de Pblio fora a de colocar-se como romano amigo e interessado pelos problemas dos judeus mais simples, ao mesmo tempo em que, dessa maneira, 
recolhia informaes preciosas da alma do povo sobre o governante romano que os dirigia j h sete anos.
              Ocorre que, neste perodo, Sulpcio Tarquinius se encontrava em misso ordenada por Pilatos junto  corte do rei Herodes, pois, desde a crucificao 
de Jesus, pouco tempo antes, os dois se reaproximaram e passaram a ter relaes cordiais, vencendo os conflitos de autoridade que os haviam antagonizado.

              A postura de Pilatos, que lhe enviara o prisioneiro para sua apreciao, foi interpretada por Herodes como um sinal de respeito  sua figura real, 
o que muito o sensibilizou como sensibilizaria qualquer pessoa que estivesse  cata de lisonjas baratas para se sentir reconhecido.
              Por isso, apesar de ter tratado Jesus com desdm, Herodes acreditou ver no gesto de Pilatos a considerao  sua autoridade, o que lhe arrefeceu o 
nimo de conflitar com o governador e lhe produziu no esprito o desejo de tornar boas as relaes abaladas.
              Assim, depois de alguns dias da crucificao, Herodes lhe enviou presentes caros como eram apreciados pelo procurador da Judia, enaltecendo-lhe a 
figura de lder romano na provncia e dando-lhe congratulaes pelo desfecho daquele processo, na realidade, criminosa arbitrariedade.
              Desse modo, retribuindo o presente, Pilatos, passadas algumas semanas, enviou Sulpcio at Herodes, em Tiberades, portando a retribuio dos mimos, 
agora mandados pelo governador em nome de Tibrio.
              E, no cumprimento dessa misso se encontrava o lictor na mesma localidade, quando da chegada do senador, oportunidade em que se inteirou de sua viagem 
pela Galilia e de que se encontrava sozinho nessa jornada.
Assim, em Cafarnaum ficara-lhe a esposa e a casa ao abandono, o que seria de muita importncia para os planos de Pilatos e para os seus desejos pessoais, j que 
ele, Sulpcio, nutria sentimentos pecaminosos e indignos, que acreditava serem amorosos, pela serva Ana, a amiga ntima de Lvia.
              Tratando de voltar urgentemente a Jerusalm, Sulpcio solicitou a entrevista com seu superior e lhe relatou sobre a viagem de Pblio.
Imediatamente, a preocupao do governador se apresentou.
O que o senador desejava fazer com essa caravana pela provncia? Na verdade, poderia estar buscando informaes sobre seus desmandos administrativos?
A conscincia culpada nunca descansa e, por mais que ele tivesse o poder, era escravo de seus erros como acontece com todos os homens na Terra.
              Todavia, logo deixou de lado a preocupao para dar espao  malcia de seus costumes, perguntando da mulher ao lictor.
              Sulpcio, que sabia dos desejos de Pilatos e era aquele alcoviteiro eficiente, logo lhe informou que Lvia ficara sozinha em Cafarnaum.
        E APROVEITANDO A CONVERSA FAVORVEL, SUGERIU AO GOVERNADOR QUE APROVEITASSE A MAR GENEROSA DA SORTE E VISITASSE CAFARNAUM NO PERODO DA AUSNCIA DO SENADOR, 
IDIA ESSA QUE MUITO AGRADOU A PILATOS QUE, IMEDIATAMENTE DEU ORDENS AO SUBORDINADO PARA QUE SE DIRIGISSE  CIDADE E AVISASSE AS AUTORIDADES LOCAIS QUE, EM BREVE, 
O GOVERNADOR ESTARIA NA REGIO EM VISITA PARA A QUAL J HAVIA SIDO CONVIDADO ANTERIORMENTE.
        DA MESMA MANEIRA, SULPCIO DEVERIA VISITAR LVIA E COMUNICAR-LHE A DATA DA CHEGADA DE PILATOS  REGIO PARA QUE A MESMA, COM A AUSNCIA DO MARIDO PUDESSE 
SE SENTIR TENTADA EM ACEITAR-LHE A COMPANHIA E A AMIZADE E, QUEM SABE, ENCONTRAR-SE PESSOALMENTE COM ELE, AINDA QUE FOSSE EM CAFARNAUM.
        TAL FOI FEITO COMO ORDENADO, TENDO SULPCIO CONFESSADO A PILATOS O DESEJO DE CONQUISTAR A ESCRAVA ANA PARA O ROL DE SUAS MAIS PRECIOSAS AQUISIES AFETIVAS.
        ASSIM, O PLANO DOS DOIS HOMENS ERA COINCIDENTE E VIL, E FOI POSTO EM PRTICA IMEDIATAMENTE DEPOIS DE SULPCIO TER ARRUMADO TODOS OS DETALHES DE SUA EXECUO, 
AINDA EM JERUSALM.
        ENQUANTO AS AUTORIDADES DA PEQUENA CIDADE SE PUSERAM EM FESTA, LVIA RECEBEU A NOTCIA DA CHEGADA DO GOVERNADOR DOS LBIOS DE SULPCIO E, DE MANEIRA DIGNA, 
MAS MUITO ENRGICA, AFIRMOU-LHE QUE, NA AUSNCIA DO MARIDO NINGUM SERIA ADMITIDO NA SUA RESIDNCIA.
        DESAPONTADO COM A CONDUTA DA MULHER QUE JULGAVA PREVARICADORA, DA MESMA FORMA QUE REPUDIADO POR ANA, A SERVA A QUEM SE REVELARA NA SUA MANEIRA GROSSEIRA 
DE SER, SULPCIO DEIXOU A MORADIA QUE ERA GUARNECIDA POR SOLDADOS A SERVIO DE PBLIO, EM BUSCA DE ORGANIZAR A CHEGADA DO GOVERNADOR.
        SABENDO-SE PRESAS DE UMA ARMADILHA DO DESTINO, ANA E LVIA DELIBERARAM DEIXAR A CASA E PARTIR PARA UM REFGIO MAIS SEGURO JUNTO AO TIO SIMEO, NA SAMARIA 
MAIS DISTANTE, O QUE FIZERAM RAPIDAMENTE, COMUNICANDO AO ADMINISTRADOR DA VIVENDA O SEU DESTINO, SEM ESPECIFICAR MAIORES DETALHES, APENAS PARA O CASO DO RETORNO 
DE PBLIO  CASA DA FAMLIA.
        FEITA A VIAGEM E INSTALADAS NA CASINHA POBRE DO VELHO TIO, AS MULHERES SE SENTIRAM ABRIGADAS TEMPORARIAMENTE DA SANHA PERSECUTRIA DESSES HOMENS SEM ESCRPULOS.
        QUANDO PILATOS CHEGOU A CAFARNAUM, TANTO ELE QUANTO SULPCIO FICARAM SABENDO DA AUSNCIA DE LVIA, DE SUA FILHA FLVIA E DE ANA. VALENDO-SE DE SUA INTIMIDADE 
COM OS SOLDADOS DA GUARDA, INTEIROU-SE O LICTOR QUE TINHAM IDO EM DIREO  SAMARIA, ONDE RESIDIA O TIO DA ESCRAVA.
        VENDO QUE A SUA PRESA ERA POR DEMAIS RESISTENTE, PILATOS DEU-SE POR SATISFEITO COM TAL FUGA, MAS, ENVOLVIDO PELO DESEJO DO SERVO FIEL, ATENDEU SUA SOLICITAO 
E AUTORIZOU SULPCIO QUE VIAJASSE COM UMA
pequena guarnio at a Samaria, a fim de informar-se do paradeiro da famlia perseguida.
              E dessa diligncia, atendendo ao imperativo do destino que sabe dar a cada um o mesmo padro daquilo que cada um oferece por si prprio, as mos assassinas 
de Sulpcio acabaram por assassinar o velho Simeo que havia ocultado as mulheres indefesas, matando-o a golpes de chicote, atado a uma grande cruz de madeira, que 
era o local de culto em homenagem a Jesus, que havia partido h to pouco tempo. No entanto, tresloucado e irado pela recusa do velhinho valoroso em entregar as 
suas cobiadas presas, enquanto castigava sem pena o corpo morto do ancio, sob o peso de suas carnes abandonadas, a cruz vergou e, num timo, atingiu a cabea do 
lictor, que teve morte imediata na frente do povo assustado com a cena de barbrie e dos demais soldados que lhe compunham o squito.
              A notcia da morte de seu mais fiel colaborador em circunstncias to misteriosas quanto surpreendentes, fez crescer a ira de Pilatos contra a famlia 
Lentulus, na qual passara a vislumbrar a maior ameaa que j houvera enfrentado em todos os anos de governo da Judia.
              De um lado, Pblio, que buscava vasculhar as localidades  cata de informaes.
               De outro, Lvia e sua serva que, como pensam todos os homens fracos de carter e loucos na sua insanidade, eram consideradas as responsveis pela 
morte de Sulpcio.
               Indignado com tal golpe do destino que lhe tirava o maior aliado de suas baixezas, Pilatos ordenou uma larga perseguio aos habitantes da Samaria, 
propiciando que muitos pagassem pela morte de seu fiel subordinado, dando ordens para que seus soldados intimidassem os habitantes de toda aquela regio, como forma 
de mostrar-lhes que no se mata um romano impunemente.
              Muitos assassinatos foram realizados, ocasio em que os mais violentos soldados procuravam se aproveitar para tirarem de seu caminho eventuais adversrios 
de suas ambies e desejos. Maridos de esposas cobiadas eram considerados suspeitos e levados  morte, pessoas que se opunham a negcios materiais eram chantageadas 
e foradas a suportar prejuzos e espoliaes a fim de preservarem a prpria vida.
               Isso s fazia aumentar a ira do povo contra o governo provincial, fatos estes que, mais cedo ou mais tarde, chegavam aos ouvidos de Pblio que, no 
muito tempo depois, regressava  sua moradia, onde seria notificado por Lvia de todos os fatos, carregando em sua bagagem todos os detalhes mais funestos da maneira 
como Pilatos e seus funcionrios procediam no trato com os direitos do povo, fossem romanos ou judeus.
Ao mesmo tempo, as semanas se passaram e como se espalhara
a notcia de que Pblio estava ouvindo as queixas do povo, inmeras caravanas de samaritanos vitimados por Pilatos e por seus mandatrios cruis, relatavam ao senador 
todos os crimes suportados pelos humildes moradores do vale do Siqum, regio onde se concentrava a perseguio e a crueldade.
              Para melhor controlar todos os feitos persecutrios, o prprio Pilatos transferira-se de Nazar para seu palcio na Samaria, o que o tornava cmplice 
de todos os crimes ali cometidos, j que no possuiria, sequer, a justificativa do desconhecimento dos fatos cruis.
              Sua presena na regio, como que incentivava para que a monstruosidade mais se ampliasse, como forma de punir aquele povo da regio pela perda de seu 
mais fiel comparsa.
Tudo isso, indignara o esprito romano de Pblio, acostumado ao respeito aos processos e desejoso de restabelecer a verdade.
              Desse modo, passou a despachar os inmeros processos a que dera incio, reunindo depoimentos, provas de todos os tipos, pareceres pessoais e, num volumoso 
processo, remeteu a Roma, aos cuidados de seu amigo Flamnio, para que o Senado e o imperador soubessem de todos os fatos, conforme lhe haviam dado poderes para 
assim o fazer.
              A reao de Pilatos ao assassinato de Sulpcio, dado o seu extremo grau de violncia, inadequada at mesmo para servir de desestmulo aos judeus mais 
violentos, j era reflexo de seu desequilbrio e perturbao, decorrncia dos inmeros problemas de conscincia que lhe atormentavam o esprito, depois do que ocorrera 
sob a sua responsabilidade, na pscoa daquele ano de 33.
No lhe saam da cabea os lances da condenao de Jesus.
Seu olhar abatido e sereno, seu corpo fragilizado por horas sem repouso e sem alimento, nem mesmo um pouco de gua, sua postura nobre e corajosa, abandonado por 
todos os seus amigos, firme em suas disposies de no solicitar clemncia dos homens e se submeter  vontade do Pai em quem confiava com absoluta convico, tudo 
isto era muito marcante para ficar esquecido.
              Alm do mais, sua conduta fraca como governador, sem coragem  frente das presses dos judeus mais exaltados, dos fariseus e sacerdotes, fizeram com 
que ele transferisse para eles a culpa pelas prprias fraquezas administrativas, votando, a partir da, maior dio pelos judeus, a quem considerava mais vboras 
maldosas do que a mais venenosa das cobras.
              Por essa propenso de esprito, Pilatos no regateou no momento de vingar a morte de Sulpcio, permitindo que inmeros inocentes recebessem o castigo 
mximo como maneira de sentir-se punindo aquele povo que o fizera passar pela dura experincia do julgamento de Jesus.
        NO LHE VALIAM COMO ATENUANTES DE CONSCINCIA AS TENTATIVAS DE ATENUAR A PENA, DE OFERECER OUTRO CONDENADO PARA SER PUNIDO COMO FORMA DE JUSTIFICAR-SE.
        DENTRO DE SUA CONSCINCIA, AS PALAVRAS "COVARDE, MEDROSO, INTIL, FRACO", SURGIAM CONSTANTEMENTE, FOSSEM EM PENSAMENTOS, FOSSEM EM SONHOS QUE O PERSEGUIAM 
SEM PENA.
        A TODOS OS MOMENTOS, ESTAVA ENVOLVIDO POR UMA MELANCOLIA E POR UM RANCOR, QUE NO SABIA DIZER SE ERA CONTRA SI OU CONTRA O MUNDO JUDEU QUE O CERCAVA.
        A PERDA DE SEU FIEL CMPLICE TRANSTORNARA-O AINDA MAIS, J QUE SULPCIO ERA A PONTE NEGRA QUE LIGAVA SUA LUMINOSA CONDIO DE GOVERNANTE AO ABISMO DE SEUS 
VCIOS E AOS DELITOS SRDIDOS QUE SE REALIZAVAM PARA A SATISFAO DE SEUS PRAZERES.
        PERDERA O SEU INTERMEDIRIO. DIFCIL SERIA CONQUISTAR OUTRO QUE, COM TANTA DISCRIO E EFICINCIA ASSIM SE POSICIONASSE SEM RISCOS PARA A SUA INTEGRIDADE 
PESSOAL E POLTICA.
        PILATOS SE DESENCANTARA COM A VIDA  SUA VOLTA. PASSARA A SER SIMPLES AUTMATO QUE SE DEIXAVA LEVAR PELOS DEVERES PBLICOS, SEM NENHUMA INSPIRAO EM ELEVADOS 
PADRES DE PRINCPIOS E VIRTUDES.
        CHAFURDARA LONGO TEMPO NA LAMA DOS SENTIMENTOS MAIS VIS E, POR ISSO, NO LHE RESTAVA QUALQUER RECURSO PARA ELEVAR-SE POR SI MESMO, QUANDO A ADVERSIDADE COMEAVA 
A BUSC-LO PARA COBRAR A CONTA DA SEMEADURA ESPINHOSA QUE HOUVERA FEITO.
        NO APENAS POR TER COLABORADO COM A MORTE DO JUSTO, COMO PODEM PENSAR MUITOS DOS LEITORES.
        ESTA FOI UMA DAS POSTURAS EQUIVOCADAS DO GOVERNADOR. NO ENTANTO, FOSSE PORQUE ESTIVESSE NA PRESENA DE OUTRAS AUTORIDADES A QUEM DEVERIA MOSTRAR SEU CARTER 
DE PRUDENTE ADMINISTRADOR, FOSSE PORQUE TIVESSE TENTADO, COM INMERAS E CRUIS DELIBERAES, POUPAR A VIDA DO RU INOCENTE, O DELITO EM SI NO FORA O MAIS GRAVE 
DE SUA VIDA.
        CERTAMENTE ERA O QUE MAIS LHE PESAVA NA CONSCINCIA PORQUE ENVOLVIA A FIGURA DO CRISTO DE DEUS, O CELESTE AMIGO.
        NO ENTANTO, MUITOS OUTROS DESMANDOS SE ERGUIAM COMO ADVOGADOS TENEBROSOS NA CAUSA DE INFELICIDADE. VIVAS QUE O AMALDIOAVAM, MULHERES ABUSADAS QUE O ENVOLVIAM 
EM VIBRAES DE DIO MORTAL, FAMLIAS DESPROVIDAS DE ESPERANA POR SUAS DELIBERAES INQUAS, TODOS ESTES ATOS COM A SUA PARTICIPAO PESSOAL, AINDA QUE DESCONHECIDA 
DO GRANDE PBLICO EM FACE DA AO DE SULPCIO, QUE SERVIA DE ANTEPARO  SUA REPUTAO DE GOVERNANTE ROMANO, ERAM A SUA HERANA.
        TODOS ESTES FORAM ATOS DE SEMEADURA AMARGA QUE PESAVAM EM SUA JORNADA HUMANA, ENTRE OS QUAIS, A AO PERSECUTRIA CONTRA LVIA,
que acabou por produzir todo o drama em sua vida, condenando a inocente mulher ao mesmo martrio de um julgamento sem defesa,  perda de sua dignidade feminina, 
ao isolamento de seus mais caros afetos, tudo como acontecera ao prprio Cristo.
              Pilatos no se valera da companhia elevada de sua mulher, Cludia, aquela que a Providncia Divina lhe houvera concedido para ser o leme seguro ao 
seu barco desgovernado.
              Preferiu vitim-la tambm com sua conduta desonesta, retribuindo-lhe a fidelidade com a traio com sua prpria irm, a perigosa Flvia.
              Todo este arranjo de foras malignas, desencadeado por sua escolha inadequada e seus atos arbitrrios, seus envolvimentos indignos e seus interesses 
esprios, produziram o ambiente nocivo no qual Pilatos passara a ser vitimado por seus padres de conscincia e pelo grande nmero de espritos perseguidores que 
o buscavam.
Sem recursos de defesa caracterizados pela elevao de pensamento e pela nobreza de atitudes, Pilatos se deixou levar pelas inspiraes das foras que j o vinham 
assediando, projetando-se no abismo da inconscincia e da crueldade como forma de punir aquele povo miservel que o colocara na condio de governante dos maus, 
como se ele no fosse um deles.
               No suportava a companhia dos judeus e, sempre que podia, tudo fazia para maltrat-los, sem se preocupar se estava sendo justo ou no.
A sua situao se tornava muito complicada e facilmente se podiam constatar os seus atos de revolta to pouco aconselhveis nos que tm pessoas sob o seu comando.
              Assim,  medida que Pilatos se ia complicando, Zacarias tomava mais e mais conscincia da gravidade de sua tarefa, no vislumbrando como realiz-la 
diante do poderio do governador e de sua absoluta averso a qualquer contato com judeus de todas as espcies.
              Depois da primeira viagem a Emas, quando na companhia de Clofas puderam vislumbrar a figura do Mestre, havia retornado para o seio apostlico onde, 
efetivamente, escutara mais e mais notcias sobre aparies at que, finalmente,  vista de todos, Jesus se apresentara e permaneceu ensinando por longos dias.
              Depois que terminou a sua tarefa de preparar os discpulos para as lutas que os esperavam da para a frente, o Mestre os deixou, subindo aos cus, 
numa tarde gloriosa de suas vidas.
              A partir da, cada qual delibera dar uma direo aos seus projetos pessoais, sempre ligados  difuso da mensagem evanglica.
Pedro inicia o trabalho de atendimento aos miserveis em Jerusalm, o que j se fazia tambm em outras localidades como
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Cafarnaum e Nazar, onde antigos seguidores se transformavam em propagadores dos efeitos da Boa Nova.
              Em Nazar, especialmente, l permaneciam Judite e Caleb, ampliando as instalaes para receber mais e mais sofredores.
Velhos brios ali encontravam comida, ex-prostitutas do antigo tugrio que acolhera Judite para os apetites dos sentidos, agora eram por ela acolhidas para o reerguimento 
da alma, nos apetites das coisas divinas.
              Zacarias, Josu e Clofas juntos passaram a dar seguimento aos projetos de servio.
              O primeiro retornou a Emas para vender, agora sim, a vivenda e os bens que possua, pois sentia que precisaria de recursos para poder atender  promessa 
que fizera a Jesus.
Josu manteve-se fixado em Jerusalm, ajudando Pedro no seu esforo de amparar as misrias humanas em nome de Jesus.
              Saul voltou para Nazar a fim de se reunir por um tempo ao esforo de Caleb e Judite, ampliando as mos e a fora do ideal do bem naquela localidade 
to importante para a vida apostlica, por ter representado a cidade onde se fixara, inicialmente, a moradia de Jesus e seus familiares.
              Desse modo, vamos encontrar nossas personagens na luta do dia-a-dia, tratando das feridas abertas no seio do povo - como o faziam os discpulos - buscando 
o recurso enrgico do mdico cirurgio a fim de extirpar o tumor - como o fazia Pblio em relao ao governo local -e produzindo mais e mais ferimentos em seu desatino 
irracional - como o fazia Pilatos.
Algum tempo depois, o pretor Slvio e sua famlia foram convocados a regressar a Roma, atendendo aos pedidos do senador, o que produziu alvio em seu corao, atormentado 
por no mais desejar encontrar-lhes a presena em nenhum lugar do mundo dos vivos.
              Remetidos os processos a Roma, como j se falou, a tramitao de todos os documentos consumiu quase dois anos, durante os quais, os nossos personagens 
se preocuparam com as suas rotinas, dentro dos procedimentos que haviam escolhido para viver suas vidas.
              Pblio, com seus processos e com a educao de sua filha, j que no tivera notcias do filho desaparecido.
Zacarias e os seguidores de Jesus, tentando manter a tradio apostlica atravs dos exemplos de amor ao prximo.
              Lvia e Ana, entretidas com as coisas da famlia, apegadas  f em Jesus e s oraes e  ajuda que prestavam aos mais sofridos que procuravam o cofre 
dos Lentulus para encontrarem a migalha da caridade mais pura.

                ((enquanto tais fatos envolviam as nossas personagens nas lutas dirias, voltemos um pouco para apreciarmos o cenrio na sede do Imprio Romano, 
onde as intrigas e as tramas do poder se misturavam com os interesses pessoais.
              Como j vimos anteriormente, o imperador Tibrio se vira cercado por criaturas sempre prontas a colocarem seus interesses pessoais acima dos interesses 
pblicos e, com raras excees, no havia em Roma quem quer que fosse digno de sua confiana.
              Com a sua retirada para a ilha de Capri, paraso e refgio de onde o imperador mantinha o governo do Imprio atravs de correspondncias e despachos, 
tentando governar juntamente com o Senado que, acostumado  onipotncia de seu antecessor, Augusto, transformara-se apenas em um conjunto de fantoches a aceitarem 
como sua a opinio de Csar, Tibrio buscava a proteo e a paz com a qual esperava deliberar corretamente sobre as questes polticas.
              Todavia, seu homem de confiana, Sejano, fora igualmente corrompido pelo exerccio do poder, j que era atravs dele que Tibrio se mantinha informado 
e a ele, que permanecera em Roma como seu representante junto ao Senado e  direo dos negcios, delegava atribuies que significavam grande parcela de mando.
              Com o isolamento, todas as notcias que chegavam ao imperador por via de Sejano eram filtradas pela sua maneira de manipular a vontade de Csar que, 
confiando cegamente nele, acreditava em sua fidelidade. E se ela realmente existira no incio e por algum tempo se manteve, com o envelhecimento de Tibrio e o amadurecimento 
poltico de seu ministro, tal relacionamento passou a ser adulterado pelo desejo que Sejano possua de elevar-se acima de um simples representante do imperador.
              Todavia, alertado por uma de suas mais fiis sditas acerca do comportamento inadequado do seu homem de confiana, Tibrio conseguiu, atravs de um 
estratagema por ele montado com o apoio de um de seus criados de confiana, desmascarara conduta de seu ministro que, no ano de 31 havia cado, por isso, em desgraa.
              Atendendo  carta de Tibrio, lida em uma cerimnia do Senado para a qual Sejano fora convidado e na qual acreditava que receberia a mais alta e ambicionada 
honraria, o poder tribuncio que tanto desejava, o Senado se voltou contra o arrogante e presunoso to logo a missiva de Tibrio apontou-lhe crticas e deslizes 
de conduta, transformando aquela reunio em um verdadeiro e sumrio julgamento.
Afinal, Sejano tinha se tornado um cruel e inescrupuloso governante, acreditando que poderia manipular o desejo e a vontade do imperador por meio de meias verdades 
e muitas inteiras mentiras.
              Fora preso no mesmo local e, ao final da tarde havia sido estrangulado na priso por ordem dos senadores.
              E o mais interessante na observao das reaes dos homens, notadamente os que envergam algum tipo de poder, fora o fato de que, enquanto detinha as 
graas do imperador, Sejano era cortejado pela maioria dos senadores que o bajulavam  cata de favores, sendo que muitos deles tinham sido aquinhoados em suas solicitaes.
              Bastou-lhe cair na desgraa de Tibrio e a maioria destes homens voltou-lhe as costas e passou a desferir-lhe improprios e acusaes, a maioria delas 
verdadeiras.
A execuo daquele homem levou o povo ao delrio.
              Enquanto Tibrio havia solicitado a sua priso e a abertura de processo legtimo contra ele, o Senado adotou as drsticas medidas arbitrrias, prprias 
dos arrogantes administradores. No obstante essa ilicitude, a morte no se limitou apenas a Sejano. Seus auxiliares mais prximos, os que cumpriam suas ordens e 
os que o representavam, igualmente foram caados e mortos.
A sua famlia, a incluindo seus filhos, tambm foram assassinados, e com requintes de maldade.
A jovem filha de 13 anos, que fora condenada  morte pelo nico crime de ter sido gerada por seu infeliz genitor em desgraa, espelhou a crueldade de tais representantes 
polticos.
              O Senado deliberara por sua execuo. Todavia, havia uma lei em Roma que dizia ser proibido executar uma virgem, pois da poderia advir uma tragdia 
para a cidade, nos costumes e supersties correntes na poca.
Assim, com essa argumentao legal, os senadores deliberaram que, primeiro, o carrasco deveria estuprar a jovem, livrando-a da incmoda condio que a protegia a 
fim de que, depois, pudesse ser morta sem atrair maiores desgraas para Roma. Esse cruel comportamento, por si s, ainda no era desgraa suficiente.
              Este cenrio turbulento d bem a demonstrao de que o ambiente em que mergulhara a capital do Imprio no inspirava confiana alguma ao imperador.
              A sua sade, combalida por tantos anos  frente da mquina de guerra e depois da mquina estatal, pedia amparo e, por isso, a carta que o senador Pblio 
Lentulus lhe enviara, no ano de 32, em cumprimento  secreta tarefa de que o havia incumbido quando de sua partida para a Palestina, encheu-o de salutares expectativas.
              O senador confirmara a existncia daquele taumaturgo desconhecido, cujo poder corria de boca em boca e j havia atingido a capital e os ouvidos do 
imperador.
O relato de seu enviado procurava ser o mais exato e autntico para que Csar pudesse avaliar por si mesmo o que seu emissrio havia apurado. Desde a descrio fsica 
at a meno aos seus atributos essenciais, relatados de maneira equilibrada, sem entusiasmos juvenis e sem ceticismos vetustos, produzira em Tibrio a sensao 
de que ali estaria, talvez, a soluo para suas dores fsicas e morais.
              Naturalmente, a correspondncia levava muito tempo para chegar at o seu destino, mas, ainda assim, Tibrio tinha em mente a possibilidade de trazer 
at Roma esse homem to especial.
No tardou muito para que outra correspondncia, desta vez do prprio Pilatos, tambm lhe fosse entregue no expediente regular que se lhe submetia para o conhecimento 
dos fatos em todo o Imprio.
              Depois que o governador se avistara com os quatro seguidores da Boa Nova em Nazar, quando Zacarias lhe falara da mensagem que Jesus revelava aos mais 
sofridos do mundo, seguiu-se uma noite sem sono, impressionado que ficara com o teor do assunto que se lhe havia submetido, na fala simples e profunda daqueles homens.
Recolhido ao seu gabinete de trabalho, Pilatos escrevera ao imperador falando sobre a doutrina, sobre os milagres que ali vinham ocorrendo como efeitos do poder 
daquele Enviado dos Deuses, conforme o governador entendia e interpretava na sua f pag tradicional.
              No se limitou a descrever. Emitiu seu juzo pessoal e, na tentativa de gerar a idia de que se preocupava com o bem-estar de Tibrio, veladamente 
sugeriu-lhe a possibilidade de valer-se de tais poderes curadores a fim de submeter-se a tratamento que aliviasse seus
   problemas fsicos, decorrentes do natural desgaste orgnico que advir do pesado fardo que o imperador tinha sobre os ombros.
              A carta de Pilatos, conquanto proveniente de um homem em quem Tibrio no confiava e que sabia ser devasso e de limitados princpios morais, viera 
reforar em Tibrio a esperana de encontrar recursos quando seus mdicos no conseguiam encontrar sada para suas dores.
Depois de muito meditar nas notcias constantes de ambas as missivas, o imperador deliberou escrever ao seu enviado de confiana  Palestina, solicitando-lhe providenciasse 
a viagem do profeta no maior sigilo possvel, levando-o diretamente  ilha de Capri para que recebesse o tratamento que esperava lhe solucionasse os problemas orgnicos.
              Da mesma maneira, afirmava Tibrio estar aguardando de Pblio, o cumprimento da misso oficial, no sentido de, no mais breve espao de tempo, receber 
as suas consideraes sobre o governo provincial, cujo representante pretendia remover ante a conduta indigna das mais elevadas tradies de decncia pblica de 
seus ancestrais.
              A carta fora remetida depois de alguns meses e entre a sua elaborao, a sua remessa e a sua chegada, fora entregue a Pblio quando ele e sua famlia 
regressaram de Jerusalm, depois da Pscoa.
Assim que chegaram a Cafarnaum, o emissrio imperial entregou ao senador o documento que, uma vez aberto, causou a profunda tristeza em seu destinatrio, eis que 
as circunstncias demonstravam que a esperana de Csar acabara de ser frustrada pela conduta tbia de Pilatos, que permitira o massacre daquele justo em vez de 
defend-lo, usando de todas as suas prerrogativas de governante poderoso que, em nome de Roma, submetia os povos conquistados s suas leis e deliberaes.
              Isso produziu em Pblio a amarga obrigao de escrever a Flamnio, relatando os fatos por ele testemunhados a fim de que, por seu intermdio, fosse 
dada a Tibrio a notcia da morte na cruz daquele taumaturgo por ele to esperado.
              Tais informaes transmitira ao amigo Flamnio em correspondncia privada, pois temia que a correspondncia pblica que viesse a enviar pessoalmente 
a Tibrio pudesse ser interceptada por olhos curiosos que descobrissem os desejos secretos do imperador.
              Alm disso, naquele inesquecvel dia em Capri, Tibrio revelara o pedido sigiloso sobre o Messias a ambos, mesmo quando Flamnio demonstrou o desejo 
de deixar o imperador e Pblio a ss para o entendimento particular, no que foi impedido pelo prprio governante maior, passando, desde essa data, a conhecer o pedido 
que segredara ao senador.
        POR ISSO, PBLIO REMETEU A FLAMNIO A CORRESPONDNCIA PESSOAL NA QUAL SOLICITARA A REMOO DE SEU TIO SLVIO E SUA FAMLIA PARA ROMA, O PEDIDO DE UM PROFESSOR 
COMPETENTE PARA SUA FILHA FLVIA, AO MESMO TEMPO EM QUE SOLICITAVA AO AMIGO QUE LEVASSE AO CONHECIMENTO PESSOAL E EXCLUSIVO DO IMPERADOR OS FATOS QUE HAVIAM SUCEDIDO 
COM JESUS, ALM DA PROMESSA, PARA BREVE, DE UM DETALHADO RELATRIO SOBRE O PROCEDIMENTO DO GOVERNADOR DA PROVNCIA QUE, PELO QUE J HAVIA ENTREVISTO MESMO SUPERFICIALMENTE, 
ESTAVA AFUNDADO EM SUSPEITAS E ACUSAES DE DESMANDOS ADMINISTRATIVOS.
        TAL CORRESPONDNCIA FORA REMETIDA PARA ROMA LOGO DEPOIS DE SUA CHEGADA DE JERUSALM, COMO J FOI EXPLICADO E, ASSIM QUE REORGANIZOU AS IDIAS E PROCUROU 
COLOCAR EM ORDEM SUAS PREOCUPAES, FOSSE PELA NECESSIDADE DE SE AFASTAR UM POUCO DO AMBIENTE FAMILIAR ONDE LHE ERA PENOSO ESTAR, EM FACE DAS ACUSAES SOBRE O COMPORTAMENTO 
DA MULHER, FOSSE PELO DEVER DE HOMEM PBLICO DE CUMPRIR INTEGRALMENTE A MISSO OFICIAL PARA A QUAL FORA NOMEADO, ALGUMAS SEMANAS DEPOIS, COMO J PUDEMOS RELATAR 
ANTERIORMENTE, DEU INCIO  VIAGEM PELAS CIDADES MAIS IMPORTANTES DAQUELA PARTE DO REINO JUDEU A FIM DE CONHECER E APURAR TODOS OS FATOS, PRODUZINDO OS RELATRIOS 
QUE HAVIA PROMETIDO AO IMPERADOR E AO SENADO, ATRAVS DE FLAMNIO.
        QUANDO A CARTA COM AS NOTCIAS CHEGARAM A CAPRI, ATRAVS DAS MOS PESSOAIS DE FLAMNIO, QUE PARA L SE DIRIGIRA NA CONDIO DE SENADOR COM PRERROGATIVAS 
PESSOAIS PARA PROCURAR O IMPERADOR, TIBRIO ESPERAVA A RESPOSTA FAVORVEL DE SEU EMISSRIO, CRENTE DE QUE SUA HABILIDADE PESSOAL SERIA CAPAZ DE CONSEGUIR ATENDER 
AO SEU ANSEIO DE MELHORAR, CUSTASSE O QUE CUSTASSE.
        NO ENTANTO, QUAL NO FOI SUA AMARGA DECEPO QUANDO SE INTEIROU DE QUE O TAUMATURGO, VERDADEIRAMENTE PODEROSO, ESTAVA MORTO E QUE TAL SE DERA SOB AS VISTAS 
E COM A CONIVNCIA DE SEU GOVERNADOR, DAQUELE HOMEM QUE DEVERIA GARANTIR A ORDEM PBLICA E QUE TECERA TO POSITIVOS COMENTRIOS SOBRE A FILOSOFIA ESPIRITUAL QUE 
O MORTO PREGARA AOS QUE O SEGUIAM.
        -        COMO, FLAMNIO, ISSO  POSSVEL? UM JULGAMENTO SUMRIO, SEM QUE PILATOS TIVESSE SEQUER ADOTADO ALGUMA POSTURA MAIS CORAJOSA PERANTE OS INJUSTOS 
MAGISTRADOS JUDEUS, SEMPRE ARROGANTES E APRESSADOS QUANDO LHES CONVM?! - ERA UMA PERGUNTA E UMA AFIRMAO DIRETAS, FEITAS PELA ALMA DOLORIDA DAQUELE QUE V ROTAS 
AS SUAS LTIMAS ESPERANAS.
        VENDO-LHE A DISPOSIO NEGATIVA CONTRA PILATOS, FLAMNIO EVITOU FAZER QUALQUER COMENTRIO QUE PODERIA SER INTERPRETADO COMO DESEJO DE PREJUDICAR O GOVERNADOR. 
NO ENTANTO, NO PODERIA DEIXAR DE DAR RAZO AO IMPERADOR.
-        SIM, AUGUSTO,  DE SE ESPANTAR QUE UM HOMEM DITO JUSTO E
inocente seja, assim, condenado  morte sem qualquer defesa ou proteo.
              - Mais do que isso, meu amigo. Essa  uma postura que s  admissvel quando se imagina que o governante est enredado com as autoridades locais em 
muitas condutas indignas, a ponto de no ter como adotar a defesa de princpios justamente pelo fato de nunca os ter respeitado por si prprio.
              O homem que se prostitui perde a prerrogativa de defender-se com o argumento da virtude, pois, se o intentasse, passaria a ser hipcrita perante os 
seus cmplices.
              E como a eles, talvez, interessasse a morte desse homem que parecia ser uma ameaa aos seus interesses, buscaram o apoio de Pilatos para que ele o 
fizesse em nome do Imprio, naturalmente para que pesasse sobre nossos ombros o peso de uma deciso impopular.
              Tais notcias, alm de me abaterem a esperana para o futuro, tornam mais tristes meus momentos do presente, por confirmarem a suspeita que vinha guardando, 
sobre a incapacidade de o governador representar o Imprio com a decncia necessria.
               E o confirmam as breves notas do senador Pblio, relatando alguns dos desmandos que j consegui avaliar. E o ho de confirmar todo o processo apuratrio 
que prometeu remeter sem demora.
              Pretendo punir Pilatos de forma to exemplar que todos os demais governadores de provncias modifiquem suas rotinas sob pena de serem submetidos ao 
mesmo critrio de avaliao e julgamento.
Assim, Flamnio, esperarei a chegada do relatrio final para deliberar sobre o destino do governador.
              Quanto ao pretor Slvio e sua famlia, depois do parecer favorvel do corpo dos senadores, te pergunto, privadamente, qual o verdadeiro motivo para 
traz-lo para c?
Vendo-se convocado a uma resposta verdadeira, cuja essncia sempre escapa aos fundamentos da verdade de Estado, Flamnio procurou corresponder  sinceridade que 
Tibrio lhe votava e acrescentou:
              - Pelo que fui esclarecido por Pblio, Slvio  um boneco nas mos de sua mulher, perigosa e mesquinha, dada  devassido e, pelo que falam em Jerusalm, 
uma das mais assduas amantes do governador.
              - Mas ela no  irm da esposa dele, Cludia? - perguntou algo confundido o imperador.

        - SIM, MEU SENHOR.  A PRPRIA IRM QUEM SE DEITA COM O CUNHADO.
        - PENSEI QUE A DISSOLUO DOS COSTUMES S ESTIVESSE PRESENTE EM ROMA - AFIRMOU TIBRIO, CONTRARIADO.
- INFELIZMENTE, CREIO QUE NO - RESPONDEU O SENADOR.
        NO ENTANTO, PRETENDENDO APROFUNDAR O ASSUNTO PARA QUE O IMPERADOR NO PENSASSE QUE SE TRATAVA APENAS DE UMA QUESTO PESSOAL E MORALISTA, FLAMNIO ACRESCENTOU:
        - SEU EMISSRIO, DIANTE DA TAREFA QUE PASSA A DESEMPENHAR DE MANEIRA MAIS DIRETA E DECLARADA, EST SOLICITANDO A TRANSFERNCIA DE TAIS PERSONALIDADES POR 
CONSIDER-LAS, NO SEM MOTIVO, ENVOLVIDAS NAS ARTIMANHAS ILCITAS, O QUE PODERIA DIFICULTAR AINDA MAIS A APURAO DOS FATOS. SO PESSOAS ASTUTAS E TUDO FARO PARA 
QUE NO SE TERMINE A INVESTIGAO SE SUSPEITAREM QUE SEUS PRIVILGIOS ESTEJAM CORRENDO PERIGO. ASSIM, APESAR DE ROMANOS, SO PIORES QUE OS ESTRANGEIROS DA PROVNCIA, 
POIS SE ALIAM ENTRE SI PARA SE DEFENDEREM NOS CRIMES QUE PRATICAM. COM A AUSNCIA DE SLVIO E SUA FAMLIA INTEIRA, PBLIO TEM MAIS FACILIDADE DE LOCOMOO, PODE 
ATUAR DE FORMA MAIS LIVRE, SEM TER QUE SE PROTEGER CONTRA JUDEUS E CONTRA ROMANOS, AO MESMO TEMPO.
        E EM SE TRATANDO DE UMA CONVOCAO OFICIAL, NO PESAR SOBRE ELE A CULPA DE ESTAR AFASTANDO-OS DE L, AINDA QUE ELES O POSSAM SUPOR OU IMAGINAR QUE TAL TENHA 
OCORRIDO POR SUA SOLICITAO.
        SOMADAS TODAS AS QUESTES, MORAIS E POLTICAS, O REQUERIMENTO FOI ACOLHIDO PELO SENADO E  SUBMETIDO  VOSSA AUTORIDADE MAIOR, COM O FIM DE AUTORIZ-LO EM 
FACE DE O PRETOR SLVIO ESTAR NA PALESTINA COM ALGUMAS FUNES OFICIAIS.
        ENTENDENDO O CARTER DO PEDIDO E ENALTECENDO O ZELO DE PBLIO, TIBRIO IMEDIATAMENTE ASSENTIU COM A TRANSFERNCIA DE TODA A FAMLIA DE SLVIO PARA ROMA, 
SEM DEIXAR-LHES QUAISQUER OPES.
        QUERIA DEIXAR O SENADOR QUE ENVIARA PARA L COM PLENAS CONDIES DE TRANQILIDADE E LIBERDADE PARA FAZER O QUE FOSSE NECESSRIO.
E VOLTANDO-SE PARA FLAMNIO, ACRESCENTOU:
        - SOU MUITO GRATO  TUA DISCRIO QUANTO AOS FATOS QUE ME CONTASTE E REVERENCIO A TUA FIDELIDADE  NOSSA AMIZADE, BEM COMO A DO SENADOR PBLIO LENTULUS E 
ESPERO QUE, TO LOGO ELE NOS ENVIE O RELATRIO FINAL, POSSAMOS NOS ENCONTRAR NOVAMENTE PARA DISCUTIRMOS O ASSUNTO.
        ENTENDENDO QUE O IMPERADOR DAVA POR ENCERRADA A ENTREVISTA, REVERENTE E AGRADECIDO PELOS ENCMIOS RECEBIDOS, FLAMNIO SE LEVANTA E SADA TIBRIO  MODA DA 
POCA, ENCAMINHANDO-SE PARA ROMA, ONDE ESPERA NOVAS NOTCIAS DE JERUSALM.

              Em Capri, Tibrio se recolhe na decepo e na revolta contra aquele governador fraco e covarde, a quem est decidido punir exemplarmente, o que tratar 
de fazer na primeira oportunidade que lhe aparecer.
Em Cafarnaum, cercado pelas notcias trgicas da matana dos inocentes da Samaria, dos desmandos e das negociatas do governador que se prostitura ao contato com 
os fariseus e sacerdotes sedutores, com seus negcios e riquezas, Pblio assumira a averso que sentia quele homem indigno e resolvera process-lo com todas as 
foras pessoais que o seu idealismo de homem pblico modelara em seu carter, ao mesmo tempo em que as prerrogativas da funo que lhe haviam sido atribudas o permitiam.
              Deliberada a abertura do processo em seu ntimo, Pblio remeteu ofcio ao governador da Sria a fim de que lhe pusesse  disposio a guarnio militar 
que o decreto de Tibrio lhe garantia, com o fito de no estar na dependncia da pessoa que investigava publicamente, recebendo do governador da provncia vizinha, 
sobre a qual o senador tambm exercia autoridade imperial, toda a colaborao necessria  manuteno de sua posio de superioridade e independncia, mesmo militar.
              Afinal, a sua segurana e a de sua famlia dependiam exclusivamente de Pilatos desde a sua chegada  Palestina e isso o deixava vulnervel.
              Da mesma maneira, pedir ao investigado lhe enviasse suas tropas corresponderia a um gesto de inocncia, eis que a corrupo naturalmente poderia ter 
chegado aos mais ntimos comandantes militares estacionados naquela rea. E ainda que no o fosse, Pblio no teria como confiar neles.
              De igual sorte, tal solicitao a Pilatos demonstraria uma declarao de desconfiana e no poderia ser disfarada por argumentos mentirosos, que no 
eram do feitio de Pblio us-los.
              Deste modo, recorreu  provncia vizinha, de onde recebeu o contingente militar que lhe correspondia, a fim de preservar a sua influncia e autonomia 
na execuo da tarefa que Tibrio lhe havia designado e lhe pedia contas.
              Pilatos era perigoso e, sem pensar duas vezes, poderia atentar contra a sua vida pessoal e a de sua famlia.
              Alm do mais, as diligncias na procura do pequeno Marcus no poderiam continuar a ser realizadas com o auxlio do exrcito submetido ao governador, 
pelos mesmos motivos acima expostos.
Com a chegada da vasta guarnio  regio da Galilia, o
antagonismo entre as duas frentes do poder ficou patenteado, sabendo Pilatos que Pblio o investigava ostensivamente e, ao mesmo tempo, reconhecendo que no poderia 
valer-se de nenhuma artimanha ou nenhum meio de presso ou golpe violento, j que estaria abrindo um conflito contra a autoridade que o prprio Csar havia investido.
Se no se submetesse, daria demonstrao pblica e indubitvel de que temia algum tipo de apurao sobre a sua conduta e, esse simples temor era o suficiente para 
apontar-lhe a culpa.
Como no tinha soluo, permaneceu em suas atividades normais entre a capital Jerusalm e as cidades circunvizinhas, tratando de escrever cartas a seus comparsas 
romanos a fim de que intercedessem junto a Tibrio, advogando-lhe a causa e dizendo-se vtima de injustias polticas e perseguies.
Escrevera tambm ao prprio imperador, tentando levantar suspeitas sobre a conduta de Pblio, atravs de insinuaes maliciosas e mesquinhas com as quais pretendia 
interferir nos nimos de Tibrio, favorecendo-se das dvidas que suscitasse em seu esprito.
      No entanto, apesar de renovar suas expresses de submisso e fidelidade ao trono de Roma, querendo mostrar-se servil e confivel, Tibrio j no lhe devotava 
a menor ateno, em face de todas as coisas que ele prprio j havia realizado e que demonstravam a natureza de seu carter, independentemente de suas prprias palavras.
Nenhuma presso foi admitida por Tibrio que viesse a desautorizar a conduta do senador Pblio, mas, ao contrrio, s fazia com que o imperador mais nele confiasse, 
eis que estava tocando o vespeiro e as vespas estavam se enfurecendo, o que significava que havia coisa errada debaixo de todo aquele protesto e que seu enviado 
estava se comportando conforme devia agir.
      Por isso, j ao final do ano 33, Pblio remete a Roma o volumoso processo que acusava frontalmente Pilatos de todos os crimes contra o Estado que foram apurados 
pelo enviado de Tibrio, aguardando-se o desenrolar de sua apreciao na distante capital imperial.
Enquanto isso ocorria, a vida seguia seu curso na provncia, ao mesmo tempo em que na corte os documentos remetidos por Pblio causaram impacto no seio do Senado 
e especial prazer no esprito de Tibrio que, agora, poderia dar seguimento ao seu plano de punir o governador indigno e infiel.
A guarnio estava postada no porto de stia que, quela hora do dia, regurgitava em funo do volume de mercadorias que aguardavam o desembarque e da grande quantidade 
de outras embarcaes que, naturalmente, se amontoavam no ambiente aqutico, com vistas a serem usadas para o transporte de seu contedo at a sede do Imprio.
      O fluxo de tais bens, recebidos dos diversos pontos do mundo, era a fonte da relativa harmonia que poderia se estabelecer na grande cidade, cada vez mais necessitada 
de recursos de todos os tipos para atender, no apenas a demanda alimentar, mas, sobretudo, para saciar a crescente volpia da insensatez humana, decorrente do aumento 
da riqueza acumulada, que sempre favorece o aparecimento de caprichos extravagantes, elevados  condio de necessidades indispensveis.
      Descansava o enorme e pesado navio atracado ao porto e, to logo o comandante Cludio organizou o desembarque das mercadorias que tinham o seu curso atravs 
do brao escravo e de inmeros libertos que ali trabalhavam para obterem pagamento, dirigiu-se s modestas acomodaes onde se estabelecera o ex-governador romano, 
Pncio Pilatos, durante a viagem, a fim de comunicar-lhe o iminente desembarque.
      Em seu interior, enquanto assistia  aproximao da embarcao daquele porto romano de onde houvera sado tantas vezes em direo ao seu destino, Pilatos meditava 
nas condies que o esperavam, agora, na hora do seu regresso.
      Em verdade, depois que Pblio passou a agir deliberadamente para apurar todos os fatos nefastos de sua administrao e pde constatar toda a sua longa srie 
de desmandos, acumpliciamentos ilcitos, posturas permissivas e corruptas, explorao das misrias sociais em proveito prprio, Pilatos procurara valer-se de suas 
influentes bases de
sustentao dentro do panorama poltico do Imprio, bases estas que lhe haviam garantido a nomeao para o governo da provncia, anos antes.
 verdade que sua carreira militar lhe havia possibilitado alguns mritos pessoais que serviam de moldura para seu desejo de progresso. No entanto, outros militares 
mais competentes e mais honrados do que ele existiam. O que lhe resultou favorvel ao desejo de destaque foi a conjugao de alguns fatores cruciais, conquanto deplorveis.
          Homem de personalidade vaidosa e sedutora, Pilatos nunca deixara de se envolver inadequadamente em aventuras sexuais imprprias para a sua condio de 
homem pblico casado e ligado aos destinos do imprio romano.
         Assim, a descoberta de condutas inadequadas nos bastidores do poder, que desonravam seu consrcio matrimonial com uma mulher pertencente a uma das mais 
tradicionais e influentes famlias de sua poca, somada  falta de um militar de destaque interessado em comandar a longnqua e inspita provncia Palestina, produziram 
a soluo que foi tanto adequada a Tibrio quanto conveniente a Roma: o seu afastamento com sua promoo para o governo daquela regio remota do Imprio, promoo 
esta que, aos militares, parecia mais uma punio.
         Alm disso, as presses de seus mais ntimos colaboradores junto aos gabinetes governamentais foi decisiva para levantar essa hiptese como a mais favorvel 
aos interesses pblicos.
         Com toda esta esteira de argumentaes, Tibrio acabou por aceitar o alvitre como sendo o menos pior de todos.
         No se esquea o leitor, de que quando se est falando de cargos ou funes pblicas, antigamente e principalmente nos tempos modernos, o lder nunca sobe 
ao poder sozinho. Sob sua figura e  sua sombra, um grupo de pessoas se agregam para apoi-lo tanto quanto para poder usufruir do seu realce. Deste modo, quando 
ele consegue se elevar, todo o grupo se sente homenageado e pode se considerar digno usufruturio das benesses do poder que ele exerce.
         Assim, com a possibilidade de sua queda, igualmente se projetaro no esquecimento e na derrota todos os que se valiam dessa teia espria de apoios e influncias, 
o que deve preocupar os que lhe do sustentao poltica.
          como uma lana comprida. A ponta da arma perigosa, que intimida, s est nessa condio porque, por detrs dela, as sucesses de camadas de madeira a 
sustentam.

          Rompida a madeira, a lana deixa de ser arma. Quebrada a cabea, a arma se torna imprestvel.
         S h razo de existir quando a madeira pobre e firme se alia  ponta dura e afiada que intimida. Isso a torna perigosa e temvel.
          Por isso, Pilatos esperava que a sua retaguarda em Roma seria capaz de se opor aos planos de Pblio que, por mais influente que fosse junto ao imperador, 
no poderia, pensava o governador, estar livre das presses que os seus aliados certamente fariam junto de Tibrio.
E pela demora na apresentao de quaisquer resultados, Pilatos tivera a certeza, por algumas semanas, que seu respaldo poltico teria conseguido neutralizar o esforo 
do senador em denegrir a sua administrao.
         Afinal, j se haviam passado dois anos desde que Pblio remetera a documentao solicitada por Tibrio aos cuidados de Flamnio para que fossem avaliadas 
tanto pelo Senado quanto por Csar.
          No contava ele que, para tais coisas, os processos eram demorados e as decises se apresentam, muitas vezes, envolvidas pela teia de interesses e intrigas.
         Alm disso, a distncia tornava mais lentas todas as conseqncias esperadas, o que lhe causara a infundada impresso de que obtivera sucesso quando da 
tentativa de embaralhar com presses e falsos argumentos a verdade dos fatos apurados.
         No entanto, Tibrio estava determinado a acabar com a tradio que Pilatos representava.
          O imperador no suportava a infidelidade e a falsidade dos que o cercavam, subservientes e covardes, na sua maioria.
         Da manter em especial destaque a amizade que devotava a Flamnio e a sua postura de respeito e absoluta fidelidade s tradies patrcias de seus ancestrais.
         Alm disso, mantinha igual confiana na figura de Pblio, seu emissrio ante os judeus e no se havia enganado quanto  sua capacidade e seriedade com as 
coisas de Estado.
         Pilatos, ao contrrio, no tinha idia de o quanto as coisas tinham mudado em Roma desde a sua transferncia para o oriente.
         O afastamento do imperador para a ilha de Capri deixou-o  distncia do grosso das influncias polticas, geralmente exercitadas na base de rumores, insinuaes, 
fuxicos e mentiras dos mais prximos ao trono, sempre interessados em influenci-lo para o lado que lhes era mais conveniente. Esse distanciamento garantia a Tibrio 
um isolamento
muito protetor, diminuindo, assim, a esfera de ao dos comparsas do governador palestino.
          E a frustrao que causara em Tibrio a morte de Jesus sob as vistas de Pilatos, retirava deste qualquer condescendncia que o mais alto governante dos 
romanos poderia lhe conceder, levando em conta presses externas e servios que Pilatos houvesse, porventura, prestado a Roma.
         Assim, enquanto atracava e se preparava para desembarcar, Pilatos meditava nas circunstncias, surpreendentes para ele, de sua convocao a Roma.
         Sabia que isso s acontecia quando se tratasse de alguma promoo ou de alguma circunstncia desabonadora, o que lhe parecia mais plausvel, em face das 
condies que lhe haviam sido oferecidas para o transporte.
         Buscando manter a integridade das aparncias, Pilatos no resistira s ordens pessoais do imperador de regressar  capital.
         No entanto, sentindo-se na iminncia de dolorosas reprimendas, deixou em Jerusalm sua esposa, Cludia, com boa parte dos recursos que ele acumulara inadequadamente, 
graas s negociatas ilegais que realizara com os prprios judeus astutos e matreiros, a fim de que ela no se visse sem recursos e sem amparo para o momento em 
que ele estivesse em desvantagem.
         Que ela guardasse com zelo o patrimnio que ele lhe confiava, pois se a deusa Fortuna, - divindade que para os romanos significava a boa sorte - permitisse, 
regressaria para desfrutar de uma vida regalada, ainda que destitudo de cargos ou funes pblicas.
Era o correspondente, nos dias de hoje, aos crimes praticados  sombra do poder, de modo a permitir que, depois de alguns anos de punio, o punido voltasse para 
aproveitar os frutos de seus delitos, ocultados sob a guarda de parentes, de pessoas de sua mais estrita confiana.
A guarnio aguardava, no porto, o desembarque de Pilatos.
         - Sim, capito Cludio, estou pronto com minha modesta bagagem para ser encaminhado ao meu destino - falou o passageiro ilustre.
         - Pois ento, meu senhor, queira me acompanhar para que possa entreg-lo ao cortejo que se encontra no cais  sua espera.
E dizendo isso, ordenou que um ajudante do navio transportasse os itens da bagagem de Pilatos, que o acompanhou at o tombadilho por estreitas passagens internas 
da grande nau, quando sob a luz do


Sol que se dirigia para o poente, finalmente, pde pisar o solo da terra de onde tinha se ausentado anos antes, sob a questionvel homenagem de ter sido promovido 
ao cargo de governador da Palestina remota e desconhecida, pouco desejada por qualquer valoroso romano de estirpe.
Roma o esperava, sem dvida, com olhos curiosos e irnicos.
         A escolta foi-lhe apresentada e, sob o comando de Tito, os soldados se postaram lado a lado, acompanhando o cortejo que conduziria o governador ao outro 
barco, mais adequado  navegao fluvial, rio acima, at o desembarcadouro, em Roma.
         Tito mantivera uma postura distante do romano cado em desgraa, como que a confirmar a Pilatos as suas suspeitas negativas sobre o destino que o aguardava, 
sem homenagens nem regalias.
No fora maltratado, porm.
         A viagem transcorrera sem incidentes, at que as portas majestosas do casario romano surgiram imponentes diante de seus olhos, numa apreciao emocionada 
daquela cidade ao mesmo tempo to bela quanto cruel, smbolo da liberdade quanto da escravido, da nobreza de ideais quanto da devassido dos homens e mulheres imaturos.
H muito que Pilatos no pisava em Roma.
          Havia prdios imponentes que sua lembrana j tinha esquecido e de que seus olhos no guardavam os traos.
         Construes e reformas haviam embelezado ainda mais os contornos de outros edifcios e de muitas das colinas que compunham o harmonioso horizonte da capital 
imperial.
         A emoo de seu retorno foi interrompida pelo choque do barco com as pedras do desembarcadouro.
         Apontado o rumo a seguir, pelo brao musculoso do seu condutor, Pilatos foi imediatamente conduzido para a priso Mamertina.
          Esse novo endereo para Pilatos denegria-o aos prprios olhos, j que nessa priso eram acolhidos os chefes dos povos invadidos ou, ainda, os que eram 
surpreendidos em conspiraes contra o Imprio, os quais, ali, encontravam o destino que lhes estava reservado, a saber, o estrangulamento.
         Na verdade, depois que todos os fatos puderam ser conhecidos pelos senadores que exercitavam o poder de magistrados nos processos da Lex Maiestatis, Tibrio 
solicitara do Senado a priso do governador da Palestina, velho conhecido de muitos deles pelos escndalos do passado e, por isso, digno de merecer tal recepo 
quando de seu regresso a Roma.
         Alm do mais, Pilatos fora acusado de traio por parte de vrios senadores que viram em seus mtodos, uma perigosa infrao aos cnones legais romanos, 
colocando seus interesses pessoais acima dos interesses do povo e dos governantes que nele haviam confiado.
         A prevaricao de um soldado miservel ou um legionrio bruto era considerada com menos rigor do que a leve falta do mais elevado representante do trono 
no governo provincial, em face de que os primeiros passavam por apuros terrveis, distantes de casa, do conforto, dos realces sociais, enquanto que os ltimos contavam 
com todas as facilidades e regalias estatais, pelo que o carter administrativo da fidelidade se impunha acima de todas as outras virtudes no administrador romano.
         A tradio que Augusto impusera nas regras polticas anos antes de Tibrio tornar-se imperador, ainda que fizesse vistas grossas a erros que eram punidos 
com certa parcimnia quando praticados por homens rudes e subalternos desqualificados, pesava com todo o seu poder ante a menor falta cometida pelos representantes 
diretos do Estado, preparados para as carreiras pblicas, brilhantes e invejadas.
Por isso, Pilatos fora considerado mais do que um invigilante servidor de Roma, mas um traidor com a culpa inegvel em face do processo preparado por outro senador 
insuspeito, Pblio, no local mesmo dos fatos.
          Isso produziu em Pilatos uma humilhao sem precedentes, pois era a primeira vez que ele se vira preso sem direito a qualquer argumentao e sem a presena 
de um amigo sequer.
         A ira contra Pblio se ampliou sobremaneira, pois ele no tinha dvidas de que aquele homem havia sido o autor de todas as acusaes que lhe haviam transformado 
o destino. Se pudesse, agora, esmag-lo-ia com suas mos e se arrependeu de no t-lo feito enquanto estava na direo da provncia.
          Sua vida no lhe permitia, entretanto, maiores iluses. Se a priso era o que o esperava depois de quase dez anos de servio a Roma, no primeiro dia de 
sua chegada, os dias que se sucederiam deveriam guardar-lhe amargurosas surpresas.
No entanto, todos os primeiros momentos de seu triste destino fizeram-no reviver a experincia mais trgica de seus dias, quando da avaliao da culpa de Jesus, 
perante a sua responsabilidade.
          E, sem perceber que mos invisveis lhe inspiravam pensamentos transformadores, Pilatos se comparou com as condies nas quais o profeta houvera sido colocado 
diante dele.
         Sozinho, sem direito a defesa, sem qualquer amigo para se apoiar na hora trgica.
          Nem os discpulos de Jesus, que presenciaram a sua bondade fazendo milagres, nem os seus ulicos romanos que se beneficiavam da sua posio poltica influente 
se manifestavam diante da desgraa e da priso.
          Comeara a ver a injustia dos homens pelo prisma amargo da condio de vtima. Sempre estivera no outro lado, como acusador e juiz.
Revoltava-se, contudo, com tal recepo gelada e, por ele, tida como injusta diante dos sacrifcios que fizera por Roma e por seus asseclas aproveitadores.
          De dentro de sua cela, perdendo a compostura governamental, passara a gritar estentoricamente, gritos estes que se perdiam nos corredores frios e apagados, 
nicas testemunhas da execuo de muitos vencidos ou indefesas vtimas das circunstncias adversas, na Roma daqueles tempos.
          Fora essa a sua primeira noite na priso, entre a umidade, os ratos e os limites da insanidade desesperada.
Enquanto isso, l em stia, Zacarias seguira os passos da guarnio oficial  distncia, embrenhado no meio da multido para a qual ele passara desapercebido, como 
mais um velho sem futuro,  cata do lixo para sobreviver.
         Seguindo o cortejo para no perd-lo de vista, Zacarias no sabia o que estava acontecendo.
          Quando da sua estada em Jerusalm, depois da morte de Jesus, o discpulo passara a atentar para todos os atos do governador, a fim de entender melhor o 
que estava acontecendo e qual seria o momento ao qual se referira o divino Mestre, como a hora correta para levar-lhe o auxlio de suas palavras e da Boa Nova de 
Jesus.
No entanto, a postura de Pilatos no evento doloroso ocorrido na Samaria, depois da morte de Sulpcio, fizera com que seus escrpulos com relao quele arbitrrio 
e rude administrador tornassem sua vontade de ampar-lo diminuda ao extremo.
         - Como amparar um indivduo desses? Um homem que mata por prazer at mesmo crianas inocentes, para atingir o corao dos pais, que deixa viver para amargarem 
a dor da perda! - isto  um absurdo, falava para si mesmo o velho discpulo.
          E bastava faz-lo para que se recordasse imediatamente das palavras de Jesus sobre o seu dever para com o governador.
         No importava o que ele houvesse feito ou viesse a fazer. Importava que cabia a Zacarias cumprir a tarefa que Jesus lhe havia apontado.
         Assim, tentando superar o asco que passara a sentir por esse homem agressivo e eglatra, Zacarias passou a esperar a chegada do momento correto para que 
estivesse prximo e pudesse realizar o que lhe fora solicitado.
Mas os anos haviam passado sem que nada acontecesse.
Deixando a cidade de Emas para trs, depois de ter vendido tudo o que possua, regressou  casa de Pedro em Jerusalm, onde passou a colaborar modestamente na vivncia 
da mensagem de esperana que lhes cumpria exemplificar.
         Tambm soubera do prprio Simo que, por ocasio da segunda despedida do Mestre, na noite que sucedeu  sua ascenso aos cus, uma angstia e incerteza 
dominaram seu interior, agora que o Amigo Celeste se ausentara e ele se vira entregue a si prprio.
          Ento, fizera o que seus sentimentos de incerteza e dvida sobre si mesmo, mas tambm de confiana irrestrita em Jesus, o aconselhavam.
          Orara com fervor e humildade, falando ao Mestre de suas fraquezas e receios.
Naquela noite, relatava Simo, tivera um sonho no qual Jesus lhe falava sobre a necessidade de comear pelos mais humildes e desvalidos.
          Zacarias j havia sonhado com essa conversa, quando da chegada juntamente com Josu,  cidade de Nazar, na noite em que dormiram ao relento.
Comear pelos pobres e estropiados.
         "Eu no vim para os sos, mas para os doentes" dissera Jesus e repetia agora a Pedro.
          E este, compreendendo a extenso daquela resposta direta, entendera que chegara a hora de transformar o panorama daquela sociedade com uma obra humilde 
de fraternidade real, to desconhecida dos judeus de seu tempo, incapazes de se libertarem do cativeiro de castas e posies nas quais se excluam uns aos outros, 
numa luta infinita para a manuteno e ampliao dos prprios privilgios em prejuzo dos demais.
Era chegado o momento de exemplificar com a prpria conduta.
          O discpulo precisar, um dia, tornar-se mestre de si prprio, fazendo aquilo para o qual se candidatou como aprendiz.
          S ento, estar capacitado para entender os problemas que seu tutor j conseguia enfrentar, quando lhe passava o conhecimento. Fazer  a ponte indispensvel 
entre o conhecer e o vencer, entre o saber e a sabedoria.
         Zacarias, ento, pde estar ao lado de Simo, amparando as necessidades de seus irmos, ajudado por um grupo dos antigos seguidores que, cada um a seu modo, 
desejava realizar as coisas, sem entender as diretrizes que Jesus houvera fixado.
          O mais rebelde a todas estas normas era Tiago, sempre apegado s tradies antigas e difcil de se submeter  liderana natural de Pedro, por ter sido 
aquele que, na condio ntima, mais assimilou o esprito fraterno cristo que Jesus exemplificara.
         Josu se juntara aos que cercavam Simo com a boa vontade e a simpatia dos que trabalham sem esperar seno mais trabalho como recompensa.
          Uma alegria enchia os olhos desses abnegados servidores quando um infeliz dava entrada na modesta vivenda, no perifrico tugrio onde se reuniam. Eram 
recebidos como hspedes de Jesus, no como doentes ou infelizes.
         Pedro buscava sempre levar aos seus amigos mais ntimos a idia de que todos ali eram servidores dos hspedes de Jesus, que era o proprietrio daquela estalagem 
e, por isso, esperava de seus funcionrios o melhor atendimento aos clientes que mandava.
          Era o sentimento de Pedro, interpretando as palavras inesquecveis do Messias, que pedira a todos eles que aquele que desejasse ser o maior, no anseio 
de comandar, liderar, o fizesse pelo caminho de mais servir, de mais se entregar ao trabalho e que ele prprio, Jesus, estava entre os discpulos como aquele que 
servia a todos, como o menor dentre eles.
Isso acalmava os nimos mais exaltados que desejavam posies de relevo, recusavam determinados servios tidos como indignos ou repugnantes.
         Zacarias e Josu se dividiam entre todas as tarefas e, ao lado de muitos outros, puderam presenciar muitos milagres na recuperao de enfermos, de desditosos 
condenados  morte pela enfermidade avassaladora que, para surpresa de todos, cedia  teraputica de amor e gua lmpida, higiene simples e carinho, alimento pobre 
e afeto sincero.
          Nessa condio, receberam a figura luminosa de Jeziel, recuperado de uma enfermidade misteriosa e tratado pelo prprio Simo, em face de nele ter identificado 
o cabedal de conhecimentos profundos da lei antiga, revelados nos momentos de delrios febris.

         A recuperao do jovem fora surpreendente, eis que, quando de sua chegada, fora apresentado como um moribundo  espera da morte, que s chegara at ali 
por causa da caridade alheia que pretendia impedir que um cadver acabasse ficando insepulto na via pblica.
         Algumas semanas depois de iniciado o tratamento, Jeziel j se encontrava restabelecido e inteirado da ocorrncia que tanto desejaria ter presenciado, a 
saber, a chegada do Messias entre os homens.
          Estava, ento, dedicado  leitura das anotaes pobres que os apstolos guardavam entre si, dos ensinos do Cristo, as quais recebia como gua fresca em 
suas razes ressequidas.
Durante o perodo em que se encontrou na Casa do Caminho, como era conhecida a vivenda dos apstolos, Zacarias pde partilhar de momentos de xtase espiritual, escutando 
os discpulos conversarem com os desesperados que pediam notcias de Jesus, orando em coletividade e fazendo curas inspiradas, que levavam a fama dos servidores 
da Bondade para todos os cantos de Jerusalm, at mesmo ao Templo que dominava as questes da raa, em todos os sentidos.
         Alguns fariseus j haviam estado nos arredores do albergue pobre, solicitando informaes, observando a conduta dos galileus humildes, avaliando-lhes o 
comportamento e se representavam algum risco aos seus interesses farisaicos.
         Outros j tinham solicitado notcias diretamente a Simo, a quem reconheciam como o substituto natural do crucificado, ainda que no lhe atribussem as 
mesmas virtudes e poderes.
         Jeziel, rebatizado com o nome de Estvo, fosse para atender a uma necessidade de preservar e proteger aquela autoridade romana generosa que lhe houvera 
concedido a liberdade da galera romana onde, na condio de escravo, enfermara durante uma viagem, fosse porque era hbito entre alguns judeus conversos ao Cristianismo 
nascente modificarem seus nomes, adotando nomes no hebreus, transformara-se em inspirado pregador das verdades do Reino e, sem que o tivesse desejado deliberadamente, 
na presena de todos os irmos do caminho e de Zacarias e Josu, inclusive, participara da reunio em que a sua figura fora defrontada pela de Saulo de Tarso, ardoroso 
e arrogante defensor da tradio de Moiss, com quem o pregador humilde se recusara a manter polmica, por no ser ela finalidade daquela congregao, onde estropiados 
e enfermos se reuniam para ouvir a palavra de esperana em nome de Jesus.
         Irado com a postura superior e com aquilo que qualificou de humilhao  sua figura importante junto  comunidade dos judeus que o acompanhavam, Saulo exigiu 
que fosse o pregador levado ao mais
alto tribunal da raa para que se manifestasse sobre a essncia da pregao.
         Aqueles foram dias difceis para a comunidade, que se vira envolvida na desgraa da perseguio com a qual a velha ordem de idias sempre tentou intimidar 
as novas transformaes que lhe tolheriam os vcios e os defeitos, acostumados a se manter sempre inalterados.
         Jeziel/Estvo, em respeito  ordem do Sindrio, comparecera solitrio ao tribunal, onde ficara retido por ordem do acusador.
         Ao mesmo tempo em que a Casa do Caminho sofria as primeiras perseguies pelo bem que fazia, chegara a Jerusalm a notcia de que Pilatos houvera sido convocado 
a Roma, onde seria punido pelos seus desmandos, afinal.
         Todos estavam na expectativa de que os relatos de Pblio atingissem os objetivos a que se destinavam, demonstrando a Csar o tamanho da insensatez de seu 
representante, esperana esta que j estava sendo frustrada pela demora na resposta, correndo a notcia da perpetuao de Pilatos no governo da Palestina como sendo 
a pilhria dos maldosos, para escarnecimento das vtimas das atrocidades do governador romano.
         No entanto, a anunciada partida do governador para aquilo que no parecia uma viagem de recreao, deixara eufricos todos os que haviam se empenhado em 
sua punio e na apurao de seus desmandos, enquanto passou a ser motivo de preocupao dos aliados judeus que, acostumados a se relacionar com o poderoso adversrio, 
comprando-lhe a conivncia, agora se viam s portas do perigo, alijados de seu importante colaborador que fazia vistas grossas aos seus abusos e ambies no seio 
dos prprios irmos de raa.
         Quem fosse enviado em seu lugar poderia estar cientificado de todos estes delitos e erros dos prprios judeus e, assim, avesso a qualquer entendimento e, 
o que era pior, tendente a fechar-lhes todas as portas das prticas mesquinhas e ilcitas.
         O nimo dos sacerdotes estava alterado e, para qualquer coisa que se lhes apresentasse como risco aos seus j arriscados pressentimentos, isso lhes merecia 
a mais rspida resposta, suprimindo qualquer ameaa sem a menor condescendncia.
         Assim, o ressurgimento do movimento que acreditavam ter sido extinto com a crucificao de seu propagandista mais respeitado, representou a renovao dos 
mesmos desafios perigosos de anos antes, piorado pela perspectiva da mudana do governo provincial romano e de sua piora em relao s prticas que Pilatos aceitara 
como meio de boa convivncia com eles.
          Esse era o panorama que se apresentou a Zacarias quando da chegada da notcia do afastamento de Pilatos do governo.
          Sabia ele que no poderia deixar de acompanhar o destino do governador que, agora, ao que tudo indicava, comeava o caminho descendente que o levaria  
simples condio de desditoso IRMO, conforme salientara Jesus naquela noite inesquecvel ao seu esprito.
Dvidas, no entanto, surgiam em sua mente.
          Deixaria os irmos naquele transe difcil? Aceitariam eles o seu afastamento para ir ao encontro do romano odioso, deixando os seus prprios companheiros 
em situao to delicada?
         Aliada a esta dificuldade, surgia a personalidade de Pilatos, que no produzia em Zacarias o entusiasmo que lhe merecesse um esforo muito grande em ajudar, 
no fosse a promessa que fizera a Jesus e que, a todo o instante de abatimento de suas foras lhe era renovada pelo poder da conscincia.
Seguir Pilatos ou seguir Pedro?
          Como era difcil ter que decidir pelo primeiro, diante de tudo o que recebera do segundo e das condies em que os amigos se encontravam naquele momento.
No entanto, deveria decidir logo, eis que a trirreme romana j estava no porto palestino esperando o embarque de seu ilustre passageiro para da a breves dias.

A dificuldade de Zacarias era compreensvel e, em face de sua necessidade de deciso, buscou ajuda junto a Simo, a fim de que o discpulo mais ligado  causa do 
Evangelho, naquele momento de entrega de si mesmo ao servio dos que sofriam, lhe orientasse.
          Encontrando-o em um momento de meditao que lhe propiciaria expor suas angstias, Zacarias aproveitou o ensejo e indagou:
         - Querido irmo Pedro, preciso submeter-te uma questo que me tem produzido amargo conflito e que, na sua experincia e sabedoria, estou certo, poderei 
encontrar a elucidao.
         Vendo-se procurado com tal confiana, o antigo pescador de peixes, transformado pelo Cristo em pescador de almas, sorriu-lhe e respondeu:
         - Caro Zacarias, teu corao se confia a algum muito defeituoso para poder apontar rumos e esclarecer dvidas. No entanto, teu carinho para com todos  
credor da minha mais profunda ateno e, no que eu puder ajudar, aqui estou para isso, meu irmo.
         - Sabe, Pedro, quando Jesus nos mandou a Nazar a fim de levarmos, em seu nome, a mensagem do Reino, como  do conhecimento de todos ns, estivemos diante 
de Pilatos, o governador co-responsvel pela crucificao.
         Ouvindo-lhe as palavras, Simo balanava a cabea afirmativamente, dando-lhe a informao de que se recordava desses fatos.
         - Ocorre, Pedro, que depois que regressamos  presena do Mestre, certa noite, em que me encontrava solitrio e pensativo, impossibilitado de conciliar 
o sono, apareceu-me o Senhor para conversar comigo sobre os fatos que aconteceriam com ele e que j estava nos
preparando para suportar. Ento, durante a conversa, Jesus solicitou-me uma coisa de que s eu tenho conhecimento e lhe prometi que cumpriria, aceitando seguir com 
a tarefa at o seu final.
Interessando-se pela histria de Zacarias ainda mais, Simo endireitou-se na cadeira e exclamou:
         - Uma solicitao de Jesus para uma tarefa? Hum... isso deve ser muito importante, Zacarias - falou Pedro, cocando a barba espessa.
- Sim, Pedro, tambm penso a mesma coisa.
- Ora, meu amigo, e por que tantas dvidas?
         -  que tu ainda no sabes do que se trata, Simo - exclamou Zacarias.
E porque o amigo permanecesse em silncio, Zacarias continuou:
         - Relembro-me de quase todas as palavras do Mestre, como se ele as tivesse escrito ainda agora em meu pensamento e, por isso, todas as vezes em que penso 
em abandonar a tarefa, eis que estas inscries vivas me so trazidas da conscincia mais profunda para a superfcie de minhas emoes, o que me impede de esquec-las.
         Atravs delas, Jesus pedia que eu acompanhasse uma pessoa depois que ele partisse, a fim de que essa criatura no ficasse sem amparo nos momentos difceis 
por que teria de passar. E me solicitava que eu fosse as mos do pastor que vai buscar a ovelha desgarrada pelos caminhos da vida, custasse o que custasse. Que eu 
o seguisse, a princpio de longe e, depois, quando todos os processos se precipitassem sobre ele, que me acercasse para ajud-lo. Que no me importasse com o que 
ele tivesse feito e que esquecesse todas as suas obras ms para que me concentrasse apenas no bem.
         E falando sobre os miserveis que nos circundavam e que, igualmente, mereceriam o amparo, Jesus acrescentou:
         "Dentre todos estes, peo a tua ajuda para que este, em particular, seja acompanhado pelo teu carinho, para onde for, onde estiver, a fim de que, no momento 
adequado, voltes a falar-lhe do Reino de Deus que no o esqueceu nem excluiu.
         Lembra-te, no entanto, de esperar a melhor hora. Segue-o de longe e esteja a postos, pois na ocasio adequada te ser revelado como agir em favor de sua 
recuperao. Eu estarei contigo como sempre estive. Posso contar com teu auxlio?"
         Pedro, interessado, no interrompia a exposio do amigo e se mostrava fascinado com os termos da conversao entre ambos.
Curioso, perguntou querendo antecipar as coisas:
         - Mas quem  essa criatura to importante que Jesus te pede essa conduta to especial, Zacarias?
E para surpresa maior de Pedro, Zacarias lhe respondeu, imvel:
- Pilatos,        , Pedro.
Emocionado, os olhos do pescador encheram-se de lgrimas. Ali estava, na prtica, a postura de alma do mesmo esprito elevado que o ensinara a perdoar no apenas 
sete vezes, mas setenta vezes sete vezes.
         S Jesus poderia ter solicitado o acompanhamento especial para aquele homem que nada fizera para defend-lo eficazmente. As lgrimas emocionadas de Pedro 
foram acompanhadas pelas de Zacarias.
         - O perdo, Zacarias, foi sempre um espinho entalado em minha garganta, dentre tantas dificuldades que sempre tive para captar o fundo dos ensinamentos 
do Mestre - falou Pedro.
         - Para mim tambm, Simo. O perdo sempre me faltou e em muitas situaes de minha vida eu deixei de ofert-lo como deveria, at que, em Nazar, fui submetido 
ao mais difcil de todos os testes para o meu carter frgil que desejava fortalecer-se. E no houve momento mais ditoso para minha alma do que aquele em que abracei 
a traidora de meu afeto e o causador de sua queda como meus irmos verdadeiros e, todos, choramos juntos, lavando nossas almas para a estabelecimento do Reino de 
Deus dentro de nossos coraes, em primeiro lugar.
         - Sim, Zacarias, isso nos transforma para sempre. Saber perdoar  dar a si mesmo a sentena de liberdade atravs da qual ns mesmos passamos a ser dignos 
do perdo de Deus para com as nossas faltas dirias. Na condio de traidor de Jesus, eu mesmo necessito muito do seu perdo para atenuar minha conscincia culpada. 
Agora, a tua revelao me faz ver o quanto Jesus era maior do que ns pensvamos conhec-lo.
          Enquanto ele orava no ltimo dia, ns dormamos. Enquanto ele aceitava ser preso serenamente, eu agredia com a espada, ferindo o irmo que o algemava, 
ao passo que o Mestre curava-lhe o ferimento.
          E enquanto ns nos ufanvamos com o sucesso da mensagem que ele representava, ele estava diante de ti, preparando os passos do amanh para resgatar o prprio 
algoz no momento de seu sofrimento, quando so rasgados os vus da iluso do poder e do mando.
         Sim, meu amigo, eu creio que so verdicas todas as tuas revelaes, pois ningum mais do que Jesus teria pedido uma coisa destas.
Entendendo as palavras de apoio de Simo, Zacarias continuou:
         - Obrigado, Pedro, a tua palavra me anima, mas, ao mesmo tempo, o momento me confunde.
- Como assim, Zacarias?
         - Ora, Pilatos foi convocado a Roma e deve partir estes dias, sem detena. Foi chamado por ordem do Senado a pedido de Tibrio e dizem todas as informaes 
que correm  boca do povo, que est acabado, no regressando nunca mais a estas terras. E, como Jesus havia falado, me cabe seguir esse homem mau at o seu destino 
de dificuldades e dores. No entanto, as coisas por aqui esto complicadas. Estvo est preso, Saulo promete mais perseguies na defesa de Moiss, parecendo que 
o momento pede mais unio do que afastamento. E, por isso, estou perdido entre o que prometi a Jesus e o que me sinto no dever moral de realizar aqui, ao lado dos 
irmos queridos que passam por provaes duras.
          Sinto que, se seguir o caminho do algoz romano, poderei ser considerado um traidor e um covarde perante os olhos dos irmos da Casa do Caminho que, com 
razo, podero sentir que estou tergiversando na hora em que deveria ser firme e ajudar no testemunho doloroso, para o qual no me faltam nem coragem nem amor a 
Jesus.
         Vendo-lhe o conflito moral que surgia, ante a necessidade de partir e o desejo de ficar para hipotecar solidariedade aos irmos de caminhada, Simo colocou 
a mo calosa nos ombros do amigo e exclamou:
         - Zacarias, teu sentido de dever  o que te causa essa dor amarga. E, no entanto, tuas palavras apontam para a necessidade de seguires o caminho que Jesus 
estabeleceu para ti, porque sabia estarias em condies de cumpri-lo. No entanto, se posso te aconselhar alguma coisa, por que  que no fazes como eu fao sempre 
que tenho dvidas quanto ao que fazer?
- Como assim, Pedro?
         - Sim, meu amigo. Todas as vezes que estou confuso, oro a Jesus para que me aconselhe e, valendo-me das anotaes de Levi que carrego comigo, deito os olhos 
no primeiro trecho que me surgir ao olhar, to logo termine de invocar o Mestre e, em geral, ali encontro o de que necessito para a elucidao de minhas indagaes. 
Por que no fazemos isso agora?
         - Ora, Pedro, isso  muito bom para quem tem as anotaes. Eu no as possuo e, por isso, nunca recorri a este sistema que julgo ser muito bom. Se ests 
me convidando a tentar, vamos fazer e ouvir o que Jesus nos tem a ensinar nesta hora de dificuldades.
Falando assim, sentou-se ao lado de Simo que, colocando o
rolo de pergaminhos correspondentes ao que seria, muito tempo depois, classificado como o Evangelho de Mateus, ambos fecharam os olhos e, com a voz emocionada, Simo 
elevou a prece humilde e rogou que o Mestre querido no lhes faltasse agora, nesse momento em que as dvidas poderiam dificultar a realizao decisiva da obra que 
lhes cabia.
          Depois que encerrou a orao, pediu a Zacarias que abrisse os olhos e lesse as primeiras frases que lhe viessem ao olhar.
Tendo feito isso, Zacarias passou a ler, para seu espanto pessoal:
         - "Portanto, no os temais: pois nada h encoberto que no venha a ser revelado; nem oculto que no venha a ser conhecido. O que vos digo s escuras, dizei-o 
a plena luz; e o que se vos diz ao ouvido, proclamai-o dos eirados. No temais os que matam o corpo e no podem matar a alma. Temei, antes, aquele que pode fazer 
perecer no inferno tanto a alma como o corpo. No se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cair em terra sem o consentimento de vosso Pai. E quanto a 
vs outros, at os cabelos todos da cabea esto contados. No temais, pois! Bem mais vaieis vs do que muitos pardais. Portanto, todo aquele que me confessar diante 
dos homens, tambm eu o confessarei diante de meu Pai que est nos cus; mas aquele que me negar diante dos homens, tambm eu o negarei diante de meu Pai que est 
nos cus.
         No penseis que vim trazer a paz  terra; no vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar diviso entre o homem e seu pai, entre a filha e sua me e entre 
a nora e sua sogra. Assim os inimigos do homem sero os da sua prpria casa. Quem ama seu pai ou sua me mais do que a mim, no  digno de mim; quem ama seu filho 
ou sua filha mais do que a mim, no  digno de mim; e quem no toma a sua cruz e vem aps mim, no  digno de mim. Quem acha a sua vida, perd-la-; quem, todavia, 
perde a vida por minha causa, ach-la-.".
         Os dois homens estavam impressionados com o teor da resposta imediata que obtiveram naquele instante.
         Simo e Zacarias se entreolharam e, quase ao mesmo tempo, exclamaram sua surpresa:
- Meu Jesus... - falaram ambos.
         - Est vendo, Zacarias, como  que funciona, sempre que o nosso corao est sinceramente aberto a escutar as orientaes que Deus nos envia atravs de 
Jesus? - disse Pedro, feliz por terem sido alertados.
         - Nossa, eu nunca pensei que isso fosse possvel, Pedro. Parece que Jesus escutou tudo aquilo que estvamos conversando e nos respondeu pessoalmente...
         -  isso mesmo, meu irmo. Jesus sabe do que necessitamos e, como pudeste ver, no foi s para ti que a mensagem chegou. Veio para todos ns que estamos 
enfrentando esse momento difcil diante das autoridades do Templo, que pensam poder intimidar a caminhada da obra do Pai com ameaas e processos. Pensam mesmo que 
a morte de algum de ns tem o poder de interromper a marcha da verdade...
         - Mas  doloroso o momento em que vemos um irmo querido submetido a esse tipo de perseguio, sozinho, e temos de ficar  distncia, no , Pedro?
         - Sim, Zacarias. No entanto, a obra no nos pertence. E se para que ela prossiga todos ns tivermos de ser usados como pobres pedras pavimentando o solo 
onde outros iro pisar, a fim de que tenham cho firme para a jornada, assim deveremos aceitar, pois foi isso que recebemos do Mestre em nossas vidas, o sacrifcio 
de si mesmo e de tudo, para que aprendssemos o que fazer.
         - Tudo isto, para mim,  maravilhoso, Simo e, agora, sinto o quanto estava sendo fraco comigo mesmo diante dos deveres que assumi perante Deus e Jesus 
naquele dia. No valho nada por mim mesmo. S valho o exato valor daquilo que puder realizar. Minha presuno e covardia me estava cegando diante da estrada a percorrer. 
Tinha medo de ser considerado um traidor, de ser mal interpretado no pensamento dos que amo, de estar abdicando de uma demonstrao de solidariedade para com os 
irmos do apostolado. Tudo isso, estava sentindo por causa do meu orgulho e de minha vaidade pessoal, pois estava tentando manter o meu conceito em patamar elevado 
no pensamento dos outros, em vez de fazer o que era e  o meu dever realizar. Bendita a hora em que te procurei, meu irmo querido - disse Zacarias, agradecido, 
abraando emocionado o amigo que o escutara.
         - Fico feliz por ti e pela causa do Amor, Zacarias, j que o nosso irmo necessita muito de tudo aquilo que Jesus representa em nossas vidas. Segue-o como 
ficou acertado com o Mestre e no deixes que nada te interrompa a jornada at o seu final. Se aceitares uma recordao de nossa modesta existncia e de nossos votos 
de constante fora e coragem, eu te ofereo estes escritos para que os tenhas contigo pelos caminhos difceis que te esperam.
         Emocionado com o presente, Zacarias abaixou os olhos, envergonhado diante de tal generosidade de seu companheiro. Afinal, naquela poca, era muito difcil 
conseguir obter um documento to precioso como aquele e, ainda mais, contendo os ensinamentos diretos de Jesus aos seus mais chegados, intimidade esta que Zacarias 
nunca invocara por ter conhecido Jesus tempos depois do incio de sua tarefa.
         Vendo-lhe o constrangimento, Simo colocou o rolo de pergaminhos nas mos de Zacarias, dizendo:
         - Estes escritos so teus, meu irmo. Eu possuo outros e ainda estou providenciando outras cpias para momentos especiais como este, j que a palavra de 
Jesus no pertence a ningum e pertence a todos ao mesmo tempo.
Leve-a contigo, pois ser a tua conselheira atravs da qual escutars Jesus falando ao teu corao nas horas difceis.
          Sentindo a sinceridade da oferenda, Zacarias beijou-lhe as mos rugosas num gesto de venerao que Simo buscou impedir, em vo.
Para amenizar o clima de emoo que envolvia os dois, Pedro ainda acrescentou:
         - No temos muita coisa, mas do que temos, quero que aceites algumas moedas para a viagem no cumprimento da primeira misso evanglica fora destas terras.
         - No  necessrio, meu amigo. E se recuso no  por orgulho ou por desprezo.  que tenho comigo valores suficientes para a viagem e a estadia - falou hesitante, 
Zacarias.
         - Puxa, meu irmo, pobre como ests te apresentando, com um dinheiro acumulado assim, s posso pensar em duas coisas: ou s muito avarento, que no gasta 
nenhuma moeda com qualquer coisa, ou andaste pedindo muita esmola por Jerusalm sem que ns o soubssemos -falou Simo, pilheriando.
          E sem pretender expressar grandeza, mas para que o amigo no fizesse mal juzo sobre o dinheiro que possua, Zacarias respondeu, humilde:
         - No, Simo, no foi nem uma nem outra coisa. Eu vendi tudo o que tinha para que a tarefa no ficasse prejudicada e estas moedas foram tudo o que eu possua 
na vida, inclusive a minha oficina de sapateiro em Emas. S estou levando comigo as ferramentas para que, em Roma, eu possa ganhar algum dinheiro consertando sapatos, 
pois o futuro  desconhecido.
Pedro pde, ento, medir o tamanho do desprendimento de Zacarias e, ento, entendeu porque Jesus havia solicitado a ele, o humilde sapateiro, que acompanhasse Pilatos 
ao seu destino de dor e dificuldade.
         Abraaram-se em silncio e, naquele mesmo dia, Zacarias despediu-se de todos os irmos do caminho - como eram chamados os primeiros cristos em Jerusalm.
Abraou com especial emoo a Josu e Clofas, deixando as
recomendaes para que Saul.Caleb e Judite recebessem seu carinho quando fossem encontrados.
         Sem dar maiores explicaes ou justificativas, pde sentir o olhar estranho de alguns, a insinuao leve de que aquele no seria o momento de partir, na 
boca de outros, a estranheza de mais alguns, mas seu corao tinha a convico de que Jesus no viera ao mundo para trazer a paz nem para que os homens tivessem 
de se agradar caprichosamente.
         Deveriam seguir seus caminhos no largo trabalho que a seara pedia fosse realizado pelos homens de bem e, por isso, no cabia aos homens julgar os homens.
         Como Jesus havia prometido, Deus se incumbiria de justificar-lhe a partida, sem que ela viesse a ser considerada uma defeco junto  comunidade crist 
de Jerusalm.
Nos seus ouvidos, soavam as palavras do evangelho:
         "Quem ama seu pai ou sua me mais do que a mim, no  digno de mim".
"Quem no toma a sua cruz e vem aps mim, no  digno de
mim".
         "Quem acha a sua vida, perd-la-. Quem, todavia, perde a vida por minha causa, ach-la-".
         Era tudo isto que Zacarias estava dando a oportunidade a si prprio de fazer.
         Abdicava da prpria vida vendendo todos os seus pertences para atender  necessidade da obra; carregava a prpria cruz seguindo o que Jesus lhe havia solicitado; 
negava seu desejo de permanecer com os amigos e irmos de caminhada, correndo o risco de ser julgado covarde ou indigno.
         Quando o grande barco deixou o porto, no eram somente cereais, vinho ou riquezas que ele levava. No era tambm apenas o derrotado ex-todo-poderoso senhor 
da Judia. Seu interior recebia a figura luminosa daquela alma desprendida que, qual nume tutelar, anjo guardio, iria acompanhar aquele homem em sua queda diante 
dos poderes do mundo, tentando ajud-lo a erguer-se diante dos poderes celestes.
         Naquele momento da partida, Zacarias pensava em Jesus, segurando o pergaminho e, emocionado, lembrava-se do dia em que Pilatos os havia detido para escutar-lhes 
a palavra.
Amedrontados, Zacarias fora o nico que falara.
Inspirado por uma fora superior, encantara a todos, inclusive ao
prprio governador, que se deixou embevecer com a beleza da mensagem do Reino de Deus.
Depois, quando lhes deu liberdade para regressarem - lembrou-se Zacarias - abasteceu-os de alimento para a viagem.
         Ser que no teria sido isso que lhe garantira a ajuda celeste para o momento amargo que comeava?
         Talvez ali estivesse a retribuio da Justia do Universo ao gesto de amor que, indiferente e sem profundidade, Pilatos exercitara para com eles, abastecendo-os 
para a viagem.
Fora Jesus quem lhes ensinara :
         - "Quando vier o filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, ento se assentar no trono da sua glria. E todas as naes sero reunidas em 
sua presena e ele separar uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas; e por as ovelhas  sua direita, mas os cabritos  esquerda. Ento dir 
o Rei aos que estiverem  sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos est preparado desde a fundao do mundo, porque tive fome e 
me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu e me vestistes, enfermo e me visitastes, preso efostes ver-me. Ento 
perguntaro os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? Que quando te vimos forasteiro e te hospedamos? 
Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dir: em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes 
meus pequeninos irmos, a mim o fizestes..."
         Como duvidar do poder do Amor que se oferece, nas respostas amorosas que a vida nos encaminha?
         Afinal, Zacarias no era a resposta viva do Amor no caminho daquela alma que comeava a colheita das desiluses que a iriam reconduzir  casa do Pai?
         Assim foi na viagem at Roma, modesto e humilde annimo, ajudando naquilo que lhe fosse possvel, levando gua aos remadores cansados, tratando de algumas 
feridas expostas devido ao esforo desumano e constante a que eram submetidos os escravos e falando do reino de Jesus aos seus coraes solitrios e desesperados, 
condio mais favorvel para se escutar a mensagem da esperana e da f.
          Quando chegaram a Roma, Zacarias j era querido por todos e, dentre os que lhe escutaram as palavras, mais que um deles se confessou crente na verdade 
apostlica, nos feitos maravilhosos e na mensagem de esperana de Jesus.
         A seara era vasta e no se poderia perder a oportunidade de usar o trabalho para espalhar as sementes a todos os que pudessem ser a terra frtil apta a 
receb-las no corao.
         J fora uma vitria para a causa do Evangelho a semeadura de Zacarias junto aos pobres condenados s gals.
          Mais que um, como se disse, estaria entre os seguidores do Mestre da para diante.
         Quando o barco chegou a Roma, Zacarias seguiu a soldadesca rio acima, conseguindo acompanhar os passos do grupo at as portas da priso Mamertina, que ele 
no identificara de pronto tratar-se de um crcere cruel na tradio dos romanos, mas que, pelo menos, lhe parecia slida construo de onde o governador no sairia 
to cedo,em face do nmero de soldados que a guarneciam.
         Agora, deveria arranjar-se at que as oportunidades lhe permitissem a aproximao necessria.
         Buscou uma estalagem pobre, administrada por pessoas de sua raa com quem podia entender-se com mais facilidade, nas proximidades da priso, na qual se 
hospedou e aguardou at o amanhecer. 
Roma daquele perodo era j uma babel cosmopolita, na qual se misturavam pessoas de todos os povos, tanto os considerados romanos quanto os que se haviam agregado 
ao imprio expandido por Augusto com o auxlio de Tibrio e outros.
         Assim, ali estavam criaturas de todas as raas e lnguas, no tendo sido difcil que Zacarias se encontrasse com judeus que se haviam instalado na sede 
do Imprio, sempre atrados pelas oportunidades e vantagens mais abundantes na capital do que na provncia remota de onde vieram.
          E, ao chegar ao local onde se hospedara, procurara trocar informaes sobre as notcias mais atuais que circulavam pelo mais conhecido e difundido jornal 
que existe: o jornal oral, tambm conhecido como fofoca do momento.
          E no lhe foi difcil inteirar-se das ltimas ocorrncias, tanto dos escndalos pblicos quanto das queixas sobre as dificuldades da vida.
E no que dizia respeito a Pilatos, a notcia era fresca.
         - Sabe, meu amigo - dizia Jonas, dono da hospedaria - aquela velha raposa que nos governou de maneira corrupta e sem escrpulos, acabou pegando o que merecia.
         - Como assim? - perguntou Zacarias, sem dar a conhecer que era procedente e recm-chegado da Palestina.
         - Ora, homem, parece que voc no vive em Roma! No percebeu o entusiasmo com que os nossos patrcios receberam a notcia de que Pilatos cara em desgraa?
         Tentando no levantar suspeitas sobre a sua misso delicada junto quele que era considerado inimigo da raa judia, Zacarias afirmou:

         -  que nos ltimos meses estive em viagem por terras distantes e s regressei recentemente, no tendo tempo, por isso, de me inteirar das novidades.
         - Bom, se  assim, sente-se para no cair das pernas - falou Jonas, oferecendo-lhe uma caneca de vinho que Zacarias no havia pedido e na qual no tocou. 
Corre a informao de que a administrao de Pilatos na Judia ia muito bem para os interesses de Roma, at que foi mandada uma misso investigativa liderada por 
um senador, um tal Lentulus no sei de qu, e que, para espanto dos seus pares do Senado e do prprio imperador, descobriu verdadeiros escndalos que envolviam no 
s o governador nomeado, mas igualmente os nossos prprios representantes religiosos, que se acumpliciavam para a manuteno de privilgios odiosos. Alm do mais, 
descobriram-se os mtodos cruis com que o governador procurou vingar a morte de seus cmplices, fazendo matar mais e mais judeus a fim de intimidar qualquer desejo 
de produzir novas vtimas entre os romanos.
         Tudo isso foi juntado em um grosso processo onde no faltaram provas e, h alguns meses tem sido objeto de avaliao pelos senadores e, com o apoio de Tibrio, 
deliberaram trazer Pilatos para a capital a fim de dar-lhe o destino que julgarem adequado e que ns mesmos no sabemos qual ser.
         Dizem outros, ainda, que se trata de uma punio dos deuses por causa de no ter feito nada que a sua autoridade poderia fazer para livrar um inocente profeta 
de nosso sangue da cruz da injustia onde morrera.
         Alis, a fama desse homem correu o mundo e j h por aqui, muita gente interessada em saber o que ele realizara de to maravilhoso, j que muitos de ns 
no pudemos conhec-lo nem ouvir seus ensinamentos que, dizem, ser de profundidade inigualvel, a ponto de produzir nos nossos sacerdotes e lderes religiosos o 
pavor que os levou a pedir sua crucificao injustamente.
         O certo  que, em nossas conversas ainda no apareceu ningum que nos informasse melhor sobre esse homem que uns dizem se chamar Jesus, outros falam que 
se chama Cristo, outros dizem que seu nome  simplesmente Messias ou Profeta...
Cada um d um palpite e ningum consegue explicar direito.
          Escutando-lhe as referncias ao seu Mestre Amado, Zacarias entendeu que sua tarefa poderia ser mais ampla do que ele mesmo havia pensado. Calou-se, no 
entanto, para que se concentrasse, primeiro, em Pilatos.
         - Bem, se Pilatos foi chamado at aqui, estar esperando alguma deliberao formal das autoridades administrativas? - perguntou Zacarias.
         - No sabemos. A nica certeza  que foi recolhido  priso Mamertina, verdadeiro antro de terror, onde ficar esperando que seja levado at as cortes de 
Justia que deliberaro sobre seu destino.
         - Priso, antro de terror... - aquele prdio imponente me parece menos assustador do que suas palavras o revelam.
         -  porque voc est afastado daqui h muito tempo. Ali so perpetrados os piores crimes de que se tem notcia, ligados aos destinos do Imprio e, no  
raro que algum que entre l no demore muitos dias a sair, de um jeito ou de outro: ou sai para ser executado, ou j sai morto mesmo, assassinado.
         - Nossa, eu preciso andar rpido - falou Zacarias, como que conversando consigo mesmo.
         - Como ? - perguntou Jonas sem entender a exclamao reticente do interlocutor.
         Percebendo a curiosidade do seu companheiro de conversa, Zacarias procurou levar o assunto em outro rumo, afirmando:
         - No  nada,  que me lembrei que tenho alguns compromissos a cumprir e no posso perder meu tempo, j que, como um prisioneiro dessa priso que voc acabou 
de falar, todos ns estamos presos a assuntos que temos que resolver, no ?
         - Ah! Sim, meu amigo, a vida  uma priso sem grades cujas penas so piores do que a perda da liberdade.
         Deliberou sair, assim que pudesse, para ir at o local onde vira penetrar o governador.
         A manh j ia alta quando chegou ao posto avanado que dava acesso  priso e, usando os rudimentos de latim que j lhe haviam permitido entender-se com 
Pilatos, anos atrs, procurou falar com o soldado que ali estava, com naturalidade.
         - Senhor centurio, grande representante de Csar, posso oferecer meus prstimos para consertar suas botas de soldado com as quais voc marcha para defender 
todo o Imprio?
         Zacarias estava tentando ser amvel e enaltecer aquele que ele sabia ser, apenas, um soldado de planto no portal de entrada da guarnio, mas que, como 
todo ser humano de todos os tempos e lugares, sempre se verga  lisonja e ao elogio.
         - E o que voc faz, meu velho? - falou o soldado, dando-lhe um pouco de ateno.
         - Sou sapateiro e posso consertar as suas botas e as botas de seus amigos por um preo muito barato e o fao aqui mesmo, se me permitirem.
         - Como assim? No tem que levar nossas botinas para a sua oficina?
         - No, meu senhor. Se me permitirem, posso trazer meus instrumentos e ferramentas para c e trabalharei aqui dentro mesmo, consertando o que me for possvel, 
no tempo mais rpido e pelo custo mais barato.
         - Bem, eu no posso lhe dizer nada sem antes consultar meu superior. Volte  tarde para receber a resposta.
- Agradecido, meu senhor.
         Zacarias estava tentando comear a tarefa de aproximar-se de Pilatos, buscando servir humildemente, como sapateiro, aos soldados que ali estavam instalados.
Na verdade, a autoridade romana era muito organizada quanto a diversos processos de administrao, mas no que dizia respeito aos soldados individualmente, havia 
sempre uma certa negligncia que os obrigava a cuidar pessoalmente de seu material pessoal. Se o Imprio lhes fornecia o uniforme, os materiais com que exerceriam 
a funo de soldado e o treinamento que os prepararia para as tarefas, a carreira militar, por outro lado, impunha-lhes o dever de se manter e preservar os instrumentos 
que lhe pertenciam para o exerccio da funo. Desse modo, os soldados deveriam, com o pagamento que recebiam, preservar os seus uniformes e seus instrumentos dentro 
do padro adequado e, se algum acidente danificasse tais materiais, cabia-lhes o dever de consertar por sua prpria conta.
         Assim, sempre havia os que estavam s voltas com problemas pequenos, mas que poderiam criar dificuldades pessoais em face das rgidas regras da disciplina 
militar.
         Por isso, a apresentao de um sapateiro que prometia conserto barato sem necessitar afastar-se o soldado em busca de sapateiro, facilitaria muito as coisas 
e a idia fora bem recebida no seio dos que prestavam o servio naquele meio difcil.
           tarde, com a chegada de Zacarias ao mesmo posto de vigilncia, foi ele conduzido para conversar pessoalmente com o superior que o recebeu sem desconfiana, 
em face de identificar nele a figura inofensiva
de um ancio com desejo de ganhar alguns trocados para no morrer de fome.
         Tratava-se de Lucilio Barbatus, o mesmo soldado que estivera no porto dias antes, quando da chegada do navio trazendo Pilatos.
          Depois de saudar o superior daquele soldado com quem falara anteriormente, o centurio dirigiu a palavra ao velho desconhecido:
         - Bem, fui informado que, sendo sapateiro, voc pretende consertar nossas cligas e sandlias por um preo barato,  verdade?
         - Sim, meu senhor. Meu desejo  poder servir o melhor que puder, sendo que me contentarei com pagamento modesto que me permita adquirir o couro para prosseguir 
os consertos ao mesmo tempo em que possa ganhar para a comida de cada dia. S isso.
         - E esse valor lhe ser suficiente para que execute o trabalho? No ir, como todo o judeu que conheo, depois de iniciada a tarefa, pedir mais e mais, 
aumentar o preo e tentar negociar como se passasse a ter direitos maiores do que aqueles que foram originariamente estabelecidos?
         - No, meu senhor. No tenho os hbitos de muitos de minha raa, negociantes astutos que sabem levar as coisas para caminhos desagradveis. O que estou 
dizendo, farei de bom grado. E se chegarmos a algum acordo, pode coloc-lo em qualquer documento que eu assino para no haver dvida.
         - Bem, isso  outra coisa. Preciso saber, antes, se sua capacidade o torna apto para o servio. Suas ferramentas esto com voc?
- Sim, senhor.
         - Eis aqui, ento, uma sandlia que gostaria que consertasse. Se precisar de couro, temos algum aqui no interior da priso.
E recebendo a pea a ser trabalhada, observou que, com talento e pacincia, poderia resolver o problema sem gastar mais do que alguns rebites, alguns fios de linha 
grossa e uma boa dose de limpeza para recolocar a sandlia em boas condies.
Deixado a ss por alguns minutos, Lucilio recomendou ao soldado de vigia que no o perdesse de vista, para que no sucedesse qualquer surpresa desagradvel, permitindo, 
assim, que Zacarias realizasse sua prova de admisso sem ser molestado.
         Depois de algum tempo, dirigiu-se ao soldado para informar que poderia chamar o chefe a fim de apresentar-lhe o fruto de seu trabalho.
         Verificando o estado da sandlia que lhe fora entregue por Zacarias, Lucilio franziu a sobrancelha e perguntou:
         - Mas eu no disse que o senhor poderia trocar a velha por outra nova. Disse que era para consertar a antiga, apenas isso.
         Sem entender que o centurio duvidava do que estava vendo, Zacarias tentou explicar, humilde:
         - No, meu senhor. No se trata de outra nova.  a mesma sandlia, consertada.
         - Eu no acredito, homem. Deixe-me ver esta sua sacola a, cheia de coisas, pois tenho certeza de que o par velho est enfiado a dentro...
         Avanou para Zacarias e, tomando-lhe das mos a modesta sacola onde levava suas ferramentas, virou-a no solo em busca da sandlia original e no viu nada 
alm de utenslios de sapateiro.
         - No  possvel, homem. Pelos deuses, que esta no  a mesma sandlia que deixei aqui...
-  sim, meu senhor... - falou baixinho o sapateiro.
         Gritando para o soldado da guarda, perguntou-lhe se o velho tinha se ausentado do local por algum momento, no que foi informado que Zacarias no tinha sado 
dali nenhum instante.
         Vendo que suas dvidas no poderiam ser explicadas por outra forma, teve que acreditar na palavra do judeu.
         - Pois se  verdade que esta  a mesma sandlia que lhe entreguei, quero que fique sabendo que voc deve ter parte com o deus dos sapatos... - falou Lucilio 
admirado.
         - Bem, meu senhor, todos temos parte com o Deus que nos deu os ps - respondeu Zacarias.
         Agradado com a resposta sbia e profunda do ancio, Lucilio deu-lhe autorizao para que comeasse a trabalhar assim que pudesse e, desse modo, acertaram 
o incio para o outro dia logo pela manh.
         Voltando para a hospedaria, buscou banhar-se e comer algum alimento, evitando deixar o interior da vivenda, eis que se sentia oprimido por aquela cidade 
to imensa e, como lhe parecia ser, perigosa e devoradora.
         Ao mesmo tempo, passara a escutar as conversas dos judeus que ali se reuniam para colocarem seus assuntos em dia e que, assim, favoreciam que Zacarias ficasse 
inteirado das novidades.
         Sua capacidade de percepo se aguara e, aproveitando-se de cada observao que era lanada  apreciao comum, pde perceber que os judeus de Roma estavam 
absolutamente distanciados dos fatos e das novidades de Jerusalm, repetindo notcias equivocadas,

perguntando-se a si mesmos, o que teria ocorrido na terra distante  qual no regressavam h muito tempo.
         Havia um desejo muito grande de informaes e, como Zacarias pde perceber, os que se haviam instalado na metrpole romana perdiam o radicalismo que era 
caracterstico dos que se mantinham arraigados aos hbitos religiosos da capital dos judeus.
         Naturalmente, boa parte desses que viviam em Roma mantinham hbitos de seus ancestrais e de suas tradies familiares. No entanto, o cosmopolitismo e a 
convivncia com pessoas de todos os lugares do mundo haviam abreviado o rigor e a intolerncia em seus espritos. Muitos judeus se misturavam aos romanos em seus 
rituais pagos, nos templos de seus deuses, como forma de se mostrarem dispostos a incorporar suas tradies a fim de poderem merecer-lhes a confiana nos negcios 
e arranjos financeiros.
         A ausncia de um policiamento religioso rigoroso, permitia uma maior maleabilidade  mente dos que viviam por ali, de tal maneira que no se encontravam, 
como em Jerusalm, paixes religiosas que produzissem hostilidades brutais pela simples constatao da divergncia de pontos de vista.
         Em Roma, todos os judeus deveriam ser aliados uns dos outros e, por isso, deveriam tolerar as prprias diferenas para que se sentissem unidos contra o 
que consideravam o principal adversrio - os prprios romanos.
         No se via o esprito de faco que havia na Judia, onde fariseus, sacerdotes, saduceus, doutores da lei, escribas, samaritanos, nazarenos, todos se mantinham 
apartados em seus feudos regionais e se hostilizavam.
         Em Roma, por fora da provao comum que era possibilitada pela distncia de casa, os judeus eram, antes de tudo, judeus no meio de romanos.
         Assim, havia um esprito mais aberto sobre as diversas escolas que davam  religio o entendimento que lhes parecia mais adequado.
         Com isso, Zacarias pde perceber que no seria perigoso estabelecer um dilogo sobre a figura de Jesus, assim que se fizesse a oportunidade.
Afinal, Jesus era judeu como eles.
         Tal se deu logo no dia imediato quando, depois de chegar das suas atividades junto  soldadesca na priso, Zacarias se aproximou de Jonas e lhe dirigiu 
a palavra, cortesmente:
- Meu amigo, preciso desculpar-me com voc.
         - Ora, Zacarias, por que isso se voc no fez nada que me ofendesse?
         - Sim, meu irmo, a sua generosidade me faz pesar a conscincia e, por dever moral, devo confessar-mediante de seus bons sentimentos.
- Pare com isso, homem, voc no me fez nada - repetiu Jonas.
         - Bem, nada que possa prejudic-lo, mas que, a mim mesmo, me tem torturado muito, enquanto ouo as conversas de nossos irmos de raa aqui neste ambiente.
- Como assim?
         - Bem, eu o havia informado de que estava viajando por vrios lugares antes de chegar em Roma, o que me impedira de saber dos detalhes sobre os fatos que 
aqui ocorreram, lembra-se?
- Claro, lembro-me perfeitamente, Zacarias.
         - Bem, conquanto isso no seja mentira, tambm no  a plena verdade e, diante de sua pessoa, que se demonstrou amiga e generosa para comigo, posso confessar-lhe 
que acabo de chegar de nossa terra querida, a distante Jerusalm.
         A surpresa agradvel estampou um sorriso no rosto de Jonas que, raramente, recebia notcias da velha cidade.
         - Mas isso  uma maravilha, Zacarias. Voc sabe que eu no tenho o direito de me meter na vida de meus hspedes e, por isso, no fico especulando sobre 
a sua procedncia ou o seu destino. Desde que paguem o que me devem, eu no tenho nada a ver com suas vidas. No entanto, com a sua revelao, minha alma se enche 
de venturosa alegria, pois por aqui so muito escassas as notcias de l.
         - Sim, meu amigo, e  por isso que eu me penitencio e no poderia manter essa condio oculta, vendo o desejo seu e de tantos irmos que vm at aqui para 
que possam ter notcias do que se passa em nossa Terra.
         - Olha, Zacarias, sua estadia entre ns ser um momento de reaproximao de nosso torro distante. Se me permitir, hoje irei reunir alguns dos nossos mais 
chegados para que voc nos relate tudo o que sabe, pois j h muitos anos ns no voltamos a Jerusalm, nem em cumprimento de nossas obrigaes religiosas. Voc 
me permite?
         - Claro, Jonas, ser muito bom conhecer a todos e falar da casa de nossos pais.
E assim foi feito. No meio modesto da estalagem, Zacarias,
naquela noite, pde colocar-se em contato com um grupo de amigos que tinham sede de notcias e que o escutaram embevecidos e curiosos, sempre perguntando sobre os 
acontecimentos polticos, religiosos, regionais.
         E o fato de Zacarias ter percorrido muitas cidades do interior, permitira que ele trouxesse sua avaliao pessoal de muitas das regies que haviam sido 
o bero de vrios ouvintes, que se encantavam com as novidades. A descrio detalhada de modificaes urbanas, a ao do conquistador romano na maneira de administrar 
a provncia, as transformaes tecnolgicas, ainda que rudimentares, a ampliao das casas para alm dos muros velhos da capital, tudo isso era motivo de deleite 
para eles.
         A questo religiosa tambm foi abordada, buscando todos eles informaes sobre os boatos e as meias verdades acerca de Jesus.
          Quem era ele, que doutrina professava. Se era inocente, por que acabou condenado? Foi mesmo trado pelos seus seguidores?
E quando Zacarias contou que era um dos seus seguidores e comeou a relatar todos os fatos que presenciara, um brilho de esperana tomou conta da maioria dos coraes 
que ouviam, reverentes, o relato daquele ancio sincero e amadurecido pela vida.
A madrugada chegou sem que eles o percebessem.
         O dia iria nascer e eles precisariam trabalhar em seus negcios, mas j deixaram marcada para a noite seguinte a continuidade da conversao.
         Zacarias estabelecera a primeira pregao do Evangelho na capital do mundo, em uma modesta estalagem, nos mesmos moldes do que lhe havia ocorrido em Nazar.
         E, por estranha que fosse a coincidncia, ali tambm estava Pilatos, como o estivera em Nazar.
          O dia seguinte surgiria radioso para a alma daquele homem simples que, com o seu trabalho devotado e o seu desejo de amar a todos sem nada exigir, ia conquistando 
a confiana de Lucilio Barbatus.
          Em uma semana, sua diligncia e capacidade j haviam dado conta de consertar todas as meias botas que os soldados lhe apresentavam e, como o valor do trabalho 
era compensador, a fama do sapateiro espalhou-se por entre os soldados, que passaram a enviar at a priso as peas de couro que desejavam arrumar.
Nas conversas privadas que tinha com Lucilio, Zacarias algumas vezes se referia a Jesus, pois o centurio lhe perguntara sobre os fatos
acontecidos na Judia, dentre os quais estava a crucificao de um inocente e que, diziam muitos, fora a desgraa de Pilatos.
E em muitas vezes, Lucilio se encantava com o entusiasmo sincero daquele ancio enrugado e barbudo que sabia sorrir e trabalhar com desinteresse e simpatia.
         Certo dia, Lucilio estava muito abatido, j que estava tomado por uma sensao de mal-estar muito grande, sem condies de manifestar o bom humor como de 
costume.
         Vendo-lhe o estado geral digno de piedade e que era enfrentado pelo centurio com altivez e coragem, em face de no poder demonstrar sua fragilidade perante 
seus subordinados, Zacarias tomou a liberdade de falar-lhe mais intimamente.
         - Meu prezado centurio Lucilio, desculpe-me se lhe dirijo a palavra, mas me preocupo com seu estado de sade. E ainda que sua fibra de carter no o demonstre 
aos olhos dos seus subordinados, posso sentir que seu corpo fsico est beirando o abismo doloroso.
         Vendo-lhe a sinceridade e conhecendo-lhe o carter fraternal, Lucilio nada respondeu, como a confirmar as palavras de Zacarias.
          Estimulado pelo silncio pouco usual na figura daquele romano efusivo e eloqente, Zacarias prosseguiu:
         - No pense que me sirvo de poderes que vocs catalogam como de bruxaria. Apenas coloco para funcionar a experincia destes olhos cansados que j viram 
muitas dores e aflies no declaradas e digo-lhe que, se me permitir, posso ajud-lo em alguma coisa.
         Constatando que Zacarias estava certo diante de suas reaes orgnicas, Lucilio convocou-o a entrar em seu gabinete privado, onde despachava e resolvia 
as questes militares em silncio e  distncia dos olhares indiscretos.
         L dentro, distante dos seus subordinados, Lucilio desabou em uma cadeira e, retirando o capacete, apresentou ao ancio a face lavada em suor abundante, 
o cabelo empastado e o olhar encovado que lhe dava a aparncia de um enfermo grave.
         - Veja, Zacarias, estou mal mesmo. No sei o que se passa, mas hoje estou de p por bondade dos deuses.
         - No pense que no haja soluo para o seu caso, meu amigo. Se me permitir orar a seu benefcio, acredito que Jesus poder fazer muito por voc.
         - Mas esse negcio de orao eu j fiz e no deu resultado. Mandei meu irmo ir ao templo apresentar oferendas aos deuses da
boa sade, mas eles esto ocupados com outras coisas. Devem estar cuidando da sade de nosso imperador...
         - Bem, isso eu no sei. Posso apenas lhe dizer que Jesus o estar ajudando se voc no se ligar s divindades de pedra, vazias de contedo. Jesus nos ama 
com um amor maior que tudo o que existe e, longe de qualquer desrespeito para com as suas crenas, posso lhe afirmar que nunca ocorreu que uma orao que eu tivesse 
feito com o mais sincero de meu corao acabasse sem resposta.
         - Voc acha que os judeus conhecem coisas que ns, os romanos, no conhecemos?
         - Isso no os diminui em nada, meu amigo. Apenas lhe afirmo que h coisas muito mais profundas e nobres do que uma esttua fria. H o corao, Lucilio.
         - Sim, Zacarias, o corao sempre me pareceu ligado s conquistas femininas - respondeu o centurio.
         - Sim, meu amigo, mas no fundo delas est o Amor que abastece o corao e impulsiona o homem para conquistar o ser que deseja para si, no ?
- , no fundo  assim que funciona.
         - Pois ento.  desse amor que estou falando. Se permitir que seu corao possa senti-lo, portas poderosas se abriro dentro de voc para que a luz de um 
novo entendimento tratem no s o seu corpo, mas sobretudo a sua alma.
         - E o que devo fazer para isso acontecer, Zacarias? Minha dor de cabea  muito grande, meu mal-estar me diz que vou morrer  mingua.
         - Pense em seu sentimento mais profundo, Lucilio. Por um pai, uma me, um filho, uma mulher que voc ame profunda e respeitosamente. Pense nisso e acompanhe 
minhas palavras colocando o sentimento de Amor em cada pensamento. Feche os olhos e no se preocupe com mais nada. Estamos aqui fechados e nada ocorrer que o possa 
ferir ou prejudicar. Voc aceita?
- Se isso me ajudar, estou pronto, Zacarias.
         Ento, o ancio recolheu pequeno pote de gua que havia ao lado da mesa e, elevando a voz naquele recinto, invocou a proteo de Jesus para aquele irmo 
enfermo, de maneira a tocar o mais profundo de sua alma.
Lucilio era um bom homem, apesar de estar envolvido em um
trabalho que pedia rudeza e frieza de carter. Tinha sensibilidade e era capaz de perceber coisas que outros no tinham tanta facilidade. Suas avaliaes sobre problemas 
militares e decises rpidas sempre eram mais prprias e melhores do que a de muitos oficiais superiores, o que lhe valeu a promoo para a chefia daquele posto. 
Sua honestidade e correo igualmente o haviam tornado digno de confiana a ponto de ter sido escalado para escoltar os tributos recolhidos nas provncias e trazidos 
at Roma pela galera que aportara trazendo Pilatos e Zacarias.
         Assim, seus pendores de esprito estavam abertos para a percepo da realidade da alma e, deste modo foi fcil para que sua vibrao identificasse o poderoso 
influxo que vinha do Alto em seu benefcio naquele momento de preces.
         Zacarias se deixara envolver pelo mais puro de seus sentimentos, revivendo as imagens de Nazar quando, em contato com a verdade do Evangelho, levou a cura 
que Jesus havia prometido a muitos miserveis e desesperados.
         Agora, pela primeira vez, estava orando em Roma, a capital do mundo da sua poca, e percebia a existncia de inmeros necessitados, miserveis e desesperados, 
espalhados pelas esquinas da grande cidade.
         Suplicava pelo amigo romano a quem lhe incumbia amar como seu irmo, e a splica sincera e profunda penetrava os ouvidos de Lucilio, produzindo nele uma 
emoo desconhecida e profunda.
         Quando terminou a prece, deu-lhe um pouco da gua que ali estava e observou o estado geral de Lucilio.
         O suor havia passado e uma atmosfera de alvio brotava de seu olhar admirado e confundido.
         - Zacarias, se eu no o conhecesse, poderia afirmar que voc  um bruxo dos mais poderosos - falou o soldado.
         - E se eu no o conhecesse, diria que sua doena o iria matar, quando, na verdade, era apenas questo de f, no de enfermidade.
         - Como assim, meu amigo? Eu fiz apenas o que me pediu e, asseguro-lhe, nunca havia sentido o que senti aqui dentro. Um calor me subiu dos ps e me envolveu 
a cabea de tal maneira que pensei que fosse cozinhar por dentro. Depois vi uma luz que caa do alto sobre voc e, de suas mos vinham at mim, penetrando em meu 
organismo como se fosse um raio que passasse pela minha pele para dentro e se perdesse.
         - Isso s foi possvel porque voc teve f, ou seja, abriu o seu corao para esse Amor que eu lhe expliquei. Essa coisa  que os
romanos no conhecem e que os deuses no podero lhes dar, pois so apenas esttuas frias.
- Mas isso pode acontecer de novo?
         - Tantas vezes quantas voc o desejar, desde que faa as coisas como expliquei.
         - E quanto custa este tratamento fabuloso que me devolveu o bem-estar como que por milagre? Ponha preo que eu pagarei.
         - Ora, meu irmo, isso nos foi dado de graa por Deus e ele nos pede apenas que entreguemos gratuitamente aos que necessitam. Como voc viu, esse poder 
no me pertence. Pertence  fonte divina de onde emana, como pde perceber quando viu a luz que caa do Alto. Agora, a entrega dela tambm deve ser feita sem cobrana 
de nada, pois ela no est no mundo para ser vendida. Est para ser doada.
E para mim  uma alegria poder ajudar voc, entregando-lhe esse presente que Jesus nos enviou. Como ele falava quando curava as pessoas, nas muitas vezes que eu 
presenciei, tambm afirmo: Filho, a tua f te curou.
          Encantado com aquela filosofia de desprendimento e bondade, Lucilio desejou conhecer melhor o teor daquele poder desconhecido e avassalador, pedindo a 
Zacarias que conversasse com ele fora da priso, para explicar-lhe melhor como as coisas eram.
         Assim, vendo a sinceridade nos olhos de Lucilio, Zacarias convidou-o a comparecer na hospedagem para que acompanhasse seus relatos naquela noite em que 
voltaria a falar sobre a mensagem do Reino de Deus no corao dos homens.
E assim ocorreu.
          A partir de ento, Zacarias, Jonas, Lucilio e mais alguns amigos fundaram o primeiro ncleo de esclarecimento sobre a mensagem do Amor no corao do mais 
mundano dos aglomerados humanos daqueles tempos.
          E se os judeus o viram com desconfiana, num primeiro momento, a presena de Lucilio foi aceita, depois, naturalmente, como garantia de segurana para 
suas prprias reunies.
Enquanto isso, Pilatos aguardava na priso que a morosidade dos processos de deliberao dos romanos indiferentes lhe permitisse prosseguir vivendo ou lhe desse 
morte honrosa, como ele mesmo achava que merecia.
          O tempo, no entanto, trabalharia a favor dos interesses de Zacarias.

Conquistada a confiana e a compreenso de Lucilio, no foi difcil que Zacarias chegasse at Pilatos.
         Afinal, Lucilio entendera o sentido de fraternidade e, por isso, reconhecia que o governador estava indefeso e, tanto como companheiro de caserna quanto 
como companheiro de humanidade, tambm ele merecia receber a palavra confortadora de Zacarias, naqueles momentos de agonia e angstia.
         Assim, certa manh, quando no havia muitas botas, cintures e sandlias a arrumar, Lucilio permitiu a Zacarias aproximar-se da porta da cela onde Pilatos 
se encontrava, transtornado pelo tipo de recepo que lhe havia sido garantida.
         A barba lhe havia tomado o rosto, ao longo das diversas semanas de recluso sem higiene adequada. O alimento ruim lhe impusera uma forada dieta e o desconforto 
do local lhe produziam dores em todo o corpo, acostumado que estava aos divas macios, s almofadas perfumadas e aos tapetes fofos que se perderam nos dias do passado.
         Para ele, foi uma surpresa que algum lhe dirigisse a palavra naquele local que espelhava, apenas, a ante-sala da morte violenta.
Pelo orifcio de uma portinhola guarnecida, Zacarias apresentou-se ao outrora poderoso governador da Palestina, reduzido a um farrapo emagrecido e sujo.
Az antigo adgio popular que a vitria tem muitos pais, mas a derrota  rf.
          E com Pilatos as coisas espelhavam exatamente esta realidade verdadeira e triste como reflexo da misria humana.
         Ali estava o todo-poderoso governador da Palestina, que at h poucas semanas contava com um sem nmero de apaniguados que se aninhavam  sua sombra,  
cata de favores e de melhores posies, to s pelo fato de serem base de sustentao.
         Todavia, uma vez cado na desgraa imperial, no importava se injustamente ou com motivos reais para merec-la, o certo  que agora ningum se apresentava 
para solicitar informaes dele ou prestar solidariedade ao prisioneiro.
          Isso era demasiado doloroso ao procurador da Judia, que se via afastado de todas as prerrogativas do cargo importante que exercera, alm de ter que se 
ver diminudo perante a grande capital imperial.
          Era homem de tradio militar na qual o orgulho  sempre um valor a ser preservado e defendido.
         Assim, a humilhao, que em qualquer um j seria grande, nele era mais profunda e doda, levando-o  beira da insanidade.
          Naturalmente imaginou que a sua chegada no seria acompanhada de paradas militares que o saudassem, mas jamais havia imaginado aquilo como recepo: a 
priso nua e crua.
          Nos primeiros dias a revolta se estabeleceu de imediato e seu carter arrogante se opunha a qualquer contemporizao. Gastara a voz em gritaria ensandecida 
atravs da qual conclamava os que o escutavam a que o libertassem, j que no havia sido acusado de qualquer crime formalmente.
          No entanto, o silncio que obtinha como resposta foi sendo cada vez mais doloroso ao seu esprito altivo, acostumado a mandar desde os tempos em que desempenhara 
as funes militares que o distinguiram  vista dos lderes romanos, na baixa Germnia, em especial na altura de Vindobona, atual Viena.
         Voltemos, leitor querido, um pouco no tempo para entendermos o seu drama pessoal.
         Ali desempenhara suas funes oficiais com destaque, j que a fronteira do Danbio estava sempre envolvida em ataques brbaros e conspiraes estrangeiras, 
como ponto fraco do Imprio.
Em face do sucesso, fora trazido a Roma onde,  sombra da tradio de sua esposa, pertencente  nobre famlia patrcia, pde receber as homenagens que se deviam 
a um homem de carter forte e, naturalmente, violento.
         Todavia, as fragilidades de seu esprito se apresentaram antes que a sua capacidade pessoal pudesse ser posta  prova em novas misses no estrangeiro.
         Aproveitando-se da fama transitria e dando vazo ao seu esprito aventureiro, Pilatos se envolveu em um sem nmero de relacionamentos extra-conjugais, 
que a boca do povo contava qual tinha sido a ltima das romanas virtuosas que se tinham entregado aos seus encantos, todos os dias.
         Naturalmente, esse conceito negativo feria o padro de moralidade inaugurado por Augusto, mantido e ampliado por Tibrio, depois que galgou o poder com 
a morte daquele.
         Afigura de Cludia vinha sendo alvo de constante achincalhamento popular e a sua nobreza se recusava a adotar qualquer postura que viesse a desonrar o matrimnio 
e o marido.
         Conhecia as suas fraquezas como homem e no estava disposta a igual-las como  to comum a muitas mulheres de todos os tempos. Mantinha-se de p e com 
a conscincia tranqila, fingindo no escutar a boataria e pedindo aos deuses que a ajudassem, bem como ao marido, a fim de que uma soluo pudesse ser dada ao seu 
trauma pessoal.
          Inmeros setores da sociedade patrcia romana se mobilizaram em favor de Cludia, ainda que, para preserv-la, tivessem de tentar ajudar Pilatos, afastando-o 
do centro dos escndalos onde se colocara em face de seu fugaz sucesso na frente de combate. Se permanecesse em Roma, na condio de heri que  sempre buscado pelas 
criaturas fragilizadas procurando ombro forte, no haveria sossego para a famlia, j que as prprias mulheres mais afoitas se incumbiriam de ser, sempre, a tentao 
que demandava a presa fraca para resistir.
         A nova situao em que se achava encantava-lhe o carter arrojado e isso o fazia se sentir quase como um deus. Tantas vezes ouvira histrias de oficiais 
homenageados por todos os tipos de festas, desde a que se originava nos palcios do Palatino e Aventino, no monte Capitolino, at as que se arrastavam noite afora, 
pelas ruas mais escuras, becos menos importantes, onde os soldados se misturavam com prostitutas e bebiam tudo o que viam pela frente, at o raiar do dia.
          Naturalmente, para Pilatos, esses momentos de fama transitria lhe haviam feito muito bem ao ego, mas agora, estavam cobrando o seu preo. A famlia tradicional 
de Cludia no iria aceitar que o seu nome fosse lanado  lama das ruas, pelo homem medocre que se fizera mais respeitado to somente por ter ingressado na sombra 
da tradio familiar patrcia a que Cludia pertencia.
         Por isso, conjugaram-se todos os esforos para que se lhe conseguisse um cargo que fosse, ao mesmo tempo enaltecedor e que o afastasse da capital, a fim 
de que os escndalos no ferissem a integridade da mulher respeitada a que se ligara.
         Como j se explicou antes, foi por isso que Pilatos fora mandado para a Palestina, em uma nomeao que poderia ser interpretada tanto como prmio quanto 
como punio.
         Agora, depois que regressou nas condies que o leitor pde observar, ningum se dignou procur-lo sequer para lhe estender um pouco de gua. Seus companheiros 
de lutas se mantinham, na maioria, presos  antiga regio da baixa Germnia, tambm conhecida por Glia, porque ali nunca era demais manter tropas hbeis e lderes 
enrgicos.
         Os parentes de Cludia no se interessavam por ele e, to somente Flvia era algum que, agora em Roma, poderia desejar visit-lo, o que no ocorrera at 
aquele momento.
         Diante deste quadro, no  difcil avaliar a surpresa que o prisioneiro experimentou quando ouviu seu nome sendo chamado por algum  porta.
         - Senhor governador, senhor governador... - falara Zacarias, balbuciante.
         - Sim, sou eu mesmo, quem me chama? Tire-me daqui, rpido, pois eu estou encarcerado sem motivo - falou autoritrio.
         - Meu senhor, eu no tenho poder para tanto, mas estou aqui para servi-lo graas ao corao generoso do centurio responsvel por esta priso triste e difcil.
- Quem  voc? - falou ansioso Pilatos.

          - Eu sou seu amigo que, na medida do possvel procurarei ajud-lo no que suas necessidades e minhas possibilidades o permitirem.
- Como  seu nome?
          - Eu me chamo Zacarias - falou sem procurar identificar-se, pois j havia transcorrido muito tempo desde aquele encontro nas cercanias de Nazar.
         Zacarias era um nome comum entre os hebreus, sempre acostumados a batizar seus filhos de acordo com a tradio religiosa de seus ancestrais.
Ouvindo-lhe a referncia nominal, Pilatos comentou irnico:
          - Quer dizer que ando tanto tempo, milhas e mais milhas, deixo a Palestina maldita, chego a Roma de todos os Csares e, em vez de ser visitado por um romano, 
o primeiro que me procura  um judeu. Eu mereo essa punio, confesso. Est  cata de vingana como a maioria das vboras de sua raa? Deseja matar-me ou conferir 
o que os prprios romanos esto fazendo comigo para escarnecer de minha sorte?  enviado de Ans ou Caifs para ver meu destino de dor diminuir minha autoridade 
perante eles?
          - No, meu senhor, sou apenas um servidor que aqui est atendendo a um chamamento de um amigo que me pediu o acompanhasse por onde passasse. Assim, estarei 
por aqui sempre que me permitirem e, se no for ofend-lo, meu patro - aquele que me mandou para ajud-lo - pediu que eu me informasse quais so as suas necessidades 
imediatas para que elas possam ser supridas.
          - Bem, Zacarias, eu no posso imaginar quem seja esse homem, mas vindo de algum como voc, naturalmente deve ser um patro judeu. E como todos eles, mesquinhos, 
interesseiros, avarentos, oportunistas, negociantes ao extremo, imagino que tal auxlio no me custar pouca coisa. Por isso, diga ao seu patro que eu no tenho 
nada mais na vida e que, apesar de sua generosa oferta, no poderei aceit-la j que a deusa Fortuna deu as costas para mim.
         Vendo que seu pensamento funcionava com rapidez e certa lgica, Zacarias buscou manter dilogo saudvel e inspirador com ele, o que se tornou difcil diante 
de seu pensamento derrotista e fragilizado.
          - Eu no tenho amigos... - falava exasperado. Sequer entre os romanos eu possuo algum que me procure para solidarizar-se comigo. Que dizer amigo entre 
os judeus que eu tive de dirigir como um estrangeiro, tomando-lhes os recursos na forma de tributos.
         Quem o mandou aqui deve ser um tremendo stiro, a gozar das desgraas dos outros e inspirar-se para suas comdias. Ou ento deve
ser um tolo que no sabe o que est fazendo, ou um vingador que quer minha cabea.
         Atormentado pelo perodo de priso, Pilatos via inimigos por todas as partes. Durante a noite, suas vtimas vinham acus-lo dos crimes que ele ordenara 
ou que se cometeram em seu nome ou com a sua autorizao. Inmeros espritos juraram vingana contra aquele homem importante que se via imprestvel, agora, para 
qualquer perseguio.
         Seu sono no lhe permitia descanso, pois to logo seu esprito saa do corpo fsico, se deparava com uma grande quantidade de cobradores, scios de delitos, 
mulheres enganadas em seu afeto, maridos que o odiavam por sua conduta agressiva no esforo de seduzir suas esposas, pais que o odiavam por verem suas filhas aliciadas 
pelos sacerdotes a fim de que seu leito estivesse sempre bem recheado de formas femininas tentadoras.
         Sempre estava sendo convocado a defrontar-se com seus crimes e isso produzia uma averso ao sono, propiciando-lhe longos perodos sem dormir e, conseqentemente, 
sem descanso.
         Ao mesmo tempo, o esprito de Sulpcio Tarqunius se imantara ao seu senhor, colando-se magneticamente a Pilatos, aumentando-lhe a irritao e o desequilbrio 
emocional, j que, antes ou depois da morte do corpo fsico, os que so parecidos, os que se afinizam em temperamento, gosto, paixo, idealismo, crime, vcio, estes 
se atraem uns aos outros.
         Assim, ao seu lado se encontrava Sulpcio, desde que se deu sua desencarnao e, a partir da, sua presena se fez sentir com mais crueldade junto do governador 
que, inspirado por suas maldosas sugestes mentais, mais e mais amargas tornou as perseguies aos moradores da Samaria.
          Da porque Pilatos se entregara  tirania, ao insano desejo de fazer vtimas para desforrar a morte de seu lictor.
         Era a presena espiritual de Sulpcio ao seu lado que lhe produzia, no esprito naturalmente violento e opressor, ainda mais opresso e violncia.
          Esse era o panorama espiritual de Pilatos que, na priso, somente fisicamente se apresentava solitrio. Ao seu redor, uma chusma de adversrios, scios, 
servidores, comparsas espirituais, todos se congregavam presos ao desejo do exerccio do poder e das vantagens que ele propiciava.
          Meditando rapidamente sobre a sua situao, o governador levou em conta a sua relao com os poderes romano e judeu e, a ironia de
estar ali,  merc da vontade romana para seu julgamento e da benevolncia judaica que lhe estendia o auxlio.
          Como negar-se a receb-lo, quando, em verdade, seus melhores amigos ou aqueles que ele pensava, ingenuamente, ostentar esse ttulo to significativo haviam 
preferido bani-lo de suas vidas?
         Assim, apesar de no ter conhecimento ou lembrana de onde  que viera aquele velhinho, a sua simples presena naquele local, sobretudo por causa de seu 
absoluto isolamento ou at mesmo em face de um prximo resgate da liberdade, quem sabe atravs de uma fuga facilitada por algum simpatizante de sua causa, tudo isto 
representava para ele a chance nica  qual tinha de se agarrar.
Olhando para o vo da porta, respondeu indiferente:
         - Bem, Zacarias, diga ao seu amigo que se ele pretende gastar seu tempo com coisa que no vale a pena, eu lhe agradeo se puder me trazer algumas frutas 
ou algum alimento que se possa comer, pois estes que me entregaram at hoje so incomveis. Nem as ratazanas que aqui no param de perambular se animam a provar 
os temperos de tais iguarias.
         - Est bem, meu senhor. Amanh retornarei trazendo alguma coisa. Depois conversaremos mais. At l.
         E dando por encerrado o breve contato, Zacarias se sentia feliz por ter conseguido penetrar nas barreiras mais difceis de serem vencidas, graas  confiana 
em Deus e ao modo generoso, sincero e verdadeiro com que ele se comportava perante os soldados.
         Lucilio j lhe entendia a tarefa no interior da priso. No era apenas para consertar sapatos que Zacarias desejava entrar. Ele entendera, depois que conhecera 
a mensagem de Jesus, que todos ns estamos onde estamos para fazermos o melhor pelos nossos semelhantes.
         Assim, ele prprio j se vislumbrava mais amistoso com os demais soldados, procurando ajud-los em seus problemas pessoais e fazendo com que mais de um 
deles o acompanhasse  reunio noturna que se fazia na hospedaria de Jonas.
No dia seguinte,  hora combinada, Zacarias penetrava na infecta fortaleza para dar continuidade ao trabalho que desenvolvia ali dentro, ao mesmo tempo em que, no 
momento adequado, Lucilio lhe permitiria a paz necessria para que ele pudesse conversar com Pilatos mais intimamente.
          Levou consigo uma proviso de frutas frescas e secas, sementes fortalecedoras, um pouco de gua limpa e um odre pequeno com uma poro de vinho suave.
          Levou, ainda, azeite e mel como elementos curativos para eventuais feridas.
          Quando Lucilio o conduziu  cela, com a voz embargada pela emoo da lembrana de Jesus, Zacarias pediu-lhe sincero:
         - Meu filho, voc tem sido to generoso comigo que eu me envergonho de lhe pedir uma coisa a mais, dentre tantas que j me propiciou.
          E como Lucilio venerava aquele velhinho que todas as noites ia evangelizando sua alma, ps-se  disposio de Zacarias para atend-lo em qualquer pedido, 
desde que isso estivesse dentro de suas atribuies.
- Eu gostaria de falar com o preso olhando-o frente a frente.
         - Mas eu no posso permitir que ele saia da cela, Zacarias... -falou titubeante o centurio responsvel.
         - Eu sei, meu amigo e no foi isso o que eu pedi. Pedi para falar pessoalmente com ele e, se ele no pode sair, deixe-me, ento, entrar l para lhe falar 
com o corao...
         A nobreza daquele ancio era de emocionar. Estava pedindo para entrar na cela quando qualquer pessoa normal no desejava sequer passar pela calada externa 
que margeava a priso, famosa por sua dureza para com os presos.
         - No ser perigoso? Voc est sob minha responsabilidade, Zacarias.
         - Veja, Lucilio, estou aqui carregando somente estas frutas e este pouco de gua e vinho que fao questo voc examine para ver que no h qualquer objeto 
que possa facilitar a fuga do prisioneiro.
         - Sim, no  isto que eu quero dizer. Quero dizer que, com voc l dentro, ser fcil que ele obtenha um refm e procure negociar sua fuga, meu amigo.
         - No acredito que isso seja possvel acontecer, Lucilio. Seu estado  de absoluta debilidade e muito me espanta que a cabea esteja to lcida como pude 
avaliar ontem em nossa rpida conversa.
         Alm do mais, eu no valho nada, e se ele pretender sair da priso me usando como objeto de troca, est perdido. Eu o autorizo a permitir que ele me mate 
a dar-lhe liberdade a esse preo.
         Convencido pelos argumentos amigos daquele homem insuspeito e corajoso, Lucilio, ento, esboando um gesto de contrariedade, afirmou:
- Voc tem muita coisa a nos ensinar sobre Jesus, Zacarias.
Veja l se no vai se expor em demasia, acabando por ser assassinado por esse doido e nos deixando rfos do Reino da Verdade. Sem voc, a quem escutaremos?
         - Eu lhe agradeo, Lucilio, pois sua compreenso ir entender que o que estou tentando fazer  justamente viver o que Jesus nos aconselhou e, sem medo de 
errar, posso lhe dizer que este seria o gesto que o Messias teria tido para com um aprisionado. Mesmo que ele fosse culpado e tivesse sua culpa provada.
         Esta  a verdade que Jesus pregou e pediu que vivssemos. Que nos amssemos uns aos outros como ele nos amou.
          E falando isso, aceitou entrar na cela imunda onde Pilatos fora recolhido e estava esperando pela concretizao de seu destino que seria decidido, finalmente, 
pelo conjunto dos senadores romanos que tinham se unido a Flamnio para o exame das arbitrariedades relatadas por Pblio.
Enquanto Zacarias tem a sua primeira entrevista pessoal com o governador, nos bastidores do poder romano as peas se moviam para que o destino seguisse o seu curso.
Uma vez regressando a Roma, Slvio e Flvia voltaram a ter o estilo de vida tola e dissoluta que ele quanto ela levavam em Jerusalm.
No entanto, o esprito vingativo de Flvia foi tomado de temores quando soube da derrocada do governador, seu cunhado e ex-amante. Acreditando que a sua condio 
de prisioneiro poderia comprometer-lhe a posio na capital do imprio, local de onde no pretenderia nunca mais sair, a mulher mesquinha igualmente passou a temer 
pela possibilidade de Pilatos revelar as intimidades que manteve com ela ou que, no curso do processo, tais fatos fossem revelados publicamente, o que seria um escndalo 
ainda pior do que o que o governador houvera protagonizado h mais de uma dcada.
         A sua conduta, como amante de seu cunhado, na casa de sua prpria irm Cludia, seria extremamente perigosa para a sua reputao j dbia. Por isso, Flvia 
se valeu de todos os recursos de que dispunha para conseguir com que Pilatos fosse mantido preso e, se possvel, exilado.
          Naturalmente que a sua condio feminina e a sua peculiaridade de estar casada com o pretor Slvio dificultavam-lhe a mesma licenciosidade constatada na 
Palestina distante.
Todavia, no deixou de insinuar-se perante homens sem muitos

escrpulos morais, que viam no poder que exerciam as mesmas oportunidades de devassido, obtendo deles o compromisso de lutarem pelo banimento de seu cunhado, sem 
revelarem, contudo, a sua interferncia.
         Ainda lhe doa, antes de tudo, a perda da preferncia em face de Lvia que, nitidamente, passara a postar-se como o objetivo maior do ex-governador. Essa 
troca, no imaginrio feminino, produzira em Flvia o efeito arrasador que si acontecer em todas as pessoas egocntricas, quando deixam de ser colocadas no centro 
do mundo dos outros.
         Jurou que se vingaria de Pilatos e, agora, estava buscando realizar tudo ao seu alcance para conseguir afast-lo para sempre de seu caminho.
Fez correr propinas gordas, aceitou rebaixar-se moralmente, deitando-se com velhos influentes e repugnantes, to s para conseguir o que desejava.
         Assim, graas aos seus esforos, a sua causa ia ganhando campo e, no esprito de boa parte das autoridades, o caso Pilatos era uma vergonha da qual se devia 
livrar, seno pela execuo, ao menos pelo banimento.
         Matar o romano que muito fizera pela manuteno da ordem seria indigno dos seus pares. Todavia, us-lo como exemplo para que outros como ele no se estimulassem 
a conduzir os negcios do Estado pelos caminhos da corrupo, seria algo apropriado, pedagogicamente falando.
         Assim, enquanto Flvia tecia sua rede de influncias para prejudicar aquele que lhe servira aos caprichos femininos e, com isso, mais e mais se comprometia 
diante das leis do Universo, Zacarias se apresentava perante o governador, levando-lhe a receita alimentar que o pudesse sustentar no amargo transe em que estava 
vivendo.
          Buscara o apstolo tratar de suas enfermidades, muitas delas consistentes de mordidas de ratos, infectadas pelo estado srdido das masmorras imperiais.
         Alm disso, deixou que Pilatos falasse tudo o que queria dizer, j que fazia muito tempo que o governador no tinha com quem conversar e, por isso, naturalmente 
precisaria colocar para fora toda a torrente de indignao e revolta que marcavam a sua estada em Roma. J havia passado mais de um ms de sua chegada e aquela era 
a primeira vez que algum, que no fosse soldado, entrava em sua cela.
         Vendo o estado geral, Zacarias procurou arrumar as coisas e organizar um pouco a baguna generalizada. Pediu a Lucilio que lhe permitisse limpar o lugar, 
varrendo e combatendo os ratos, retirando o

feno apodrecido que lhe serviria de colcho e substituindo por algo mais compatvel com o local e com o prisioneiro.
          Fez ver ao centurio que ningum deixaria de ser prisioneiro se dormisse em uma cama de campanha, dessas que os militares estavam acostumados a usar em 
suas incurses de conquistas. E suas argumentaes a favor do prisioneiro tinham tanto de verdadeiras e humanas, generosas e doces, que Lucilio outra coisa no fazia 
seno atend-las. Afinal, tambm, estavam tratando de um romano conhecido e respeitado por seus feitos no passado.
         Assim, o panorama interno da cela de Pilatos foi renovado com a presena daquele ancio que mais parecia um anjo tutelar do que um reles sapateiro.
         As vestes de Pilatos foram trocadas por roupa limpa que Zacarias comprou e trouxe ao prisioneiro. Com os aparelhos de corte especficos para as tarefas 
de sua profisso, o velhinho cortou os cabelos crescidos e desalinhados do governador, aparou suas unhas e cortou a barba hirta, de modo que, ao final de alguns 
dias, o homem j estava mais integrado novamente  sua condio humana, tornando-se mais doce e cordial, apesar da situao que no se alterara e que considerava 
injusta.
         Todavia, o carinho de Zacarias, que nunca o desafiara, que nunca lhe apontara os erros do passado, que sempre tinha um conselho amigo e cordial, que no 
feria a sua suscetibilidade de homem fracassado, isto tudo ia, sutilmente, abrindo caminhos dentro da armadura daquele romano imaturo que a experincia do sofrimento 
estava retemperando.
         Ao trmino da primeira semana, os cuidados de Zacarias haviam produzido, no interior da cela, a transformao necessria para que Pilatos no se sentisse 
mais prisioneiro e sim um hspede a quem era impedida a sada do quarto. Por isso, Zacarias procurava fazer-lhe as vezes, trazendo-lhe tudo o que ele precisasse, 
facultando-lhe a realizao dos menores desejos. E para tais gastos, o apstolo contava com seus prprios recursos, largamente economizados desde a venda de sua 
casinha em Emas e, agora, ajudado pelos amigos da hospedagem de Jonas que, compreendendo os deveres de Zacarias para com o sofrimento daquele homem pecador, tudo 
procuravam fazer para ajud-lo a cumprir a solicitao pessoal de Jesus.
          Quando os seus amigos de conversas noturnas souberam que Jesus havia pedido a Zacarias que acompanhasse Pilatos pessoalmente, a fim de que ele recebesse 
a palavra do Reino de Deus, todos se deixaram envolver por um rio de lgrimas emocionadas e, imediatamente, se solidarizaram, como se o Mestre os tivesse convocado 
a todos para essa realizao.
         Assim, passara a ser a estalagem de Jonas aquela que se responsabilizaria pelo fornecimento do alimento a Pilatos e a alguns dos soldados da priso, vitimados 
pelos maus tratos e pelas tragdias pessoais que lhes impunham uma condio de quase miserabilidade. Os outros amigos se conjugavam para fornecer as roupas, ajudar 
na arrumao, providenciar alguma mesa pequena e cadeira para que Pilatos tivesse onde se sentar, arrumar a pequena cama de campanha onde pudesse dormir.
         Tudo isto, em decorrncia da fora que a mensagem de Jesus havia semeado no corao daqueles homens por causa do exemplo humilde de Zacarias.
         As oraes noturnas eram feitas sob o vu da gratido e da alegria verdadeira, tornando todos os que se conheceram naquele local, irmos pelos laos verdadeiros 
do esprito, solidrios em todos os momentos e, por assim dizer, os primeiros divulgadores da verdade crist, atravs de suas prprias transformaes.
          Roma era muito grande para se importar com um pequeno contingente de almas abnegadas e solidrias.
         Por isso, ainda estava longe o dia em que, tornando-se avassaladora, a verdade crist seria perseguida pelos governantes e punida com os espetculos horrendos 
nos quais os cristos enfrentavam o martrio das feras ao som dos cnticos de f inabalvel.
         Aquele grupo seria o embrio de novos grupos. A escrita que Simo houvera dado a Zacarias multiplicara-se em cpias que passavam a circular entre os freqentadores 
assduos de tais encontros, levando-se a mensagem de renovao e esperana ao seio de uma comunidade pervertida pela misria moral, pelas injustias sociais, pelos 
descalabros administrativos, pelo modo mundano e pago de se relacionar com as coisas divinas.
          Roma estava pronta para ser incendiada. E os primeiros cristos estavam comeando a acender o pavio.
          Esse foi o verdadeiro incndio em que a cidade das sete colinas, efetivamente, se viu envolvida. No o que o visionrio e alucinado Nero ateou para o deleite 
de seus olhos perturbados,  cata de inspirao.
         A cidade comeara a arder antes, pelo fogo lento e imperceptvel da verdade e do Reino de Deus que comeara a subir dos mais baixos patamares do povo at 
crestar os tronos mais dourados e poderosos que, igualmente, sculos depois, foram tragados.
         O impulso de ajudar Zacarias a ajudar Pilatos tomou conta daquele grupo de homens e em Roma, pela primeira vez, se viu um grupo de
pessoas reunido to somente pelo bem-estar de outrem, sem lhe apreciar o mrito ou lhe impugnar o carter com os vcios e erros de outrora.
         Todos estavam fazendo o que Jesus pediu. Odiavam o crime, mas amavam o criminoso.
          Isso estava transformando Pilatos, que deixara de ser um homem mesquinho e passara a apreciar a conversao que, agora, acontecia tambm na presena de 
Lucilio.
Eram momentos agradveis e, em breve, Pilatos os apreciaria ainda mais.
          Isso porque,  medida que Zacarias lhe ia fornecendo o que suas necessidades solicitavam, ainda que seu orgulho no o pedisse, mais e mais o prisioneiro 
vinha desejando saber quem  que havia enviado o velhinho para cuidar dele com tanto prstimo e zelo.
         Zacarias, para no lhe ferir o esprito, recusara-se, at ento, a revelar o que tinha acontecido.
     Terminada a primeira semana em que Zacarias pode levar at o prisioneiro o carinho de sua ateno e, durante a qual o mesmo se viu mais acolhido pela solicitude 
dos nicos amigos que lhe prestavam ateno - o velho apstolo e o centurio Lucilio - Pilatos j se encontrava mais calmo e aberto para que outras coisas lhe pudessem 
chegar ao esprito rebelde.
Natural que as pessoas que se deixam levar pelo caminho do atendimento de todos os seus caprichos se tornem crianas perigosas, eis que julgam possuir todos os direitos 
e no suportam ter contrariado o menor de seus desejos.
          Assim, a conduta de Pilatos, nos primeiros momentos da priso, fora o do infante revoltado ao qual se negara a realizao absurda de seus caprichos e que, 
por isso, se atira s reaes inconseqentes com que a imaturidade sempre protesta.
         A capacidade dos homens se mede pelas suas reaes nos momentos de contrariedade de seus desejos e direitos.
         Assim, depois de vencida a primeira fase, durante o ms inicial de sua recluso e esquecimento, o governador deposto se apresentava mais cansado em seu 
ntimo, o que facilitou que Zacarias pudesse se apresentar como o companheiro devotado que atendia s suas necessidades.
Por isso, gradualmente, Pilatos foi se afeioando quele ancio que lhe dedicava tanto carinho e se admirava por sua capacidade de entrega, indo quela priso perigosa 
to somente para dar-lhe consolao.
         Tal comportamento no encontrava paralelo nas experincias do dia-a-dia daqueles tempos, onde o egosmo aconselhava que cada qual

se embenhasse na conquista de vantagens para si mesmo e para os seus, ainda que  custa de passar os outros para trs.
Ento, depois de passado o primeiro perodo e transcorrida j uma semana em que Zacarias se dedicava pessoalmente ao seu conforto material, Pilatos dirigiu-se ao 
ancio, nestes termos:
         - Prezado amigo, a sua presena aqui transformou este quarto de priso em gabinete e, se  verdade que ainda  uma priso, o certo, no entanto,  que se 
apresenta mais aceitvel e no me causa nuseas. No entanto, desconheo de onde provm esta solicitude que representou um blsamo ao meu corao desventurado.
         Acostumado s disciplinas militares e a condutas governamentais que sempre pautaram sua preocupao pelos nmeros e estatsticas, sempre me mantive distante 
das realidades pessoais que agora se me apresentam. E encontrando a verdade de muitos nas paredes desta cela imunda, pude ver por dentro aquilo que representou o 
destino de muitos homens que julguei sem piedade. Quantas criaturas no enfrentaram as condies iguais ou piores do que estas to somente porque eu estava de mau 
humor naquele dia fatdico em que seu destino esteve em minhas mos? Quando meus humores estavam harmoniosos, fcil seria aproximar-me das idias de compreenso 
ou moderao. No entanto, bastava que se me alterassem os sentimentos, por pequena contrariedade, que processos iguais por delitos idnticos recebiam pesos e tratamentos 
diferentes em virtude de minhas disposies modificadas.
         Agora, percebo que governar  muito diferente de ser governado e que a impotncia dos que submetemos s nossas leis torna suas vidas algo quase sem valor, 
como se apresenta a minha prpria, neste lugar.
         Ouvindo o seu desabafo com interesse e solicitude, Zacarias deixou que as coisas seguissem seu curso natural, respondendo apenas:
         - Sim, meu senhor, nada  a mesma coisa quando passamos pelas situaes que impomos aos outros.
         - , Zacarias, e se me permite confiar em seu corao generoso e experiente, estes dias na cadeia me fazem pensar em muitas coisas e me arrepender de muitas 
outras.
         - Sim, meu senhor? - respondeu-lhe o ancio, como que indagando com curiosidade.
         - Sim, Zacarias. Muitas vezes puni com o rigor da lei, que mandava dar cadeia a quem a merecesse e, nestes casos, minha conscincia de nada me acusa. Muitos 
malfeitores se valem do anonimato para produzirem males e prejuzos que precisam ser combatidos com o rigor da lei e, ao faz-lo em nome de uma disciplina e de uma 
civilizao
que Roma representa mais perfeitamente, sinto que meu interior me aprovava a conduta e que eu era escravo da posio que ocupava.
          No entanto, meu amigo, a conscincia me acusa de muitas coisas que eu fiz me valendo da condio de poder que exercia, em detrimento de meus deveres diretos 
ou indiretos. E ao me colocar neste momento diante da vontade dos deuses que parece terem me abandonado, posso confessar-lhe que fiz por merecer esse afastamento 
das divindades que, certamente, perderam a pacincia com o meu acumulado de dbitos e iniqidades.
          Mulheres desonradas, a comear por minha prpria esposa. Filhas de pessoas honestas que me eram conduzidas por cmplices de crimes para que meus caprichos 
sexuais fossem saciados, devolvendo-as privadas da honra que lhes era to importante, compensadas por algumas moedas que, por mais valiosas que fossem, eram sempre 
miserveis para medicarem o sentimento ferido na alma usada e desrespeitada.
         Negociatas escandalosas envolvendo autoridades laicas ou religiosas, sempre visando o acerto de interesses nas ambies ocultadas pelo vu espesso da noite 
criminosa, na qual se faziam os ajustes da pantomima que se encenaria no dia seguinte.
          No, Zacarias, tudo isto me faz pensar, agora, quando a frieza destas paredes me reserva a dura realidade de meus atos, que os deuses de meus pais e meus 
antepassados se afastaram de meu destino vil e criminoso e, acima de tudo, me permitiram recolher os dardos envenenados que espalhei por onde andara.
No entanto, vou revelar-lhe algo que nunca disse a mais ningum.
         Dentro de minha conscincia, um ato nefasto particularmente me acusa como dspota e miservel.
         E ao fazer meno a esta delicada parte de seu passado, Pilatos se deixou envolver por uma melancolia que o reduzia  condio de miservel criatura, envolta 
em um misto de indignao, medo e vergonha de si mesmo.
         Parece que, de dentro de seu ser, uma outra realidade humana se levantara para acus-lo com astcia e crueldade.
         Buscando se manter em equilbrio, o governador falido conteve os impulsos destrutivos de suas emoes para poder continuar.
         - Agora que me vejo ajudado por uma criatura to doce e humana como voc, Zacarias,  que tenho a noo da imprestabilidade de minha alma e, no fundo, posso 
aquilatar o porqu de ter sido abandonado pelos deuses de meus ancestrais.

          E me sinto ainda mais envergonhado por tudo o que realizei ou deixei de fazer.
Dar cadeia ao culpado  at um ato de justia digno de nossa civilizao que procura corrigir. E se eu lhe dissesse que fui to desptico e animalesco que dei a 
morte a um inocente?
Nesse momento, uma torrente de lgrimas invadiu-lhe a garganta e soluos dolorosos e profundos brotavam de todo o seu ser, como se no fosse apenas o seu corpo que 
chorava, mas todo o seu esprito se contorcia em acessos compungentes de sofrimento.
         Zacarias acercou-se do prisioneiro e abraou-o sem tentar deter a avalanche de lgrimas que ele bem sabia serem teis para limpar o corao aprisionado 
pelas culpas. Afinal, ele prprio j tivera enfrentado essa situao quando da revelao de seus erros do passado ao amigo Josu, no caminho para Nazar, anos antes.
         O contato da atmosfera carinhosa daquele ancio mais parecia o abrao de um pai querido que Pilatos recebia como o retorno de um grande amigo para consol-lo, 
sem julgar seus atos, baixos por si prprios.
         Assim, decorridos longos minutos de lgrimas e soluos angustiosos, Pilatos retomou a confisso.
- Sim, Zacarias, seus braos amigos... esto abraando um ...
miservel e ...injusto juiz ... cuja iniqidade foi        tamanha ...a ponto
de ... condenar um inocente  morte.
         No foi  priso, Zacarias ... foi  morte.
          -Insistia a sua quase insanidade e descontrole, reforando a palavra para mais extrair dela o peso de sua culpa.
         O tempo passou e, na ocasio eu me desculpei do crime considerando que fora envolvido pela astcia dos sacerdotes miserveis e pela raa abjeta e mesquinha 
dos judeus que, diferentes de voc, s pensavam em ajustes odiosos e negociatas secretas.
         Tanto que, pensando que comprava a paz de minha conscincia, representei o teatral gesto de limpar minhas mos do sangue daquele homem. Mas era essa a minha 
tarefa, na Palestina? Submeter-me, assim, covardemente,  sanha dos inquos adversrios de um inocente virtuoso que contrariava os seus vcios?
         Fora para isso que eu possua o mais capacitado exrcito sob meus cuidados e ordens? Para aceitar a morte de algum, mesmo de um miservel e mendigo, sem 
tomar nenhuma atitude que no fosse a de limpar minhas mos?
Depois que o tempo passou e que a cruz foi erguida sob os apupos da turba ensandecida, um peso interno passou a fustigar minha alma. Ainda no me escapa da viso 
ntima, como se estivesse passando pelo momento que se eternizou em minha mente, a cena de seus olhos tristes, de seu olhar sereno e nobre, que no sabia suplicar 
nada para si, ao mesmo tempo em que se entregava aos poderes soberanos de um Deus que ele dizia existir, mas que ns, prticos romanos, nunca conhecemos ou ouvimos 
falar.
         V-lo humilhado, ensangentado e ferido por uma coroa que o miservel rei da Galilia e Peria mandara enfiar-lhe na testa, na ironia macabra dos dspotas 
ignorantes, faminto e trmulo sob o vu espesso da insensatez dos homens, submetido corajosamente ao poder mesquinho de uma justia to venal quanto qualquer homem 
que se diga seu representante, incluindo-me nessa qualificao, me estremece o corao e no h meio de me sentir nobre e honrado com o gesto que adotei naquela 
hora fatdica de minha vida.
         Se tivesse sido o depravado que sempre fui, mas tivesse, naquele instante, sabido agir com coragem e determinao na defesa de um inocente que eu prprio 
reconhecera como tal, no teria nenhuma dificuldade em me perdoar dos outros deslizes. No entanto, se tivesse sido o mais justo dos governadores do mundo imperial, 
nunca tendo tergiversado com a verdade e tivesse, simplesmente, errado como errei lavando as mos no caso daquele profeta, nada do que houvera feito antes me teria 
justificado a correo e enobrecido minha honra.
E o que  pior, Zacarias,  que j sou ru de mim mesmo pelos erros grosseiros a que me permiti arrastar pelas minhas misrias e, ainda mais agravado pelo soberano 
equvoco que minha covardia me deixou perpetrar, nada fazendo para defender a vida daquele homem to indefeso quanto corajoso.
          Eu estive preso aqui, injustamente segundo meus conceitos humanos e, nos primeiros dias, indignado, gastei minha garganta entre gritos e imprecaes, tendo 
que me calar, no porque me conformasse, mas porque no tinha mais voz para gritar.
E me tenho em conta de pertencer ao mais elevado crculo da civilizao,  nata dos homens de cultura e poder. E, ainda assim, carrego em meu interior a marca de 
minhas culpas que me acusam sem parar. Quanta coragem no foi necessria para passar por tudo aquilo que aquele inocente.
 - Pilatos como que se recusava, por vergonha, a pronunciar o nome de Jesus - foi obrigado a suportar at a sua morte na cruz...!?
         E ele no abriu a boca para pedir nada, nem para se defender, nem para praguejar contra a sorte...
         As lgrimas corriam abundantes por seus olhos vidrados, quase que  beira da loucura, produzindo um efeito assustador e emocionante naquele velhinho que 
o conhecera no auge de sua importncia.
         - Com certeza, os deuses esto me odiando com justia, pois me comportei como um celerado a quem estavam confiadas a lei e a ordem, mas que permitiu que 
a arbitrariedade e a desordem fossem cometidas apenas por causa de minha fraqueza de carter, o que demonstra a minha incapacidade de ocupar o posto para o qual 
fora promovido.
         E eu no os culpo. Eles esto certos e acredito que amargarei longos anos nos trtaros do sofrimento, sob as trpodes demonacas, como forma de expurgar 
minhas culpas e misrias.
         S no entendo qual divindade tem sido to imprudente permitindo que um ser to abjeto e ignbil quanto eu pudesse encontrar algum de corao to gentil 
e atencioso quanto voc, Zacarias.
         A pergunta ficara no ar, como que pedindo uma explicao, depois que ele se fizera desnudar de maneira to verdadeira e grotesca, sem ocultar nenhuma de 
suas culpas.
         Ouvindo-lhe a meno  generosidade dos deuses, Zacarias respondeu:
         - Bem, senhor governador, eu j lhe disse que algum que muito o ama me mandou para ajud-lo em tudo o que fosse necessrio.
         - Mas isto para mim continua sendo uma incgnita que muito me agradaria resolver, meu amigo. Quem ser esta criatura que o enviou at aqui para me atender 
aos menores desejos, mesmo sendo to indigno quanto sou e mesmo sabendo agora, como sei, que no mereo seno a companhia das ratazanas, muitas das quais devem se 
sentir desonradas e ter asco de minha presena?
         - No diga isso, meu filho. Voc  um companheiro que teve seus erros e, no entanto, continua sendo filho de Deus. Esse Deus que o criou e que fez tudo 
o que existe, que  mais eloqente que todas as esttuas de mrmore dos pantees humanos, que sabe onde esto nossas misrias e se esfora em nos ajudar a nos erguermos, 
mesmo das mais terrveis quedas. Lembre-se, Pilatos, sobre toda a runa que produzimos, Deus, generoso, reedifica um monumento mais slido e nobre.
         - Esse Deus a que voc se refere  um deus diferente dos nossos tradicionais? - perguntou intrigado o prisioneiro.

         - Sim, meu amigo,  um muito mais poderoso e sbio, justo e amoroso, que perdoa sempre e ampara os fracos em suas quedas.
         - Mas esse  muito parecido com um deus que encontrei na Palestina e que era pregado por esse homem que acabei condenando  cruz, injustamente.
- Sim,  verdade, respondeu Zacarias.
         - Ora, Zacarias, um dia um grupo de homens me falou dele quando estava em Nazar e os judeus, mesquinhos e miserveis como sempre, pretendiam que eu os 
prendesse e punisse, j que estavam curando doentes, falando de amor aos que sofriam, de um Reino de Deus que chegaria nos coraes das pessoas...
          E enquanto falava, Zacarias sorria e, antes que terminasse de falar, completou:
         - Sim, meu irmo, e que depois de ouvi-los, o senhor ofereceu pousada para a noite e deu-lhes provises para a viagem, no foi?
          Escutando-lhe tais revelaes, que ele prprio j havia se esquecido, Pilatos calou-se abruptamente e comeou a investigar com os olhos molhados a fisionomia 
envelhecida de Zacarias, com a barba mais espessa e branca que outrora. Olhando-o , Pilatos continuou:
-Mas como  que voc sabe dessas...
          - Era voc, Zacarias - gritou o prisioneiro, aterrado. - Era voc, era voc que estava l! Eu sabia que sua fisionomia no me era estranha. No entanto, 
no me lembrava de onde j o tinha encontrado.
          E Zacarias, deixando que a expanso de surpresa e entusiasmo ganhasse o seu esprito at ento triste e abatido, confirmou a descoberta, acrescentando:
          - Sim, meu senhor, era eu que estava em sua propriedade em Nazar naquele final de tarde e incio de noite, quando suas perguntas foram dirigidas a ns 
quatro, eu e meus amigos, para que as notcias do Reino de Deus pudessem ser avaliadas pelo seu senso de justia e lucidez. E ainda me recordo de suas palavras lamentando 
no poder deixar para trs toda a histria de sua vida e a crena antiga para seguir a compreenso do novo Reino que se apresentara, quele dia, ao seu corao. 
Lembro-me de ter-lhe respondido que o homem era sempre ajudado por Deus para romper, um dia, as correntes que o prendem, de maneira que chegaria o momento em que 
sentiria a possibilidade de ser livre para sempre ou manter-se escravizado como voc dizia estar.
         - Pelos deuses, Zacarias, ento  voc mesmo quem est comigo, aqui em Roma - exclamou Pilatos sem acreditar.
E lembrando-se de sua confisso sobre as culpas no processo de Jesus e, agora, sabendo que Zacarias era um de seus seguidores mais prximos, naturalmente que seu 
constrangimento ainda se avolumou mais. Um toldo de amarguras se levantou em sua face, o que o levou a dizer, amargurado:
         - Veja a ironia dos deuses maldosos de Roma, meu amigo. No esto saciados com a minha derrocada. Querem me impor o supremo grau de vergonha ao meu orgulho 
patrcio, fazendo com que o nico que se importe comigo seja o seguidor daquele que eu prprio massacrei com minha omisso medrosa e inconseqente. Isso  demais, 
Zacarias. No sei o que dizer. A vergonha me matar fatalmente.
         - No pense assim, meu senhor. O Reino de Deus  para ns, os enfermos, no para os sadios, foi o que sempre afirmou Jesus. No nos cabe julgar a ningum, 
mas to somente, o dever de ajudar em qualquer condio ou situao. Por isso, o Deus soberano e amigo que os romanos no conhecem, tambm os considera como seus 
filhos e dignos de compaixo. S est esperando que todos se fartem da taa amarga dos prazeres e desiluses para que estejam preparados a fim de escutarem o suave 
chamamento que fala s nossas angstias e frustraes : "Vinde a mim todos vs que sofreis e que estais sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomai sobre vs o meu 
jugo e aprendei de mim que sou brando e humilde de corao e encontrareis o repouso de vossas almas; porque meu jugo  suave e meu fardo  leve".
         - Isso  to belo e alvissareiro, meu amigo, que, vindo de sua boca, mais parece uma prece proferida por um nume tutelar de meu destino.
         Ainda assim, Zacarias, pesa-me ser alvo de bnos que no fiz por merecer. Por isso, gostaria que tudo o que lhe revelei neste dia, todas as minhas iniqidades 
e todas aquelas que voc acrescentar por conta da imaginao popular, devem ser relatadas ao seu patro, que tem gastado seus recursos com um indivduo indigno de 
ser mantido por uma bondade, que estaria melhor usada se fosse posta a servio de pessoas nobres como voc, que no se comprometeram com o mal tanto quanto eu j 
o fiz.
         V, Zacarias, que sua presena j me consolou muito por um dia s, mais do que mereo, mas no se esquea de agradecer ao seu generoso senhor, relatando-lhe, 
no entanto, todas as diabruras que eu j realizei, pois no quero que pese sobre mim a dupla culpa de estar iludindo a boa f de mais um corao generoso.
E se ele se dispuser a me abandonar na solido e no ostracismo, a sua presena, at hoje, em minha vida, j fez mais por mim do que eu o fiz por todas as pessoas 
ao longo de toda a minha existncia. Eu no sabia o que era arrependimento. Agora, j me envergonho de mim, sobretudo por sentir a sua bondade, meu amigo.
E dizendo isso, o prisioneiro, transformado ao peso de sua culpa e de sua transitria punio, abeirou-se das mos enrugadas do sapateiro e as beijou com uma venerao 
tal que se parecia mais ao filho prdigo a beijar o paizinho generoso que o recebia como carne de sua carne, quando ele lhe fora pedir que fosse acolhido apenas 
como seu escravo.
         Zacarias acariciou-lhe os cabelos a consol-lo com ternura, como a se despedir. No entanto, antes que se levantasse para sair, Pilatos reforou o pedido:
         - Zacarias, prometa-me que vai contar ao seu patro tudo o que lhe contei aqui hoje. E que se ele se arrepender do que fez por mim at aqui, eu j me considero 
muito endividado com a sua generosidade para me ofender com a retirada de sua misericrdia. J me satisfaria poder estar aqui com voc, uma vez ou outra, enquanto 
espero meu destino se concretizar.
- No se preocupe, governador, no  preciso falar nada...
         - Mas  claro que  preciso, Zacarias, - disse, insatisfeito - esse homem bom precisa saber que voc est levando a sua ajuda a um celerado, um condenado 
pela conscincia de seus erros...
         - Mas ele no deseja que voc seja sempre assim, meu filho. Ele deseja que voc cresa e melhore - respondeu Zacarias tentando no mentir a Pilatos.
         - Ora, Zacarias, desse jeito eu vou me sentir um ladro, roubando mesmo estando preso. No quero mais ter este peso dentro de mim e, se voc se recusar 
a falar para ele o que eu j fiz, vou escrever uma carta para que a entregue pessoalmente. Isso... Isso mesmo  que vou fazer. No vou ficar dependendo de voc para 
abrir sua boca santa, que se recusa a falar mal dos ignorantes e depravados como eu. Na verdade, sua lngua no merece corromper-se falando de meus equvocos. Vou 
fazer diferente. Vou pegar um papel e escrever tudo isso. Voc s ter que entregar, dizendo que no sabe o que est escrito.
         Olhando com compaixo profunda para aquele homem que, agora,  custa do sofrimento, desejava dar mostras de transformao, recusando-se a receber ajuda 
de algum que ele pensava desconhecesse a sua condio de endividado moral, Zacarias no sabia

o que fazer para revelar-lhe a verdade, mas estava vendo que no teria como evitar contar-lhe o que se passava.
         - Ento, meu amigo, prometa que voc entrega a carta que vou escrever - falou Pilatos, angustiado e quase em desespero infantil, esperando a concordncia 
do seu benfeitor.
Vendo-lhe o estado de excitao, Zacarias lhe respondeu:
         - Bem, meu filho, no se d ao trabalho de escrever ao meu patro para falar todas as coisas que voc fez, ele no precisa disso.
         - Claro que precisa, homem teimoso. Voc est parecendo eu, Zacarias, uma mula velha e xucra...
         -  -falou Pilatos.
- No precisa, governador. Ele j sabe de tudo.
         - Ora, Zacarias,  verdade que muita gente est falando mal de mim, mas isso no quer dizer que aquilo que seu amo conhece seja toda a verdade. Eu quero 
que ele saiba de tudo mesmo, tudo isso que eu lhe contei, traies, roubos, prevaricaes, infidelidades, luxrias, injustias e, principalmente, sobre o inocente 
que eu condenei  morte. S se ele souber de tudo isso  que vou ficar mais tranqilo com a sua vinda e com a ajuda que ele me manda aqui na miservel priso.
- Tudo isto ele sabe, governador. No preciso dizer-lhe mesmo.
         - Zacarias, ns estamos em Roma e as notcias de longe no chegam direito por aqui. Este homem, por mais bem informado, no pode estar a par de tudo o que 
eu fiz l na Palestina.
- Sim, Pilatos, ele sabe.
         - Mas ento, Zacarias, quem  esse homem to importante que sabe de tudo e, ainda assim, no se recusou a me ajudar? No deve ser nenhuma autoridade romana, 
pois estas esto querendo me matar desde que cheguei aqui - afirmou taciturno e confundido o prisioneiro.
         - No, Pilatos, no se trata de nenhuma autoridade mundana que s tem a oferecer o jugo spero e o fardo pesado de suas injustias. Quem me mandou at aqui 
para ajud-lo em tudo, governador, foi o prprio Jesus,... em pessoa.
         Se descrever com fidelidade o estado de Pilatos, neste momento,  impossvel ao mais competente e talentoso dos escritores, que dizer, ento, a este limitado 
irmo espiritual que se esfora para levar-lhe, leitor amigo, estas cenas amargas das horas de despertamento de um corao arrependido e amargurado?
Sim, Zacarias tinha que revelar, em que pesasse todo o seu
escrpulo e compaixo, que Pilatos no fora esquecido por Deus nem por sua prpria e mais inocente vtima.
         Pilatos, emudecido, no sabia entender o que se havia passado. Enterrou sua cabea entre as mos como se quisesse se ocultar do mundo  sua volta. Calou-se 
por um bom tempo, antes de voltar a organizar o pensamento.
         Como seria possvel que Jesus tivesse se ocupado dele? Quando  que ele o fizera, se na verdade, estava morto h mais de dois anos? E se ele j estava envergonhado 
de ser ajudado por Zacarias, a sua conscincia se fizera mais apequenada quando descobrira que o patro a quem Zacarias se referia sempre em suas conversas, no 
era ningum menos do que o prprio profeta nazareno que ele considerava a mais grave e terrvel vtima de seus atos.
         - Zacarias, voc est me matando, dizendo isso - falou o prisioneiro.
         - No, meu irmo, estou lhe revelando que nenhum de ns  indigno da ajuda de Deus e do Amor de Jesus.
         - Mas esse justo morreu por minha culpa, homem. Como  que pode ter-lhe pedido que me ajudasse?
          E valendo-se do momento de estupefao e expressivo abatimento, como se foras invisveis avassaladoras conspirassem para que sua alma divisasse novas 
fronteiras para o futuro, Zacarias revelou-lhe a conversa que houvera tido com o Mestre, logo depois do regresso do grupo que estagiara em Jerusalm, quando o Messias 
solicitara, pessoalmente, que Zacarias no abandonasse o governador, que o seguisse por onde ele fosse e que aguardasse o momento adequado, pois dia chegaria em 
que Pilatos se veria extremamente abatido e s portas do desespero, ocasio em que lhe caberia estender a mo generosa e amiga reforando-lhe a notcia do reino 
de Deus e o convite que a verdade lhe fazia, para que aceitasse o jugo suave e o fardo leve.
         Entre lgrimas cidas de arrependimento e vergonha, ainda mais diminudo aos seus prprios conceitos orgulhosos e patrcios, o governador escutara como 
uma criana que v a generosidade superlativa com que foi tratada, sem se dar conta de que, ainda antes mesmo que ele deixasse que tudo acontecesse, que tivesse 
tentado fazer justia com a sua remessa a Herodes, com a determinao das chicotadas, com o oferecimento de outro condenado para ser executado em seu lugar, - o 
que s propiciou que seu sofrimento aumentasse ainda mais - ainda antes que tudo isso viesse a ocorrer, o profeta j previra que o governador seria tomado de imensa 
dor interior, seria fustigado por muitas adversidades morais, se veria envolvido pela teia que ele
prprio criara com sua insensatez e, a fim de ampar-lo na hora trgica, o Messias escalara um de seus mais valorosos seguidores para que no o abandonasse, fizesse 
ele o que fizesse.
         No havia condio para que o governador recebesse ajuda. No dependeria ela do fato de Pilatos ter tentado salvar Jesus, de ter tentado defend-lo ainda 
que inutilmente, de ter-se transformado em um governador mais humano, de ter abandonado as perversidades, nada disso era condio para que Zacarias o ajudasse. Era 
um compromisso de amor para com o criminoso enquanto que era a forma mais sbia de se combater o crime.
         Pilatos no queria entender ou acreditar que isso seria assim, como Zacarias lhe falava.
         Depois de um longo e doloroso silncio, onde a angstia ntima que a vergonha lhe provocava se somava ao maravilhoso sentimento de admirao quase infantil, 
vencendo a mudez com muito esforo, entre os soluos de arrependimento que o apequenavam ainda mais, perguntou:
         - Mas Zacarias, se  verdade que foi Jesus quem lhe pediu que me ajudasse, antes mesmo que eu o tivesse matado, como  que voc tem conseguido dinheiro 
para me trazer essas coisas? Eu pensava que algum homem abastado lhe estava fornecendo tudo isso para que eu no ficasse sem ajuda, algum que fosse grato a mim, 
por algum favor que eu lhe fizera... -falava chorando, o governador, fatalmente derrotado em seu orgulho pelo Amor desconhecido pela tradio pag, fria e arrogante 
dos deuses de mrmore.
         - No, meu amigo, Jesus me pediu o meu corao para entregar-lhe. O resto, ns damos um jeito com a ajuda de outros.
Surpreso com a revelao, Pilatos acrescentou:
         - Quer dizer que voc est pedindo esmola por minha causa? -disse emocionado, quase sem conseguir pronunciar as palavras.
         - Deixe isso para depois, meu irmo. Por hoje, voc j est sabendo o bastante para que se sinta querido por todos ns que lhe desejamos as foras do cu, 
j que para a sua vida, Pilatos, soou o momento do Reino de Deus que o convoca ao testemunho. Amanh conversaremos mais.
         E dizendo isso, levantou-se, abraou o preso e deixou-o prometendo regressar no outro dia.
            O dia seguinte, no entanto, quando Zacarias chegou  priso e se dirigiu a Lucilio para que pudesse ser encaminhado at a cela de Pilatos, foi surpreendido 
por uma ocorrncia imprevista.
Por ordem do Senado romano, Pilatos fora removido para outras dependncias oficiais, nas quais se prepararia para ser levado perante os senadores.
Por isso, ainda que Zacarias e Lucilio tivessem condies de conhecer-lhe o paradeiro, estavam impedidos de ter acesso a ele, restando-lhes, to somente, a orao 
como refgio para que o governador se sentisse amparado nas horas difceis.
          Em realidade, Pilatos tambm estava apreensivo, j que no tinha nenhuma idia do que lhe estava sendo preparado.
Vejamos como decorreu a discusso que antecedeu a deliberao final sobre o seu destino que, agora, ser-lhe-ia comunicada.
         A trama das foras negativas que ele fizera acumular-se sobre seu destino se movimentavam para que o homem de Estado, importante e arrogante, fosse, agora, 
tomado por exemplo de mau administrador e vergonha do Imprio.
          Os seus desmandos e crueldades eram as provas que o denunciavam e as impresses identificadoras de seu carter.
          E o processo apuratrio que Pblio realizou, metdico e cuidadoso, aproximando os senadores da verdade dos fatos, possibilitou que tanto os representantes 
do povo romano quanto o prprio imperador Tibrio se indignassem com a sua maneira de proceder, em nome da civilizao que se dizia superior a todas as demais.
Alm disso, entre os prprios romanos, como j vimos, havia
aqueles que se sentiam incomodados com a presena de um homem em desgraa, que sabia demais e que poderia incriminar outros romanos de aparentemente boa reputao.
         As aparncias continuavam a ser, na antigidade quanto na atualidade, a principal preocupao da maioria e, correr o risco de ser descoberto ou incriminado 
representava o pavor de grande parte dos ditos homens e mulheres de bem, os quais traziam estampada no rosto a mscara da moralidade e respeitabilidade pblicas, 
mas ocultavam em seu proceder a malcia e a astcia com as quais dilapidavam o patrimnio coletivo em suas negociatas.
         Para fazer tudo o que fez, Pilatos no estava sozinho, j que uma rede de apoios e de interessados se levantava para obter benefcios da sua interferncia 
e apoio poltico ao homem que fora designado para o governo da Palestina.
          Inmeros romanos de nomeada estavam apreensivos e no desejavam dar a Pilatos a oportunidade de sobrevivncia, pleiteando, pressionando e tentando influenciar 
a deciso da maioria a fim de que ele fosse condenado  morte rpida.
         Flvia era uma das mais comprometidas com os males espalhados na administrao de Pilatos, j que se gabava de exercer um controle absoluto sobre o homem 
que se lhe entregara aos caprichos feminis, seduzido pelas suas maneiras arrojadas e entorpecedoras do raciocnio lcido e sereno.
         Agora que voltara  sede do Imprio, como j vimos anteriormente, a cunhada de Pilatos temia que seus novos interesses pessoais e sua antiga maneira de 
se conduzir na longnqua Jerusalm pudessem arruinar-lhe os projetos pessoais.
         Longe de ter se tornado mais contida e elevada. Apenas, escolhera outros caminhos e outros leitos para que sua ao pessoal lhe concedesse favores dos quais 
pudesse usufruir e se sentir poderosa como outrora, j que o marido, Slvio, aos seus olhos, era aquilo que as pessoas costumam qualificar de mosca morta, acostumado 
 sua inutilidade, nada fazendo para erguer-se na disputada hierarquia da corte romana.
         Alm do mais, nunca primaram por uma aproximao verdadeira, sendo certo que se uniram como maneira de acertarem os prprios interesses, sabendo o pretor 
Slvio, que Flvia no poderia ser qualificada como o exemplo de esposa e o prottipo de fidelidade.
No entanto, a manuteno das aparncias, apenas, era parte de
seu negcio matrimonial, ainda que o destino lhes tivesse bafejado com a filha Aurlia, jovem que crescia numa quase cpia da prpria me.
          Para a filha se voltavam os desejos de domnio que Flvia, agora, considerava o principal motivo de sua existncia e, por isso, no lhe seria adequado 
que a sua m fama fosse conhecida pela corte, na qual, com seus modos dissimulados e mentirosos, passava por uma digna romana, impoluta e virtuosa, como as aparncias 
sabem dar essa aura aos que se preocupam em cultivar o exterior, ocultando bem o que vai no fundo da prpria inteno.
         Alm dela, outros homens importantes, aqueles mesmos que haviam apoiado a indicao de Pilatos e a sua manuteno no cargo de governo provincial, agora, 
se preocupavam com a sua queda, j que recebiam dele os dividendos financeiros pelo apoio estabelecido, atravs de presentes e riquezas que lhes eram enviados desde 
a Judia, atravs de portadores da confiana do governador.
         Recebendo os agrados materiais em dissimulada maneira de pagar pelo apoio recebido, ao mesmo tempo em que se prestavam a renovar os laos corruptos atravs 
dos quais todos se beneficiavam, os referidos patrcios, venais e mentirosos, se preocupavam que o governador os acusasse diante dos mais elevados representantes 
do povo e isso os transformasse em indignos da confiana dos poderosos, a quem sempre bajularam e deram sua fingida admirao, buscando os favores do poder.
         Assim, a teia de influncias nocivas havia sido criada pelo prprio governador, que alimentara as vboras que antes lhe eram associadas e, no momento de 
sua queda, as tinha contra si mesmo, pedindo a sua cabea.
         Os partidrios da morte imediata e os outros, que pleiteavam a punio pedaggica e mais longa do que o singelo ato da execuo instantnea, perderam o 
tempo que o governador ficara detido na priso, na discusso de tal cometimento.
         As reunies se sucediam e, com mais ou menos argumentos, ambos os grupos no chegavam a nenhum veredicto.
         No  demais realar, no entanto, que o Senado romano possua admirveis indivduos, de carter pblico e nobreza de intenes, que contrastavam em muito 
com os exemplos de baixeza e venalidade que outros homens daquele tempo tinham adotado como maneira de ser e viver.
          Entre eles, estavam os senadores Flamnio e Memnio que, ligados ao imperador pelos laos da amizade verdadeira, eram dos poucos a quem Tibrio se dirigia 
e confiava no equilbrio e discernimento.
Eles lideravam o grupo dos mais ponderados homens pblicos em uma fase to difcil do Imprio, quando as ondas de denncias e mentiras visavam prejudicar a todos 
e obter vantagens pessoais com as denncias, mesmo as inverdicas.
Nas discusses entre os senadores no prevaleceram quaisquer dos argumentos defendidos, impedindo que o destino de Pilatos viesse a ser decidido de maneira rpida.
Falando, ento, aos senadores, Memnio argumentou:
         - Nobres representantes do povo romano, diante de nosso impasse, outra sada no nos  possvel seno a de submetermos a deliberao ao prprio Csar, a 
quem incumbir dar a ltima palavra. Proponho que se lavrem dois documentos com os argumentos das duas vertentes divergentes e, ento, dois representantes se incumbiro 
de levar a Augusto as nossas divergncias para que ele decida, como decide nos conflitos entre os gladiadores em luta, qual o futuro do romano que est sob o nosso 
julgamento.
         At por falta de outras opes mais sensatas, a sugesto proposta pelo senador foi acolhida e, para a apreenso de muitos, adiou-se o destino de Pilatos 
at que Tibrio estivesse em condies de deliberar.
          Esta demora tornava a vida de muitos romanos interessados no desaparecimento do governador um verdadeiro tormento de ansiedade e medo, principalmente em 
uma poca onde os espies e os delatores se misturavam e produziam verdadeiras tragdias na vida das pessoas, do dia para a noite.
          Na sombra dos bastidores, moviam-se alguns mais afoitos e mais desumanos, planejando levar at o governador o clice venenoso que selaria seus lbios, 
substituindo os procedimentos legais e regulares que a civilizao de ento havia produzido para a resoluo de seus conflitos.
         No faltaram visitas a bruxos e feiticeiros, hbeis manipuladores de venenos e frmulas com as quais os habitantes de Roma estavam acostumados a alterar 
o rumo dos destinos, matando-se mutuamente.
         Ocorre que, mesmo a peso de ouro, o veneno conseguido deveria ser ministrado ao preso, o que tornava muito complexa a operao, j que os guardas na priso 
Mamertina tambm estavam atentos para a importante figura que tinham sob sua responsabilidade.
         Tratando-se de um de seus pares, os soldados no desejavam que ocorresse com Pilatos quaisquer dos costumeiros "acidentes", to comuns na vida de pessoas 
importantes, que lhe produzisse a morte indigna para um soldado.
         Alm do mais, Lucilio sabia das diversas armadilhas que se produziam para tirar do caminho uma autoridade cada em desgraa e, por isso, redobrou a vigilncia 
e cuidava, pessoalmente, de todo o alimento que era entregue ao governador.
Isso tornou impossvel qualquer sucesso dos seus inimigos solertes, frustrando-se toda e qualquer tentativa de assassinato.
         Assim passou aquele perodo em que Zacarias e Pilatos se aproximaram pessoalmente dentro dos muros da priso.
          No entanto, as duas delegaes de senadores estavam buscando junto a Tibrio a soluo para a divergncia.
          Na ilha de Capri, o velho e enfermo imperador, vitimado pela misria moral dos homens da Roma daqueles tempos, lutava para se manter  frente de um Imprio 
complexo e cheio de vergonhosos comportamentos daqueles a quem competia dar exemplo de virtude e nobreza.
         Com a chegada dos membros do senado, o imperador recebeu os documentos que traziam e, renovando as homenagens formais com que se tratavam reciprocamente, 
despediu-os para que, no isolamento de suas meditaes, pudesse decidir o destino daquele homem.
         Ali estava, sob suas vistas, no apenas os feitos trgicos de Pilatos, mas toda a rede de misrias humanas que o cercavam a fim de que, agora, ele tomasse 
a deciso fatal que modificaria o destino de seu representante junto aos judeus.
         Tibrio, diferentemente do que se espalhou a seu respeito com o decorrer de seu governo, principalmente depois que se retirou para Capri a fim de isolar-se 
das influncias nocivas e aviltantes de que era objeto, tinha um censo de justia elevado e desejava sempre fazer o melhor, ainda que as ms lnguas desvirtuassem 
as suas deliberaes, nos vituprios naturais dos que tm os seus interesses contrariados.
         Assim, ao mesmo tempo em que tinha que apreciar os fatos que lhe eram submetidos, no podia se deixar influenciar pelas frustraes produzidas pela maneira 
omissa com que Pilatos se pautara por ocasio do julgamento do taumaturgo.
         Afinal, Tibrio tinha esperanas de que Jesus, com sua fama de poderoso curador, lhe houvesse tratado as prprias enfermidades e, frustrado pelas informaes 
de sua morte prematura, atribura a Pilatos as responsabilidades pelo julgamento sumrio a que ele fora submetido, considerando que a perpetuao de seu sofrimento 
fsico, a partir de ento, era tambm culpa do governador fraco e claudicante que no soubera ter energia para fazer valer a lei e o direito romanos.
          Na sua tarefa de julgar em ltima instncia, Tibrio sabia que no deveria faz-lo com o corao carregado de antagonismos contra aquele homem.
          Por isso, no dia em que recebeu os documentos do senado, dirigindo-se aos seus aposentos particulares, o imperador dobrou-se sobre o altar de seus deuses 
de devoo para conversar com eles sobre aquele delicado processo.
         - Amados e venerados deuses que me guiam - falava Tibrio, com sinceridade - eis que vos trago, perante os coraes sbios, mais um problema a ser solucionado 
com a amplitude de vistas e a justia que merece a vida de todos os homens. Por isso, peo-vos que ilumine meu julgamento, limpando meu corao para que eu no seja 
pusilnime ou vingativo no juzo que devo escolher sobre este homem. Agora, no julgo mais o governador venal ou impudico que saiu dos limites aceitveis dos defeitos 
comuns a todos ns. Tenho diante de meus olhos um homem que caiu por sua prpria culpa e no representa mais o risco de vilipendiar os cofres do Estado e a vida 
das pessoas. Tenho que apreciar se merece ou no viver aquele que no teve muita considerao para com a vida dos outros e, se me atrevesse a sentenciar sem o recurso 
 vossa sabedoria, estaria propenso a me conduzir pela mesma estrada espinhosa da vingana, desconsiderando qualquer outra punio que no fosse a mesma que o ru 
dera para muitos dos que se submeteram a ele prprio.
Alguns pedem que eu o mate. Outros, que eu o eduque.
         Nos primeiros, vejo o medo disfarado de prudncia, que pede a morte da vbora para extinguir-lhe a peonha.
         Nos outros, vejo a complacncia que pede para transformar o ru em um modelo para desestimular futuras repeties.
         Por mim mesmo, confesso-me diante de todos vs, me inclinaria pela punio mais drstica, pois este homem foi o responsvel pela impossibilidade de me ver 
submetido ao taumaturgo que poderia ter curado minhas dores. Imaginar que o mais miservel dos judeus poeirentos e malcheirosos pde receber a sua mo amiga sobre 
a fronte e livrar-se de sofrimentos fsicos e morais enquanto que tal beneplcito fora negado ao primeiro dos cidados romanos, aquele que no pedia favores caprichosos 
e sim, apenas, um pequenino alento para que continuasse a ser o mais bem vestido dos escravos do Estado, me infunde uma averso natural contra este governador covarde 
e indigno, culpado pela morte de um inocente ao mesmo tempo em que me sentenciou ao prolongamento de meus dias amargos.
         No entanto, repito, no posso deixar que seja de vingana a expresso de nossa justia.
Assim, peo-vos que me ajudeis a escolher.
         As palavras sinceras de Tibrio ecoavam no altar domstico que existia em seus aposentos privados a fim de que, nele, pudesse confessar-se e receber o apoio 
para as difceis decises que tinha que adotar, no comando do maior Imprio ento existente.
         Acometido de pesada sonolncia, Tibrio procurou o leito, envolvido pelas vibraes estranhas que o conduziriam ao reino espiritual, onde a resposta s 
suas oraes lhe seria concedida, na forma de sonho.
         Quantas vezes, leitor querido, o recurso  orao abrevia tantos sofrimentos em nossos caminhos, pelo simples fato de interromper a avalanche de nossos 
piores sentimentos ou da impetuosidade de nossa ignorncia.
mpeto e ignorncia que nos fazem sempre piorar os nossos destinos e so as portas largas por onde despencam os arrogantes e presunosos.
          Por isso, nas horas de amargura e dvida, ansiedade e dor, confuso e medo, aparta-te do torvelinho que parece querer te destruir e, asserenando teu interior, 
eleva a prece s foras do Universo que te conhecem e te escutam, a fim de que, teu gesto de humildade ateste a existncia, em teu interior, das condies mnimas 
que podero te ajudar a acertar a conduta com relao s leis verdadeiras que nos regem os destinos.
          Tibrio poderia condenar  morte, como a lei humana o permitia fazer. No entanto, reconhecendo-se vulnervel a erros de avaliao, principalmente quando 
trazia o corao envenenado contra o ru, no desejaria ser trado por um sentimento que tiraria a sua imparcialidade na apreciao.
Seria, ele tambm, um outro Pilatos.
          No havia outro homem mais poderoso do que ele a quem pudesse entregar o caso para ser apreciado. No fugiria de julg-lo como lhe impunha o dever que 
desempenhava segundo o melhor de suas energias desgastadas.
         No entanto, em vez de agir como o arrogante que tudo pode, humildemente submetera-se ao juzo supremo que tudo conhece e tudo
dirige, onde esperava encontrar a sabedoria necessria para fazer o que fosse o correto.
Por isso, meus irmos, a orao  esse longo fio condutor que se ergue de nossos sentimentos e pensamentos na direo da sabedoria do Universo, entregando-lhe nossas 
angstias para que elas sejam iluminadas pelas sbias luzes da Verdade, devolvendo-nos ao esprito, no a soluo para os problemas, mas a elucidao dos melhores 
caminhos a serem trilhados.
          E no sonho, muitas vezes, as respostas sutis nos so oferecidas, de maneira que, longe de decidirem por ns, apontam-nos os caminhos mais positivos em 
face das verdadeiras Leis que prevalecem em nossos destinos.
          Durante o repouso fsico, nossos espritos esto em contato mais direto com nossos amigos e tutores espirituais, que velam pelo sucesso de nossa jornada 
humana, em face de nossos compromissos do passado. Assim, recebemos orientaes, conselhos, conhecimentos amplos que nos so revelados ou relembrados, o que permite 
ao nosso esprito agir com liberdade de escolha, mas com melhores bases para a deliberao a ser adotada.
         Ao regressarmos para o corpo fsico, ainda que no nos lembremos conscientemente de tudo o que nos ocorreu durante a noite ou que no vejamos um sentido 
mais lgico naquilo que qualificamos de sonho, nosso esprito regressa trazendo, em sua bagagem, o material necessrio para a compreenso das questes e dificuldades 
a serem enfrentadas e vencidas. Regressa com mais foras, com maior resignao e coragem para passar pelos desafios sem desanimar ou fazer alguma bobagem que o comprometeria 
mais ainda. Traz consigo, intuies mais lcidas, que desabrocharo no momento adequado como se fossem idias maravilhosas que ocorrem de um momento para outro e 
que solucionam boa parte das dificuldades.
         Tudo isso, atravs de um singelo ato de devoo humilde, sincero e verdadeiro, no qual ns nos colocamos diante de Deus com a verdade de nossos defeitos 
e pedimos o amparo para nossas fraquezas e dvidas.
         No  a orao do arrogante que exige pagamento pelas virtudes que pensa possuir e ostenta, orgulhosamente. No  a do ritual cerimonioso e falso que ilude 
os olhos e esvazia o corao.
 o ato de devotamento oculto e sem mistrios ou ritos artificiais.
          Quando entendermos o seu poder, estaremos mais prximos da fonte de todas as Foras e do Vrtice da Sabedoria que nos inspirar nas melhores atitudes e 
solues.
          Experimenta orar dessa maneira e saibas esperar e compreender as respostas de Deus em tua vida. Nunca te arrependers.
         Assim, naquela noite, Tibrio foi retirado do corpo fsico e levado a um plano de energias sutis e agradveis, como h muito tempo ele prprio no divisava 
mais em suas noites longas e cansativas, nas quais era difcil conciliar o sono e, mais difcil ainda, obter bons sonhos.
          Levado por seus protetores invisveis, que puderam ver a sua elevao sincera durante a orao proferida, seu esprito se sentia apequenado diante da grandeza 
do ambiente que o recebia e da luminosidade das entidades que o envolviam naquela hora difcil de seu destino.
          Diante dele, a simplicidade era impressionante e, ao mesmo tempo, tal estado de despojamento impunha uma tal venerao e majestade que, apesar de nunca 
ter tido a necessidade de ajoelhar-se, seu esprito se viu espontnea e naturalmente levado ao solo transparente e cristalino daquele ambiente.
         Como se pudesse existir um mrmore que fosse, ao mesmo tempo, cristalino e luminoso, sua viso, despreparada para os ambientes como aquele, se encantava 
com todos os detalhes e no tinha noo exata de onde  que se encontrava.
          Imaginava ter sido transportado para a morada dos deuses de sua tradio e, no entanto, vislumbrando  sua volta, no via nenhuma de suas esttuas frias 
e indiferentes aos destinos dos homens.
         Ao seu lado, sem que conseguisse divisar com exatido, uma poderosa criatura espiritual o dominava, como um pai generoso e firme conduz um filho imaturo.
         No ousara proferir qualquer palavra, ao mesmo tempo que o seu mais ntimo pensamento era captado e respondido com outro pensamento quase que imediato.
         Enquanto suas emoes o preenchiam e os olhos lacrimejavam sem explicao, a msica maravilhosa inundava o ambiente, como se fosse ela a responsvel pela 
manuteno de toda aquela beleza inexplicvel.
         Nenhuma melodia terrena jamais a poderia igualar em inspirao e grandeza, pois a msica, entre os homens de ento, era uma manifestao quase tribal dos 
instintos mais baixos e agressivos, nos cnticos guerreiros e ufanistas, sem o cunho da universalidade e da bondade idealista.
         Tibrio estava em um silncio profundo e reverente, transformado, de imperador poderoso de homens miserveis, em sdito de foras desconhecidas e elevadas, 
quando um perfume especial e inesquecvel invadiu aquele gabinete cristalino, trazendo em tudo um reflexo de azul nunca entrevisto por seus olhos, mesmo dentro da 
mais bela das grutas existentes na Capri que o abrigava.
Relembrando da emoo sentida quando descobrira o encantamento produzido pela luz do Sol que, num raio fugidio, se projetava pelas frinchas das pedras at a superfcie 
do mar que se ocultava na forma de caverna quase submersa, Tibrio se viu tentado a procurar o raio de sol que, penetrando naquele ambiente, o transformara em um 
espetculo sem paralelo ante seus olhos.
          E to logo divisou a fonte de luzes, percebeu que se tratava de um ser angelical sem comparativo ao qual sua alma estava definitivamente vinculada e de 
quem sentia receber foras e inspirao h muito tempo.
         No compreendia como esse fenmeno ocorria em sua alma. S sabia que tinha uma ligao muito grande com aquele ser que, na verdade, no conseguia lembrar-se 
de onde conhecia.
         No sentia isso de modo convencido ou arrogante. Antes, tratava-se de uma quase vergonha em face de estar diante de tal autoridade moral, ostentando ainda 
tantas imperfeies humanas.
         Afigura majestosa e humilde daquele ser angelical aproximou-se de Tibrio com a sem cerimnia de uma grande autoridade que no se fixa em protocolos banais. 
Na verdade, a presena luminosa tratava o recm-chegado da escurido do mundo com uma natural delicadeza, que produzia a atmosfera de um encontro amistoso, longe 
de intimidar com o receio ou o medo de um julgamento.
         - Meu filho, recebi a angstia que te invade o corao sincero e, em resposta a tuas rogativas, venho em teu auxlio.
         Tibrio no falava nada. S pensava em quem seria aquele deus to imponente que ele no encontrava paralelo em seus cultos de homem romano.
         Respondendo-lhe  indagao silenciosa, o ser angelical prosseguiu:
         - Dia houve, Tibrio, em que almejaste trazer-me  tua presena para curar-te o corpo. No entanto, no era possvel que assim se desse, eis que a vontade 
de meu Pai precisava ser cumprida como o foi.
Eu sou Jesus, a quem buscaste com a esperana de te atender
aos sofrimentos do corpo, mas que venho, agora, para atender aos sofrimentos de teu esprito.
         Tibrio se deixara encantar por aquela personalidade e no fazia outra coisa seno chorar baixinho, buscando equilibrar-se, coisa que s conseguiu fazer 
em virtude da presena decisiva da entidade espiritual que o sustentava naquele ambiente.
E dando prosseguimento  conversao, que no poderia alongar-se em face da diferena de plano vibratrio entre as duas personalidades, Jesus falou-lhe carinhoso:
         - Atendendo aos teus apelos por Justia e Sabedoria, venho para te auxiliar na deciso a ser tomada por teu esprito.  tua a responsabilidade desta hora, 
como foi minha a do clice amargo que aceitei por amor aos meus irmos.
No entanto, olha para nosso querido ru dos tribunais humanos.
E falando assim, Jesus voltou o olhar para o cho cristalino no qual pisavam seus ps descalos, o que foi imitado pelo esprito de Tibrio.
Ali, diante de seus olhos, surgia o vulto escuro e cado de Pilatos.
         Como se uma grande lente de aumento tivesse focalizado a priso Mamertina em seus mais srdidos aspectos, sob os seus olhares estupefatos Tibrio pde divisar 
o homem que tinha o dever de julgar.
          Era uma viso no apenas do corpo fsico e seus esgares de dor ou agonia, revolta ou abatimento, vergonha ou medo.
Era uma capacidade que penetrava o mais profundo do esprito do governador e, em seu ntimo, podia ler as suas angstias, o seu arrependimento tardio, as suas virtudes 
pouco exercitadas ou sufocadas pelos encantamentos do poder mundano.
         Enquanto ia vendo a essncia de Pilatos por entre o cristal do piso que o aceitava como leito de descanso, Tibrio ia-se impregnando de uma compaixo to 
imensa por aquele homem que, vendo-lhe o sofrimento interior pelos eventos longnquos da Palestina, desejou, por um momento, compartilhar com ele tais dores e vergonhas.
         A viso, por si s, falava diretamente ao seu corao de governante poderoso num reino de poeira.
Desvanecida a apario, os olhos de Jesus estavam depositados em seus olhos humanos, como a perscrutar-lhe o mais fundo sentimento.
         Tibrio no tinha como ocultar nada daqueles olhos luminosos e profundos e, por isso, nada fez para fugir  sua penetrao.
         - Eis, meu filho, o peso da conscincia que acusa quando ns no cumprimos os menores deveres que a vida nos impe. Tenho buscado transformar Pilatos, pois 
ele possui virtudes que a maioria dos homens desconhece porque s conseguem ver at o limite das prprias limitaes.
Quem pouco ama, pouco enxerga, Tibrio.
         Assim, atendendo aos teus rogos justos, te apresento, pela lente do Amor, o irmo a quem deves julgar, lembrando-te que, perante as leis do Universo, todos 
ns seremos julgados pela mesma medida com que julgarmos.
         Olvida todo o rancor pela omisso do governador frgil e comprometido, a no te permitir o encontro desejado com os poderes maravilhosos da cura fsica. 
Lembra-te, Tibrio, que todo sofrimento  uma bno educativa e que, nas dores agudas de teu corpo, esto sbios conselhos de prudncia e disciplina que atuaro 
em favor de teu esprito.
         No entanto, apaga de teu julgamento todo o desejo de punir e aceita, na viso que te foi revelada, o sentimento de compaixo que tem sido natural em teu 
esprito que comea a triunfar das tentaes da vida agressiva, em direo s realidades do Reino de Amor.
         Apieda-te do homem cado que j ter as dores suficientes dentro de seu prprio esprito para envergonhar-se de tudo o que fez ou deixou de fazer.
         Ele j  vtima por si prprio diante da Verdadeira Lei. E ainda assim, um anjo tutelar em carne e osso segue seus passos atendendo a meu pedido, defendendo-o 
de si prprio e esperando o momento adequado para que o corao falido, do homem de Estado, abra espao para os sentimentos do homem espiritual a ser reconstrudo.
         Entendendo o sentido da mensagem de Jesus ao seu corao, Tibrio, imediatamente, se viu defrontado pela dura situao que lhe havia sido apresentada pelos 
senadores.
         Tinha impulso de perdoar Pilatos, permitindo que tivesse uma vida modesta em algum lugar, sem glrias ou honrarias, a fim de que ele prprio encontrasse 
meios de se reerguer moralmente.
         No entanto, as artimanhas humanas o haviam colocado entre a morte e a punio cruel do degredo e da humilhao - maneira de punir exemplificando.
Vendo-lhe a angstia ntima, o Mestre prosseguiu:
- Naturalmente, os homens possuem suas leis e no pretendo
que se rompam os cdigos que atestam sempre o nvel evolutivo dos que os produziram.
         Apenas, Tibrio, que teu ato preserve a vida, ainda que te vejas obrigado a agir de acordo com os deveres legais que a ti tambm escravizam. Alm do mais, 
o ato de julgar no impedir que teus sentimentos possam atenuar os amargores do exlio com concesses generosas que venham a diminuir os rigores da condenao que 
a prpria conscincia de Pilatos ir produzir em seu interior.
Nosso irmo ainda no est de posse de todos os efeitos e conseqncias de seus atos. Quando isso se der, no sero excessivas todas as medidas que possam tentar 
trazer um pouco de paz ao seu corao.
         Sentindo que um torpor ia tomando conta de sua percepo, Tibrio procurou divisar aquele ser angelical e infinitamente superior que se fazia pequeno e 
amigo para que, antes de perder a conscincia, pudesse falar o que seu corao tanto sentia.
         Olhando a figura augusta daquele esprito e, amparado pela fora magntica de seu sustentador naquele ambiente, Tibrio esforava-se por articular palavras 
que no saam por causa de seu receio de proferi-las naquela atmosfera de imensa santificao.
Percebendo-lhe o esforo, Jesus sorriu-lhe e disse:
- Fala, meu querido Tibrio.
E, emocionado at o mais fundo de seu ser, o imperador criou foras para dizer:
- Perdoa-me as falhas, meu senhor...
         Jesus acercou-se do homem abatido pelos esforos de dirigir uma turba de indivduos incivilizados no esprito e por ser, igualmente, to dbil na alma quanto 
quaisquer dos que tinha o dever de guiar e acariciou-lhe os cabelos com uma ternura inesquecvel, dizendo:
         - Lembra-te, Tibrio: Eu te Amo, tenho-te como meu amigo e tambm necessito de ti.
         Um raio de fora penetrou-lhe o esprito e, nesse momento, o imperador se viu reconduzido ao corpo como se casse de incomensurvel altura.
         Acordou aos prantos no meio da noite, com a certeza de que algum ser muito superior lhe havia respondido  solicitao da prece sincera e, com tudo o que 
estava sentindo, tinha certeza de que no lhe competia matar aquele homem.
Havia sido ajudado a compreender-lhe o peso de suas prprias
escolhas e no iria propiciar que lhe fosse negado o momento do arrependimento.
         Assim, envolvido pela convico serena e justa daquela hora, no mais pensou nos prejuzos que Pilatos tinha lhe produzido e, pegando papel e a pena com 
que redigia seus documentos imperiais, escreveu ao Senado romano, deliberando pela segunda opo que lhe apresentavam, ou seja, o banimento do governador, sem qualquer 
considerao pelo desejo de matar que tinha sido aventado na outra petio que se lhe submetera.
         Argumentou, segundo sua larga experincia na conduo dos problemas de governo, e determinou que, uma vez que houvera sido entregue a ele a funo de dar 
o destino do governador, optava por transform-lo no exemplo pedaggico a fim de educar os demais procuradores com funes de governo.
          Por isso, remetia o ru ao exlio na regio de Viena, depois de ser destitudo de todos os ttulos que recebera do Senado romano.
Envi-lo para longe, segundo sabia Tibrio, era a maneira mais eficiente de preservar-lhe a vida, principalmente porque Pilatos havia feito sua carreira pblica 
na regio fronteiria entre as provncias da Glia e da Germnia, onde, naturalmente, devia possuir, at aqueles dias, seus antigos camaradas que tornariam menos 
melanclica a sua vida e serviriam de companheiros para sua velhice.
         Ao mesmo tempo, isso impediria que, mais cedo ou mais tarde, as aves agourentas que voavam nos cus de Roma viessem lhe trazer o veneno sutil que o matasse 
covardemente sem deixar rastros dos assassinos para que pudessem ser julgados.
         Assim, definiu as linhas gerais da punio a ser apresentada  deliberao dos senadores que, por respeito e temor em contrariar o desejo do imperador, 
mais no fizeram do que acatar-lhe as decises e providenciar para que a punio fosse aplicada ao ru da maneira mais espalhafatosa e humilhante possvel.
         J que no iriam conseguir matar-lhe o corpo, matar-lhe-iam a honra e o respeito.
         Esse foi o empenho da maioria dos que se viram vencidos pela escolha de Tibrio. Os que queriam a morte de Pilatos passaram a organizar a sua derrocada 
poltica no seio do mais imponente dos tribunais, abaixo apenas do prprio Csar.
         A cerimnia na Cria, onde se reunia o senado, seria imponente para demonstrar o seu poder e humilhante para desestimular futuras repeties e, ao mesmo 
tempo, para diminuir o ru, despindo-o de todas as honras para as quais sua conduta o tornou indigno.
         Assim, marcado o dia, levaram o ru at aposentos adequados, onde o fizeram vestir-se com a antiga pompa dos militares investidos da governana de provncias 
romanas.
          Depois de terem feito com que ele se colocasse sob o antigo fulgor e vestido das insgnias mais importantes que o Senado e o Imprio lhe haviam emprestado, 
foi conduzido  cerimnia oficial, na qual seria apresentada a sentena condenatria pelos crimes cometidos e, uma depois de outra, retiradas todas as suas insgnias 
na frente de todos, para sua prpria vergonha, reduzindo-o  modesta tnica romana que servia de vestimenta normal dos mais simples cidados.
Em cada uma das etapas, a turba composta de senadores venais, seus antigos aliados, familiares e seus apadrinhados, exultava e manifestava seu desejo de que Pilatos 
tivesse aprendido a ser digno do Imprio com a prpria morte.
          No faltou quem lhe cuspisse no rosto e, entre os mais exaltados, o governador entrevira a face de muitos de seus antigos comparsas, de seus mais prximos 
colaboradores que, agora, mudada a mar da sorte, tratavam de abandon-lo  solido de sua misria.
         Nesse momento doloroso para seu orgulho patrcio, Pilatos tinha mpeto de gritar perante todos os senadores as acusaes violentas que tinha contra muitos 
daqueles homens que se elevavam como padres de virtude, mas que, sabia ele, eram aves de rapina to ms ou piores do que ele mesmo, a quem incumbia fazer o trabalho 
sujo.
         No entanto, ao mesmo tempo em que sua boca ia abrir-se para revolver o lodaal da maldade e da perverso, surgiu-lhe na mente a figura aflita de Jesus de 
Nazar, no dia de seu julgamento.
E o seu exemplo de coragem e altivez, associado agora, ao conhecimento de que Jesus mandara um emissrio que pudesse proteg-lo e ampar-lo nas horas difceis do 
martrio que o esperava, acalmaram o seu mpeto de igualar-se aos acusadores maldosos.
         Sentira-se abandonado, perdendo todos os bens que tanto exaltavam seu carter e seu orgulho, cuspido no rosto pelas mesmas criaturas que o adulavam e, numa 
estranha sensao, igualmente crucificado moralmente, sem que ningum se animasse a lhe estender um copo de gua.
         A imagem de Jesus se avultava em seu ntimo, como exemplo de coragem e de fora que s  compreendido quando a criatura tem de passar pelas mesmas dores 
ou injustias.
Agora, entendia bem aquele que lhe parecera um ser miservel

ridicularizado pelos seus irmos de raa e que, sem dizer uma palavra, tudo suportara e tudo aceitara sem revolta.
         Ainda no conseguia deixar de se revoltar, pois seu ntimo era um vulco incandescente. No entanto, Jesus o acalmava, fazendo-o compreender a hipocrisia 
dos homens e a sua fragilidade na hora de estarem em cheque os seus interesses.
         Ele prprio procedera dessa maneira com Jesus, aceitando as presses de seus associados na venalidade para condenar o inocente.
         Agora, era a sua vez de ser considerado o ru a ser descartado na cena das perverses coletivas.
         A cerimnia amarga e de baixeza moral constrangedora chegou ao fim, com a leitura da sentena proferida por Tibrio, encaminhando-se o prisioneiro  mesma 
cela que o abrigara, dias antes, para que esperasse o momento adequado para ser despachado para o exlio forado.
         O corao abatido de Pilatos recolheu-se ao silncio mido de sua cela, reduzido  misria tal que no se via mais ali, nem a sombra do arrogante governador 
romano da Judia.
          Era um trapo fsico e moral, sobre o qual as leis do universo esperavam o momento adequado para esculpir o homem melhorado do futuro.
Por isso, Zacarias estava a postos atendendo ao pedido de Jesus.
imediato ao seu regresso  priso, Zacarias, que fora avisado por Lucilio na reunio noturna da vspera sobre a chegada de Pilatos, compareceu perante o prisioneiro 
que, naturalmente, se encontrava em pssimo estado emocional.
          A chegada do amigo que Jesus tinha designado para o ex-governador no teve o poder de retir-lo do seu abatimento, apenas lhe propiciando uma modificao 
pequena na disposio ntima.
         - Eu no valho nada, Zacarias. Estou atirado na misria moral e, ainda que fosse o mais rico de todos os homens, meu estado atual  o da falncia completa.
         - No diga isto, meu filho. Ns nunca estamos pobres quando nos apegamos a Deus e  bondade de Jesus, que tudo fazem para que ns tenhamos coragem para 
suportar as dores da hora amarga do testemunho.
         - Eu compreendo melhor, agora, o que aconteceu com o Justo, naquele dia fatdico de seu destino entre os homens.
- Como assim? - indagou o apstolo.
         - Bem, muitas das coisas que aconteceram a seu Mestre, de maneira parecida ocorreram comigo, perante os romanos, meus patrcios.
         Jesus foi abandonado por todos. Eu tambm. Ele foi preso injustamente. Eu, pelo menos, no cometi nenhum delito que a maioria dos que me julgaram no tenham 
cometido. Jesus se viu cuspido. Eu tambm. Seus amigos se afastaram dele e o acusaram. Comigo, a mesma coisa. Ele acabou crucificado fisicamente para que os fariseus 
se livrassem de sua presena incmoda e eu acabo de ser crucificado moralmente, a fim de que os romanos corruptos como eu se vissem livres de minha presena perigosa 
e incmoda. Apenas que a Jesus,

mataram-lhe o corpo, enquanto a mim, exilaram-me para longe a fim de matarem minha alma.
Ouvindo-lhe as comparaes, Zacarias percebia que Pilatos j se referia a Jesus de uma maneira mais profunda, nas comparaes e anlises que fazia, sem pretender 
comparar-se moralmente ao divino Amigo.
         - A insensatez humana  a mesma sempre e em todos os lugares, meu senhor, e no importa o que sejamos hoje, pois o amanh pode nos tirar tudo o que parecamos 
possuir e nos restituir  verdade de nossa insignificncia.
          Lembre-se de quantos imprios to grandes ou at maiores que j existiram sobre a Terra e que, hoje, no passam de lendas e histrias de conquistas e glrias 
que se perderam no tempo. Assim so os homens, Pilatos. Pequenos canios atirados pela brisa para um lado ou para o outro. E dentre ns, a quem pertencer a culpa 
de ter se achado poderosa figueira quando no passava de simples graveto? Certamente que no  a Deus que se deve culpar. Ns nos iludimos, nos deixamos levar pela 
vaidade e pelo desejo de poder, como se isso passasse a fazer parte de nossa personalidade, quando, em realidade, as coisas no so assim. Nossa personalidade se 
revela em dois momentos, Pilatos.
         O primeiro deles  quando somos guindados  condio de liderana, seja por termos recebido o mando ou o dinheiro, o que nos permite arroubos maiores, posturas 
de direo e de comando. Nessas horas, os que se pensavam humildes e pacficos, muitas vezes se revelam arrogantes e belicosos, lutadores para manterem seus privilgios 
a qualquer preo, mesmo o da violncia fsica e da coero moral.
         Abandonam a postura da obedincia e vestem a toga da autoridade com a qual pretendem escravizar os outros, indo  forra de todas as frustraes que tiveram 
de engolir no perodo em que eram um "nada", no meio dos outros "nadas."
         Agora que subiram de posio, sentem prazer em humilhar os outros para dizer-lhes, com isso, que continuam "nadas", mas que eles, ao contrrio, subiram 
de posto, passando a ser-lhes superior.
          Essa  a primeira ocasio em que o homem tem a sua essncia revelada, quando deixa o anonimato e recebe as luzes do poder, qualquer que seja o tipo de 
mando ou realce que lhe chegue s mos.
          O segundo momento em que a personalidade humana se revela  quando aquele que detinha o poder ou as vantagens da vida faustosa e regalada perde tais benefcios 
e se v projetado no abismo do anonimato, passando a ombrear-se com os pobres ou miserveis, com os nadas, como so considerados os deserdados da sorte ou dos favores 
invisveis.
         Tambm nessa hora, meu irmo, a nossa personalidade aflora, no comportamento rebelde, envergonhado, derrotado e deprimido, muitas vezes autodestrutivo. 
Creio, Pilatos, que se o primeiro momento leva o homem do anonimato para a glria, empolgando-o com a seduo perigosa do brilho fcil, a segunda experincia que 
agora estamos mencionando afeta mais profundamente o nimo da criatura porque ela perde as vantagens que acreditava serem suas por toda a eternidade e regressa  
massa disforme dos despossudos.
         Assim, ver-se humilhado di muito. Ao passo que com aquele que recebe o fardo difcil do poder, em seu ntimo se d o oposto, com a exaltao da sua personalidade. 
Neste, o homem precisa ter sabedoria para no se empolgar. Naquele, deve ter coragem para suportar a vergonha com resignao.
           por isso, Pilatos, que s sabemos quem somos quando passamos por estas fases na vida.
          Quantos homens altivos e lutadores para conquistar o poder, so verdadeiras crianas quando so alijados de suas conquistas.
         Ter sabedoria para subir e coragem para enfrentar as quedas representa desenvolver no ntimo as qualidades morais que so importantes para a nossa melhoria 
definitiva.
          No basta ter equilbrio para mandar.  indispensvel ter coragem e resignao para encarar com naturalidade as quedas, pois elas no so quedas espirituais. 
So reveses materiais que podem elevar o esprito que as aceita com equilbrio tambm.
         A palavra de Zacarias descortinava um novo horizonte para os temores de Pilatos que, acostumado  gangorra da vida que sempre o mantivera no alto, agora 
precisava aprender a entender as coisas depois que se viu forado a permanecer no baixo.
Nunca havia pensado desta maneira.
Estava acostumado a lutar para se manter sempre acima dos outros e via com desdm e como prova de inferioridade todos os que no tinham conquistado os privilgios 
e realces que ele prprio obtivera.
         Alm disso, as aparncias sociais, em todos os tempos, serviam para que as pessoas se avaliassem superficialmente em suas capacidades individuais, num processo 
de comparao e competio. Assim, aqueles que Pilatos via em piores situaes materiais ou polticas mereciam o seu desprezo porque apontava para a sua incapacidade 
na conduo de sua prpria vida.
         A maneira de viver que o governador ostentou at ento, s havia lhe garantido a possibilidade da elevao, deixando para trs de si muitos a quem qualificara 
de derrotados ou fracos.
         A maneira como a vida iria fazer o governador viver, agora, lhe garantiria a possibilidade do rebaixamento, tendo de aprender a conhecer que a derrota material 
no representava, necessariamente, demrito para o indivduo.
          S quando passara pela experincia da perda, tivera o bom senso de se colocar no lugar daqueles a quem julgava como indignos ou fracos.
         Tudo isto estava aprendendo com a postura sbia daquele velhinho sorridente que se erguia diante de seus olhos como o pai que h muito perdera pelas estradas 
da vida fsica.
         - Sim, Zacarias,  verdade. Os momentos mais amargos foram aqueles em que vira os mesmos corruptos, que se beneficiavam com os golpes ou as tramias financeiras 
que eu realizava para abastec-los de riquezas, me cuspirem e xingarem como se nunca tivessem se locupletado.
         Nas horas em que via a fantasia fingida levantar-se como moralistas de ocasio, acusando-me e pedindo a minha morte, eu tinha mpetos de gritar na face 
de cada um todos os seus erros e pedidos de mais dinheiro. Tinha o desejo de desmascar-los perante aquilo que eles consideravam um tribunal, mas que me parecia 
mais um teatro de quinta categoria.
         Quando estava a ponto de vomitar-lhes as acusaes, numa maneira de ferir-lhes a dignidade com a nudez da verdade, a imagem do Justo surgiu em meu pensamento 
e eu me lembrei de sua postura sofrida e sbria diante de todas as mentiras e indignidades que lhe imputavam. Aquilo tambm era uma encenao de julgamento. No 
fora obedecido qualquer procedimento de Justia ou de Verdade. Ao contrrio, todos ali sabiam que ele era inocente. Mas isso no impediu de violentarmos seu corpo 
e humilharmos seu esprito. E, no entanto, agora que o tempo passou, a sua conduta melanclica e silenciosa, suportando a maldade de nossos atos sem uma s acusao, 
recoloca as coisas dentro da realidade. Por que se defenderia se ali no havia direito a garantir-lhe a palavra e a verdade? Se aquilo era um teatro para fazer pensar 
aos homens que se tratava de julgamento, apresentar uma defesa seria concordar com a encenao. Se nada iria alterar o julgamento condenatrio, nada havia para ser 
dito em defesa de direitos que no seriam observados.
          E esse pensamento, na hora extrema de meu sofrimento moral, quando o chicote do castigo caa sobre minha posio de homem de Estado, para vergonha de minha 
individualidade aos olhos dos meus irmos de raa, atenuou em mim qualquer desejo de vingana. Ser que a vida tambm no os conduziria a esse mesmo teatro mentiroso 
para que encenassem o papel dos condenados mais cedo ou mais tarde?
E se o poderoso exemplo de Jesus no me saiu da cabea e me ajudou a mudar a minha reao animalesca, ainda que eu me sinta injustiado e propenso a agredir os meus 
agressores, quem sabe se a minha absteno de qualquer acusao no produzir o mesmo efeito na conscincia dos meus acusadores? Isso foi o que pensei ou, no sei 
bem, o que alguma fora mais sbia e poderosa do que tudo me fez pensar.
         Atingindo esse momento da conversao, Zacarias procurou levar o preso a meditar sobre a importncia do perdo, como fonte de alvio interior.
         - Pelo que voc est dizendo, meu filho, a sua alma j est entrevendo as vantagens do perdo como recurso para sua prpria elevao moral.
         - No sei se  isso, Zacarias. No entanto, o perdo sempre foi, para os romanos, um exemplo de covardia e fraqueza. Acostumados a combater e lutar, invadindo 
e escravizando, nunca tivemos que avaliar o perdo pelo prisma de termos sido feridos e desculparmos. Com certeza, pesa sobre nossas cabeas muitos atos que precisaro 
ser perdoados pelas nossas vtimas. No entanto, para os que invadem e conquistam, poucas vezes surge o momento em que tenham de aprender o que seja perdoar as agresses 
sofridas pela porta da injustia.
         - E  nessa condio, Pilatos, que a bondade de Deus se revela para os homens. Deus est sempre a nos perdoar todas as agresses que cometemos contra ele, 
contra o mundo que ele criou, contra os nossos semelhantes que tnhamos o dever de acolher com carinho e respeito. O exemplo de perdo parte do Criador que poderia, 
num simples lance de vontade, exterminar todos os homens, pois possui poder para tudo fazer, tornando Roma uma mera lembrana no tempo.
         Quando voc se livra dos dios do corao, seu esprito se eleva e sua mente flutua em uma outra regio, que alivia as nossas angstias e melhora nossa 
sade.
         Quem no  capaz de perdoar, no vive em paz nunca. E o perdo que a Boa Nova pede, o absoluto esquecimento das ofensas, s  difcil de oferecer porque 
ns somos muito arraigados  vingana ou ao sentimento de autocomiserao. Se no dssemos tanta importncia ao nosso ego, se no fssemos to vaidosos e orgulhosos 
de ns prprios, no seramos to vulnerveis a ofensas alheias.
         Agora, enquanto no conseguimos perdoar, por falta de experincia ou de tentativa de compreendermos estas verdades, iniciemos por tolerar as ofensas alheias 
sem desejarmos revid-las na mesma moeda.
Jesus nos ensinou tudo isso.
           382 E ouvindo a referncia a Jesus, Pilatos interrompeu Zacarias, para
dizer:
         - Como eu gostaria de ter escutado as pregaes desse Justo. Hoje, eu daria tudo para que as suas palavras me chegassem abundantes aos ouvidos e ao corao 
seco e spero como o meu.
          E j prevendo a possibilidade desse momento surgir na vida de Pilatos, Zacarias retirou de uma pequena bolsa de couro um rolo de pergaminho e o entregou 
ao preso.
- Aqui est, Pilatos, o que voc est pedindo.
         Sem entender o que era, o ex-governador permaneceu olhando para Zacarias, indagando-lhe em silncio.
- Sim, homem, pegue...
         - Mas o que  isso? Mais um presente comprado com dinheiro de no sei quem? - falou envergonhado o prisioneiro.
         - No, Pilatos, isto  a palavra pregada por Jesus que ele me incumbiu de lhe trazer nesta hora difcil de sua vida. Aqui esto as anotaes que o seu seguidor 
Levi efetivou para as nossas lembranas e que todos ns temos copiado e recopiado para aprendermos e para passarmos para outros.
Espantado com o presente inesperado, Pilatos refugou:
         - No posso aceitar como um presente, Zacarias. Isso  uma relquia de todos vocs, os fiis seguidores do Justo. Contento-me com as suas palavras que me 
educam e edificam. Eu no mereo isso.
         - Claro que merece, meu irmo - falou Zacarias com a voz embargada pela emoo. Aqui voc encontrar muitas coisas que lhe consolaro o esprito nesta hora 
de dificuldades e, enquanto eu me coloco longe por causa da impossibilidade de estar constantemente ao seu lado, voc vai lendo e aprendendo por si mesmo.
         - Mas isto lhe pertence e deve ter muito valor para que voc se desfaa desse jeito!
         - Lembre-se, Pilatos, s  nosso aquilo que ns damos para os outros. Por isso, a resposta a esta pergunta  SIM. Isto  to meu que eu o estou entregando 
a voc. J decorei todas as linhas e, alm disso, possuo outras cpias que esto sendo entregues para outros simpatizantes da mensagem de Jesus. Agora, no perca 
tempo com as derrotas transitrias da vida. Aprenda a seguir adiante, com a cabea posta no cu.
         Leia e reflita sobre tudo isto, pois, to logo me seja possvel, regressarei para continuarmos nossas conversas.
Falando assim, Zacarias despediu-se, deixando as anotaes evanglicas com o preso que, a partir daquele dia, passou a dedicar-se  sua leitura e meditao.
          Cada afirmativa dessa nova doutrina era uma surpresa para seu esprito arguto e curioso.
E cada descoberta mais ampliava a admirao por esse emissrio celeste que esteve entre os homens e que padeceu injustamente diante de seus olhares impotentes.
          Onde estariam os deuses de pedra a quem aprendeu a prestar culto desde criana? Quando  que um deles poderia falar assim e consolar o corao como esse 
Jesus o fazia?
         Agora que ele estava na condio do abatimento, entendia as afirmativas de Jesus: "Eu vim para os enfermos, no para os sos. Bem-aventurados os aflitos, 
ajuntai tesouros no cu onde os ladres no roubam e onde a ferrugem no corri, se algum te bater na face direita, oferece-lhe tambm a outra...".
         Enquanto isso, l fora, as reunies na estalagem de Jonas prosseguiam cuidadosas, porque desde o tempo de Augusto, havia a proibio de reunies pblicas 
para se evitarem as sedies e os movimentos que se multiplicavam nas aglomeraes. Por isso, era vigente em Roma a lei que proibia os encontros de grupos, os quais 
s poderiam se reunir nos circos por ocasio das festividades ou nas cerimnias oficiais quando se cultuavam os deuses da tradio.
          Por este motivo, a presena de Lucilio acabara sendo aceita com facilidade, j que, apesar de ser romano, a sua condio de centurio fornecia ao evento 
uma caracterstica que o afastava de qualquer movimento revolucionrio, caso fosse descoberto.
Todavia, isso iria modificar-se em breve.
         Assim que soube da situao definitiva de Pilatos, e entendendo que o prisioneiro seria enviado para lugar muito distante, o centurio se preocupou em adotar 
as medidas necessrias  segurana do romano cado em desgraa.
          Primeiro porque sabia que poderiam, apesar da deciso do senado, tirar-lhe a vida antes que partisse.
         As muitas intrigas na metrpole produziam mortes misteriosas que enchiam as tumbas de inocentes ou suspeitos de crimes no cometidos.
         Alm disso, sabendo do papel que Zacarias desempenhava na vida de Pilatos, por incumbncia do prprio Jesus e que ele prprio, Lucilio, acatara como sua 
a tarefa de ajudar o velho apstolo a conseguir concretizar o objetivo do Messias, o centurio sabia que no poderia deixar que o governador se afastasse de sua 
influncia.
         Desse modo, buscou as influncias que tinha  sua disposio para solicitar que ele pudesse ser o responsvel pela guarnio que levaria o preso at seu 
destino final, em Viena.
          Naturalmente, havia poucos soldados que, estando vivendo na capital imperial, desejariam dela sair para serem enviados em misses to distantes quanto 
duras como aquela.
          Por isso, e alegando j estar familiarizado com o prisioneiro, pois era responsvel por ele desde a sua chegada a Roma, Lucilio conseguiu que tal comando 
lhe fosse concedido, podendo escolher a escolta que melhor lhe parecesse para o desempenho da misso.
         No  demais dizer que, perante algumas autoridades mais importantes, a sua argcia teve de se revelar mais apurada, em face de que, para que concordassem 
com o seu pleito, desejavam obter de Lucilio a concordncia com o assassinato de Pilatos, durante a viagem ou logo aps a chegada ao destino.
         Tais autoridades no pediam isso claramente, mas atravs de insinuaes nas entrelinhas, procuravam sondar o nimo do centurio para que aceitassem colocar 
como chefe da escolta algum manipulvel a ponto de concordar com o assassinato do escoltado.
          Lucilio, conhecendo os meandros ptridos do poder, se fazia de simptico  causa, partilhando, da boca para fora, das prevenes que os romanos demonstraram 
contra o governador, dizendo, inclusive, que desejava escolt-lo para fazer pesar sobre ele mais humilhaes por sua indignidade. No pretendia que Pilatos tivesse 
uma viagem de recreio.
Torn-la-ia um martrio para o preso.
         Com tais posturas de ostensiva antipatia, Lucilio comprou a concordncia dos que deveriam autorizar-lhe a chefia da escolta, que passaram a acreditar que 
ele era o homem certo para tirar o problema do caminho, quando chegasse a hora.
         Uma vez fixada a sua liderana, no faltaram pessoas que, na calada da noite, vieram at ele com propostas para que, to logo se ausentassem do territrio 
romano, ministrasse o veneno letal na bebida do prisioneiro, a fim de que ele no chegasse vivo ao destino.
         E para no levantar suspeitas, j que tais enviados poderiam estar sendo mandados pelos que lhe haviam autorizado a chefia da expedio punitiva, Lucilio 
recebia os embrulhos e dizia que, to logo se apresentasse a oportunidade, iria cumprir a sua tarefa.
         Para no se comprometer diante da verdade, que passara a conhecer depois que encontrara Jesus, jamais disse que mataria Pilatos, preferindo usar a expresso 
genrica de que, no momento adequado, iria cumprir sua tarefa.
          Essa referncia acalmava os nimos dos mais exaltados, que j se aliviavam pensando que a morte de Pilatos era uma questo de semanas.
         Assim, com a garantia conseguida com a sua nomeao, Lucilio sabia que isso lhe permitiria levar Zacarias consigo, ainda que, para tanto, o ancio no fizesse 
parte da caravana oficial, mas viajasse como um annimo passageiro.
         O roteiro da viagem inclua uma parte em navio, at o porto de Massilia, de onde o contingente se deslocaria por estrada para o norte, em direo ao destino 
final de Pilatos.
         Com isso, os judeus da estalagem de Jonas, que se estavam convertendo ao Cristianismo, na empolgao das primeiras luzes na sede do Imprio, temeram o afastamento 
tanto de Zacarias quanto de Lucilio de suas reunies.
         Todavia,  fora da argumentao evanglica do apstolo devotado, o grupo no se desfez e prometeu dar continuidade quela clula de esperana no caminho 
dos aflitos que viviam na grande Roma indiferente e depravada.
         Zacarias acatou as deliberaes de Lucilio com gratido e considerao j que teria muitas dificuldades em conseguir seguir Pilatos se no fosse a diligncia 
do centurio, igualmente devotado  causa de Jesus.
         Assim, arrumadas as coisas para a partida, encontraremos Lucilio e um grupo de quatro soldados de sua confiana, procedendo  escolta de um Pilatos reduzido 
 msera condio de um degredado que perdera o vio de outros tempos e tendo, por perto, a figura nobre e corajosa de Zacarias que, pela influncia de Lucilio, 
fora admitido a bordo como um amigo ntimo de sua famlia que seria levado para a Glia, valendo-se de sua proteo, sem levantar nenhuma suspeita.
          Roma ficaria para trs, com seu cortejo de maldade e sordidez para que, gradualmente, o trabalho silencioso de pessoas como Jonas e seus amigos convertidos, 
fosse esculpindo sobre o velho mrmore dos vcios, as formas novas da escultura da Verdade, nas linhas do bem, sob o esforo do cinzel da caridade.
          Conquanto se tomavam as medidas necessrias  transferncia do prisioneiro, as foras do mal, representadas pela maldade guardada no ntimo das criaturas, 
se movimentavam para conseguir destruir Pilatos.
         A disposio de Tibrio em preservar-lhe a vida fsica, ainda que lhe impondo os necessrios corretivos  conduta administrativa e pessoal inadequadas, 
contrariou vrios interesses de importantes romanos que desejavam t-lo matado para se livrarem do risco de desagradveis revelaes, o que continuaria a ser possvel 
enquanto Pilatos vivesse, ainda que distante de Roma.
         Desta forma, muitos de seus antigos cmplices se movimentavam  sombra, como j se explicou anteriormente, para possibilitar-lhe a morte imediata.
         Dentre eles, no entanto, Flvia era a mais astuta das adversrias, usando toda a sua argcia e as tcnicas da seduo como armas para as suas tticas se 
revelarem vitoriosas.
         Desejava matar aquele amante convencido e fraco, que lhe servira na exata medida em que possua poder e dava a impresso de aceitar-lhe o domnio feminino.
         Ser amante de um governador, no importando tratar-se do prprio cunhado, na viso daquela mulher volvel, era algo que a enaltecia.
         Ter sido amante de um preso, cado em desgraa, sem nenhum privilgio ou importncia, agora, era coisa que poderia destru-la, moral e materialmente.
         Por esse motivo fundamental, ao qual se somava o orgulho ferido nos ltimos anos, quando se sentiu trocada nas predilees do governador pela romana Lvia, 
Flvia estava determinada a produzir a morte mais cruel e rpida possvel, encobrindo desse modo o prprio
passado delituoso, ainda que dele soubessem muitos homens igualmente corrompidos pelos costumes dissolutos de cada civilizao.
          Desde que soubera que Lucilio Barbatus seria o responsvel pela escolta de Pilatos, providenciou ela uma das ofertas que lhe chegou com portadores, fornecendo 
o veneno necessrio para a finalidade j mencionada.
         Como j dissemos, para que no levantasse suspeitas nos seus superiores, alguns dos quais, manipulados pelas foras ocultas, desejavam igualmente facilitar 
o assassinato de Pilatos, Lucilio aceitava as doses do corrosivo letal, como a dizer que estava de acordo com a sua utilizao, no momento adequado.
          No entanto, to logo soube quais eram os outros quatro soldados que serviriam de pequena comitiva militar, Flvia no se contentou em contar apenas com 
a possvel ao de Lucilio.
Dentro de seus dotes sedutores, houvera se relacionado com um dos soldados que haviam sido escolhidos por Lucilio, a quem encantara com sua beleza e com quem se 
relacionara mais intimamente por se sentir atrada por homens mais jovens e fisicamente mais bem torneados, o que era fcil de se encontrar entre os soldados.
         A sua relao com Svio no tinha o contedo de qualquer ambio poltica que a levara a agir da mesma maneira em outras ocasies. Era fruto, to somente, 
da empolgao emocional e fsica de uma mulher com o desequilbrio do centro da emoo a lhe empurrar para os caminhos do excesso sexual.
         No entanto, Svio se apaixonara por ela e, a despeito de respeitar-lhe a situao pessoal e no ser capaz de exp-la a riscos que acabariam ferindo-o tambm 
na carreira a que se prendia, estava sempre disposto a se entregar a qualquer aventura que ela lhe solicitasse.
Enceguecido por essa paixo to danosa para aqueles que a vivenciam sem lhe colocar o freio da razo e do bom senso, Svio recebeu uma pequena comunicao, escrita 
em cdigo previamente estabelecido, que o convidava a um novo encontro.
         Nela pde identificar o desejo de Flvia que, naturalmente saudosa de seus braos, havia providenciado a situao favorvel para que o encontro ilcito 
pudesse ocorrer.
         Seria na noite do mesmo dia em que a mensagem lhe fora entregue por um annimo portador.
          Prelibando as emoes que seria capaz de sentir com aquele encontro de corpos desassistidos de equilbrio, Svio nada comentou com nenhum de seus amigos 
e, quando a noite se aproximou, desculpou-

se alegando algum inconveniente na preparao da prpria viagem at Viena e, na hora marcada, no local combinado, l estava ele, perfumado e levemente vestido, esperando 
a chegada de sua provocante amante de ocasio.
         Flvia, apesar de no ser mais uma mocinha, guardava as linhas belas que lhe foram famosas na adolescncia, em um meio to depravado como o de Roma.
         Sua feio suave encantava ao primeiro olhar e ningum poderia dizer que, sob a beleza de seus traos delicados, uma vbora se escondia, astuta e perigosa.
          Naquela noite, em especial, havia se paramentado com maior cuidado a fim de produzir maiores emoes, j que, como dizia a mensagem codificada, seria um 
encontro de despedidas entre eles, em face da partida do amante para longe de Roma.
         Tal desculpa servia perfeitamente aos seus propsitos e encobria o fato de ter pressa em encontrar-se com o soldado por outros motivos.
Eufrica e alegre, homenageando com tais sentimentos, aparentemente sinceros, o orgulho msculo do soldado com quem se deitaria, Flvia envolveu-o com os braos 
e depositou em seus lbios um beijo apaixonado, saudando-o carinhosamente.
         - Pois ento, depois de me fazer tanta falta desde o ltimo encontro, agora foge para longe de mim, meu Csar amado - falou, voluptuosa, entregue aos msculos 
fortes que a acolhiam igualmente no peito vigoroso de Svio.
         Corado com a referncia imperial com que Flvia sabia tocar a vaidade masculina, Svio sorriu-lhe meio sem jeito e respondeu:
         - Por mim mesmo, deusa de minhas preces, eu ficaria para sempre aqui ao seu lado. No entanto, no me perteno e estou atendendo a chamamento de um amigo 
para seguir com ele na conduo do prisioneiro at seu destino.
         - Ah! Sim... pois ento o meu amante j est me trocando por um bando de homens... - disse ela sorrindo matreiramente.
         - Claro que no. Seria o ato de um louco trocar o perfume pelo mau cheiro. No entanto, penso que tal viagem ser rpida e, no prazo de pouco mais de um 
ms, acredito, terei sido liberado da tarefa e poderei voltar aos seus braos.
         - Bom, se voc me garante que ser assim, nossa ltima noite ser de sonhos para o futuro e no de despedidas amargas.
Novos beijos se trocaram e, buscando produzir em Svio a

ruptura dos freios do raciocnio seguro, envolveu-o em um tal processo de seduo que o cativaria com ainda maior intensidade.
Foi muito mais carinhosa e despertou mais e mais desejo em seu cmplice a fim de que, de maneira mais fcil, conseguisse chegar ao ponto e obtivesse o seu auxlio.
          Depois que as emoes estavam elevadas  mais alta voltagem e que sentia que Svio estava em suas mos, Flvia confessou-lhe que havia uma coisa muito 
triste que lhe feria o corao profundamente.
         Sentindo que a lembrana de tal fato poderia estragar-lhe a noite e impedir-lhe a consumao de seus prazeres, Svio buscou inteirar-se com o mximo de 
ateno sobre a fonte das preocupaes de Flvia.
         Assim, depois de fazer-se de rogada com a desculpa de que no queria levar-lhe problemas pessoais, Flvia aceitou a insistncia de Svio e revelou-lhe o 
motivo.
         - Sabe, meu querido, estou ferida assim por causa da situao de minha irm. Cludia sempre foi muito generosa para comigo. Quando estive na Palestina, 
tantas e tantas vezes me acolheu com o seu carinho. No entanto, desde antes de ela partir para Jerusalm acompanhando o marido, ela j era vtima dos escndalos 
que ele produzia, maculando-lhe a reputao. Deixaram Roma quase que fugidos da vergonha que Pilatos lhe infligira com sua conduta irresponsvel. No entanto, a sua 
estada na Palestina tambm no foi diferente. Estando l, quantas vezes Cludia no me procurou com os olhos vermelhos de tanto chorar, sem mencionar as infidelidades 
do marido, mas no conseguindo me esconder o seu tormento doloroso. Ele, por sua vez, sempre fora uma inesgotvel fbrica de conquistas baratas e prazeres fceis. 
No podia ver mulher pela frente que j lanava suas redes. Algumas se mantinham firmes, afastadas de sua peonha. A maioria, no entanto, acedia aos seus caprichos 
e desejos mais baixos e, logo a seguir, eram descartadas.
E, para impression-lo ainda mais, acrescentou, maldosa:
         - Voc acreditaria se eu lhe dissesse que at sobre mim mesma esse homem, meu cunhado, lanou as suas indiretas, tentando me seduzir em sua prpria casa?
         Ouvindo-lhe a mentirosa confisso, que procurou envolver numa atmosfera de indignao pessoal, Svio exclamou surpreendido:
         - At a voc esse homem asqueroso tentou seduzir? No posso acreditar...
         - Sim, meu amor. Se no fosse o slido alicerce familiar que herdei de meus pais e o amor que tenho por Cludia, qualquer mulher em minha condio teria 
cado em suas armadilhas. Para voc ver como ele era incontrolvel.
- Minha mente est indignada com tudo isso, Flvia.
         -  para indignar qualquer um, Svio. E voc no sabe nem metade de tudo o que esse homem j fez minha irm sofrer.
          E entrevendo que a indignao do amante lhe abria as portas para a continuidade do plano, Flvia prosseguiu:
         - Agora que ele foi colocado onde deve, ou seja, na priso e no exlio, minha irm se animou a voltar a Roma para estar comigo. Entretanto, no deseja nunca 
mais estar exposta  vergonha que o marido infiel a fez passar ao longo destes anos. Enquanto isso no acontece, recusa-se a voltar para c e me fazer companhia. 
J me revelou que s o far no dia em que souber que est viva, pois tem vergonha de pisar o cho de seus ancestrais para ser ridicularizada diante de todos, como 
a esposa do devasso governador humilhado e exilado.
         Voc sabe como reagem as pessoas de nosso meio. Costumam estender o erro para alm dos limites daquele que erra, ferindo os seus familiares imediatos e 
seus amigos mais prximos. Por isso, Cludia no regressa. Est esperando a morte do traste para, com ela, apagar a prpria vergonha.
          E isso me causa muita dor, j que, com a partida de Pilatos para longe, nunca ser possvel ter certeza quanto tempo levar para que ele desaparea para 
sempre.
E h algo mais grave ainda.
          Cludia possui riquezas pessoais que esto sob seus cuidados diretos na Palestina. Meu temor maior  que, com esse banimento, Pilatos consiga meios para 
ir procur-la atravs de enviados ou at mesmo pessoalmente, a fim de tomar-lhe as ltimas expresses de sua dignidade madura, os ltimos bens com os quais poder 
se ver protegida na velhice, alegando os direitos de marido.
Por isso, Svio, meu corao est to apertado.
         A sua voz melflua, seus jeitos dengosos e frgeis eram as suas armas para induzir as fibras daquele homem tolo a fazer o que ela queria.
         - Ah! Se eu pudesse, eu mesma mataria aquele maldito romano que s nos fez sofrer a todas as mulheres - falou indignada, como se estivesse falando sozinha.
         Assumindo ares paternais e conquistadores, Svio se viu na fcil posio de subir no conceito da mulher desejada e, sem pensar duas vezes no que estava 
se comprometendo a fazer, disse sem cerimnia.
-        Isso no  trabalho para as mos doces de uma mulher como
oc, Flvia. Isso  trabalho comum para um soldado, que no faz outra coisa do que expor sua vida e tirar a vida dos outros.
         - Sim, meu querido, os soldados esto sempre envolvidos em batalhas, mas isso  contra gente de outro pas. Falar de tirar a vida de um seu igual, um romano, 
ainda que em desgraa, no  a mesma coisa, Svio. S um soldado valente e corajoso para faz-lo, pois no poderia se expor como um heri que realiza os atos de 
bravura pensando nos aplausos da turba que o admirar quando do regresso.
         - Bem, Flvia, se eu encontrar, no meu regresso de Viena, apenas os seus braos a me enlaarem com este mesmo carinho, digo-lhe que me candidato a livrar 
vocs duas do peso e da vergonha que esse condenado as tem feito passar - falou resoluto e orgulhoso.
         - Voc, meu amor? Sua coragem  assim to grandiosa a ponto de me livrar do pesadelo e salvar-nos da ignomnia que  a vida sob a sombra de Pilatos?
         - Se  para alivi-la desse peso, no ser nem muito difcil, pois entre Pilatos e seu corao, no existe escolha possvel que no seja por voc.
         - Ah!, Svio - disse Flvia ainda mais adocicada - assim voc me mata de paixo, meu querido. Nunca imaginei que pudesse me amar desse jeito to especial, 
mas agora que a sua paixo se oferece com a soluo para esta questo, reconheo que voc poder fazer o servio sem dificuldades.
         - Sim, Flvia. E no ser nenhum sacrifcio tirar a vida daquele que no nos merece nenhum respeito e que s nos tem causado, a todos os romanos, a vergonha 
pela maneira dissoluta e perigosa com que exps o Imprio l no oriente. Mais do que um pedido seu, isso seria um dever moral de qualquer romano que se preze e tenha 
orgulho de sua tradio vitoriosa. Os derrotados merecem morrer. No  esse o lema no circo? E para com Pilatos isso no deveria ser diferente. Assim, Flvia, se 
lhe puder servir de alguma coisa, disponha de mim, desde que, ao meu regresso, seu encanto me espere com a suavidade de sua pele e a maravilha de seu sorriso.
         Agarrando-o com entusiasmo, Flvia beijou-o loucamente, dando-lhe a prova final de que seu gesto lhe cativara o corao apaixonado de tal maneira que, se 
precisasse envenenar mais uns dez romanos, isso no seria difcil. Se o prmio fosse Flvia, envenenaria at mesmo Tibrio.
         Assim, deram vazo aos seus instintos carnais em uma longa noite que culminou com a alvorada na qual, entregando-lhe o txico violento, ouviu dele as juras 
de amor costumeiras e trocaram os ltimos detalhes do plano.
         - Veja, querido, no se precipite com o veneno. Alguns me disseram que outro vai providenciar o envenenamento do homem. Se isso est certo,  melhor que 
no seja voc, para que isso no o comprometa desnecessariamente. No entanto, se nada ocorrer at o seu regresso, este veneno poder ser depositado em qualquer lquido 
que, uma vez ingerido, propicia a morte lenta e misteriosa sem levantar suspeitas, pois leva algum tempo para produzir o efeito e parecer com alguma doena que 
no se pde curar a tempo.
         - Assim farei, Flvia. No entanto, ningum, alm de ns dois, dever saber que isso ser feito - falou Svio, desejando preservar tanto a si prprio quanto 
 sua amada que o ouvia.
         - Claro, meu querido. Voc j est sendo a soluo para o amargo problema de minha irm, pelo que serei eternamente grata. Ningum mais saber de nada. 
Alm disso, volte logo para que, em seu regresso, possamos nos encontrar neste mesmo lugar de delcias, onde voc ser coroado como o meu imperador, recebendo todos 
os presentes que um grande Csar merece, com exclusividade.
          Encantado com os meneios mgicos daquela experiente mulher, Svio despediu-se feliz, carregando consigo o pequeno frasco que iria levar na viagem at Viena, 
esperando que, a qualquer ponto do caminho, Pilatos acabasse morto pela ao de outrem, mas pronto a cumprir a sua tarefa, sem deixar pistas, caso ningum tomasse 
a iniciativa. Assim, em seus planos, esperaria at o final da sua misso e, se nada acontecesse, ele prprio agiria por sua conta.
         Sem saber que um de seus homens de confiana havia sido cooptado por Flvia para matar Pilatos, Lucilio e a escolta do preso, mais o ex-governador e a figura 
de Zacarias tomaram seus lugares no barco que os levaria at Massilia, na costa mediterrnea da Glia de outrora, Frana de hoje.
          Naturalmente, atendendo  necessidade de discrio, Zacarias se mantinha apartado do grupo, entendendo-se apenas com o seu comandante para a troca de idias 
rpidas a respeito do prisioneiro.
         - Lucilio, - falava Zacarias, tome cuidado com as coisas que derem a Pilatos para comer ou beber, pois no sabemos de que lado vem o ataque.
         - Sim, Zacarias. Estou atento a tudo. Sei que havia muita gente desejando matar o governador e no deve ser difcil que algum deles esteja a bordo para 
aproveitar algum momento de descuido e atac-lo de um jeito ou de outro.
         -  verdade. Por isso, Jonas, da estalagem, me entregou toda esta comida que trouxe comigo e lhe passo agora a fim de que nenhuma
outra seja oferecida ao nosso irmo, evitando-se, desse modo, qualquer risco. Fica s faltando observar o que lhe ser entregue como bebida.
         - Quanto a isto, esteja sossegado. Eu mesmo separei um grande odre para essa emergncia, alegando que se tratava de proviso para a viagem. No entanto, 
ali est a gua necessria para o prisioneiro. J instalei em local seguro e informei a Pilatos que s bebesse gua de minhas prprias mos.
         - E, outra coisa, Lucilio - falou baixinho o ancio -, no confie nem mesmo nos outros soldados, pois no sabemos o que podero fazer nem se estaro suficientemente 
atentos para impedir qualquer ataque de fora.
         - Sabe, Zacarias, eu no tinha pensado nisso, mas a sua lembrana  sbia e, com certeza, est iluminada pelos nossos protetores invisveis. Estarei pessoalmente 
ligado ao nosso amigo.
         - Assim me tranqilizo mais. Vou ficar por aqui, junto de alguns homens feridos que pretenderei ajudar com os cuidados da enfermagem. Veja se consegue que 
o capito no se oponha a este desejo, pois os mais feridos so, sempre, os mais abertos para Jesus.
- Farei isso agora mesmo, Zacarias. At breve.
         Despediram-se e, com a aquiescncia do comandante, sempre cheio de tarefas na conduo da grande nau pelo Mediterrneo, Zacarias pde aproximar-se dos enfermos 
e feridos pelos pesados remos, a quem tratava e conquistava com seu carinho sincero e desinteressado, alm de lanar tambm ali, aos escravos do poder romano, a 
mensagem de que o Salvador havia vindo ao mundo para eles, os aflitos da existncia.
         Muito alvio levou aos coraes, enquanto que se mantinha atento ao destino de Pilatos.
         Certa noite, quando no havia muito a fazer, Zacarias deitou-se em um canto do tombadilho da embarcao para que pudesse olhar o cu estrelado, em meio 
a provises, sacarias e cordas grossas que se amontoavam, lembrando-se de Jesus e dos tempos em que caminhava junto dos que o seguiam.
         O silncio era mais forte porque a maioria estava recolhida em algum canto do barco para descansar da jornada diria.
         Assim, sem que ningum o percebesse, escutou passos firmes sobre as tbuas da embarcao e vozes que sussurravam uma conversa animada, entrecortada de ditos 
jocosos e hilrios.
Era Svio que vinha, junto com outro amigo que compunha a guarda de Pilatos e se abeiraram da guarda protetora da trirreme para conversarem mais a ss.
           394Que maldio a nossa, Svio! - exclamava Caio, o outro soldado.
- Como assim, meu amigo? - perguntou o interrogado por sua
vez.
         - Sim, podamos estar nos braos de agradveis romanas nestas alturas, mas estamos aqui, no meio do nada, carregando um homem a tiracolo.
         - Isso  verdade, Caio. Haveria coisas melhores a fazer. Eu mesmo saberia perfeitamente onde estaria e com quem, numa noite como esta.
         Tocado pela curiosidade e, sabendo que Svio no possua esposa, Caio deu-lhe oportunidade para seguir com suas palavras, fustigando-lhe o orgulho masculino 
com uma provocao:
         - Provavelmente no colo da sua me, no  mesmo? - falou dando risada baixinho.
         Ferido na vaidade, Svio no se deixou irritar pelo riso de Caio e lhe respondeu:
         - Ah! Se todas as mes fossem como ela, todos os filhos se tornariam amantes de suas genitoras - respondeu para espanto de seu amigo.
- Mas ela  to boa nas artes do amor, como voc est falando?
- Ela  nica, meu amigo. Especial.
- Gostaria de conhec-la tambm, falou Caio.
         - No ser possvel. Eu no me arrisco exp-la a olhares impudicos. Alm disso, sua nobreza me impede de compartilhar sua identidade com estranhos.
- Alm de tudo  nobre? Patrcia de bero?
         - Sim, das mais respeitadas e, para dar um tempero especial a isso tudo, tambm  casada.
         - Pelos deuses, homem, era melhor que voc se contentasse com a sua me mesmo, a correr um risco desses - falou, assombrado, o soldado que o escutava.
         - Calma! Seu marido  um tolo e um intil. Isso possibilita que possamos nos divertir sem riscos.
         - , mas isso no nos tira deste atoleiro sem lama onde estamos. No bastava que Pilatos se desgraasse a si prprio. Tinha que nos levar junto com ele 
para o exlio? - perguntou Caio, indignado.
          E olhando para os lados, como a se certificar de que o que iria dizer no deveria ser escutado por mais ningum, Svio respondeu s queixas do companheiro 
de viagem:
         - Mas no se preocupe, meu amigo, mais cedo ou mais tarde todos morrem, no  mesmo? Ainda mais um traste como esse homem! - respondeu Svio, dando a entender, 
nas entrelinhas, que havia algum mistrio que ele sabia e que tornava a sua afirmao cheia de arrogante segurana.
          Em seu leito improvisado, Zacarias a tudo escutava, sem se mover para no denunciar a sua presena com algum rudo intempestivo.
Suas suspeitas intuitivas estavam corretas.
          Svio sabia de alguma coisa e ele no poderia perder o soldado de suas vistas, conquanto no tivesse qualquer elemento de prova que pudesse levar at Lucilio 
para acusar o jovem soldado.
         Talvez tivesse falado daquela maneira como uma fora de expresso, com a indignao e a lngua solta que caracterizam os soldados longe de seus superiores.
         Talvez tivesse comentado sobre hipteses comuns na vida de todas as criaturas, tanto quanto na vida de Pilatos.
         Talvez no estivesse mais do que expressando o seu desejo de que o preso morresse logo para que regressasse s suas aventuras e prazeres.
          No entanto, a conversa havia despertado em Zacarias o medo de qualquer perigo que rondasse o grupo, que deveria preservar Pilatos, no mat-lo.
         Afastaram-se os dois homens sem perceber que sua conversa havia sido escutada por Zacarias, a quem ambos desconheciam quando de sua estada em Roma. Sabiam 
ser aquele um amigo ntimo da famlia de Lucilio, conforme este mesmo houvera falado e que, por ser sapateiro, consertava as botinas dos soldados na priso Mamertina. 
Nada mais sabiam de seus objetivos junto quela comitiva.
         Assim, sem estar de posse de informaes precisas ou provas claras que incriminassem Svio, Zacarias evitou falar disso a Lucilio que, naturalmente, seria 
levado a interrogar o soldado que, por sua vez, negaria tudo e as coisas ficariam piores para todos.
Por isso, daquele dia em diante, passou a dedicar especial ateno a observar os gestos e os passos de Svio dentro do navio, como maneira de melhor proteger Pilatos 
que, em seu lugar de recluso, se dedicava  leitura dos escritos de Levi que lhe haviam sido dados por Zacarias.
          Quanto mais conhecia os ensinamentos de Jesus, mais se encantava com a sua beleza, ao mesmo tempo em que mais e mais se culpava por tudo o que havia acontecido 
com o Mestre diante de sua vontade omissa e covarde.
Deslumbrava-se por um lado e se remoa por outro.
         Se melhorava diante dos ensinamentos que consolavam, piorava por dentro, em face das angstias custicas do arrependimento.
         Assim corriam as coisas durante a travessia at a chegada ao porto, sem maiores incidentes que no aquele da conversa suspeita entre os dois soldados.
         O ano de 35 seguia para o seu trmino quando, finalmente, a escolta chegou a Viena, em um perodo de muito frio.
          L se desenrolariam os lances derradeiros daquelas existncias que, estando alguns a servio das foras do mundo e os outros das foras da Verdade e do 
Amor, se tornariam, estes ltimos, a mo luminosa de Deus amparando a escurido bruta dos homens, atravs dos prprios homens.
Por isso que Jesus ensinara:
"Todo aquele que desejar ganhar a prpria vida, este a ter perdido.
          No entanto, todo aquele que, por amor a mim, perder a sua vida, este a ter ganho.
                      A chegada do grupo ao acampamento militar de Viena foi melanclica, como poderia ser toda a chegada de um derrotado perante os seus antigos 
amigos de virtudes militares.
         a derrota, por si s, j era considerada uma vergonha e muitos militares preferiam o suicdio  desonra do insucesso.
Este cdigo de honra era muito considerado entre os membros das corporaes romanas e, por isso, Pilatos, ainda que no tivesse sido derrotado em alguma batalha, 
perdera num FRONT onde no havia inimigos a vencer, alm de si mesmo.
         A derrota perante um exrcito adversrio, na luta entre bravos soldados e valorosos estrategistas representava, ainda assim, uma perda digna dentro da estranha 
nobreza das artes da guerra. No entanto, ser despojado de todos os ttulos por causa de uma ausncia de seriedade nos negcios do Estado, considerado como um inimigo 
por entre os seus prprios pares, impunha ao ru uma aura de nocividade e repulsa.
E ali, principalmente. Fora naquelas terras, anos antes, que a ao enrgica e rude daquele soldado romano produzira o efeito de elev-lo na considerao de Roma. 
Suas vitrias, ao lado de outros generais valorosos, permitiram que sua fama se estabelecesse e, considerando que a caserna tambm  um ambiente onde se criam certas 
lendas entre os homens de armas que a compem, Pncio era uma destas, sempre citado como o exemplo de devotamento que se deve imitar em face dos prmios que se garantem 
quele que se dedicava  causa da defesa do Imprio.
E o que se poderia esperar daquele destacamento avanado, que tinha a rdua tarefa de defender as fronteiras dos ataques das hordas brbaras provenientes da Germnia, 
que agora recebia daquele homem, derrubado do pedestal de exemplo para o lamaal da repulsa?
          Naturalmente a vergonha e o desprezo eram os mais comuns dos sentimentos ali vigentes.
          Poucos antigos camaradas se lhe dirigiram a palavra e os que o fizeram assim se permitiram para execrar-lhe a vergonha a que os estava submetendo.
         O frio intenso daquele inverno forte e rigoroso poder-se-ia dizer mais quente e acolhedor do que o sentimento que existia no corao de cada soldado, do 
mais inferior ao mais alto comandante.
          No entanto, a ordem do imperador deveria ser obedecida e, em face de tais previsveis obstculos, Lucilio se entendeu com o comandante do campo para colocar-se 
 disposio a fim de que continuasse prestando cuidados ao prisioneiro, o que foi aceito de bom grado, porque no seria difcil encontrar-se algum ali que, em 
sendo colocado na funo de preservar a sua pessoa, tratando de suas necessidades durante o exlio forado, no se visse tentado a mat-lo.
E como o comandante das legies ali estabelecidas no desejava ter que informar ao imperador que o homem que recebera sob sua guarda, to pouco tempo depois de sua 
chegada j se achava morto sob suas vistas, o oferecimento de Lucilio veio a calhar, j que se tratava do mesmo homem de confiana que viera de Roma em cumprimento 
do mandado legal do Senado Imperial.
         Se algo acontecesse a Pilatos, s-lo-ia imputado  falta de zelo do prprio centurio Lucilio, para que sobre ele a responsabilidade fosse carreada.
         Ao mesmo tempo, Lucilio conseguira autorizao para que Zacarias fosse acolhido na guarnio militar, sob a alegao de que estava agregado ao pequeno grupo, 
aproveitando a viagem sob a proteo dos soldados, em face de sua velhice e vulnerabilidade e, to logo o inverno rigoroso terminasse, o prprio centurio se encarregaria 
de encaminh-lo ao seu destino.
          Era uma alegao que, naquele instante, solucionava a questo, sendo certo que, apesar de receber a acolhida, o comandante das instalaes militares imps 
que Zacarias executasse algum servio atravs do qual pagasse a sua permanncia ali e a rao que se lhe ofereceria.
          Novamente a habilidade de sapateiro serviu de salvao, pois com a sua natural capacidade nessa rea, no era difcil encontrar o que fazer num acampamento 
militar.
         Arranjadas as coisas, Svio viu os seus planos de regressar logo a Roma frustrados pela dificuldade de ausentar-se do grupo que estava sob o comando de 
Lucilio.
         O inverno tornava rudes as condies de navegao martima e muito difcil o trnsito por terra firme, em face dos obstculos da neve, dos montes a serem 
atravessados e dos riscos a que se expunham os viajantes nesse perodo.
         S mesmo por questo de muita emergncia  que algum conseguia empreender uma aventura por mar ou terra at Roma, proveniente das provncias distantes.
          E ainda que o fizesse, se expunha a srio risco de no chegar vivo ao destino, perecendo de frio pelo caminho, ou morrendo vtima de ataques de salteadores 
ocasionais, espreitando os desavisados pelo caminho.
         Assim, teve o cmplice de Flvia de permanecer aquartelado naquele local, aguardando o desenrolar dos acontecimentos por longos meses, sem, contudo, desfazer-se 
de seu frasco venenoso com o qual, esperava, conseguiria no s fazer a justia que muitos desejavam como tambm conquistar para sempre o corao daquela mulher 
amada.
         Zacarias, ainda que em tarefas junto aos militares do quartel, sempre que lhe permitia a ocasio era levado at Pilatos para tratar de animar-lhe o exlio 
com a conversao amistosa e que procurava fortalecer o nimo nas horas do testemunho.
         Graas  leitura do texto de Levi, os ensinos de Jesus haviam penetrado profundamente no pensamento e no corao de Pilatos e a companhia dos nicos amigos 
aos quais, agora, devia a prpria vida, eram as exclusivas fontes de foras bondosas que o mantinham acima da linha da vida.
         Por causa de seu aprofundamento nas lies do Cristo, Pilatos se deixara envolver por uma melancolia que era muito amarga, diante da conscincia de seus 
feitos.
         Zacarias buscava aclarar as conseqncias das palavras de Jesus lembrando que o Reino de Deus era um lugar que deveramos edificar em nosso prprio interior 
e que a todos ns estava garantida a felicidade de encontrarmos o caminho para atingi-lo, superando os sofrimentos com galhardia e coragem.
          Sentia o apstolo que aquele homem carregava dentro de si um fardo de culpas que s deveria ser menor do que o de Judas, o pobre e equivocado companheiro 
que acreditara nos poderes mundanos mais do que nos divinos.
         E na verdade, a frieza da recepo que envolveu o prisioneiro no teve a capacidade de aumentar-lhe a angstia ntima, j que Pilatos entendia, agora, que 
aqueles homens no poderiam ser diferentes daquilo que ele mesmo fora um dia.
No fundo, sabia que sua vida no poderia ser a mesma, mas tambm reconhecia que os homens  sua volta no o entenderiam nunca nem poderiam se comportar de outra 
maneira, at que passassem por tudo o que ele mesmo passou.
         A presena de Lucilio e a amizade paternal de Zacarias preenchiam suas esperanas.
          Os meses se revelaram montonos e, para surpresa de Svio, a vida de Pilatos se dilatava sem que ele tivesse qualquer acesso ao preso. Zacarias, que no 
se esquecera da conversa ouvida na noite da viagem, tinha Svio sempre sob seus olhos e procurava monitorar-lhe os passos, pois pressentia que se tratava de um assassino 
oculto, prestes a agir.
         No entanto, a rotina do acampamento no se alterara, sendo que Lucilio levava o alimento e a gua at o preso todos os dias, sem exceo, enquanto que Zacarias 
o ajudava na higiene pessoal, cortando-lhe os cabelos, consertando-lhe as vestes.
         A chegada da primavera do ano de 36 permitiria o lento retorno s atividades mais intensas, fosse com a retomada da navegao, fosse com a modificao das 
prticas do acampamento.
         Agora, o derretimento da neve tornava as operaes externas mais fceis e os soldados se embrenhavam em misses de reconhecimento ou marchas mais longas 
para retomar a forma fsica, perdida durante os meses de frio, guardados na ociosidade que se impunha por si prpria.
          Por essa poca, voltaram as esperanas de Svio de deixar o acampamento e regressar aos braos de Flvia, a sua amada.
         Dela no tivera notcias porque a discrio impunha a prudncia nas correspondncias, sempre passveis de serem interceptadas e denunciar os seus autores.
         Lembrando a Lucilio de que desejava obter a autorizao para o regresso a Roma e deste recebendo a aquiescncia para faz-lo, teve o seu pedido de dispensa 
formal encaminhado no mesmo dia para a anlise do comandante do campo que, num ato burocrtico simples, poderia dispensar o soldado para que regressasse  capital.
         A azfama da guarnio militar tornara mais febricitantes as atividades de todos, inclusive de Lucilio que, multiplicando-se entre os cuidados com Pilatos 
e as tarefas da caserna, muitas vezes compartilhara com Zacarias a obrigao de alimentar o prisioneiro.
          Poucos dias depois do encaminhamento do pedido de dispensa de Svio, o afastamento de Lucilio por mais tempo do que o normal e o
recrudescimento das obrigaes de Zacarias, diante do amontoado de botinas a serem consertadas, impedira que ambos se recordassem dos horrios adequados para a refeio 
de Pilatos.
          Chegando apressado de uma misso e tendo sido chamado ao gabinete do comandante a quem estava subordinado, Lucilio se deu conta de que ningum havia dado 
alimento e trocado a gua do preso.
Procurou por Zacarias, mas se lembrou de que ele se achava em servio na sala pegada quela para onde deveria dirigir-se ele prprio.
         Assim, para no fazer esperar o comandante, procurou por Svio, dizendo:
- Meu amigo, tenho boas notcias para voc.
- Minha liberao? - perguntou eufrico, Svio.
         - Creio que sim, companheiro. Acabo de chegar do campo e nosso comandante me convocou imediatamente ao seu gabinete, o que acredito deva ser para me entregar 
a sua dispensa, conforme solicitada dias atrs.
Feliz com a novidade, Svio j entrevia as alegrias do regresso e, ao preo de mais algumas semanas, estaria nos braos de Flvia.
         Ao se lembrar de Flvia, recordou-se da misso que havia aceitado realizar e com a qual, pensava ele, ganharia os almejados prmios cobiados junto  mulher 
ardente.
          Mas o medo de voltar sem oferecer-lhe a cobiada prenda, a morte de Pilatos, fazia-o tremer ante a possibilidade de ser considerado um poltro, indigno 
de sua prpria palavra e acabar desprezado pela amada.
         A notcia de Lucilio alegrou-o e o incomodou, sem que ele desse demonstrao disso, visivelmente.
E antes que Lucilio deixasse o ambiente onde se recompunha das escaramuas do campo, limpando-se um pouco para se apresentar ao superior, voltou-se para Svio e 
disse:
         - Ah!, meu amigo, sinto ter que lhe pedir um favor. Como voc  o responsvel por essa minha pressa, nada mais justo que lhe d uma tarefa que at hoje 
foi minha, pois Pilatos est sem comer e beber durante todo o dia at agora, j que Zacarias est entretido com seu trabalho e eu mesmo me esqueci de lhe pedir que 
o fizesse quando deixei o quartel pela manh.
         Assim, como ns estamos nos ajudando, pede a camaradagem que, do mesmo modo que estou advogando a sua liberdade, voc assuma essa tarefa em meu nome, apenas 
por hoje.
          Ouvindo o pedido em tom de brincadeira, Svio iluminou-se por dentro, pois ali estava a chave de toda a sua felicidade.
Mais do que depressa, tratou de responder ao amigo:
         - Como voc pode pensar que isso ser um peso para mim, meu amigo. Estou em dvida com voc e se me ordenasse fazer isso todos os dias, durante uma semana, 
to s pelo fato de ter conseguido a liberdade deste campo horrvel, eu aquiesceria de bom grado e consideraria pequeno pagamento diante do tamanho do favor que 
obtive do seu empenho junto ao comandante.
         - Pois bem, Svio, v logo ento que eu, brevemente, estarei de regresso para lhe apresentar o passe liberatrio.
Afastaram-se os dois homens.
         Lucilio afastou-se, apressado, sem perceber o brilho estranho no olhar do soldado e Svio, surpreso com os caprichos do destino, tratou de ir imediatamente 
at seu alojamento e procurar o frasquinho que guardava para um momento como aquele, desde longa data.
          Naturalmente, como se tratava de um veneno de efeito discreto, conforme lhe afianara Flvia, no poderia haver melhor circunstncia para agir do que aquela, 
quando as portas da caserna se estavam abrindo para lhe permitir a sada natural e sem suspeitas.
         O tempo de chegar at o alojamento e encontrar o frasco, foi o mesmo que levou Lucilio para chegar at o gabinete do comandante, no sem antes passar pela 
sala de trabalho de Zacarias, perdido no meio de tantos sapatos, cintures, taxinhas, etc.
         - Ol, Zacarias, que o deus dos sapatos o inspire, meu amigo -disse Lucilio com seu jeito brincalho de se referir ao companheiro.
         - Ora, centurio, que o deus do juzo o torne um homem srio -respondeu sorrindo o ancio.
         - O comandante deseja falar comigo o estou certo de que se trata da autorizao de Svio para regressar a Roma conforme ele havia pedido.
         - Eu no sabia que ele desejava regressar sem ns - respondeu Zacarias.
         - Sim, alega ter saudades da capital e de sua rotina de conquistas, dizendo que por aqui no tem como exercer seu melhor talento no meio de homens que seriam 
trofus pouco cobiados.
         - Melhor assim, se isso representar mesmo a autorizao que ele tanto deseja - falou Zacarias aliviado, pois a partir de ento, ele no
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precisaria fiscalizar a conduta de Svio. E, continuando a conversa, perguntou o sapateiro
         - E se trata da dispensa dele, por que ele no o acompanhou at aqui para receb-la? Seria uma grande satisfao, no acha?
         - Sim,  verdade. Mas nesse caso, teramos que impor a Pilatos um tempo mais longo de fome e sede, porque me lembrei de no t-lo alimentado e nem de lhe 
pedir que o fizesse antes de sair.
         - Nossa, Lucilio, voc no me falou nada de manh e, por isso, pensei que ele tivesse sido abastecido por voc antes de sair, como sempre faz.
         - , Zacarias, foi um esquecimento imperdovel, que Svio est tratando de corrigir, levando-lhe a proviso de hoje.
         - Voc mandou Svio sozinho? - falou surpreso e agoniado o velho sapateiro.
         - Sim, Zacarias, ou voc acha que um soldado romano no pode fazer um trabalho desses sem ajuda de uma escolta?
         - Claro, Lucilio, Svio  capaz de faz-lo - falou Zacarias com um tom de angstia na voz.
         No desejando deixar o comandante esperando por mais tempo, Lucilio se dirigiu ao gabinete onde o militar o aguardava e, Zacarias, tomado de maus pressentimentos, 
deixou a sua salinha rapidamente e dirigiu-se at a porta da cela onde Pilatos se mantinha encarcerado.
         Ao mesmo tempo, Svio trazia a rao de comida e gua, depois de ter ministrado o veneno no lquido que vinha em modesta cuia de barro pobre.
          Quando Zacarias entrou na cela, pois a porta j estava entreaberta, viu que Svio se dirigia ao governador de maneira fria e indiferente.
         - Aqui est a comida e a gua que Lucilio no trouxe durante o dia porque seus deveres o impediram.
         Falando assim, esticou a mo e colocou o vasilhame da comida sobre pequena salincia de pedra que estava na parede interna da cela.
         E, desejando certificar-se de que Pilatos iria ingerir o lquido envenenado, em vez de proceder da mesma maneira com o recipiente de gua, deixando-o no 
mesmo stio, estendeu as mos e ofereceu-o ao preso, que o segurou com interesse, diante de quase um dia inteiro, sem beber nada.
         Nesse exato momento, Zacarias chegou e entrou na cela, sendo capaz de escutar as ltimas palavras de Svio.
          Interrompidos pela chegada do sapateiro, Svio se surpreendeu com a sua interveno, voltando-se com a face esbranquiada para a sua direo.
         Zacarias sorria e caminhava at os dois, falando com Pilatos de maneira a distra-lo para que no tocasse no alimento e na gua:
         - Desculpe-me, meu senhor, a minha falta de cuidado para com as suas necessidades - falou sincero, o ancio. - Estava trabalhando tanto que me esqueci de 
vir at aqui para trazer-lhe a comida, pois Lucilio, tendo sado de manh, me incumbiu de aliment-lo e abastec-lo, o que acabei deixando de fazer.
          Desse modo, o generoso Zacarias buscava atenuar o erro de seu amigo, a fim de desculp-lo perante o prisioneiro, assumindo a falta por si s. Sua nobreza 
de carter sabia ser caridosa at mesmo para proteger os amigos.
Vendo-o se desfazer em justificativas, Pilatos sorriu e respondeu:
         - Ora, Zacarias, eu devo minha vida a vocs dois, que no tm feito outra coisa seno zelarem por meu bem-estar.  bom passar algum tempo sem comer ou beber, 
pois isso serve de penitncia para meu esprito comilo e beberro se disciplinar.
Retomando a palavra ante os dois homens que o escutavam, Zacarias prosseguiu:
         - Na verdade, tive tantas coisas a fazer, eu mesmo, que at a mim prprio deixei de dar o alimento e a gua que devia. Por isso, se no se ofender com meu 
pedido, gostaria que no me negasse um gole para saciar a sede que me consome.
         Vendo-se constrangido pela gratido que nutria por Zacarias e sem desconfiar que aquele lquido poderia estar adulterado letalmente, Pilatos demonstrou 
muita satisfao em estender o pequeno recipiente at Zacarias, ante o olhar estarrecido de Svio que, sem poder impedir tal ato, o que o denunciaria perante os 
dois, no teve outra opo seno a de permanecer calado e imvel, ainda que lvido.
          Nesse momento, antes de ingerir o contedo do vasilhame, Zacarias lembrou-se de Jesus, nos dias longnquos do passado, quando o Mestre lhe pedira para 
proteger Pilatos e ajud-lo em todas as circunstncias. O velhinho no sabia se havia ou no veneno na gua e nem podia acusar o soldado de assassino, ali, sem provas 
diretas. Assim, antes que algum o impedisse, olhou sereno para Svio e sorveu at a ltima gota todo o contedo do vasilhame. Depois disso, disse ao guarda:
         - Svio, pode se retirar que eu me encarrego de trazer mais gua para nosso amigo. V em busca de sua liberdade, meu filho. Mas no
se esquea daquilo que nosso senhor Jesus nos ensinou em suas andanas, j que est prestes a regressar a Roma onde este ensinamento lhe ser de grande valia.
E vendo que o soldado o observava entre aterrorizado e angustiado, falou-lhe com suavidade:
         - Todo aquele que com ferro fere, com ferro ser ferido. Com a mesma medida que julgar, ser julgado.
         - Sim, Zacarias, no me esquecerei de suas palavras - falou o soldado covarde, mecanicamente, retirando-se o mais rpido que pde.
Realmente, a entrevista de Lucilio com o comandante era para a entrega da dispensa do soldado a fim de que, a partir daquele momento, to logo o desejasse, regressasse 
a Roma.
         Svio saiu dali e precisou disfarar muito bem o seu estado de esprito, pois sua alma no compreendia por que aquele velhinho havia adotado aquela postura 
de ingerir o lquido envenenado que se destinava a Pilatos.
         Agora, precisava afastar-se o mais rpido possvel, pois sua conduta e a sua presena na cela do governador fatalmente seria associada  morte do inocente 
sapateiro, depois de ingerir a gua que se destinava ao preso. Facilmente lhe descobririam a culpa. Por isso, planejou para o dia seguinte a sua partida, atribuindo 
a pressa  longa espera para o regresso, o que a justificava plenamente aos olhos de Lucilio.
          Enquanto isso, na cela do governador, Zacarias regressara com uma nova cuia de gua lmpida e com uma nova rao de alimentos que ele sabia no terem corrido 
o risco de qualquer contaminao txica. Desfizera-se daquela que Svio havia trazido, alegando que o soldado deixara de fornecer alimento de melhor qualidade que 
estava  disposio na cozinha. Sem levantar suspeitas no preso, Zacarias alterou a rao e, sem saber se o lquido estava ou no envenenado, prosseguiu as suas 
tarefas naturalmente, com a conscincia asserenada pelo cumprimento do dever.
         No fundo de seu esprito, sabia que a gua tinha o veneno letal, mas como ainda no lhe ocorriam sintomas que atestassem a adulterao do equilbrio, o 
ancio recolheu-se naquela noite, depois de ter se despedido de Pilatos e Lucilio, sem nada dizer sobre suas suspeitas a ningum.
          No entanto, o seu vasto conhecimento da personalidade humana e as dvidas surgidas daquela conversa no tombadilho do navio, davam-lhe a certeza de que 
Svio era o assassino. No entanto, se isso fosse
verdade, aceitaria o destino com tranqilidade e sem acusar a ningum, como aprendera a fazer com o exemplo que Jesus deixara para ser vivido.
          O dia clareou e, to logo se puderam divisar os contornos dos caminhos, um cavalo deixava o quartel em direo ao porto distante de Massilia, onde um barco 
levaria Svio de regresso a Roma, agora no mais com a pressa de contar a Flvia que matara Pilatos e sim com a de no ser acusado da morte do inocente sapateiro, 
que fatalmente lhe seria atribuda se ali ele permanecesse.
         Segundo os seus pensamentos, ao chegar a Roma mentiria a Flvia dizendo que ele mesmo havia entregado a cuia envenenada a Pilatos e que deixara o quartel 
logo a seguir para no ser identificado como o culpado, mas que a notcia da morte do preso no tardaria a chegar capital.
         Com isso, ganharia os favores fsicos da mulher querida e tempo para arrumar alguma outra estria que justificasse a sobrevivncia do preso quando a notcia 
de sua morte teimasse em no chegar.
No quartel, a manh trouxe consigo o pequeno mal-estar mental que mantinha Zacarias meio atordoado, mas no o impedia de levantar-se e trabalhar.
Isso porque aquele veneno era de efeito lento, como havia previsto a prpria mandante e, ao invs de produzir uma abrupta e violenta reao, ia minando as foras 
e o equilbrio da pessoa, agindo de maneira solerte e sdica, como se se permitisse gozar com os esgares de dor de sua vtima.
         Com o passar dos dias, o estado geral de Zacarias se deteriorou de tal maneira que o velhinho no mais se levantava do leito.
Em vo os mdicos do campo buscaram tratar-lhe a estranha enfermidade sem lograrem nenhum efeito satisfatrio. S fizeram piorar o seu estado por submet-lo a terapias 
grosseiras, com a aplicao de vomitrios, purgativos, sangrias e todo o gnero de tentativas experimentais e sem fundamentos cientficos comprovados naquele perodo 
de alvorada da escola de Hipcrates.
         A preocupao de Lucilio aumentava  medida que o estado de Zacarias piorava.
         Pilatos, sentindo a falta do velhinho, fora informado de que o mesmo estava muito doente e no conseguia levantar-se. Depois de muito insistir, recebeu 
a autorizao do comandante para ser levado at o leito do amigo agonizante, diante do qual ajoelhou-se, beijou suas
mos frias e emagrecidas e verteu lgrimas silenciosas, como a lhe pedir que no o abandonasse.
         Sentindo a angstia do corao daquele homem despossudo de todas as coisas que j lhe haviam sido a glria no mundo, Zacarias lhe sorriu e disse:
         - No se esquea, meu amigo, que  Jesus quem nunca nos abandona. Ele estar com voc daqui para a frente e espera de voc a fortaleza necessria para levar 
sua tarefa at o fim.
         Para no amargurar ainda mais o corao do doente, o preso regressou  sua cela, perdido nos mais profundos e escuros caminhos de depresso e abatimento 
pela iminncia da perda daquele que considerava o seu verdadeiro pai espiritual.
         Teria Lucilio para ajud-lo, mas at este mesmo se sentiria rfo com a partida de Zacarias.
Aqueles foram momentos de tragdia moral na vida de ambos.
Zacarias morreu.
         Para os dois, a vida tinha se transformado em um campo sem luzes que o clareassem.
          Depois do sepultamento singelo, os dois herdeiros da tradio apostlica vivida por Zacarias, se puseram a conversar sobre aquela estranha doena e, relembrando 
os detalhes e as coincidncias, no foi difcil a Lucilio e Pilatos imaginar o que, efetivamente, havia acontecido.
         A cena em que Zacarias pedia gua, a fala mansa e o olhar fixo em Svio, as ltimas palavras de conselho ao soldado que partiria em breve - tudo, agora, 
se encaixava perfeitamente e, ante a inexplicvel morte do apstolo, ambos concluram que ele se entregara para salvar a vida do preso, diante da promessa que fizera 
a Jesus de que o acompanharia por todos os lugares e seria o anteparo protetor em todas as ameaas, para que Pilatos nunca se esquecesse de que era muito amado na 
Terra, apesar de tudo.
         A concluso, corroborada pela imediata partida de Svio logo no dia seguinte, levara o ex-governador ao mximo da vergonha de si mesmo.
         Como era possvel que aquele velhinho perdesse a prpria vida para salvar a dele, uma vbora merecidamente encarcerada?
         Que amor seria aquele, to poderoso e to altivo para enfrentar a prpria morte e arriscar-se corajosamente por um simples condenado?
O preso no conseguiria mais viver em pleno equilbrio de suas
emoes, pois assumira para si no s a culpa pelo ocorrido com Jesus, mas via-se como a maldio que transformava em morte tudo o que tocava, qual a figura mitolgica 
de Midas, cujo toque alterava em ouro todas as coisas que manipulava.
         Todos queriam envenen-lo, mas a morte no o queria, to maldito ele era.
         Passara a permitir que a idia autodestrutiva o envolvesse, dando espao mental para a perseguio que suas vtimas e comparsas invisveis, entre os quais 
Sulpcio Tarqunius, lhe infligiam, mas que a presena de Zacarias sabia evitar, por elevar o padro dos seus sentimentos e pensamentos.
         Agora, estava entregue a si mesmo, com a agravante de culpar-se tambm pelo sacrifcio do velho e amado sapateiro.
         Pouco mais de um ms aps a morte de Zacarias, a chegada de Svio a Roma produziu uma grande alegria no esprito de Flvia, j muito preocupada com a ausncia 
de notcias e com a impossibilidade de escrever pedindo informaes seguras.
         Recebendo o amante entre os braos acolhedores e sendo informada do envenenamento de Pilatos, na mentira engendrada para no cair em desgraa aos olhos 
da mulher amada, cobrou-lhe Svio o ambicionado pagamento, o prmio carnal a que dissera ter feito jus, no que foi plenamente recompensado pelo esprito aventureiro 
daquela mulher.
         Depois da noite de prazeres, a manh surgiu aos amantes, com a mulher, envolta nos mantos do leito, propondo um brinde ao seu Csar pessoal, como a sdita 
mais agradecida e fiel.
         Enceguecido pela paixo e pelo orgulho de homem tolo, no percebeu que o vinho era o veculo de um outro veneno, este rpido e brutal, a propiciar que, 
em breves horas, Svio fosse expulso do corpo.
Enquanto presenciava os ltimos esgares, Flvia, indiferente, falava para si mesmo:
         - Para que prestam estes homens, seno para nos servir aos caprichos e, depois, serem descartados?!
         E sem qualquer considerao pela agonia daquela criatura tola e ingnua que se deixara iludir por suas propostas de ventura e prazer, dizia-lhe friamente:
         - Svio,  uma pena perder um excelente amante, mas estou lhe concedendo o que, efetivamente, lhe prometi. Voc recebeu a homenagem que muitos Csares e 
homens importantes receberam. Aproveite e desfrute dessa honra, pelo menos na morte, meu Csar.
          Falando assim, deixou o local sub-repticiamente, para que no fosse vista por ningum, depois de apagar as provas daquele encontro clandestino no qual 
fizera calar a nica testemunha de seu plano maldito, sem saber, ainda, que Pilatos estava vivo, apesar de tudo.
          E Svio, nos estertores da agonia, no deixou de se lembrar da figura de Zacarias, sua vtima, parecendo ouvir-lhe o conselho que, um ms antes, recebera, 
proftico:
         - Todo aquele que com ferro fere, com ferro ser ferido... com a mesma medida que julgares, sers julgado...
         Estas palavras lhe eram impostas pela conscincia ao contato da presena espiritual que lhe envolvia a alma naqueles momentos de despedidas da vida.
         Naquela sala onde os prazeres carnais eram substitudos, agora, pela agonia da morte, o ambiente espiritual se transformara e os braos venerveis de uma 
entidade luminosa ali estavam para ajudar o jovem e iludido filho de Deus que se permitiu perder-se nas teias da paixo at o ponto de se transformar em vtima dela 
mesma.
         Tais vibraes de Amor se elevavam aos cus na forma de sentida orao partindo do corao da entidade luminosa que ali se postava, como a suplicar a Jesus 
que lhe autorizasse amparar aquele irmo.
E no silncio respeitoso que se seguiu, as outras almas que o acompanhavam puderam escutar na acstica de seus espritos, a resposta de Jesus que lhes chegava na 
forma de cntico suave, nas vozes angelicais de espritos mensageiros que diziam:
         - O Amor te autoriza a amparar os cados, por amor ao teu amor, Zacarias.
         Sim, era Zacarias que ali recebia o esprito de seu assassino para encaminh-lo ao reerguimento no caminho do bem.
           Enquanto no ambiente planetrio os homens viviam o ano 38 da era crist, na atmosfera espiritual dos planos elevados que circundam a Terra, desenrolava-se 
a cena emocionante.
         A esta poca, o velho e cansado imperador Tibrio j havia sido assassinado pelo amante de seu sobrinho-neto Caio, o desequilibrado e desumano rapaz tambm 
conhecido por Calgula, que o sucederia, para o desespero dos romanos.
         Zacarias, no plano espiritual, seguia buscando amparar as criaturas que se haviam ligado ao seu corao, desde Simo e Josu at os discpulos que ficaram 
em Jerusalm, procurando suportar as perseguies que se haviam iniciado com a violncia do fanatismo de Saulo de Tarso no assassinato de Estvo.
         O peso da angstia dentre os herdeiros do Mestre era compartilhado por estas almas que j haviam dado o testemunho da prpria f, aceitando o clice de 
veneno ou a pedrada desumana por Amor  obra de Deus.
Os demais, igualmente, eram visitados por Zacarias em Nazar.
          Ali haviam ficado o velhinho Caleb, afeioado a Judite, como sua filha do corao, e ambos mantinham, valorosamente, o trabalho de atendimento aos sofridos 
deserdados da esperana, devolvendo-a a cada um deles na forma de carinhosa acolhida.
         Ao lado deles, Saul, que adotara o nome de Natanael, transformado no mais profundo de sua alma, se congregara, emprestando sua vitalidade na edificao 
de mais choupaninhas no terreno, para acolher os doentes.
         Judite, refeita pelo trabalho e pelo afeto, sem esquecer o Amor de Zacarias, dedicara-se a visitar o prostbulo onde irms de desespero e infortnio, um 
dia, a acolheram. O esprito de Zacarias sempre procurava
ampar-la, envolvendo-a com foras e com inspiraes que pudessem tocar o corao das infelizes criaturas, vitimadas pela iluso ou pela necessidade.
         J havia, a esse tempo, mais duas mulheres que haviam abandonado o caminho tortuoso do comrcio dos sentidos e se transferido para a pequena herdade rural 
em que Judite estabelecia o seu pouso de afeto.
         Moravam em uma das casinhas que Natanael havia construdo com todo o zelo para abrig-las.
         A estrada das trs pedras, onde se erguia a modesta pousada, era a porta da esperana de muitos infelizes da regio e, pela fora do Amor dos que a mantinham, 
ali se realizaram inmeros prodgios e curas, amparados pelas mos diretas do Divino Mestre.
         Clofas, o jovem ex-companheiro de Judite, transformado no verdadeiro e desassombrado cristo pela fora do exemplo de Zacarias e pelo muito que se sentia 
devedor de sua bondade e dos ensinamentos de Jesus, acrescentara ao seu um novo nome, tornando-se Joo de Clofas, um pregador corajoso e humano, inspirado diretamente 
pela fora amorosa de Zacarias que, pela vontade de seguir os seus passos de viandante, escolhera partir para levar a palavra at os mais distantes rinces da Palestina, 
enfrentando todo o tipo de dificuldade e sofrimento para falar de Jesus aos coraes angustiados.
         Apesar de no haver recebido mais notcias de seu tutor espiritual, - o amado Zacarias - Joo de Clofas sentia a sua presena em esprito e trazia no mago 
de seu ser a certeza de que, em nome da Verdade e do Amor que o Evangelho semeara no mundo, ele havia se sacrificado e se encontrava no mundo invisvel.
          Essa sintonia espiritual entre ambos se tornara ainda maior e seus espritos estariam vinculados no caminho de Jesus para sempre.
         Zacarias, ao mesmo tempo, era o inspirador do primeiro ncleo cristo de Roma, que subsistira  sua morte graas  ao vigorosa de Lucilio que, regressando 
 capital imperial, deixou a vida militar para dedicar-se ao estudo e  continuidade da tarefa que Zacarias deixara interrompida com a sua morte.
         Guardava como relquia daquele velhinho de barbas longas e olhos brilhantes os apetrechos humildes de sapateiro, com os quais, agora, procurava ganhar a 
vida por sua vez, tornando-se tambm um arteso como o seu amigo que morrera envenenado, enquanto aproveitava as horas vazias para difundir a palavra de Jesus aos 
famintos de novas alegrias espirituais na velha cidade de tantas perverses.
          O ncleo, na estalagem de Jonas, se mantinha graas  presena amiga de Lucilio, que liderava as reunies, com esprito de bondade e cortesia, falando 
de Jesus e de Zacarias como o precursor que abrira os caminhos na jornada difcil de desbravar o terreno virgem.
          Flvia seguia com seus desatinos e fraquezas, infelicitando a vida de outras pessoas e corrompendo a prpria filha com os seus conceitos morais inferiores, 
j que ambas apresentavam as mesmas falhas de carter e sintonizavam com a inspirao da maldade.
Pblio e Lvia, vitimados pelos desencontros produzidos no esprito orgulhoso e invigilante do senador pelas calnias de Flvia, seguiam suas vidas na Galilia, 
de onde s sairiam vrios anos depois, quando se extinguissem as esperanas de regresso do filho Marcos e tivessem de voltar a Roma por ocasio da agonia de seu 
grande amigo Flamnio Severus.
E no plano superior, onde as luzes indescritveis banham todas as coisas como se as mais singelas estruturas tivessem alma prpria e luminosa, encontramos o colquio 
de duas almas, Mestre e discpulo, que se entendiam na linguagem do Amor.
         - Zacarias, meu filho querido, solicitei a tua vinda, pois necessito pedir-te algo. No entanto, tuas oraes tm chegado at mim, partidas de tuas andanas 
pela Terra e, por isso, antes que te pea, gostaria de ouvir-te.
         Sempre emocionado por tanta humildade naquele ser angelical e inigualvel, Zacarias ajoelhou-se diante dele e respondeu:
         - Meu amado Senhor, salvao de minha alma viciosa e pequenina, atendendo aos vossos pedidos do passado, que sero sempre determinaes imperativas para 
meu esprito e antes de qualquer coisa, agradeo-vos a oportunidade que me dais de poder revelar-me diante de vosso corao.
         Segui nosso irmo Pilatos por todas as partes, at que a desgraa se abatesse por sobre sua vida e o reduzisse  sua real condio de esprito fragilizado 
pelas escolhas erradas.
         Ocorre, meu Senhor, fosse pelos meus erros em inspirar coragem a Pilatos quando estava ao seu lado, no corpo fsico, ou pelas deficincias de minha capacidade 
em ajud-lo com minhas intuies como um esprito que ainda o amparava no exlio, o certo  que agora se ergue para mim a barreira que me impede de aproximar-me 
dele.
H poucos dias, no consegui impedir que nosso irmo Pilatos tirasse a prpria vida, cometendo o mais errado de todos os erros.
         Ao falar assim, Zacarias deixara rolar pelo rosto lgrimas de vergonha ante aquilo que julgava ser sua incapacidade, lgrimas que penetravam a longa barba 
que mantinha no mundo espiritual, lembrando-se de sua estada na Terra, ao tempo da chegada do Messias.
Mantendo a serenidade, mas sem esconder a sua amargura que era proveniente do sentimento de derrota moral diante daquele pedido que Jesus lhe fizera outrora, como 
se estivesse ali para prestar contas de sua falha na rdua tarefa de proteger e amparar aquele homem terreno, Zacarias continuou:
         - Assim, meu senhor, considero o erro de Pncio como meu prprio erro na execuo de vosso encargo de proteg-lo e, se  verdade que se levantam poderosos 
fatores atenuantes de tal conduta suicida, como a insensatez, a fraqueza de seus ideais cristos, ainda nascentes, a vergonha de si mesmo e a rudeza da prova, nenhum 
deles me atenua a conscincia culpada por no ter sido capaz de evitar o ato ensandecido com que Pilatos pensou fugir da vida.
         A auto-agresso era, na sua cabea, a nica idia que poderia diminuir-lhe a culpa pelo seu papel na experincia da carne, notadamente no drama do calvrio.
          No entanto, as leis de Deus me impedem de acercar-me dele tanto como gostaria, agora em que dever permanecer exposto s conseqncias de seus atos insensatos.
         Jesus olhava aquele irmo que se postara diante dele com tanta humildade e se culpava pelo erro dos outros e, da mesma maneira que os de Zacarias, os olhos 
do Cristo brilhavam como duas estrelas do firmamento espiritual.
         Afagando os cabelos de Zacarias, o Mestre incentivou-o a que continuasse.
         - Por isso, Jesus, eu tenho rezado para que o vosso corao me perdoe por no ter conseguido estar  altura da tarefa que me fora solicitada, apesar de 
todo o meu desejo de cumpri-la fielmente. No entanto, apesar da minha misria pessoal e, tambm por causa dela, preciso limpar esta ndoa de minha alma, tornando-me 
digno de vossa confiana novamente.
Por isso, venho at a vossa presena tambm para pedir. Peo-vos que me permita continuar seguindo Pilatos, mesmo nos umbrais da escurido onde se projetou pelo 
ato tresloucado do suicdio, a fim de que, quando se apresentar a ocasio de seu amadurecimento pelo sofrimento que produziu para si mesmo, eu possa recolh-lo em 
meus braos e refazer os meus erros com relao a ele para, finalmente,

reconduzi-lo ao vosso rebanho. Eu, que no fui competente na primeira oportunidade, peo-vos a segunda chance para corrigir minhas deficincias.
         Zacarias no conseguia mais falar. Sua voz estava selada pela emoo daquele pedido, pois, agora, era o amor que sentia por Pilatos que lhe ditava o desejo 
de estar ao seu lado, como o pai que pede pelo filho desditoso.
         Ouvindo-lhe o pedido, Jesus abaixou-se para reerguer o irmo de lutas com carinhoso acento de ventura nos gestos fraternos.
         Zacarias, de p, sentia o carinho com que Jesus segurava suas mos e olhava em seus olhos.
         - Filho amado, sei do destino de nosso irmo e, por todo o sacrifcio que fizeste, considero plenamente cumprida a tua tarefa junto dele, com louvores dignos 
daquele que  fiel at o fim. Sinto em mim o gosto do veneno que vitimou o teu corpo, no supremo sacrifcio para que Pilatos no morresse. Nada tens que te inculpe 
de negligncia, Zacarias.
         E falando com mais ternura ainda, como se isso pudesse ser possvel quele ser que era a ternura por excelncia, Jesus volta a lhe dirigir a palavra, depois 
de breve pausa:
         - No vejo motivo para que te prendas a este irmo que, por suas prprias escolhas, precisa seguir a sua estrada de espinhos. J sofreste muito ao seu lado, 
Zacarias. Renncias, humilhaes, frio, fome, privaes, todas elas suportadas com estoicismo e coragem, f e devotamento. Reconheo que o teu desejo de seguir os 
passos trevosos de nosso irmo imaturo  reflexo de tua nobreza espiritual. Todavia, h outros trabalhos que te esperam, Zacarias.
          E perscrutando com o olhar penetrante a alma de Zacarias que lhe ouvia, em silncio, as palavras, mas que, apesar delas, pelo pensamento ainda solicitava 
lhe fosse concedida a oportunidade de amparar o suicida, no importava quanto tempo isso consumisse para a sua trajetria de esprito, Jesus observara, no mais profundo 
sentimento de seu discpulo, que Zacarias no desistira do seu pedido.
Olhando-o com muito afeto, o Senhor volta a lhe indagar, amoroso:
         - Mesmo quando te digo que j cumpriste a tarefa junto dele e te libero para outras coisas mais nobres do que cuidar desse irmo perdido, ainda assim permaneces 
com tal rogativa, Zacarias?
         Sabendo que a indagao era derivada do conhecimento ntimo que o Mestre tinha dele mesmo, Zacarias no tinha como negar, e respondeu:
         - Desculpai-me a insolncia, Senhor, mas ainda ouso recorrer  vossa misericrdia tanto em favor de Pilatos como em favor de mim mesmo, servo intil que 
sou. Por isso, insisto no meu pedido como a nica maneira de perdoar-me a falha.
E entendendo o sentimento de Amor que Zacarias carregava em seu peito, Jesus abraou o discpulo valoroso e respondeu:
         - Filho querido, O AMOR GOVERNA A VIDA. E EM TI, ZACARIAS, ELE  GRANDE DEMAIS PARA SER CONTRARIADO, MEU FILHO. Por isso, te concedo o que me pedes, novamente, 
POR AMOR ao TEU AMOR.
          Uma onda de gratido tomou conta de Zacarias que, agora, beijava as mos do generoso Senhor e lhe dizia:
         - O que h de bom em meu ser, Jesus,  apenas a pobre tentativa de reproduzir em mim o que vislumbrei em vs.
          E vendo que a entrevista se encaminhava para o seu trmino, Zacarias lembrou-se que houvera sido chamado pelo Cristo para l estar, em face de um pedido 
pessoal que o Mestre tambm precisava fazer-lhe.
          Por isso, antes de despedir-se para dar seguimento s suas tarefas mltiplas, entre as quais, agora, estabelecera a continuidade do amparo a Pilatos, Zacarias 
voltou-se para o Mestre e disse, reticente:
         - Senhor, vossa bondade me convocou aqui para solicitar-me algo e, falando de mim mesmo e de meus problemas, tomei o vosso tempo com minhas coisas e no 
permiti que o pedido que tnheis fosse feito.
Olhando-o com os olhos carinhosos que admiram a pureza no corao como que se relembrasse das lies que deixara no passado, quando exortara os homens a serem puros 
como uma criana a fim de que pudessem entrar no reino dos cus, Jesus, sorrindo e sem esconder, agora, duas lgrimas que lhe escorriam dos olhos faiscantes, respondeu 
a Zacarias:
         - No te incomodes, Zacarias, vai e serve como desejas. O que ia te pedir era, exatamente, a mesma coisa que me pediste.
Assim, leitor querido, que nunca lhe falte a certeza de que o "AMOR JAMAIS TE ESQUECE", por mais duras e difceis possam parecer as suas provas e dificuldades.
Em nenhum momento o Criador est to ocupado que no sinta o


que voc sente e no trabalhe para que sua dor se transforme em remdio para seu esprito.
         Aprenda a submeter-se serenamente a todas as adversidades que desafiam a sua alma, sem revolta. Lute sem desnimo, mas aceite os reveses sem rebeldia.
         O Amor est ao seu lado e, se parece que isso no  verdade,  apenas porque ns fazemos muito barulho interior e no o escutamos. Barulho com nossas reclamaes, 
com nossas lamrias, com nossa autopiedade, com nossas amarguras guardadas no cofre do corao, como se ali fosse lugar de estocar lixo emocional.
         Silencie o seu tormento lamurioso e confie-se  prece serena e humilde.
          Na harmonia que se seguir, poder identificar a fora do Amor que o envolve porque voc no  uma criatura sem importncia na Terra.  um convite que Deus 
oferece aos homens desesperados para que voltem  casa do Pai, atravs dos atos generosos, de carinhosas palavras, de compreenso e tolerncia que voc exemplificar. 
Se nossos erros do passado ou do presente nos fazem parecer Pilatos, lembremo-nos de que o futuro nos espera a transformao em um Zacarias.
Por isso, do mesmo modo que voc no deve olvidar que O AMOR JAMAIS TE ESQUECE, tambm deve se lembrar disso:
"JESUS TE CONHECE PELO NOME. E PRECISA MUITO DE TI".
"Brilhe Vossa Luz, Muita Paz!"
Para voc, com muito carinho,

Lucius! (18/02/2003)
























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